01
Nov 16

Orlando da Costa - Sem Flores Nem Coroas

 

Orlando da Costa (1929-2006), Sem Flores Nem Coroas (1971).

 

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21
Out 16

Castro Soromenho - A Maravilhosa Viagem

 

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04
Out 16

Geraldo Bessa Victor - Sanzala Sem Batuque

 

Geraldo Bessa Victor (1917-1985), Sanzala Sem Batuque (1967).

 

Essencialmente poeta, o autor havia publicado antes deste livro, o seu primeiro de "prosa de ficção", diversos ensaios e volumes de poesia. A sua primeira obra poética - Ecos Dispersos, foi publicada em 1941. Ainda na poesia, seguiram-se Ao Som das Marimbas (1943), Debaixo do Céu (1949), Cubata Abandonada (1958), obra que recebera o prémio Camilo Pessanha no ano anterior, e Mucanda (1964).

 

Neste volume reunem-se oito contos - A Filha de Ngana Chica, Duelo de Gigantes, O Pecúlio, É Proibido Brincar, O Comboio e o Navio, Domingas ou as Duas Faces da Alma, Chiula Chitacumba, Estudante e Carnaval. Embora alguns registos narrativos rocem superficialmente o anedotário, como em Chiula Chitacumba, Estudante, alguns outros traduzem inopinados dramas sobre a natureza humana, como em O Pecúlio.

 

Formado em Direito e exercendo em Lisboa, depois de ter sido bancário em Luanda, Geraldo Bessa Victor não esqueceu, contudo, algumas das problemáticas e das tensões sociais que se sentiam em Angola, dedicando particular atenção às que poderiam advir da mestiçagem, tema central em A Filha de Ngana Chica e É Proibido Brincar.

 

Deste último conto transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Lembrava-se bem de certos factos que lhe não deixavam dúvidas sobre a índole maléfica da comadre. Esta orgulhava-se ostensivamente de ter um «marido» mulato e de ser mãe de um filho mulato («O meu marido é mulato». «Sim, como sabes querida Hortense, o meu Julião é mulato». «Existe muita diferença entre um garoto preto-fulo, que pode considerar-se mulato porque é filho de mulato, e outro preto retinto, filho de pai e mãe pretos, não é verdade?». «Bem, minha querida, mulato não é o mesmo que negro, não achas?». «Ah, filha, não tenhas a menor dúvida, o branco não fala para o mulato como fala para o preto!»).

 

Tantas vezes Hortense sentiu vontade de lhe dizer cara a cara: «O teu marido, não; o teu amante, o homem com quem vives. O Bernardo, meu marido, é terceiro oficial da fazenda, ao passo que o teu amante, o Julião, é simples amanuense, inferior hierárquico do meu Bernardo». Susteve-se, porém, dada a disciplina da sua educação. tinha medo da linguagem biliosa e desenfreada que a comadre desalojasse das vísceras.

 

Certa vez, desabafou, sorridente, dissimulando em palavras serenas a fúria que lhe crescia no íntimo:

 

– Se eu quisesse ter um amante mulato ou mesmo branco, tê-lo-ia com facilidade; mas quis casar-me, e porque gostei do meu Bernardo, que calhou ser negro como poderia doutra raça ou cor, casei com ele. É um homem de valor.

 

A outra contestou, também com sorriso simpático, mas venenoso, e com frases também vestidas de aparente serenidade, mas achincalhantes:

 

– Não te iludas, querida! Um mulato é sempre olhado indubitàvelmente como pessoa civilizada, quer pelos brancos quer pelos próprios negros; mas um preto, ainda que muito educado e instruído, tem de provar primeiro que é efectivamente civilizado, senão olham-no e tratam-no como um indígena qualquer.

 

Hortense percebeu onde a outra queria chegar.

 

Um domingo, de manhã, Bernardo e Julião passeavam juntos por altura do Maculusso, nessa Luanda dos anos 30, quando um sipaio, aparecendo-lhes de chofre, berrou:

 

– Xê! A tua cabeça?

 

Foi Bernardo, o negro, e não Julião, o mestiço, quem sentiu uma voz muito funda a segredar-lhe dos recessos da alma violentada: «aquilo é contigo». Altivo, redarguiu, com rebuscada firmeza:

 

– Eu não pago cabeça, sou civilizado.

 

O sipaio escarneceu-o, com uma gargalhada gutural de rancorosa bestialidade, ao mesmo tempo que lhe assentava no dorso duas rijas chibatadas para o amainar:

 

– Civrizado, hem? Civrizado, negro de merda! Ó seu cabrão, você se atreve, seu negro, intrujar  a mim? Você és preto como eu, onde é que és civrizado? Você ainda és pior que a mim, seu monangamba!

 

Depois de lhe descarregar como remate uma formidável bofetada («leva já nesse mazumbo de mabeco!»), o sipaio agarrou-o e foi incorporá-lo, à esquina da rua, na muxinda de negros, alguns descalços e esfarrapados, que a rusga já caçara na sua ronda para seguir a caminho da esquadra. Aí apareceu meia hora depois o compadre Julião, que prudentemente não quisera interferir na operação policial e preferiu dirigir-se ao chefe, seu conhecido, para quem uma noite arranjara uma mulata boa em baile de rebita e de quem obteve a ordem de libertação de Bernardo.

 

Hortense sabia, desgostosa, que Genoveva narrava este incidente às amigas comuns, comentando-o e pondo nos olhos, como artista de comédia, uma expressão mista de magnanimidade e indignação:

 

– Não está certo! Até me revolto toda! O Bernardo, o meu compadre... Ele não é um preto qualquer, mas, sim, terceiro oficial da Fazenda! Mas, creiam, quando o meu marido falou como chefe da esquadra, seu amigo, este desfez-se em mil desculpas."

 

Este volume apresenta ainda, no final, uma lista de "vocabulário", com cinco páginas, onde se clarifica o significado de muitas expressões ou palavras de quimbundo empregadas ao longo das narrativas.

 

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27
Set 16

Reis Ventura - A 100.ª C. Cmds.

  Capa de J. A. Preto Pacheco (datas desconhecidas).

 

 

Reis Ventura (1910-1988), A 100.ª C. Cmds. (1970).

 

Na literatura colonial, o conflito armado que deflagrara na década de 1960 havia já sido explicitamente abordado pelo próprio Reis Ventura nos dois volumes de Sangue no Capim (1962), que o autor classifica como sendo volumes de contos, embora estes textos se aproximem mais da crónica, eventualmente ficcionada, e cheguem a incluir fotografias contemporâneas das chacinas e da actividade armada, e por Manuel Barão da Cunha (n. 1938) na obra Aquelas Longas Horas (1968), onde o autor evoca a sua vivência militar em Angola e na Guiné.

 

Na presente obra, de forma distinta do que acontecia naquelas, Reis Ventura cria um ambiente predominantemente ficcional, onde a acção de uma hipotética companhia de comandos traduz aquelas que seriam as eventuais acções reais desta tropa especial em Angola. Ao contrário do que acontecia em Sangue no Capim, não são centrais, aqui, as vivências e preocupações de colonos e civis; do mesmo modo, não tendo sido militar, Reis Ventura não poderia traduzir uma vivência do quotidiano semelhante à que Barão da Cunha experimentara.

 

Entrecruzam-se nesta obra narrativas da acção militar com enredos e relatos amorosos, transcrevendo-se de seguida uma passagem relativa a estes últimos:

 

"A notícia da «captura do Soutello», como logo chamaram ao avançado namoro do alferes, causou o maior espanto entre militares e civis: os militares representados por todos os camaradas da 100.ª Companhia de Comandos, e os civis pelas formosas «mini-saias» que também o queriam.

 

– Vocês já sabem a grande novidade deste século? – lançou o alferes Maninho, numa roda de amigos que saboreavam, no Restaurante Ilha, as famosas gambas grelhadas.

 

– Os marcianos desceram em Nova Iorque? – gracejou o alferes Vieira, depois de molhar a palavra no seu canhangulo de cerveja.

 

– Não.

 

– Apareceu, finalmente, um filme português aceitável? – interveio o Nebrasca.

 

– Não! – fez o inquirido com um trejeito de náusea.

 

– Baixou o preço do vinho em Luanda? – perguntou o Vouzela.

 

– Não!! – urrou o Maninho com mais força.

 

– O Soutello apanhou do pai de alguma menina? – lembrou o Vieira.

 

– Ainda não!!! – vociferou o interrogado.

 

– O que era então? – cantarolou o Vouzela, no tom da incrível cantiga brasileira.

 

– O nosso alferes Soutello caiu como um anjinho. Creio que vai haver pedido de casamento – declarou soturnamente o informador.

 

E todos pararam de comer.

 

Se lhe tivessem dito que o Dr. Agostinho Neto e o Holden Roberto, amiguinhos e de mãos dadas, iam a caminho do Palácio para se apresentar às autoridades, a surpreza dos quatro alferes não teria sido maior. Até se esqueceram de enorme pratada de gambas (cinco doses) que rescendia à sua frente. Depois, o Vouzela reagiu, sacudiu a cabeça num vento de cepticismo e declarou:

 

– É mentira!

 

– É verdade! – teimou o Maninho com a convicção de quem anuncia um facto histórico – O pedido de casamento pode verificar-se de um momento para o outro.

 

Caiu um novo silêncio, já de exame e ponderação, perante o estranho acontecimento.

 

– E quem o capturou? – perguntou de repente o Vouzela, no seu falar delicado.

 

– Sim: – reforçou o Vieira – quem foi a terrorista que lhe armou a emboscada?

 

– Uma loura chamada Hermínia Laranjeiro do Resgate – informou o Maninho – ele chama-lhe Mina e está pelo beiço...

 

– Está resgatado – ironizou o Vouzela.

 

– Está perdido, é o que está – corrigiu compungidamente o Vieira – Apanharam-no...

 

                                                               ***

 

– Apanhou-o, aquela sabidona! – dizia a Ti (o seu nome era Otília, mas a mamã tinha a mania dos monossílabos...), no cabeleireiro, para duas das suas amigas mais íntimas, que também se penteavam naquele pequeno clube de má língua – Como ela o apanhou, é que eu não compreendo!

 

– Oh! – fez a Terezinha Barreiros, com um momo de requintada malícia. – É fácil de compreender: fê-lo escorregar até ao irreparável...

 

– A que chamas tu «o irreparável»? – perguntou a Candinha Mané com um grande ar de ingenuidade.

 

– Morde aqui! – respondeu-lhe a outra com o indicador estendido – Ou queres convencer-me de que não percebeste?!

 

E riram as três.

 

Depois a Candinha vingou-se:

 

– Claro que percebi. Até percebi que estás cheia de ciumes...

 

– Eu, ciumes? Se o rapaz me interessasse, ainda era capaz de desfazer o noivado!

 

– Isso é que era giro! – aplaudiu a Ti – Porque não tentas?

 

– Porque não me apetece – declarou ela, afectando um infinito desdém.

 

Mas mentia com todos os seus bonitos dentes. E, nessa mesma tarde, teve artes de atrair o alferes a um encontro na praia.

 

– Caiste como um parvinho, Soutello – entrou ela, quando se deitaram na areia tépida, logo a seguir ao primeiro mergulho.

 

– É verdade! – concordou ele, aderindo ao tom de brincadeira.

 

– É uma pena! – corrigiu ela – Dentro de algum tempo, nem poderei conversar contigo...

 

– Não sei porquê?... não há mal nenhum em conversar. E eu ainda sou livre...

 

– Parece-te – ironizou ela – Há mulheres que sabem amarrar um homem como se fosse um paio. E a Mina é desse género.

 

– A Mina é uma boa rapariga – declarou o alferes, formalizando –. E eu não me sinto paio.

 

– Então não a deixes pensar que o és, meu menino – aconselhou a despeitada – Defende-te enquanto é tempo!

 

– Se me vir em perigo, peço a tua ajuda – bricou ele.

 

– E olha que sou bem capaz de ta dar. Para ajudar um homem contra uma mulher, não há como outra mulher. E eu gosto de ti...

 

– Porque não o disseste mais cedo?

 

– Porque nunca mo perguntaste..."

 

 

Através de um processo narrativo polifónico, pouco comum nas anteriores obras de Reis Ventura, introduzem-se neste romance diferentes visões que complementam o enredo, aparecendo assim registos narrativos sob os títulos Congeminações dum poeta, onde se apresenta a visão do alferes Nebrasca, e Deixem falar Sarilhos-Grandes, onde surge a visão de João Benfeito, um cabo a quem foi dada a alcunha correspondente à sua terra natal:

 

"Bem: tudo isto veio a propósito – ou a despropósito – das razões por que me ofereci para os comandos após curtos meses de comissão em Angola.

 

Quanto ao libertar-me da alcunha com que indevidamente me crismaram (eu até sou um tipo pacato e cumpridor...) fiquem sabendo desde já que perdi o pano e o feitio, para usar uma linguagem de alfaiate. Ainda eu estava na bicha da entrada para o quartel dos comandos, ali à esquerda de quem vai para Viana, nas antigas instalações do restaurante «Belo Horizonte», quando levei no focinho com o trapo encharcado:

 

«– Eh, Sarilhos-Grandes!»

 

Voltei-me para o berro que vinha mesmo de traz de mim e dei de ventas com o Felício, de trouxa a tiracolo e com aquela sua cara grande e risonha de penico das Caldas.

 

Já viram maior azar?!..."

 

É Sarilhos-Grandes, aliás, a personagem que concede ao romance a maior nota trágica individual. Por entre todas as mortes em combate aqui narradas, a sua surge já no final, pouco antes de a mulher dar à luz. O comandante do seu pelotão, o alferes Nebrasca, que conhecera o casal quando a encontrara na praia com o marido, é o encarregado de lhe transmitir, já na maternidade, a notícia do seu falecimento.

 

Nebrasca não surge apenas como «um poeta», assumindo-se por vezes como o que parece ser um alter ego do autor, particularmente quando nos são apresentados os poemas deste alferes, que evocam uma certa ideia de poesia patente quer em A Romaria (1934), quer em A Grei (1941), e Soldado que Vais À Guerra (1964), a sua posterior versão revista e refundida.

 

Efectivamente, é um longo poema "de Nebrasca", com mais de três páginas, que encerra este romance. Esta abordagem poética, entristecida e dolorosa, questionando a Infinita Bondade divina, remata com a afirmação: "Deixem falar «Sarilhos-Grandes»! / Quem disse que ele morreu?! / É sua, / bem acima da morte, / a voz daquele menino que nasceu, / saudável, belo e forte. / Deixem falar «Sarilhos-Grandes»... / A vida continua. / A Vida venceu!".

 

 

Transcreve-se de seguida uma das muitas passagens que, nesta obra, relatam episódios bélicos, desta vez conjugando a intervenção da força aérea com a acção dos comandos:

 

"O Acampamento «Muxixi» não se via do ar. Mas o Major Reimão sabia exactamente onde ele estava. Era dentro daquele tufo de arvoredo que já se avistava, lá adiante, quase no extremo visível da chana.

 

A esquadrilha de jactos tinha ultrapassado há três minutos a formação de helicópteros que, todavia, gastara quase um quarto de hora até chegar à orla da mata. Corria tudo OK. Os seus «asas» sabiam exactamente como proceder, porque tudo fora combinado logo depois de descolar da pista do Luso. E não era preciso agora usar as comunicações rádio, que poderiam alertar o Inimigo, roubando aos jactos a sua grande vantagem nesta guerra: o favor da surpreza que lhes confere a velocidade.

 

Embora sem ultrapassar a barragem do som, os F.84 voam tão próximo dela que, na prática, os terroristas só dão por eles quando já estão sob o seu fogo. «É avião danado que quando chega já passou, larga as rodas e morre tudo!», – diziam os bandoleiros da UPA, quando estes caças-bombardeiros começaram a operar em Angola, durante a segunda metade de 1961.

 

Hoje os homens do MPLA, aos menos os mais treinados pelos instrutores chineses e cubanos, já sabem que são bombas ou rockets o que os F.84 transportam perto das rodas recolhidas. Mas conservam quase o mesmo medo desses terríveis moscardos zumbidores, que lhes aparecem sempre de surpresa, picando vertiginosamente de entre as nuvens ou razando a copa das árvores como um vendaval da Morte. Se não conhecem antecipadamente os seus raids – o que é muito raro acontecer, porque a FAP sabe guardar os seus segredos – nem as sentinelas de ouvido mais apurado conseguem captar-lhe o silvar a tempo de avisar os camaradas. E depois de eles se revelarem aos ouvidos de todos com o seu característico ranger de toneladas de papel rasgado, desencadeia-se, quase sempre, uma cena de inferno. Passam e repassam, uns a seguir aos outros, sobre o alvo, despejando bombas devastadoras, lançando as serpentes coleantes e rugidoras dos seus «rockets», mordendo tudo com os dentes raivosos das suas metralhadoras...

 

Alguns turras mais corajosos, ou mais inconscientes, ainda disparam as suas armas para o ceu, embora à toa e sem fixar o alvo cuja velocidade lhes não dá tempo para nada. Mas o habitual é fugirem espavoridos para as suas furnas ou afocinharem no capim, colando-se ao terreno até que o furacão passe.

 

E foi isto que aconteceu nessa manhã, à roda do acampamento «Muxixi» do MPLA, logo que o F. 84 do Major Reimão picou contra aquele pedaço de floresta e largou as suas bombas. Uma das sentinelas, empoleirada na copa da frondosa mulemba, nem ouviu nada: – sentiu apenas um grande vento abrasador que lhe secou instantâneamente toda a seiva da vida, quase sem consciência  e sem dor. As outras saltaram dos seus postos de observação e refugiaram-se em buracos cavados junto à raíz das árvores, enquanto novas bombas rebentavam perto.

 

Lançando os seus pesados bilhetes de visita e cuspidos todos os seus «rockets», os jactos entraram em vôo razante, varejando em redondo com todas as suas metralhadoras.

 

Já então os primeiros helicópteros chegavam aos locais de pouso, prèviamente estabelecidos a pequena distância da mata. Desta vez coube à equipa do Sargento Santos o previlégio, pouco desejado, de saltar na vanguarda. Mas não houve ninguém a recebê-los com rajadas de metralhadora, como já lhes tinha acontecido uma vez, durante a Operação Antros, nos Dembos, felizmente sem consequências porque o alferes Maninho, que saltara entre os primeiros, abatera com um tiro certeiro o meliante que apontava a arma checa.

 

Agora, as sentinelas do acampamento «Muxixi» estavam demasiadamente assustadas com o fogo dos F.84, para levantar a cabeça das tocas onde se abrigavam. 

 

Num dos helis seguintes, que trazia a equipa do sargento Quintejo, o Trigueirão lembrou ao Sarilhos-Grandes que devia saltar com jeito...

 

... – Para não escaldares outra vez esse maldito chispe...

 

– Vê lá se tomas tento na língua – resingou o alvejado, muito sensível às piadas que aludissem a porcos. – Senão vou contratar um turra para te lavar com o cloreto das retretes...

 

Mas saltou como pé direito, e depois de se benzer devotamente contra as malas artes do diabo que o tinham deixado amarrado a um pé torcido durante a Operação Antros.

 

Dentro do horário fixado, os dois grupos de combate estavam desembarcados e desdobravam as suas equipas pelo Norte e Poente, enquanto o quarto e quinto grupos, vindos do Lumeje, começavam já a chegar em nova vaga de helicópteros, para fechar o cerco pelo Nascente e pelo Sul.

 

Já com a alvorada em expectativa dos primeiros raios do sol num céu limpo de nuvens, o Capitão Seabra olhou o seu relógio de pulso. Eram 6 horas e vinte e cinco minutos. Os jactos rugiam ainda, quase tocando a copa das árvores mais altas da mata. Mas o capitão sabia que, a partir daquele momento, o seu fogo cessara. Continuavam sobre o objectivo apenas para manter os bandoleiros colados ao terreno ou escondidos nos seus abrigos. E fez o sinal de iniciar a marcha para o «Muxixi».

 

Deixando a protecção que tinham escolhido com o aproveitamento de todas as pregas do terreno, os comandos fizeram uma rápida série de pequenas corridas através da chana descoberta e entraram na mata.

 

Minutos depois, começou a ladrar uma pistola-metralhadora.

 

As rajadas vinham da única sentinela que o medo dos jactos não impedira de olhar em redor. Curtas e bem espaçadas, denunciavam o combatente corajoso e bem treinado. E o Capitão Seabra, que avançava na vanguarda com a equipa do sargento Santos, fez o sinal de abrigar. Ele conhecia o perigo da marcha a peito descoberto contra um inimigo invisível. E obedecia às suas duas grandes preocupações de sempre: poupar os seus homens e não armar grandes tiroteios logo no início duma acção.

 

Dar poucos tiros era aliás uma das características dos comandos da Escola do Coronel Malaforte. Não porque se julgasse necessário poupar as munições. Apenas porque – dizia ele – «os comandos atiram apenas ao inimigo que vêem e com a certeza de acertar no alvo».

 

O Capitão Seabra aderira compenetradamente a esta doutrina. Sem outra família senão os seus homens, só arriscava quando necessário e sempre com inconfessada mas dolorosa preocupação. As acções rápidas, sem baixas e quase sem balas constituiam a sua predilecção de militar.

 

Abrigado por detraz dum morro de salalé abandonado das formigas e já meio esboroado pela erosão da chuva e do vento, o comandante da 100.ª CCMDS apurou todos os seus sentidos de oficial destemido e competente. Mas a sentinela, que também conhecia as pequenas manhas desta guerra, devia estar à espera de que os comandos se descobrissem. Era o sabido jogo das escondidas, numa espécie de luta copiada dos gangsters – pensou o capitão. E, usando um velho estratagema, que ainda resulta muita vez por explorar os reflexos semi-inconscientes da atenção espectante, catou no chão um calhau de bom tamanho e arremessou-o para diante, contra um tufo de espinheiras que via à sua esquerda, a uns oito metros de distância.

 

Alguns ramos do arbusto buliram com um barulho semelhante ao do cauteloso esgueirar de criatura viva. E logo uma gadanha de balas os ceifou rentes..."

 

 

Este volume inclui ainda, no seu final, nove páginas com referências críticas à obra do autor, onde se encontram apreciações de escritores como Amândio César (1921-1987), sobre Cidade e Muceque (1970), Fernando Pessoa (1888-1935), sobre A Romaria (1934), Guedes de Amorim (1901-1979), sobre Caminhos (1959) e Fazenda Abandonada (1965), João Gaspar Simões (1903-1987), sobre Quatro Contos por Mês (1955), Mário António (1934-1989), sobre Queimados do Sol (1966), Mário Mota (1916-1981), sobre Cidade e Muceque, e Rodrigues Júnior (1902-1991), sobre Queimados do Sol e Um Homem de Outro Mundo (1968).

 

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01
Ago 16

Alexandre Cabral - A Fula

 

Alexandre Cabral (pseudónimo de José dos Santos Cabral, 1917-1996),  A Fula (1963).

 

O presente volume apresenta dois contos – A Fula e Daba-Goma, inserindo ainda, no final, um glossário com vinte e três "termos indígenas". Estas duas narrativas haviam surgido já no livro Histórias do Zaire (1956; http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/5109.html), embora o conto A Fula apresentasse ali o título A "Fula" Lubamba Desapareceu.

 

No referido glossário, o autor apresenta para o vocábulo Fula a seguinte entrada – "Negra de pigmentação clara. Aparecem com mais fequência nas Kasais."

 

Entre 1956 e 1963, Alexandre Cabral publicou ainda uma peça de teatro, As Duas Faces (1959), um romance, Margem Norte (1961) e um prefácio, sobre o autor que mais viria a marcar a sua ensaística posterior, na obra As Polémicas de Camilo - I (1962).

 

Transcrevem-se de seguida alguns parágrafos do conto que dá título ao volume:

 

"Uma tarde, a fula procurou-o na loja. Tinham combinado na véspera um passeio pela margem do Zaire para recordar uma certa noite em que ambos se amaram pela primeira vez. A fatalidade quis que as coisas se passassem assim, a menos que a cabra andasse já com a ideia virada para a safadeza. O patrão estava ao balcão, como era seu costume. No mesmo instante em que avistou a negra, despediu o freguês e chamou-o à parte.

 

«Mankolo, quem é aquela?»

 

«É Lubamba, a minha mulher.»

 

«Anh! Anh!»

 

Mankolo envaideceu-se na altura com a excitação do branco. Lubamba era uma boa mulher, sim senhor, mas pertencia-lhe. Ao fechar da loja, o mundele voltou ao assunto, com um palavreado meloso de quem oculta uma intenção.

 

«Escuta aqui, Mankolo. Não tens uma irmã assim bonita como a Lubamba?»

 

Falava, e os olhos fosforejavam-lhe de cupidez, como quando entrava no armazém indígena jeitosa, nova na região, e ele se esforçava por atraí-la com o mel das promessas ao interior da residência.

 

«Conheço uma pequena que te serve, mundele

 

«Bonita como a tua Lubamba?»

 

«Mundele, boa de verdade!»

 

Levou-lhe a Margueritte no dia imediato, depois de estipular tim-tim por tim as condições do negócio: a espórtula seria dividida em duas partes, ficando ele com uma. Não haveria partilha dos bilokos; estes pertenceriam por inteiro à rapariga.

 

A Margueritte não encontrara na aldeia homem que a quisesse; há muito tempo que se dedicava ao tráfico do amor com os viajantes ocasionais que circulavam pelo rio. Vivia da prostituição. Mas era ainda uma mulher apetitosa. Mankolo não contava com a reacção do branco, que se escandalizou com a má qualidade do fruto que lhe levara. «Naturalmente esperava uma mwana

 

O tempo passou e ambos esqueceram o episódio. Lubamba deu em aparecer assìduamente pelo armazém. Todos os pretextos lhe serviam. A negra é cabra como a branca, quando a cabeça vira para o mal. Nem mesmo quando o patrão lhe ofereceu uma vistosa peça de pintado, Mankolo desconfiou de que estavam a desfeiteá-lo. Evidentemente, os dois andavam de combinação.

 

Nessa manhã o branco mandou-o para o beach («Deixa limpezas, há mais que fazer.»), com a recomendação de aguardar o paka-paka de Kinshasa, que trazia um carregamento de pólvora. Esperou inùtilmente até ao fim da tarde. Ele sabia que não estava na hora de passar barco, mas não estranhou, porque os brancos conhecem com antecipação os acontecimentos pelas mukandas que recebem.

 

Cão tinhoso! Não voltaria a fazer pouco dele, não! Paciência não lhe faltava. Estava habituado às horas de longa espera, no topo das árvores, enquanto a caça não se aproximava. Tinha, porém, a vingança tão certa, como o bicho morto de sede procurar o rio para se dessedentar."

 

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09
Jul 16

Orlando de Albuquerque - Alda Lara: A Mulher e a Poetisa

 

Orlando de Albuquerque (n. 1925), Alda Lara: A Mulher e a Poetisa (1966).

 

Volume de homenagem a Alda Lara (1930-1962), apresenta uma biografia da escritora, uma breve introdução à sua poesia e uma pequena antologia, intitulada Os Poemas Preferidos de Alda, onde se trancrevem treze dos seus poemas. 

 

Organizada pelo também médico, moçambicano radicado em Angola e seu marido, Orlando de Albuquerque (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/4664.html), este opúsculo apresenta ainda, em extra-texto, seis fotografias de Alda Lara, seus quatro filhos e sua família, sendo a última uma imagem da poetisa e seu marido, e da restante equipa cirúrgica, em pleno labor numa sala de operações em Cambambe.

 

No final deste volume refere-se ainda o seguinte – "O produto integral da venda deste livro, edição e propriedade do autor, destina-se à Fundação Alda Lara de Albuquerque, instituição em organização". Embora esta obra ostente na sua abertura a data de 1966, o seu cólofon regista os seguintes dados – "Composto e impresso na / Gráfica da Huíla, Lda. / Sá da Bandeira – 1967".

 

Recorde-se que, já depois de 25 de Abril de 1974, Amândio César (1921-1987) publicou um estudo sobre esta poetisa (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/658.html) e note-se, ainda, que a poetisa Alda Lara era irmã do escritor Ernesto Lara Filho (1932-1977).

 

Transcreve-se de seguida o poema Presença Africana, escrito em Benguela e datado de 1953:

 

"E apesar de tudo,

 ainda sou a mesma!

 Livre e esguia,

 filha eterna de quanta rebeldia

 me sagrou.

 Mãe-África!

 Mãe forte da floresta e do deserto,

 ainda sou,

 a Irmã-Mulher

 de tudo o que em ti vibra

 puro e incerto...

 

 A dos coqueiros,

 de cabeleiras verdes

 e corpos arrojados 

 sobre o azul...

 

 A do dendém

 nascendo dos abraços das palmeiras,...

 A do sol bom, mordendo

 o chão das Ingombotas...

 A das acácias rubras,

 salpicando de sangue as avenidas,

 longas e floridas...

 

 Sim!, ainda sou a mesma.

 A do amor transbordando

 pelos carregadores do cais

 suados e confusos,

 pelos bairros imundos e dormentes

 (Rua 11!... Rua 11!...)

 pelos negros meninos

 de barriga inchada e olhos fundos...

 

 Sem dores, nem alegrias,

 de tronco nu

 e corpo musculoso,

 a raça escreve a prumo,

 a força destes dias...

 

 E eu revendo ainda, e sempre, nela,

 aquela

 longa história inconsequente...

 

 Minha terra...

 Minha, eternamente...

 Terra das acácias, dos dongos,

 dos cólios baloiçando,

 mansamente...

 Terra!

 Ainda sou eu a mesma.

 Ainda sou a que num canto novo

 puro e livre,

 me levanto,

 ao aceno do teu povo!"

 

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02
Jul 16

Manuel Ferreira - Morna

 

Manuel Ferreira (1917-1992), Morna (1948; presente ed., 2.ª, 1967).

 

Autor dos aclamados Morabeza (1958; prémio Fernão Mendes Pinto) e Hora di Bai (1962; prémio Ricardo Malheiros), Manuel Ferreira publicou ainda, na área da ficção, o livro de contos Grei (1944) e o conto Nostalgia do Senhor Lima (1971), bem como os romances A Casa das Motas (1956) e Voz de Prisão (1971). Em 1972, os livros Morna e Morabeza foram reunidos num único volume, sob o título Terra Trazida.

 

Na área da literatura infantil, publicou O Sandinó e o Corá (1964), No Tempo em que os Animais Falavam (1970), A Maria Bé e o Finório Zé Tomé (1970), A Pulseirinha de Oiro (1971), Vamos Contar Histórias? (1971; volume posteriormente editado sob o título O Gato Branco e o Gato Maltês [1977]), e Quem Pode Parar o Vento? (1972).

 

Depois do 25 de Abril de 1974, Manuel Ferreira foi docente universitário na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde introduziu a cadeira Literatura Africana em Língua Portuguesa. Foi também autor de inúmeros ensaios e publicações nesta área, devendo-se aqui destacar a sua obra Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, editada em dois volumes, pelo ICALP, em 1977.

 

No volume Morna apresentam-se nove contos – Puchinho; O Cargueiro Voltou ao Porto; Nhô Luís, Pai de Rosita - ou Uma Flor entre os Cardos; Bèlinha foi ao Baile pela Primeira Vez; Nhô Vicente, Essa História como Foi?; Antonieta; D. Ester, Chá das Cinco; A Visita de Nha Joana e Tão Velho era Nhô João, transcrevendo-se deste último alguns parágrafos:

 

 

"De manhã a sol pôr, e pela noite dentro, andava tudo num sobressalto. Os tambores rufavam num rumor de luta que repercutia pelos subúrbios e se perdia para lá das redondezas da cidade. O impulso a loucura vinham daí. Do anúncio madrugador do troar ininterrupto que galgava de lés a lés e sobre a noitinha galvanizava novos e velhos, sobretudo as mulheres que pulavam gritavam felizes e azougadas.

 

Era. Quando em dias de São João os tambores irrompiam, de madrugada, dos acumes do Mindelo, vibrando pelos recantos da cidade, o povo ficava em pé de guerra.

 

Isto nos tempos antigos. Ou mais pròpriamente, como vão ter ocasião de ver, nos tempos da mocidade de nhô João. No tempo desse velho tão velho que pode contar histórias inverosímeis que fala de gente que muitos já não conhecem porque ele é dos mais velhos se não o mais velho de todos os velhos ali da Ribeira Bota.

 

«Nha gente, fiquem sabendo, festa dagora não presta para nada. Mesmo nada. Noutro tempo era sabe de-mundo. tambor sem dança é mesmo que nada. Tambor quer-se acompanhado mulher còlando mulher batendo direito e com força.»

 

Em boa verdade, os bons tempos de coladeira – aonde já vão? Aonde já vão eles, os tempos grandes de coladeira, gente? Hoje os tambores ecoam os tambores lançam a fúria pelos esconsos da cidade, em dia de São João, e lá no centro da ilha montuosa, nas terras de Manel Cantante, aí na deserta planície, fechada pelos montes, atiram à desgarrada, quentes bárbaros, uma toada de batuque degradado mas vivaz. Um grito desesperado de quem anda no mundo à procura da sua terra em busca da sua gente.

 

O Administrador proibiu a dança. E que é tambor sem dança, se ela nasceu com o tambor? Pergunta, e bem, nhô João. Só  mesmo um tipo veio lá de longe podia ter tamanha salienteza. Só mesmo um estranho. O que é tambor sem coladeira?

 

Na véspera, quem dormia? O sol a romper, e os tambores de todo o lado, como se fosse bicho endiabrado, o povo numa impaciência desabalada. Tambores de Salamanza, de Pé de Verde, de Monte, de Lazareto. De todo o lado. Havia mesmo tocador de tambor que era um demónio. Por exemplo, nhô Amazo. Um homem que pedia comida porque não tinha trabalho mas quando lhe davam trabalho dizia que não tinha tempo nem modo. Pois quando nhô Amazo se agarrava ao tambor ou se debruçava sobre ele tocando hora e hora, aquele  mundão de gente quem o segurava? Ali na Ribeira Julião mandava ele. Vocês sabem, tambor bem tocado, bem batido mete-se no corpo da gente e arranca a gente da engoneação.

 

Dês, noutros tempos Ribeira Julião era um mar de gente, comendo bebendo gritando pulando dançando. Tam tam, tam tam, eh còlá còlá na Sonjom!, bacia de uma na bacia de outra, tchope!, tchope!, para cá, para lá, eh còlá, aqui, ali, oh nha mãe! oh nha pae!, tam tam, tam tam, oh sabe! còlá còlá còlá na Sonjom!, tchope!, tchope, ih!, ih!, oh nha Bia! oh nha Armanda!. còlá!, tambor de nhô Amazo, tamborinho endiabrado, tamborinho desaforado, retumbando numa tocata una num clamor ensombrado, igualzinho a uma caixa de guerra criando o desassossego a loucura a alucinação, oh sabe! Dia de São João, oh dia grande desta nossa terra sabe!

 

Tudo isto já lá vai. Esse Administrador que manda na ilha proibiu a coladeira. E o povo nesse dia bebe grogue come cachupa peixe frito empastado de poeira mordiscado das moscas chalaceia fornica tonto azougado embriga-se briga não trabalha dança a morna ouve tambor mas não pode dançar a coladeira. Dia de São João vem aí – que adianta?

 

O Administrador matou o povo. O povo gosta de coladeira como se fosse comida bebida coisa sagrada da vida. O povo gosta e sente a falta. O povo agora vai sentindo  falta de muita coisa que lhe vão tirando, sim senhor."

 

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13
Jun 16

Eugénio Ferreira da Silva - Trovas Malditas

   Capa de Montoya (datas desconhecidas).

 

 

Eugénio Ferreira da Silva (1917-), Trovas Malditas (1971).

 

Volume que não surge devidamente catalogado em alguns dos registos bibliográficos do autor, Trovas Malditas segue-se ao seu primeiro livro de poemas, Arco-Íris (1962), obra publicada por uma das instituições oficiais do regime – a Agência-Geral do Ultramar (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/tag/ag%C3%AAncia-geral+do+ultramar).

 

Este novo livro, aparentemente em edição de autor, transcreve algumas das apreciações que haviam sido feitas a Arco-Íris, onde se pode ficar a saber que o autor havia nascido no Lobito e que era professor de desenho em Vila Franca de Xira.

 

Aqui se transcreve também uma crítica publicada no Jornal de Notícias, onde se declarava – "Eugénio Ferreira da Silva foi amigo de António Ferro. Neste seu livro [Arco-Íris] mostra-se incomodado com os acontecimentos na sua terra e toma partido por uma solução «lusíada» do conflito, para empregar a sua própria expressão." Apesar do que ali se afirma, uma leitura daquele volume de 1962 não permite uma conclusão inequívoca sobre o partido que o autor toma perante o conflito.

 

De facto, estas Trovas Malditas apresentam determinadas características que agitam essa problemática, nomeadamente através de algumas das dedicatórias que antecedem os poemas, como as dedicatórias a Jorge de Sena – "A Jorge de Sena / com admiração pelo homem esclarecido / e de profundas convicções literárias" e a Bento de Jesus Caraça – "Ao saudoso Prof. Dr. Bento de Jesus Caraça. / Ao homem extraordinário que muito contri- / buiu para a formação moral do jovem que o / admirava."

 

Este último poema e a sua dedicatória, aliás, motivaram uma nota do autor, que veio sublinhar tal ambiguidade – "Este soneto [o derradeiro da colectânea, intitulado... Revolta] foi escrito numa atmosfera de lutas político-sociais por volta dos anos 30 e nada tem que ver com o actual Governo o qual seja justo proclamar, se movimenta numa dinâmica segura a que estávamos pouco habituados."

 

Como acontecera no anterior volume, também este Trovas Malditas apresenta poucos poemas directamente relacionáveis com África. Apenas dois – Inconsciência e Tarde de Bruma, num total de noventa e quatro.

 

Transcrevem-se de seguida Psicose, o soneto dedicado a Jorge de Sena, e Inconsciência, que surge antecedido da dedicatória "Ao poeta Mário António / – meu patrício":

 

 

"Psicose

 

Músculo e cérebro – pólos antagónicos

Deste chiqueiro que me torna inerme...

Que grande é ver na época do verme

O fruto dos eflúvios histriónicos!...

 

Ver na gama profusa da paisagem

Confundirem-se uns outros novos seres!...

Ver um «Mercúrio» em conjunção com «Ceres»

Confundir-se no falso duma imagem!...

 

Mas que agradável esta barafunda,

Esta incoerência doida que me inunda

A própria alma de revolta e grito!...

 

Sinto os nervos a arderem-se partidos!

Sobre a paleta destes meus sentidos...

Tangendo ainda mais alto o meu conflito!..."

 

 

"Inconsciência

 

Agora,

Agora que tudo são balizas

Postas perigosamente nos direitos do homem...

Agora que no horizonte a curva continua frustrada...

E permanece o nojo às coisas rectilíneas...

Ódios e fumos de metralha!

Feitiçaria na arqui-volta do tempo...

E em torno da fogueira,

Chamam-se os espíritos maus e os lobisomens...

Sabém [sic] lá os negros o que é desumanidade!

Sabem lá os negros o que é ignomínia...

Sabem lá eles o que é ser canalha,

Sem que alguém lhes leve a provisão dum dicionário...

O Céu ao longe, meu Deus! Traz um arco-Íris [sic] sem motivo

E, aqui no terreiro, crianças brancas e negras

Brincam com um disco de Newton..."

 

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07
Jun 16

Miguel de Noronha de Paiva Couceiro - Diu e Eu

 

Miguel António do Carmo de Noronha de Paiva Couceiro (1909-1979), Diu e Eu (1969).

 

O autor, que também criou a ilustração para a capa e os 21 desenhos a preto e branco que surgem extra-texto, exerceu as funções de governador de Diu entre Agosto de 1948 e Julho de 1950.

 

Do capítulo Hospitalidade Indiana transcrevem-se alguns parágrafos:

 

     "Em Goa, grandes povoações que nós chamaríamos vilas, designam-se por aldeias e, coaldeanos se consideram os que lá nasceram. Boa metade dos Goeses luta pela vida longe do berço em que se criou e só, de longe em longe, as grandes festividades familiares os reunem no seu ninho paterno: os casamentos, os baptizados – também os funerais, pois, como se diz em Espanha, «el muerto al hoyo y el vivo al bollo». À roda da mesa sólida, a família se congrega, na casa de jantar imensa. E lá correm os sarapateis, os xacutis, a bebinca, etc. – eu tive a ocasião de seguir este ritual fagueiro em Chandor, em casa do meu amigo Francisco Egídio Fernandes e apetecia-me lá voltar enquanto as enzimas trabalharem a preceito!

 

Nas grandes mansões, àparte, está a casa de hóspedes, aonde as suas comodidades são atendidas, respeitando escrupulosamente os hábitos peculiares de cada um. No «Manaranjan», em Junagadh, mantinham-se a posto três cozinheiros, um Hindu, outro Muçulmano e o terceiro Cristão, e nunca chouriço, nem orelheira, iriam macular a mesa do leitor do Corão!

 

Fui, com o Comandante Luís Cardoso, visitar o Visconde de Pernem, aos seus domínios lá para os confins nortenhos de Goa. Recebeu-nos fidalgamente, envergando o seu «pudvem», e mostrou-nos a vasta residência, os longos aposentos, deslumbrando-nos com os arreios do seu elefante de cerimónia, tauxiados de prata. Ainda que na cavalariça – aliás elefantariça – faltasse o paquiderme, sacrificado a algum motor de explosão.

 

E apareceu-nos outro palácio: «a casa de hóspedes», explicou o Visconde. «Quantos pode alojar?» – perguntei. «Quatro», foi a resposta sucinta e insisti: «quatro pessoas?!» – «Não, quatro famílias». E, para quem conheça a extensão das famílias indianas, a resposta é elucidativa.

 

Mostrava-nos os seus jardins e, de súbito, aponta para o que me parecia qualquer roseira mal cuidada, dizendo, perentório: «hortaliça – quiabos». Eu tinha chegado na véspera do Chiado e não vinha disposto a engolir a primeira história de cobras que me quiséssem impingir. Já andava desconfiado com a do visconde que, ao meio-dia, me aparecia embrulhado no que, a mim, me parecia um lençol de cama... De modo que aceitei polidamente mais esta da hortaliça, sem a tomar demasiadamente a sério.

 

Mas vim a verificar, mais tarde, que os tais quiabos, bem refogados, são o melhor acompanhamento dum caril e o Visconde de Pernem pagara os direitos de mercê e, de turbante e jóias, tinha um dia esmagado os mirones de Lisboa!"

 

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19
Mai 16

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (II)

 

Capa de Gracinda Candeias (n. 1947).

 

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (1970).

 

Antologia organizada por Ivone Maria Gabriel Pinheiro da Silva (datas desconhecidas) e publicada em Luanda, no ano de 1970 (embora o cólofon registe Julho de 1971), pelo Comissariado Provincial da Mocidade Portuguesa Feminina. Apresenta excertos de obras, ou transcrições integrais de poemas, dos seguintes autores:

 

Angola – Alda Lara, Amélia Veiga, Dala (Maria José Duarte Martins), Ernesto Lara Filho, Fausto José, Gracinda Candeias, Guilhermina de Azeredo, Jorge Macedo, José Candeias, Lena Alves do Carmo Castelo, Manuela Cerqueira, Maria Beatriz da Fonseca, Maria Teresa Andrade Santos, Mário António, Mário de Oliveira (surge também associado a São Tomé e Príncipe), Tomás Jorge, Tomás Vieira da Cruz.

 

Cabo Verde – António Aurélio Gonçalves, António Mendes Cardoso, Jorge Barbosa, Onésimo Silveira, Yolanda Morazzo.

 

Índia (Goa) – Vimala Devi.

 

Moçambique – Alberto de Lacerda, Cartaxo e Trindade, Merícia de Lemos, Papiniano Carlos, Salette Tavares.

 

São Tomé e Príncipe – Alda do Espírito Santo, Costa Alegre, Maria Manuela Margarido, Mário de Oliveira (surge também associado a Angola), Viana Almeida.

 

Timor – Fernando Sylvan.

 

Embora seja feita referência às suas províncias de origem na metrópole e não às províncias ultramarinas a que estavam ligados, ou onde se encontravam, surgem ainda nesta colectânea textos de outros autores associados à temática colonial, tais como Amândio César (Minho), António de Penacova (Beira Litoral), Augusto Casimiro (Minho), Cândido da Velha (Beira Litoral), Clementina Relvas (Trás-os-Montes e Alto Douro), Estela Brum (Açores), Hugo Rocha (Entre-Douro-e-Minho), J. Galvão Balsa (Ribatejo), Maria José Guerreiro Duarte (Estremadura), Maria de Lourdes Amorim (Estremadura), Maria Ondina [Braga] (Minho), Maria Teresa Galveias (Estremadura), Neves e Sousa (Douro Litoral), Reis Ventura (Trás-os-Montes), e Ruy Belo (Estremadura).

 

De Hugo Rocha (1907-1993), transcreve-se o poema Tonga:

 

Rapariga bronzeada

Moça formosa e núbil do Equador

Quem te deu, quem te deu tão linda cor,

Rapariga bronzeada?

 

"Tonga" de corpo airoso

Ninfa dos coqueirais de S. Tomé

Tanagra negra; baila o "socopé",

"Tonga" de corpo airoso!

 

Porque fitas o mar,

Nostálgica, ao sol-pôr, no "Espalmadouro"?

Quando o horizonte é pedraria e ouro,

Porque fitas o mar?

 

Nos teus olhos saudosos

Passam visões do negro continente...

De lá vieram teus pais. Há um brilho ardente

Nos teus olhos saudosos...

 

"Tonga" de S. Tomé,

Negra vestal entre o verdor do "Obó":

Se te vê triste, o coqueiral tem dó,

"Tonga" de S. Tomé...

 

O teu lenço de cor

Envolve-te a cabeça, qual turbante,

Dá-te um ar de mistério perturbante

o teu lenço de cor.

 

Quais bagos de café

São teus beiços vermelhos a sangrar.

Quem os há-de colher e há-de provar,

Quais bagos de café?

 

Rapariga bronzeada:

No verde paraíso da Ilha

Tu és a mais estranha maravilha

rapariga bronzeada...

 

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