01
Ago 16

Alexandre Cabral - A Fula

 

Alexandre Cabral (pseudónimo de José dos Santos Cabral, 1917-1996),  A Fula (1963).

 

O presente volume apresenta dois contos – A Fula e Daba-Goma, inserindo ainda, no final, um glossário com vinte e três "termos indígenas". Estas duas narrativas haviam surgido já no livro Histórias do Zaire (1956; http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/5109.html), embora o conto A Fula apresentasse ali o título A "Fula" Lubamba Desapareceu.

 

No referido glossário, o autor apresenta para o vocábulo Fula a seguinte entrada – "Negra de pigmentação clara. Aparecem com mais fequência nas Kasais."

 

Entre 1956 e 1963, Alexandre Cabral publicou ainda uma peça de teatro, As Duas Faces (1959), um romance, Margem Norte (1961) e um prefácio, sobre o autor que mais viria a marcar a sua ensaística posterior, na obra As Polémicas de Camilo - I (1962).

 

Transcrevem-se de seguida alguns parágrafos do conto que dá título ao volume:

 

"Uma tarde, a fula procurou-o na loja. Tinham combinado na véspera um passeio pela margem do Zaire para recordar uma certa noite em que ambos se amaram pela primeira vez. A fatalidade quis que as coisas se passassem assim, a menos que a cabra andasse já com a ideia virada para a safadeza. O patrão estava ao balcão, como era seu costume. No mesmo instante em que avistou a negra, despediu o freguês e chamou-o à parte.

 

«Mankolo, quem é aquela?»

 

«É Lubamba, a minha mulher.»

 

«Anh! Anh!»

 

Mankolo envaideceu-se na altura com a excitação do branco. Lubamba era uma boa mulher, sim senhor, mas pertencia-lhe. Ao fechar da loja, o mundele voltou ao assunto, com um palavreado meloso de quem oculta uma intenção.

 

«Escuta aqui, Mankolo. Não tens uma irmã assim bonita como a Lubamba?»

 

Falava, e os olhos fosforejavam-lhe de cupidez, como quando entrava no armazém indígena jeitosa, nova na região, e ele se esforçava por atraí-la com o mel das promessas ao interior da residência.

 

«Conheço uma pequena que te serve, mundele

 

«Bonita como a tua Lubamba?»

 

«Mundele, boa de verdade!»

 

Levou-lhe a Margueritte no dia imediato, depois de estipular tim-tim por tim as condições do negócio: a espórtula seria dividida em duas partes, ficando ele com uma. Não haveria partilha dos bilokos; estes pertenceriam por inteiro à rapariga.

 

A Margueritte não encontrara na aldeia homem que a quisesse; há muito tempo que se dedicava ao tráfico do amor com os viajantes ocasionais que circulavam pelo rio. Vivia da prostituição. Mas era ainda uma mulher apetitosa. Mankolo não contava com a reacção do branco, que se escandalizou com a má qualidade do fruto que lhe levara. «Naturalmente esperava uma mwana

 

O tempo passou e ambos esqueceram o episódio. Lubamba deu em aparecer assìduamente pelo armazém. Todos os pretextos lhe serviam. A negra é cabra como a branca, quando a cabeça vira para o mal. Nem mesmo quando o patrão lhe ofereceu uma vistosa peça de pintado, Mankolo desconfiou de que estavam a desfeiteá-lo. Evidentemente, os dois andavam de combinação.

 

Nessa manhã o branco mandou-o para o beach («Deixa limpezas, há mais que fazer.»), com a recomendação de aguardar o paka-paka de Kinshasa, que trazia um carregamento de pólvora. Esperou inùtilmente até ao fim da tarde. Ele sabia que não estava na hora de passar barco, mas não estranhou, porque os brancos conhecem com antecipação os acontecimentos pelas mukandas que recebem.

 

Cão tinhoso! Não voltaria a fazer pouco dele, não! Paciência não lhe faltava. Estava habituado às horas de longa espera, no topo das árvores, enquanto a caça não se aproximava. Tinha, porém, a vingança tão certa, como o bicho morto de sede procurar o rio para se dessedentar."

 

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09
Jul 16

Orlando de Albuquerque - Alda Lara: A Mulher e a Poetisa

 

Orlando de Albuquerque (n. 1925), Alda Lara: A Mulher e a Poetisa (1966).

 

Volume de homenagem a Alda Lara (1930-1962), apresenta uma biografia da escritora, uma breve introdução à sua poesia e uma pequena antologia, intitulada Os Poemas Preferidos de Alda, onde se trancrevem treze dos seus poemas. 

 

Organizada pelo também médico, moçambicano radicado em Angola e seu marido, Orlando de Albuquerque (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/4664.html), este opúsculo apresenta ainda, em extra-texto, seis fotografias de Alda Lara, seus quatro filhos e sua família, sendo a última uma imagem da poetisa e seu marido, e da restante equipa cirúrgica, em pleno labor numa sala de operações em Cambambe.

 

No final deste volume refere-se ainda o seguinte – "O produto integral da venda deste livro, edição e propriedade do autor, destina-se à Fundação Alda Lara de Albuquerque, instituição em organização". Embora esta obra ostente na sua abertura a data de 1966, o seu cólofon regista os seguintes dados – "Composto e impresso na / Gráfica da Huíla, Lda. / Sá da Bandeira – 1967".

 

Recorde-se que, já depois de 25 de Abril de 1974, Amândio César (1921-1987) publicou um estudo sobre esta poetisa (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/658.html) e note-se, ainda, que a poetisa Alda Lara era irmã do escritor Ernesto Lara Filho (1932-1977).

 

Transcreve-se de seguida o poema Presença Africana, escrito em Benguela e datado de 1953:

 

"E apesar de tudo,

 ainda sou a mesma!

 Livre e esguia,

 filha eterna de quanta rebeldia

 me sagrou.

 Mãe-África!

 Mãe forte da floresta e do deserto,

 ainda sou,

 a Irmã-Mulher

 de tudo o que em ti vibra

 puro e incerto...

 

 A dos coqueiros,

 de cabeleiras verdes

 e corpos arrojados 

 sobre o azul...

 

 A do dendém

 nascendo dos abraços das palmeiras,...

 A do sol bom, mordendo

 o chão das Ingombotas...

 A das acácias rubras,

 salpicando de sangue as avenidas,

 longas e floridas...

 

 Sim!, ainda sou a mesma.

 A do amor transbordando

 pelos carregadores do cais

 suados e confusos,

 pelos bairros imundos e dormentes

 (Rua 11!... Rua 11!...)

 pelos negros meninos

 de barriga inchada e olhos fundos...

 

 Sem dores, nem alegrias,

 de tronco nu

 e corpo musculoso,

 a raça escreve a prumo,

 a força destes dias...

 

 E eu revendo ainda, e sempre, nela,

 aquela

 longa história inconsequente...

 

 Minha terra...

 Minha, eternamente...

 Terra das acácias, dos dongos,

 dos cólios baloiçando,

 mansamente...

 Terra!

 Ainda sou eu a mesma.

 Ainda sou a que num canto novo

 puro e livre,

 me levanto,

 ao aceno do teu povo!"

 

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02
Jul 16

Manuel Ferreira - Morna

 

Manuel Ferreira (1917-1992), Morna (1948; presente ed., 2.ª, 1967).

 

Autor dos aclamados Morabeza (1958; prémio Fernão Mendes Pinto) e Hora di Bai (1962; prémio Ricardo Malheiros), Manuel Ferreira publicou ainda, na área da ficção, o livro de contos Grei (1944) e o conto Nostalgia do Senhor Lima (1971), bem como os romances A Casa das Motas (1956) e Voz de Prisão (1971). Em 1972, os livros Morna e Morabeza foram reunidos num único volume, sob o título Terra Trazida.

 

Na área da literatura infantil, publicou O Sandinó e o Corá (1964), No Tempo em que os Animais Falavam (1970), A Maria Bé e o Finório Zé Tomé (1970), A Pulseirinha de Oiro (1971), Vamos Contar Histórias? (1971; volume posteriormente editado sob o título O Gato Branco e o Gato Maltês [1977]), e Quem Pode Parar o Vento? (1972).

 

Depois do 25 de Abril de 1974, Manuel Ferreira foi docente universitário na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde introduziu a cadeira Literatura Africana em Língua Portuguesa. Foi também autor de inúmeros ensaios e publicações nesta área, devendo-se aqui destacar a sua obra Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, editada em dois volumes, pelo ICALP, em 1977.

 

No volume Morna apresentam-se nove contos – Puchinho; O Cargueiro Voltou ao Porto; Nhô Luís, Pai de Rosita - ou Uma Flor entre os Cardos; Bèlinha foi ao Baile pela Primeira Vez; Nhô Vicente, Essa História como Foi?; Antonieta; D. Ester, Chá das Cinco; A Visita de Nha Joana e Tão Velho era Nhô João, transcrevendo-se deste último alguns parágrafos:

 

 

"De manhã a sol pôr, e pela noite dentro, andava tudo num sobressalto. Os tambores rufavam num rumor de luta que repercutia pelos subúrbios e se perdia para lá das redondezas da cidade. O impulso a loucura vinham daí. Do anúncio madrugador do troar ininterrupto que galgava de lés a lés e sobre a noitinha galvanizava novos e velhos, sobretudo as mulheres que pulavam gritavam felizes e azougadas.

 

Era. Quando em dias de São João os tambores irrompiam, de madrugada, dos acumes do Mindelo, vibrando pelos recantos da cidade, o povo ficava em pé de guerra.

 

Isto nos tempos antigos. Ou mais pròpriamente, como vão ter ocasião de ver, nos tempos da mocidade de nhô João. No tempo desse velho tão velho que pode contar histórias inverosímeis que fala de gente que muitos já não conhecem porque ele é dos mais velhos se não o mais velho de todos os velhos ali da Ribeira Bota.

 

«Nha gente, fiquem sabendo, festa dagora não presta para nada. Mesmo nada. Noutro tempo era sabe de-mundo. tambor sem dança é mesmo que nada. Tambor quer-se acompanhado mulher còlando mulher batendo direito e com força.»

 

Em boa verdade, os bons tempos de coladeira – aonde já vão? Aonde já vão eles, os tempos grandes de coladeira, gente? Hoje os tambores ecoam os tambores lançam a fúria pelos esconsos da cidade, em dia de São João, e lá no centro da ilha montuosa, nas terras de Manel Cantante, aí na deserta planície, fechada pelos montes, atiram à desgarrada, quentes bárbaros, uma toada de batuque degradado mas vivaz. Um grito desesperado de quem anda no mundo à procura da sua terra em busca da sua gente.

 

O Administrador proibiu a dança. E que é tambor sem dança, se ela nasceu com o tambor? Pergunta, e bem, nhô João. Só  mesmo um tipo veio lá de longe podia ter tamanha salienteza. Só mesmo um estranho. O que é tambor sem coladeira?

 

Na véspera, quem dormia? O sol a romper, e os tambores de todo o lado, como se fosse bicho endiabrado, o povo numa impaciência desabalada. Tambores de Salamanza, de Pé de Verde, de Monte, de Lazareto. De todo o lado. Havia mesmo tocador de tambor que era um demónio. Por exemplo, nhô Amazo. Um homem que pedia comida porque não tinha trabalho mas quando lhe davam trabalho dizia que não tinha tempo nem modo. Pois quando nhô Amazo se agarrava ao tambor ou se debruçava sobre ele tocando hora e hora, aquele  mundão de gente quem o segurava? Ali na Ribeira Julião mandava ele. Vocês sabem, tambor bem tocado, bem batido mete-se no corpo da gente e arranca a gente da engoneação.

 

Dês, noutros tempos Ribeira Julião era um mar de gente, comendo bebendo gritando pulando dançando. Tam tam, tam tam, eh còlá còlá na Sonjom!, bacia de uma na bacia de outra, tchope!, tchope!, para cá, para lá, eh còlá, aqui, ali, oh nha mãe! oh nha pae!, tam tam, tam tam, oh sabe! còlá còlá còlá na Sonjom!, tchope!, tchope, ih!, ih!, oh nha Bia! oh nha Armanda!. còlá!, tambor de nhô Amazo, tamborinho endiabrado, tamborinho desaforado, retumbando numa tocata una num clamor ensombrado, igualzinho a uma caixa de guerra criando o desassossego a loucura a alucinação, oh sabe! Dia de São João, oh dia grande desta nossa terra sabe!

 

Tudo isto já lá vai. Esse Administrador que manda na ilha proibiu a coladeira. E o povo nesse dia bebe grogue come cachupa peixe frito empastado de poeira mordiscado das moscas chalaceia fornica tonto azougado embriga-se briga não trabalha dança a morna ouve tambor mas não pode dançar a coladeira. Dia de São João vem aí – que adianta?

 

O Administrador matou o povo. O povo gosta de coladeira como se fosse comida bebida coisa sagrada da vida. O povo gosta e sente a falta. O povo agora vai sentindo  falta de muita coisa que lhe vão tirando, sim senhor."

 

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13
Jun 16

Eugénio Ferreira da Silva - Trovas Malditas

   Capa de Montoya (datas desconhecidas).

 

 

Eugénio Ferreira da Silva (1917-), Trovas Malditas (1971).

 

Volume que não surge devidamente catalogado em alguns dos registos bibliográficos do autor, Trovas Malditas segue-se ao seu primeiro livro de poemas, Arco-Íris (1962), obra publicada por uma das instituições oficiais do regime – a Agência-Geral do Ultramar (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/tag/ag%C3%AAncia-geral+do+ultramar).

 

Este novo livro, aparentemente em edição de autor, transcreve algumas das apreciações que haviam sido feitas a Arco-Íris, onde se pode ficar a saber que o autor havia nascido no Lobito e que era professor de desenho em Vila Franca de Xira.

 

Aqui se transcreve também uma crítica publicada no Jornal de Notícias, onde se declarava – "Eugénio Ferreira da Silva foi amigo de António Ferro. Neste seu livro [Arco-Íris] mostra-se incomodado com os acontecimentos na sua terra e toma partido por uma solução «lusíada» do conflito, para empregar a sua própria expressão." Apesar do que ali se afirma, uma leitura daquele volume de 1962 não permite uma conclusão inequívoca sobre o partido que o autor toma perante o conflito.

 

De facto, estas Trovas Malditas apresentam determinadas características que agitam essa problemática, nomeadamente através de algumas das dedicatórias que antecedem os poemas, como as dedicatórias a Jorge de Sena – "A Jorge de Sena / com admiração pelo homem esclarecido / e de profundas convicções literárias" e a Bento de Jesus Caraça – "Ao saudoso Prof. Dr. Bento de Jesus Caraça. / Ao homem extraordinário que muito contri- / buiu para a formação moral do jovem que o / admirava."

 

Este último poema e a sua dedicatória, aliás, motivaram uma nota do autor, que veio sublinhar tal ambiguidade – "Este soneto [o derradeiro da colectânea, intitulado... Revolta] foi escrito numa atmosfera de lutas político-sociais por volta dos anos 30 e nada tem que ver com o actual Governo o qual seja justo proclamar, se movimenta numa dinâmica segura a que estávamos pouco habituados."

 

Como acontecera no anterior volume, também este Trovas Malditas apresenta poucos poemas directamente relacionáveis com África. Apenas dois – Inconsciência e Tarde de Bruma, num total de noventa e quatro.

 

Transcrevem-se de seguida Psicose, o soneto dedicado a Jorge de Sena, e Inconsciência, que surge antecedido da dedicatória "Ao poeta Mário António / – meu patrício":

 

 

"Psicose

 

Músculo e cérebro – pólos antagónicos

Deste chiqueiro que me torna inerme...

Que grande é ver na época do verme

O fruto dos eflúvios histriónicos!...

 

Ver na gama profusa da paisagem

Confundirem-se uns outros novos seres!...

Ver um «Mercúrio» em conjunção com «Ceres»

Confundir-se no falso duma imagem!...

 

Mas que agradável esta barafunda,

Esta incoerência doida que me inunda

A própria alma de revolta e grito!...

 

Sinto os nervos a arderem-se partidos!

Sobre a paleta destes meus sentidos...

Tangendo ainda mais alto o meu conflito!..."

 

 

"Inconsciência

 

Agora,

Agora que tudo são balizas

Postas perigosamente nos direitos do homem...

Agora que no horizonte a curva continua frustrada...

E permanece o nojo às coisas rectilíneas...

Ódios e fumos de metralha!

Feitiçaria na arqui-volta do tempo...

E em torno da fogueira,

Chamam-se os espíritos maus e os lobisomens...

Sabém [sic] lá os negros o que é desumanidade!

Sabem lá os negros o que é ignomínia...

Sabem lá eles o que é ser canalha,

Sem que alguém lhes leve a provisão dum dicionário...

O Céu ao longe, meu Deus! Traz um arco-Íris [sic] sem motivo

E, aqui no terreiro, crianças brancas e negras

Brincam com um disco de Newton..."

 

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07
Jun 16

Miguel de Noronha de Paiva Couceiro - Diu e Eu

 

Miguel António do Carmo de Noronha de Paiva Couceiro (1909-1979), Diu e Eu (1969).

 

O autor, que também criou a ilustração para a capa e os 21 desenhos a preto e branco que surgem extra-texto, exerceu as funções de governador de Diu entre Agosto de 1948 e Julho de 1950.

 

Do capítulo Hospitalidade Indiana transcrevem-se alguns parágrafos:

 

     "Em Goa, grandes povoações que nós chamaríamos vilas, designam-se por aldeias e, coaldeanos se consideram os que lá nasceram. Boa metade dos Goeses luta pela vida longe do berço em que se criou e só, de longe em longe, as grandes festividades familiares os reunem no seu ninho paterno: os casamentos, os baptizados – também os funerais, pois, como se diz em Espanha, «el muerto al hoyo y el vivo al bollo». À roda da mesa sólida, a família se congrega, na casa de jantar imensa. E lá correm os sarapateis, os xacutis, a bebinca, etc. – eu tive a ocasião de seguir este ritual fagueiro em Chandor, em casa do meu amigo Francisco Egídio Fernandes e apetecia-me lá voltar enquanto as enzimas trabalharem a preceito!

 

Nas grandes mansões, àparte, está a casa de hóspedes, aonde as suas comodidades são atendidas, respeitando escrupulosamente os hábitos peculiares de cada um. No «Manaranjan», em Junagadh, mantinham-se a posto três cozinheiros, um Hindu, outro Muçulmano e o terceiro Cristão, e nunca chouriço, nem orelheira, iriam macular a mesa do leitor do Corão!

 

Fui, com o Comandante Luís Cardoso, visitar o Visconde de Pernem, aos seus domínios lá para os confins nortenhos de Goa. Recebeu-nos fidalgamente, envergando o seu «pudvem», e mostrou-nos a vasta residência, os longos aposentos, deslumbrando-nos com os arreios do seu elefante de cerimónia, tauxiados de prata. Ainda que na cavalariça – aliás elefantariça – faltasse o paquiderme, sacrificado a algum motor de explosão.

 

E apareceu-nos outro palácio: «a casa de hóspedes», explicou o Visconde. «Quantos pode alojar?» – perguntei. «Quatro», foi a resposta sucinta e insisti: «quatro pessoas?!» – «Não, quatro famílias». E, para quem conheça a extensão das famílias indianas, a resposta é elucidativa.

 

Mostrava-nos os seus jardins e, de súbito, aponta para o que me parecia qualquer roseira mal cuidada, dizendo, perentório: «hortaliça – quiabos». Eu tinha chegado na véspera do Chiado e não vinha disposto a engolir a primeira história de cobras que me quiséssem impingir. Já andava desconfiado com a do visconde que, ao meio-dia, me aparecia embrulhado no que, a mim, me parecia um lençol de cama... De modo que aceitei polidamente mais esta da hortaliça, sem a tomar demasiadamente a sério.

 

Mas vim a verificar, mais tarde, que os tais quiabos, bem refogados, são o melhor acompanhamento dum caril e o Visconde de Pernem pagara os direitos de mercê e, de turbante e jóias, tinha um dia esmagado os mirones de Lisboa!"

 

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19
Mai 16

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (II)

 

Capa de Gracinda Candeias (n. 1947).

 

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (1970).

 

Antologia organizada por Ivone Maria Gabriel Pinheiro da Silva (datas desconhecidas) e publicada em Luanda, no ano de 1970 (embora o cólofon registe Julho de 1971), pelo Comissariado Provincial da Mocidade Portuguesa Feminina. Apresenta excertos de obras, ou transcrições integrais de poemas, dos seguintes autores:

 

Angola – Alda Lara, Amélia Veiga, Dala (Maria José Duarte Martins), Ernesto Lara Filho, Fausto José, Gracinda Candeias, Guilhermina de Azeredo, Jorge Macedo, José Candeias, Lena Alves do Carmo Castelo, Manuela Cerqueira, Maria Beatriz da Fonseca, Maria Teresa Andrade Santos, Mário António, Mário de Oliveira (surge também associado a São Tomé e Príncipe), Tomás Jorge, Tomás Vieira da Cruz.

 

Cabo Verde – António Aurélio Gonçalves, António Mendes Cardoso, Jorge Barbosa, Onésimo Silveira, Yolanda Morazzo.

 

Índia (Goa) – Vimala Devi.

 

Moçambique – Alberto de Lacerda, Cartaxo e Trindade, Merícia de Lemos, Papiniano Carlos, Salette Tavares.

 

São Tomé e Príncipe – Alda do Espírito Santo, Costa Alegre, Maria Manuela Margarido, Mário de Oliveira (surge também associado a Angola), Viana Almeida.

 

Timor – Fernando Sylvan.

 

Embora seja feita referência às suas províncias de origem na metrópole e não às províncias ultramarinas a que estavam ligados, ou onde se encontravam, surgem ainda nesta colectânea textos de outros autores associados à temática colonial, tais como Amândio César (Minho), António de Penacova (Beira Litoral), Augusto Casimiro (Minho), Cândido da Velha (Beira Litoral), Clementina Relvas (Trás-os-Montes e Alto Douro), Estela Brum (Açores), Hugo Rocha (Entre-Douro-e-Minho), J. Galvão Balsa (Ribatejo), Maria José Guerreiro Duarte (Estremadura), Maria de Lourdes Amorim (Estremadura), Maria Ondina [Braga] (Minho), Maria Teresa Galveias (Estremadura), Neves e Sousa (Douro Litoral), Reis Ventura (Trás-os-Montes), e Ruy Belo (Estremadura).

 

De Hugo Rocha (1907-1993), transcreve-se o poema Tonga:

 

Rapariga bronzeada

Moça formosa e núbil do Equador

Quem te deu, quem te deu tão linda cor,

Rapariga bronzeada?

 

"Tonga" de corpo airoso

Ninfa dos coqueirais de S. Tomé

Tanagra negra; baila o "socopé",

"Tonga" de corpo airoso!

 

Porque fitas o mar,

Nostálgica, ao sol-pôr, no "Espalmadouro"?

Quando o horizonte é pedraria e ouro,

Porque fitas o mar?

 

Nos teus olhos saudosos

Passam visões do negro continente...

De lá vieram teus pais. Há um brilho ardente

Nos teus olhos saudosos...

 

"Tonga" de S. Tomé,

Negra vestal entre o verdor do "Obó":

Se te vê triste, o coqueiral tem dó,

"Tonga" de S. Tomé...

 

O teu lenço de cor

Envolve-te a cabeça, qual turbante,

Dá-te um ar de mistério perturbante

o teu lenço de cor.

 

Quais bagos de café

São teus beiços vermelhos a sangrar.

Quem os há-de colher e há-de provar,

Quais bagos de café?

 

Rapariga bronzeada:

No verde paraíso da Ilha

Tu és a mais estranha maravilha

rapariga bronzeada...

 

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02
Mai 16

Ferrão Cardoso - Terra, Sol e Aventura

 

Ferrão Cardoso (Jorge Ferrão Cardoso, datas desconhecidas), Terra, Sol e Aventura (1956).

 

Antes desta obra, Ferrão Cardoso havia publicado, em 1948, numa edição de autor, o volume de contos intitulado Caravana, anunciando-se aqui em Terra, Sol e Aventura a futura publicação de crónicas de viagem, sob o título Aguarela Africana, e um romance intitulado A Grande Metrópole, títulos sobre os quais não foi encontada notícia ulterior. 

 

Posteriormente, publicou ainda um conjunto de crónicas sob o título Gesta das Terras Distantes (1962), O Aprendiz de Poeta (2002), um livro de poesia, e um novo livro de crónicas, que eventualmente será uma versão revista e aumentada de Aguarela Africana, intitulado Aguarela Nómada (2010).

 

De ascendência transmontana, Ferrão Cardoso nasceu no Porto e viveu parte da sua infância em Angola, no Huambo, passando depois a viver em Lisboa. Fez os seus estudos universitários em Coimbra, onde se licenciou em Medicina, regressando posteriormente a Lisboa, onde exerceu a especialidade de otorrinolaringologia no Hospital de Santa Maria.

 

Este volume reúne 14 contos, entre os quais o último, As Digestões Calmas, evoca as suas memórias e origens transmontanas, através da acção localizada em Vidago e na serra da Padrela. De todas estas narrativas, apenas Estrada de Damasco, Rotina, "Amuna" e Caboclo apresentam claramente localizações espaciais exteriores a Portugal continental.

 

Do conto Rotina transcrevem-se os primeiros parágrafos:

 

"Separadas meia milha, as duas margens do rio eram fechadas, densas de vegetação. Havia algumas boias balizando o trajecto navegável e pontões espalhados dos dois lados, rio fora.

 

Entre eles, num vaivém constante, o vaporzinho "Flor do Minho" com uma reduzida tripulação de negros e o capitão João de Deus conhecido em todo o mato.

 

Quando havia paquete, o vaporzinho descia o rio até ao litoral e voltava mais garrido, carregado de notícias frescas da metrópole e novos colonos. Até ao entreposto funante, quatro dias de viagem rio acima, o capitão João de Deus tinha tempo de cumular os recém-chegados de todas as atenções possíveis, e, ao mesmo tempo, conhecê-los e aconselhá-los. Pelos conselhos não levava nada, e a conversa era um entretenimento.

 

A coisa era sempre igual. E quando, no regresso, o vaporzinho chegava ao povoado do interior, lá estava a voz roufenha do velho Dôres perguntando «Como está o litoral?», e ele sempre respondendo «Salgado, salgado...», antes de começar a contar as novidades.

 

Viera para África ganhar dinheiro, magoado e insatisfeito como pouco que a vida lhe dera até então, mas depois, com o tempo, toda essa excitção passou. O dinheiro deixou de interessá-lo duma maneira absorvente, e ficou fazendo parte da paisagem, vendo chegar os outros, à cata do velo de oiro, inquietos e aventureiros como ele outrora.

 

Ia buscá-los ao paquete, assustados com o mundo estranho com que sùbitamente deparavam, e subia com eles o rio até ao entreposto. Aí, as casas aviadoras espalhavam-nos pelo interior. Eram duras provações. Mas depois, se havia sorte, lá estava o regresso, o capitão e o seu «Flor do Minho» para os trazer ao mar, a apanhar o navio que vinha da costa oriental rumo à metrópole."  

 

Hoje, o cais do litoral já não era mais um paredão tosco, com madeira meio apodrecida, enterrada na água. Tudo agora era uma sólida estrutura de concreto e grandes imóveis com ruidos de máquinas de escrever, e camaradas de óculos e caneta na mão davam àquilo um aspecto de confusão e dificuldade. João de Deus e o seu vaporzinho tinham que satisfazer uma data de papelada cada vez que lá iam, mas havia ainda os bons amigalhaços, a cerveja no Coelho, linguareiro como dantes, e sempre se conseguiam uns momentos bem passados. Quando zarpava rio acima, o capitão nunca ia desiludido.

 

João de Deus envelheceu e engordou, os pais morreram, a Gracinda já não está solteira, nem nova, nem o espera, e a aldeia, o regresso e as terras do Floripes pegadas com o seu Ribeiral não têm mais o interesse de antigamente.

 

Dantes, quando o navio partia, doía-lhe vê-lo ir-se. Quando o seu vulto acabava por desaparecer lá longe, no horizonte, tudo lhe parecia mais solitário ainda, e sentia uma grande tristeza. Era quando mais recordava todas as coisas deixadas.

 

Mas agora, quando isso acontecia, estava normalmente a beber cerveja no Coelho ou ainda às voltas com a papelada nalgum daqueles gabinetes difíceis, e os apitos do barco, ao partir, nem sequer o distraíam. Desaparecido no mar, a paisagem ficava igual.

 

E quando, depois, à noite, subia o rio, entre as duas margens negras, com o céu tranquilo no alto, João de Deus sentia que tudo aquilo era o seu lar, o único lar que viria a ter na vida. Não havia mais dúvidas."

 

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10
Abr 16

Joaquim Paço d'Arcos - O Samovar e Outras Páginas Africanas

 

Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), O Samovar e Outras Páginas Africanas (1972).

 

Publicam-se neste volume excertos em prosa dos livros Herói Derradeiro (1933), Amores e Viagens de Pedro Manuel (1935), O Navio dos Mortos e Outras Novelas (1952), volume de onde se extraíu o conto O Samovar, que já havia sido publicado autonomamente em 1957 (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/13468.html) e Carnaval e Outros Contos (1958), bem como três poemas do livro Poemas Imperfeitos (1952; volume publicado três anos depois em francês: http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/222251.html).

 

Transcreve-se integralmente um desses poemas:

 

"NEGRA QUE VIESTE DA SANZALA...

 

Negra que vieste da sanzala

E na esteira, sobre o soalho, te estendeste,

Recusando o leito branco e macio;

Negra que trazias no corpo o cheiro do capim

E da terra molhada,

E o travo das queimadas;

Negra que trazias nos olhos castanhos

Sede de submissão,

Que tudo aceitaste em silêncio

E lentamente desnudaste o teu corpo...

 

Estátua de ébano,

Animada pelo sopro da lascívia

e pela febre do desejo;

Negra vinda das terras altas de Chimoio

À cidade que o branco plantou à beira-mar.

Vinda para te venderes...

Comprada a uma preta velha e desdentada,

A troco dum gramofone;

Vendida e trespassada de mão em mão.

 

Que é do pano branco de chita

Em que envolvias teu corpo

E escondias tua carne tremente

De tanta volúpia que guardava?

Que é da esteira gasta em que repousou teu corpo

E vibrou tua carne?

Onde vão as noites de África,

Encharcadas de cacimba,

Impregnadas de álcool do hálito e dos beijos?

Luminosas, serenas...

 

Vinham do pátio as vozes em surdina

Dos teus irmãos em cor...

Vinham do mato os gritos roucos das hienas

E o seu choro lamentoso,

De acentos prolongados,

Tal o de meninos magoados...

 

Tu prendias-te a mim.

Abandonava-te na esteira

E, quando o dia surgia,

No soalho nu havia a esteira nua

E nada mais.

Tinhas partido para a sanzala,

Envolta no pano de chita branca

E no silêncio molhado da cacimba

Da noite transluzente e profunda.

Eu esquecia, saciado, o segredo do teu corpo.

Fazia por te odiar...

Mas, ao sol escaldante do dia,

Queimava-me de novo,

Em ardência e secura,

A sede do teu corpo,

Até que a noite voltava,

Tudo aguando de cacimba...

E na esteira gasta

O teu corpo nu

Voltava a ser

Uma serpe negra...

 

Negra que vieste da sanzala..."

 

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04
Abr 16

Vitor Silva Tavares - Hot e Etc.

 

Vitor Silva Tavares (1937-2015), Hot e Etc. (1964).

 

Até à data de publicação desta obra, Vitor Silva Tavares havia desenvolvido, na metrópole, obra como pintor, repórter, colaborador literário de jornais e revistas, colaborador da RTP, onde também surgiu como actor, e cenógrafo. Já em Angola, foi jornalista em Benguela, onde colaborou com O Intransigente, e dirigente cine-clubista, tendo realizado, em 8mm., o filme Uma História do Mar.

 

Ecoando o título do opúsculo aqui apresentado, e transpondo homonimamente o título do magazine cultural do Jornal do Fundão, criado por si em 1967, e da revista que lhe sucedeu, entre 1973 e 1974, Vitor Silva Tavares fundou em 1974 uma pequena editora, denominada &etc, que durante mais de quarenta anos haveria de se tornar numa editora de culto e referência entre autores e leitores. 

 

Posteriormente, publicou 2 Textos à Pressão (sem data), prefaciou Como Quem Não Quer a Coisa (1978), de Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004), bem como obras de diversos outros autores, particularmente nas edições &etc. A par da sua actividade editorial, que inclui ainda a direcção da Ulisseia na década de 1960, desenvolveu também extensa actividade como tradutor.

 

Foi ainda co-autor de Ara (1984), com Paulo da Costa Domingos (n. 1953) e Rui Baião (n. 1953), e Poesia em Verso (2007), com Afonso Cautela (n. 1933) e Rui Caeiro (n. 1943), colaborando também no Manifesto contra o desastroso encerramento das livrarias da Cidade de Lisboa no centenário da Livraria Sá da Costa (2013). Em 2015 publicou um conjunto de poemas intitulado Púsias.

 

O presente volume, que, numa nota introdutória, anunciava ter Vitor Silva Tavares em vias de publicação o livro Exposições de Poemas (de que não foi encontrada notícia posterior), reune três textos em prosa – Nada de Importância, Hot e Bop, por onde perpassam, até na sua estrutura narrativa, nítidas influências musicais, particularmente do jazz, e referências a figuras como Frank Sinatra, Miles Davis, Mozart, The Jazz Messengers e Vivaldi.

 

Do conto/crónica Bop transcreve-se a parte final do seu único parágrafo:

 

" (...) O largo despovoa-se, estamos sós, a cidade foi dormir, amanhã há negócios a tratar. Falemos. O cronista não consegue registar o que quer que seja. Também ele está gasto de tanta palavra gasta. Gozemos com Pimpão. Jaimito desforra-se e zurze o orgão cardíaco do bom gigante. Mais cerveja e a festa anima. Decidimos visitar a boite do Hotel. Jaimito, que tal um show? Cá vamos, cantando e rindo. A boite exibe um ar diabólico, pintalga de labaredas toda a fauna. Conferimos as finanças e pedimos um só uísque. Vão roubar gatunos! Encostamo-nos ao balcão do bar. O pianista tecla uma melodia a carácter. Há três pares de atrasados mentais a deslizar na pista. Tudo muito chato. Às tantas, empurramos Jaimito para a bateria. Os românticos vão apanhar ar (que está húmido e fedorento) e começa a função. Jaimito mostra-se um tanto contraído, inclina-se para os tambores, busca a intimidade. Agora vê-se que descobriu qualquer coisa, os músculos distendem, já sorri para a malta. Vamos, seu Jaime, isso mesmo, está bem, está bom, YES SIR! Vem o gerente e recomenda compostura, muito gerentemente. Compostura, o raio que o parta! Saímos. Pimpão, não se arranja um carro? Só se for o da professora, mas já é tão tarde... Que se lixe! Vamos bater à porta da professora, uma cinquentona camarada. Ainda não se deitou, manda-nos entrar, oferece-nos ginguba e cerveja. Quanto ao carrinho, sim senhor, está muito bem, mas cuidado, an? É escusado recomendar, beijinhos à professora, by by. Voamos para o Benfica. Há festa cabo-verdiana, o petromax desenha um rectângulo de luz na escuridão da rua. Marchinhas brasileiras, em 78: a inconcebível geringonça sonora berra o ritmo popular e há camaradas autóctones a dar à perna. E pó e suor e olhos doces e dentes a luzir. Vamos a isto! Encontro-me enfaixado num corpo sinuoso e deixo-me abandonar. Cresce o frenesim, duas tipinhas imitam a dança do ventre e eu já não sei de que terra sou, no literal sentido da expressão. Há alguém que paga uns copos e todos bebemos a mistela, que é de estalo, pois então!... Um cara promete valente churrascada para o almoço de amanhã, mata porco, recebeu verde do Puto e quer reunir tropa à sua mesa. OK, português! A fraternidade escorre dos poros com o suor. A minha parceira chama-se Rosa e eu tenho pena dela e amo-a, amo-te Rosa, sabes?, a sério mesmo, e ela olha-me com aqueles seus olhos africanos e eu fico perplexo, à porta de um segredo, é só entrar e criar raízes. Ouço agora um escarcéu dos demónios e vamos ver o que é. Dois cow-boys resolveram armar sururu e o mais rabioso puxa do revólver e há gritos e fugas histéricas. Devo estar a sonhar. Um tiro rebenta com o petromax e a Rosa pisga-se-me dos braços. Amalgamado de corpos delirantes, deixo-me desaguar na rua. Que festa mais formidável!... A companhia já está no carrro e pomo-nos na alheta, num explosão de pó. Rumo: Lobito. Há um bar que fecha lá para as quatro da manhã, bar de marítimos. Pimpão, tens massas? E tu, Jaimito? Eu tenho 12 angolares e o Mário 7. Dá para umas Cucas. Aterramos no bar, há um alemão muito grosso, muito deutsch, a rosnar por mais bier e o empregado diz-nos ao ouvido que aquele tipo tem já a sua conta, de modo que vá beber a «birra» para a terra dele. O problema é do alemão, claro, também os alemães têm direito a problemas, razão por que nos sentamos pacatamente e bebemos Cucas, enquanto o louro germano dá murros no tampo da mesa. O ambiente está miserável e o melhor que temos a fazer é regressar a Benguela, home sweet home. Entramos na cidade a 120, contornamos a Praça da Câmara e, num banzé apreciável, travamos junto à cancela da nossa casa. Pimpão quer ouvir o Frank Sinatra naquela da solidão, mas mandamo-lo lixar e salta o Jazz Massengers [sic] para o prato. Mário vai buscar o que resta do VAT, Jaimito estira-se no divã e eu estou a coçar o joanete, que me doi como o raio! Ora bem: a África crepita e nós respiramos o ar da maldição. Já nascemos nesta atmosfera, atrofiados de imbecilidade histórica. O reino do silêncio e da vergonha. Quem ouvirá os nossos gritos? E quando? E onde? A conversa está melodramática, pelo que, com vossa licença, vamos despir as farpelas (excepto o Jaimito, por óbvias razões), enfiar os slips e mergulhar no Atlântico. Mergulhar mesmo. Mergulhar. Mergulhar."

 

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22
Mar 16

Ruy Burity da Silva - Cantiga de Mama Zefa

 

Ruy Burity da Silva (n. 1940), Cantiga de Mama Zefa (1969).

 

Nascido no Lobito, o autor estudou no Ambriz e posteriormente em Nova Lisboa (actual Huambo). Nesta cidade frequentou a Escola Industrial e Comercial de Sarmento Rodrigues, onde foi galardoado por um poemeto intitulado Natal, que ali foi depois declamado precisamente num recital natalício.

 

Em 1963 passou a integrar o Centro Juvenil de Estudos do Huambo, departamento dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Nova Lisboa, que veio a promover a publicação de uma página quinzenal no jornal O Planalto, um programa semanal no Rádio Clube do Huambo e a criação de boletim interno destes serviços.

 

Em 1964 ganhou os Jogos Florais de Nova Lisboa, com o poema Marimba, tendo-se mudado para Lisboa em Dezembro, onde passou a trabalhar nos Serviços Culturais da Companhia de Diamantes de Angola. No ano seguinte reuniu a sua poesia, escrita entre 1955 e 1960, no livro Ochandala, assinado Ruy Silva e publicado em Nova Lisboa.

 

Posteriormente, veio a  integrar a equipa que promoveu a exposição A Arte de um Povo de Angola – Quiocos da Lunda, que decorreu em 1966 na Casa do Infante, no Porto.

 

Para além de artigos dispersos nos jornais O Planalto, de Nova Lisboa, A Província de Angola, de Luanda, Jornal do Comércio, de Lisboa, e Alvorada, da Lourinhã, colaborou também no Boletim da Agência-Geral do Ultramar.

 

Em 1969 anunciava-se a publicação do seu volume de poemas Foi Assim..., que acabou por sair em 1971 com chancela da Sociedade de Expansão Cultural, e a preparação do volume ...Também Já Fomos Um, de que não foi possível encontrar qualquer registo. 

 

É provável que a eventual fixação de residência do autor em França, ocorrida ainda antes do 25 de Abril de 1974, tenha motivado a não publicação deste último livro. Há notícia, que não foi possível confirmar, de que o autor terá regressado a Angola depois de 1974.

 

Do presente volume transcrevem-se dois poemas, Ndongo e Cantiga de Mama Zefa:

 

NDONGO

 

Dos vales e das montanhas. Dos mares e dos rios. Das florestas e savanas...

Lembranças de saudade.

Onde chingufos mil se elevam em uníssono com 

o matraquear estonteante dos carros que passam.

Lavas de pranto incandescente se erguem das sonatas doloridas dos quissanges.

O silêncio.

O universo aberto em espaços infinitos onde saltam ridentes cores em simbiose.

Um dongo sulcando águas revoltas de rio escuro de cantares sombrios.

Música.

Caravanas cruzando estradas em passos arrastados de fadiga.

Música.

Até no choro profundo dos vivos em homenagem

derradeira aos mortos que partem há música.

Letras de alegria.

Letras de lágrimas ardentes.

 

Poesia estranha de estranho poeta que ninguém 

conhece. Para lá dos seus poemas que existem, tudo é silêncio.

E indago:

Quem és tu estranho poeta que cantas os vales,

As montanhas, os mares, os rios, as florestas e savanas?...

Silêncio!

Cantas e  teu povo canta também.

Vibras e vibram contigo almas estranhas

que guardam segredos fecundos de vidas passadas.

No anonimato em que persistes vives constante.

Pertenças ao presente, ou ao passado.

Morto, ou vivo.

Existes sempre presente no eco repetido dos teus

cantares e na sonata triste dos tocadores de quissanje.

 

 

 

CANTIGA DE MAMA ZEFA

 

Ainda me lembro dela

matrona forte desengonçada

tinha sempre uma oração nos olhos

uma canção nos lábios grossos

 

dorme menino dorme

oh! oh! oh! oh! oh!

cazumbi não está vir

mama Zefa tá lh'olhar

 

tinha ciúme do menino

de quem mama Zefa falava com paixão

um dia perguntei com ansiedade

se o menino seria assim como eu

 

mama Zefa olhou-me tristemente

e com lágrimas na voz cantou

– não fala assim meu menino

Deus não faz filho mulato

 

Veja-se um comentário a este livro, destinado a ser gravado em 12 de Novembro de 1969, para o programa literário da Emissora Nacional intitulado Horizonte, da responsabilidade de Amândio César e Mário António, e a transcrição de um outro poema do autor, aqui: http://museu.rtp.pt/app/uploads/dbEmissoraNacional/Lote%2041/00014007.pdf.

 

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