31
Mar 10
31
Mar 10

Brito Camacho - A Caminho de África

 

Brito Camacho (1862-1934), A Caminho d' Africa (1923).

 

Tal como muitas outras obras da década de 1920 e 1930, este livro relata aspectos da jornada que o autor efectuou "a caminho de África", neste caso uma viagem efectuada entre Lisboa e Lourenço Marques. 

 

Esta viagem, contudo, não seria efectuada num mero âmbito jornalístico nem com a finalidade de o autor se estabelecer como colono. Médico e político destacado da I República, durante a qual chegou a exercer o cargo de Ministro do Fomento, Brito Camacho relata-nos a viagem que o levou até Moçambique, onde iria exercer o cargo de Alto Comissário entre 1921 e 1923.

 

Autor de algumas dezenas de títulos, que englobam quer textos de natureza política quer crónicas e textos ficcionais, Brito Camacho oferece-nos ao longo deste volume diversas considerações sócio-políticas intercaladas com interessantes descrições dos locais por onde foi passando.

 

Transcrevem-se de seguida dois excertos da obra, o primeiro sobre S. Tomé e Príncipe, o segundo sobre o início das suas funções em Moçambique, trecho que encerra o volume:

 

"Desce a noite pelas encostas dos montes, cobertos de vegetação exuberante até aos ultimos cocurutos, e ainda temos que ir a Rio d'Ouro. A distancia não é grande, mas ha que percorrel-a em vagonete, puxado a mulas, num decauville sem maquinas.

 

Tenho a impressão de caminhar atravez de uma floresta sem murmurios, no silencio augusto de uma noite opaca... Aquela anedota do homem que se deitava no chão para ouvir crescer a herva, seria historia verdadeira em S. Thomé, que eu bem sinto os galgões da seiva na rêde vascular destes gigantes frondosos; bem vejo o arfar destes peitos rudes abrigando pulmões cujos alvéolos são cavernas, e nos silencios da conversa, as inevitaveis pausas sincopais que rompem o fio de todo o falaciar palreiro, o que eu oiço é o bater rithmico, o tic-tac isocronico do coração de Pan a dormir na floresta, embriagado de perfumes exóticos.

 

Pois se no meu regresso de Agua Izé, perto da cidade, eu notei que um óakas, á margem da estrada, do lado direito, crescera um palmo!

 

O Rio d'Ouro é uma torrente que vem lá de cima, não sei donde, quebrando-se nas fragas, tumultuoso e devastador no tempo das cheias, reduzido agora a  um minusculo fio  de agua cantante, que atravessamos numa pinguela feita de pernadas e troncos. Sobe-se uma pequena rampa e está-se nas instalações da roça, uma das melhores propriedaddes de S. Thomé. Somos recebidos por uma multidão de pretinhos chilreantes, alegres e desenvoltos como passaros em liberdade – bom dia doutô! bom dia doutô!"

 

 

"Ganso d'Almeida, meu condiscipulo, era um rapaz muito inteligente, muito amigo de ler, e tinha uma graça infinita. De quando em quando dava-lhe para fazer versos, quasi sempre satyras e epigramas.

 

Um dia, a gracejar, tendo-me elle lido uma ode que fizera na vespera, perguntei-lhe:

 

– Como diabo é que fazes versos depois de leres Victor Hugo?

 

E vai elle responde, como a justificar-se d'uma acusação grave:

 

– Peço perdão, mas eu não faço versos depois de ler Victor Hugo; faço-os depois de ler o Pedro Covas.

 

Vinha a ser o Pedro Covas um poetastro da Vidigueira, colaborador de todos os almanaques de Portugal e Brasil, com estravasamento de rimas por alguns jornaes da provincia. Pedro Covas, a poetar, abusava talvez das liberdades que a Carta garantia a todos os cidadãos, e como isso lhe dava prazer, e não prejudicava ninguem, sangrava a veia poetica  até quasi ficar anemico. A especialidadde de Pedro Covas era o acrostico, genero de composição poetica, então muito em uso. Ganso d'Almeida entretinha-se, muitas vezes, a parodiar-lhe a versalhada, mandando-lhe a troça pelo correio.

 

Reflectindo na resposta dada, achei que o meu amigo tinha rasão. Só um verdadeiro, autentico poeta tem o direito de fazer versos depois de ler as Orientais; mas pode qualquer ter escrupulos de versejar depois de ler o Almanaque de Lembranças?

 

São horas de ir para o emprego.

 

No jardim, a caminho da Secretaria, um velho colono, vindo ao meu encontro, dá-me familiarmente os bons dias, e informa que o Enes e o Mousinho, em geral, despachavam na Residencia.

 

Desfecho-lhe esta, que o deixa aturdido:

 

– Pois sim, mas o Pedro Covas despachava sempre na Secretaria.

 

Forte de semelhante evocação, animado da coragem que ao Raposão faltou no momento em que iria cair lhe nas mãos a fortuna da Titi, instalo-me no gabinete de despacho e toco a campainha, chamando o continuo.

 

– Saberá v. exa, que já chegou o sr. director da agrimensura.

 

– Mande entrar.

 

Começa a minha administração.

 

Que Deus lhe ponha a virtude..."

 

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26
Mar 10
26
Mar 10

João Alves das Neves - Poetas e Contistas Africanos (I)

 

João Alves das Neves (n. 1927), Poetas e Contistas Africanos (1963).

 

Publicada no Brasil por um autor português, esta colectânea de literatura africana de língua portuguesa surgiu num momento em que a União Indiana anexara já os territórios da chamada Índia Portuguesa e a sublevação armada se iniciara em Angola e na Guiné.

 

Contudo, a tese do autor sugere que, literariamente, essa sublevação já se iniciara havia muito nos cinco territórios africanos sob administração colonial portuguesa. Uma sublevação que crescera com os discursos identitários e se afirmara com as narrativas sobre as especificidades de cada território. Recuando ao movimento Claridade, de Cabo Verde, e à voz singular de Costa Alegre, de S. Tomé e Príncipe, o autor pretende ilustrar essa tese reunindo neste volume uma diversidade literária que não era tolerada pelo regime.

 

Surgindo depois da Antologia de Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1958), publicada em França por Mário de Andrade (1929-1990), depois das colectâneas Contistas Angolanos e Poetas Angolanos, publicadas em Lisboa pela Casa dos Estudantes do Império, depois das antologias Contos de África (1961) e Novos Contos de África (1962), editadas pelas Publicações Imbondeiro, e depois do volume de análise sócio-literária L'Afrique dans l'oeuvre de Castro Soromenho (1960), de Roger Bastide (1898-1974), a presente colectânea poderia parecer nada acrescentar às anteriores, não fosse o caso de incluir, entre outros, textos de Luandino Vieira e Agostinho Neto...

 

Apesar da sua importância e do valor simbólico da sua publicação naquele preciso momento, é curioso verificar a apreciação do autor sobre a obra, passados 24 anos, na dedicatória que se reproduz: "(...) estes 'velhos' Poetas e Contistas Africanos de Expressão Portuguêsa, lembrança de um tempo já ultrapassado, hoje válido apenas como documento, (...)".

 

 

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24
Mar 10
24
Mar 10

Julião Quintinha - África Misteriosa

Capa de Bernardo Marques (1899-1962).

 

Julião Quintinha (1885-1968), Africa Misteriosa (1928).

 

Com este livro Julião Quintinha recebeu um dos galardões, o terceiro, do Prémio de Literatura Colonial de 1928 da Agência Geral das Colónias, situação que se viria a repetir nas duas edições subsequentes - em 1929 com o segundo volume deste obra, Oiro Africano, que recebeu o segundo prémio, e em 1930, onde já recebeu o primeiro prémio, com A Derrocada do Império Vátua, volume escrito em co-autoria com Francisco Toscano (1873-1943).

 

 

Inserindo-se num género de crónica jornalística que combina impressões de viagem com comentários de carácter histórico e sócio-político, este volume relata a viagem efectuada pelo autor entre Lisboa e Lourenço Marques, com descrições e apreciações detalhadas sobre cada uma das então colónias portuguesas, reservando para Oiro Africano uma descrição mais alongada sobre Moçambique e a África Oriental.

 

Do capítulo que o autor dedicou à Ilha do Príncipe transcreve-se uma passagem:

 

"Eis-me no Principe, ilha encantadora rodeada de grutas e rochedos onde moram negros pescadores de tartarugas, à sombra dos coqueiros; perfumado jardim do Equador, estonteante dos arômas de baunilha, rosa, flôr de café e das orquídeas bravas; praias atapetadas de relvedos que cheirama a lúcia-lima, onde crescem as figueiras bravas, a fruta-pão, o safú, e o Sol dos tropicos doira as amendoas de cacau.

 

A baía parece um lago para brinquedo; do navio tocam-se as árvores com a mão. E ao fundo, estampada no scenário dos três picos, a cidadesinha ajardinada...

 

Desde o Pico do Papagaio até às praias de Nordéste estremece a floresta em verdes metálicos, scintilantes. Para Oéste, os picos aguçados, agulhas e piramides de granito engrinaldadas de trepadeiras onde se despenham cachoeiras, e vai todas as tardes afogar-se o sol.

 

Teorias estranhas de nuvens, muito brancas, envolvem os môrros em caprichosas visões: O pico dum monte, ao sul, parece o bico dum seio rompendo túnica de rendas alvas; rôlos de nuvens, como rebanhos de búfalos, descem vagarosamente aos rios, a pastar; outras vezes são cavalgadas, fantásticos cortejos impelidos pelo vento, que se dispersam na floresta, deixando rastros de veus, farrapos de mantos, flocos de arminho...

 

Em baixo, no porto, vive tranqúila a pequena cidade comercial, "gare" marítima das roças, aguardando que o Príncipe venha a ser imperador do Golfo, com grandes palácios erguidos nêstes jardins do Trópico.

 

Espelhando-se nas águas da baía, entre o silêncio dos jardins, o palacio comercial de Jerónimo Carneiro, que faz lembrar, pelas preciosidades que encerra, a vivenda dum veneziano de bom gôsto, fidalgo, artista, e mercador."

 

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22
Mar 10
22
Mar 10

Nuno Bermudes - Exílio Voluntário

 

Nuno Bermudes (1924-1997), Exílio Voluntário (1966).

Capa de José Pádua (n. 1934).

 

Nuno Bermudes teve o seu percurso literário marcado pela poesia, por Moçambique e pelo Brasil. A sua primeira obra, O Poeta e o Tempo, foi publicada em 1951. No seu percurso poético seguiram-se, entre outras, a presente obra, As Paisagens Perdidas e Outros Poemas (1980) e Brasil Redescoberto: Poesia Atlântica (1983).

 

Em prosa, publicou, entre outras obras, Gandana e Outros Contos (1959) e Eu, Caçador, e Tu, Impala e Outras Histórias de Homens e Bichos (1983), esta última retomando o título de um poema de Exílio Voluntário.

 

Nuno Bermudes esteve no centro de uma polémica que o opôs ao escritor Craveirinha (1922-2003), episódio que será posteriormente referido neste espaço.

 

A vivência brasileira do autor deixou marcas na sua obra, como nesta colectânea onde surgem dois poemas relativos ao Brasil, Descoberta e Canção do País de Cecília, o último dedicado à poetisa brasileira Cecília Meireles (1901-1964). O Brasil voltaria ainda a ser evocado no seu ensaio Dinah Silveira de Queiroz, sob o Signo da Imortalidade (1981).

 

Dividido em três partes – Exílio Voluntário, Diário de Viagem e Alguns Poemas de Amor, o livro Exílio Voluntário apresenta três temáticas bem diferenciadas. África e as suas metamorfoses, o Brasil, e o amor, através de uma certa expressão que roça o erotismo.

 

De Alguns Poemas de Amor transcreve-se o poema Mapa-Sexo:

 

  "Nossos corpos desenharam nos lençóis

   o mapa de um país imaginário

   – e neles abrimos rios,

   descobrimos oceanos,

   erguemos, entre gritos e gemidos,

   cumes de montanhas,

   desbravámos florestas,

   neles nos perdemos

   e, depois, nos encontrámos,

   deixámo-nos cair,

   exaustos,

   em abismos,

   morremos

   e ressuscitámos."

 

 

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19
Mar 10
19
Mar 10

Reis Ventura - Engrenagens Malditas

Capa de António Lino (1914-1996).

 

Reis Ventura (1910-1988), Engrenagens Malditas (1964; o cólofon indica que acabou de se imprimir em Fevereiro de 1965).

 

Com este romance, Reis Ventura inicia um percurso que se afasta da literatura com espaços narrativos exclusivamente centrados em África e em Angola, característica da sua produção do final da década anterior e do início da década de 1960.

 

Primeira obra ficcional do autor publicada depois do início da guerra colonial, procura traduzir uma reflexão sobre as engrenagens que levaram ao estabelecimento de uma nova ordem mundial, e a um reequilíbrio de poderes, após a II Guerra Mundial.

 

O próprio texto introdutório da obra reconhece ser esta uma obra de viragem no percurso do autor, ao afirmar – "Reis Ventura inicia, com este romance, uma nova incidência da sua actividade literária."

 

É de facto uma nova incidência, que marca uma ruptura com a anterior homogeneidade e qualidade literária da sua obra.

 

Ao lançar como protagonista do romance um jornalista angolano que relata as suas deslocações pelo mundo e regista as suas reflexões sobre as engrenagens malditas da política e da sociedade, que poderão estar na origem das sublevações em Angola, e no mundo, Reis Ventura perde-se num romance que aspira colocar demasiadas questões.

 

Do mesmo modo perde também a espontaneidade e harmonia de outras obras anteriores, prefigurando o exemplo do romance de antecipação Um Homem de Outro Mundo, também ele um livro onde o talento anteriormente demonstrado pelo autor se dispersa e perde.

 

Com Engrenagens Malditas, Reis Ventura obteve, na sua edição de 1965, o prémio Fernão Mendes Pinto da Agência Geral do Ultramar.

 

Transcreve-se de seguida um pequeno excerto do romance:

 

"Nos escritórios da grande cadeia de jornais, instalados num décimo-quinto andar, não muito longe do Palácio de Vidro, o "ovo cósmico", como todos chamávamos ao nosso espertíssimo e calvíssimo administrador-delegado, desceu os pés da borda da secretária, estendeu-me apressadamente a mão bem tratada e convidou-me a entrar para o compartimento imediato, que era a sala das sessões. Na sala das sessões estavam todos os restantes membros do conselho de administração, menos o Presidente, que andava de visita à Alemanha Ocidental.

Era um grupo notável. Incluía o gordo Stevens, que tinha poços de  petróleo no Texas, o magríssimo Harold, considerado o melhor causídico de Nova Iorque, o melífluo Vaganou, de origem francesa, e o tonitroante Vaterplatz, nascido de emigrantes prussianos e agora dono da mais moderna aciaria do Ohio.

– Então a coisa começou em Angola? – disparou Stevens sem mais preâmbulos. – Conte-nos os factos.

– Há pouco para contar – respondi, surpreendido com a seriedade daquela conferência. E em meia dúzia de palavras, relatei-lhes o assalto de 4 de Fevereiro e o motim do Cemitério Novo.

– Muita tropa, em Luanda? – fez Vaganou displicentemente, enquanto acendia um dos seus caros charutos.

– Quase nenhuma. E a pequena guarnição de Luanda é constituída quase só por nativos.

– Hé! hé! hé!... – gargalhou ruidosamente Vaterplatz. – Os seus compatriotas são um pouco inconscientes, não são?...

– Os portugueses não se assustam com pouco – retorquiu [sic] serenamente. – Estão em África há vários séculos...

– Respeito o seu brio nacional – sussurrou Harold, com aquele ar tímido com que gostava de iniciar as suas grandes tiradas forenses. – Mas receio que os portugueses não estejam por muito mais tempo em Angola... Julgo até que muitos deles já o compreenderam. Parece que há pânico em Luanda...

– Não há pânico em Luanda e ninguém pensa em abandonar Angola! – afirmei, vincando bem as palavras. – Os últimos acontecimentos são destituídos de qualquer importância e não afectaram o moral das populações."

 

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17
Mar 10
17
Mar 10

Henrique Galvão - Outras Terras, Outras Gentes

Capa (?) e ilustrações de Fausto Sampaio (datas desconhecidas).

 

Henrique Galvão (1895-1970), Outras Terras, Outras Gentes, 2.º volume, (1942?).

 

Embora os dois volumes que constituem esta obra sigam estritamente, na sua organização, o itinerário percorrido pelo autor em terras angolanas, a obra afasta-se do registo seco das meras notas de viagem, assumindo-se como literatura de viagens na sua acepção mais elaborada.

 

A este facto não será estranha a prática literária do autor, que na década anterior havia sido distinguida já com vários galardões no âmbito da literatura colonial.

 

Apresentando cinco capítulos – Moxico, berço de rios; Terras do Fim do Mundo, Do Cuangar à Huíla, pelo Bié; Para Aquém e para Além da Chela e Do Lubango a Luanda por terras de Oeste, este segundo volume mantém o modelo desenvolvido no primeiro, apresentando-nos o itinerário por terras de Angola como pretexto para diversas narrativas e descrições literariamente elaboradas.

 

Do capítulo Para Aquém e para Além da Chela trancrevem-se dois excertos:

 

"E ficou assente que o Fraga iria ao Cuanhama, aparentemente no exercício do seu míster de funante – mas na verdade, como espião.

O grande aventureiro não cabia em si de contente.

Tinha saüdades do Cuanhama, das viagens aventurosas, das incertezas em terra hóstil, do alerta constante dos sentidos.

Era um jogador especial – mas vicioso como todos os jogadores. Não o tentava arriscar dinheiro nas tavolagens, mas apaixonava-o jogar a vida em pleno naquela grande roleta do Cuanhama.

Desde que tinham sido proíbidas as viagens dos funantes para além do Cunene, metera-se a funar nas terras ocupadas. Ganhava mais e tinha menos canseiras – mas não era a mesma coisa. Tinha perdido o amor ao dinheiro desde que percebera que não era a fortuna que o tentava nas grandes aventuras do Cuanhama. Em compensação sabia-lhe melhor a vida quando tinha que a ganhar todos os dias contra a morte. Deslumbrava-o, saboreada assim, como uma vitória sempre fresca.

Por isso era um jogador – e especial, porque tinha o vício de jogar a vida.

Foi com alegria de criança que preparou os seus carros como dantes.

Encheu-os de fazenda e de presentes para o Mandume. E quando os viu atestados e prontos, montou o "Sultão" e abalou, remoçado e restituído à alegria de viver.

Os funantes eram assim. E se assim não fôssem não seriam funantes."

 

 

"À data da minha última viagem pelo Cuanhama, reinava, em termos bem diferentes, é claro, a sobrinha do Mandume – a Kalinaxo.

O Cuanhama era então, como hoje, apenas uma circunscrição de Angola – e a Kalinaxo, apenas uma raínha preta, muito dona dos seus gados e pouco raínha das suas gentes.

Era fina e manhosa.

Bebia champagne como o Mandume, mas preferia trajar à maneira dos seus: a n'ctuba assente sôbre as nádegas, o peito ressequido orgulhosamente nu, a manteiga escorrendo do cabelo e o perfume do leite azêdo a espalhar-se em volta.

Quando conversei com ela, tinha um ar irónico mas triste – um meio sorriso que assentava como um postiço na máscara melancólica.

Tinha razão. Ela conhecera a vida fulgurante do Mandume e comparava-a com a monotonia da sua. Trazia encarcerada na substância aventurosa de cuanhama, a ância das guerras, das razias, da prepotência e do domínio – e esmorecia na paz, sob a quietação bovina das manadas e na sucessão de dias iguais.

Era apenas uma Raínha de pastores, vassala pràticamente de um Chefe de Pôsto – ela, a sobrinha do Mandume, que fôra Chefe altivo e indomável de guerreiros e ladrões!

Compreendo perfeitamente a melancolia da Kalinaxo - muito melhor do que compreendo o orgulho dos civilizados do nosso tempo.

Quando comparo as qualidades e defeitos de homens como o Fraga e o Mandume, com as qualidades e os defeitos dos triunfadores da minha geração, choca-me, antes de mais nada, a antítese entre dois sistemas morais.

Acima dos defeitos dos primeiros – ou como qualidade dos seus defeitos – pairava o respeito pela coragem, a consideração pela valentia e o culto organizado do brio individual e colectivo.

No alto das qualidades dos segundos – ou como um defeito das suas qualidades – vingam o desprêzo pela coragem e pelo carácter e os processos de deformação da coluna vertebral."

 

 

 

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15
Mar 10
15
Mar 10

Luís Cancela - Surpresas do Sertão

 

Luís Cancela (1866-1927), Surpresas do Sertão (1946).

 

Este volume, subintitulado Cartas de um Missionário a seus Sobrinhos, apresenta de facto uma compilação de 15 cartas endereçadas aos sobrinhos do autor e 1 a seu irmão.

 

Retratando a estadia em Angola de Luís Lourenço Cancela, enquanto missionário Visitador e Superior Principal do Grupo de Missões de Malange da Congregação do Espírito Santo, entre 1910 a 1926, o livro utiliza o género epistolar para registar o itinerário que o autor percorreu e para algumas anotações de carácter sócio-cultural relativas a diversas etnias do território.

 

Trata-se de um registo quase diarístico, onde os relatos fidedignos ou as notas etnográficas se sobrepõem à preocupação literária.

 

Transcreve-se de seguida uma dessas passagens, de carácter etnográfico:

 

"Pelo caminho fomos assaltados por um bando de raparigas, todas pintadas de pemba, espécie de barro, as quais traziam na mão uns bordõezinhos, parecidos com maçanetas de tocar bombo. Não falavam.

 

A nós, missionários, riam, mostrando os dentes e arregalando aos olhos desmesuradamente, mas aos nossos pretos atacavam-nos, procurando tirar-lhes das mãos os seus paus.

 

Que monstros eram aqueles, assim saídos da mata, quase em completa nudez, e de que toda a gente tem de fugir?

 

É costume naquelas terras [Cuanhama e Evale], todos os anos, no tempo do verão, construírem nos matos, longe do povo, uns acampamentos, aonde vão passar dois meses, isoladas, sem falarem com ninguém, todas as raparigas que chegam à idade de casar. É uma espécie de noviciado da vida gentia. Comem o que os pais lhe levam e frutos do mato. De dia podem sair, atacar os passageiros e roubá-los, sem que estes se possam defender. De noite têm obrigação de cantar, sem parar,até pela manhã. Toda a gente, ao vê-las, foge, pois lhes não é permitido, pela sua religião, defenderem-se.

 

Passado aquele tempo de prova, pintam-se de pemba e voltam para o seu povo. Vendo-as assim, todos ficam sabendo que são mulheres e que podem casar. Até ali, nem eram homens nem mulheres; eram do género neutro. Em seguida lavam-se, vestem-se como as outras e esperam que lhes apareça noivo.

 

Para os rapazes existe quase o mesmo costume, mas com outras cerimónias diferentes."

 

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12
Mar 10
12
Mar 10

Manuel Lopes - O Galo [Que] Cantou na Baía [...]

Capa de Cipriano Dourado (1921-1981).

 

Manuel Lopes (1907-2005), O Galo [Que] Cantou na Baía [...] (1959).

 

Este volume de seis contos – O Galo Que Cantou na Baía..., O Jamaica Zarpou, As Férias do Eduardinho, No Terreiro do Bruxo Baxenxe, O "Sim" da Rosa Caluda, Ao Desamparinho, representa de certo modo um contraponto à temática da obra anterior, Chuva Braba (1956), e da que se lhe seguiu, Os Flagelados do Vento Leste (1960).

 

Embora nestes contos se recuperem personagens do romance Chuva Braba – Eduardinho, Mané Quim, Rui,Tuca, que se movem na mesma paisagem desolada, o tratamento e a caracterização das relações humanas nestas narrativas curtas ficam aquém da tensão e do dramatismo que envolve as personagens dos romances e as atrai para uma espiral de degradação e sofrimento.

 

Tal como anteriormente acontecera com Chuva Braba, este livro veio a ser galardoado com o prémio Fernão Mendes Pinto da Agência Geral do Ultramar, desta vez na edição de 1959.

 

Do conto As Férias do Eduardinho transcrevem-se dois parágrafos:

 

"Em frente do muro, num pequeno rectângulo de terreno com escassa dúzia de regos de pouca largura, pés de mandioca entrecruzam os longos pecíolos tesos em cujas extremidades os limbos parecem mãos espalmadas. Para lá do último rego, o mandiocal transborda e desce rúpidamente [sic] pela ladeira íngreme, de socalco em socalco, até um pequeno bosque de cafeeiros. Sobre as copas dos cafeeiros a vista ganha distância. As árvores, as casas, os polígonos verdes dos regadios formam quadros em miniatura espalhados ao acaso. As "chãs" de plantio, os "tapumes" de pastagem rala, sucedem-se, como gigantescos tombadilhos de navios dispostos lado a lado e irrompendo das montanhas com as proas dirigidas para  saída do vale, a leste da ilha.

 

Corgos profundos cortados a pique, com rebanhos de figueiras bravas ao longo do leito, separam as chãs, como vagas revoltas dum verde esbranquiçado. Dum lado e do outro, nos terrenos ladeirentos, socalcos de cana sacarina, bananeiras e feijoeiros congo. Aqui e ali, a esmo, tufos de verdura viva, manchas brancas de lapili pomítico, oásis de árvores frondosas, laranjeiras e manqueiras [sic] espalhadas como marcos; colinas contorcionadas e estéreis de arestas ásperas e nuas, grandes manchas de terra queimada, esquadrões de monólitos graníticos irrompendo do solo em posturas de monstros pensativos, surpreendidos pela erosão. A servir de pano de fundo, ora por cima das linhas das colinas, ora caindo a prumo sobre os últimos tapumes, a cordilheira circular, à direita e à esquerda, com os altos cumes rendilhados, a perder de vista."

 

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11
Mar 10
11
Mar 10

Reis Ventura - A Grei

 

Reis Ventura (1910-1988), A Grei (1941)

Capa de Rui Vieira da Costa (datas desconhecidas)

 

Reis Ventura esteve involuntariamente envolvido em 1934 numa célebre polémica sobre galardões literários, quando o seu livro A Romaria (que assinou como Vasco Reis) obteve o prémio Antero de Quental do SPN. Inicialmente, a obra de um outro escritor tinha sido preterida e, aparentemente, só a intervenção pessoal do director do SPN, António Ferro (1895-1956), apaziguou o clima de contestação que se gerou – através da sua intervenção, nesse ano foram concedidos, excepcionalmente, dois galardões ex-aequo. O livro preterido tinha sido Mensagem, de Fernando Pessoa (1888-1935).

 

Tendo abandonado a vocação sacerdotal na década de 1930, Reis Ventura fixou-se em Luanda, Angola, onde veio a publicar o seu segundo livro, A Grei (cuja edição refundida receberia em 1964 o título Soldado que Vais à Guerra). Embora nas suas obras iniciais tenha evidenciado preferência pela poesia e pela realidade portuguesa da então metrópole, Reis Ventura notabilizou-se pela escrita em prosa que retratou a realidade angolana da época, nomeadamente através da colectânea de narrativas Sangue no Capim (1962 e 1963), da colectânea de contos Cidade e Muceque (1970), e dos romances Quatro Contos por Mês (1955), Fazenda Abandonada (1965), Caminhos (1965) e Engrenagens Malditas (1965), entre outros. Publicou também um romance de ficção científica, Um Homem de Outro Mundo (1968), em que o protagonista, Thull, um ser do planeta Mil, efectua um périplo pela Terra depois de aterrar nos arredores de Luanda.

 

Escritor cuja produção foi sempre conotada com a defesa do Estado Novo e do regime colonial, Reis Ventura é actualmente um autor marginalizado e esquecido, tanto em Angola como em Portugal. De A Grei, uma elegia ao povo, como o título deixa transparecer, transcrevem-se as três primeiras estrofes:

 

 

   "Primeira Parte – Friso de Almas

 

 

 

    O Ti-Zé

 

 

    Os seus olhos são olhos portugueses,

    duma clara viveza e formosura;

    olhar firme e leal, de tam afeito

    a olhar sempre a direito

    a vida

    tantas vezes

    batida

    pelas vagas da amargura...

 

 

    Olhos de português – olhos de artista,

    de terem sempre à vista

    essa beleza

    da Virgem-Natureza,

    suave, e doce, e meiga como a lua;

    essa carne da terra

    que, no seu ventre, encerra,

    a vida forte e  bela, verdadeira e nua;

    e, em frémitos de amor,

    é bondade que alegra

    a face duma pedra

    e o cálix perfumado duma flor...

 

 

    – Olhos de português... as mãos bem calejadas,

    feridas ao contacto das enxadas,

    são as mais dignas, preciosas, mãos

    de todos nós, irmãos

    pela alma imortal, dentro do ser

    da nossa humanidade;

    são as mãos do trabalho, as virgens da bondade,

    as mais puras e dignas de viver..."

 

 

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10
Mar 10
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Manuel Lopes - Os Flagelados do Vento Leste

 

Capa de Marcelino Vespeira (1925 -2002).

 

Manuel Lopes (1907-2005), Os Flagelados do Vento Leste (1960).

 

Manuel Lopes já tratara a temática da fome no seu anterior romance, Chuva Braba (1956; http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/6599.html). É contudo em Os Flagelados do Vento Leste que desenvolve um intenso cenário de desolação, o qual promove o desespero e a degradação humana.

 

Em páginas sofridas e cheias de tensão, o leitor assiste ao desenvolver de uma narrativa marcada por um neo-realismo de carácter insular, que em parte evoca alguma da ficção de temática nordestina do autor brasileiro Graciliano Ramos (1892-1953).

 

José da Cruz, lavrador, e um dos seus filhos, Leandro, pastor transformado em salteador, são as personagens nucleares de duas narrativas que se entrecruzam, traduzindo a impotência dos habitantes da ilha de Santo Antão perante a força dos elementos.

 

Da narrativa transcrevem-se dois excertos:

 

"Aquela tira de carrapato era sinal de trabalho, símbolo de emancipação, na ideia do rapaz. Significava que nele se estava operando a passagem de menino para homem. Na verdade, era o começo da escravização do menino pela terra, sob o disfarce tentador da responsabilidade de homem. Todo o catraio que ajuda o pai no tráfego sério das hortas sente grandeza em ser tratado de igual para igual e em trazer aquele distintivo. Os homens usavam, naturalmente, o cinto para suster as calças, mas também para enfiar a faca. O pai tinha um lato de coiro e um cartuchinho também de coiro – a bainha – para guardar a faca. Os meninos sonham com a bainha de cabedal, emblema de responsabilidade. "Uá! Tu não tens uma faca como eu. Foi nha-pai que deu para eu ajudar ele nos mandados da horta". Então, às escondidas, já picam tabaco de rolo com a faca, e enrolam o seu cigarrinho na palha de milho. Depois enfiam o calção de dril azul ou cotim ou vichi para esconder a vergonha e andarem mais afoitos no meio de raparigas. E aprendem a limpar o suor com as costas das mãos –a princípio por puro espírito de imitação – quando, no fim do dia, empunhando o rabo da enxada, regressam ao terreiro da casa atrás do chefe de família. Porque infância de menino de campo é isto: trocar as mamas da mãe pelo cabo da enxada do pai. Porque o homem do campo não teve infância. Teve luta só, e luta braba. E esperanças e incertezas; a labuta das águas e o drama da estiagem marcados nas faces chupadas e no olhar sério. [p.52]"

 

 

"Era a luta. A luta braba que começava. Contra os elementos negativos. Contra os inimigos do homem. A luta silenciosa, de vida ou de morte. Introduzia-se primeiro no entendimento. Depois, entrava no sangue e no peito. O homem tornava-se a força contrária às forças da Natureza. Por um mandato de Deus, o homem lutava contra os próprios desígnios de Deus. Dava toda a vontade e a sua força. Não podia fazer mais nada. O que está acima da força do homem não pertence aos seus domínios. O homem tinha uma medida. Chuva, vento e sol estavam fora dessa medida, e o homem não se podia incriminar  pelo que sucedia fora da sua medida. Os desígnios de Deus eram superiores à vontade dos homens, mas o dever do homem era lutar mesmo contra esses desígnios. [p. 96]"

 

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