Eugénio Ferreira da Silva - Arco-Íris

 

Eugénio Ferreira da Silva (1917-), Arco-Íris (1962).

 

Formado na área de Belas-Artes, Eugénio Ferreira da Silva integrou as equipas de escultores que intervieram na Exposição do Mundo Português, realizada em Lisboa  no ano de 1940, trabalhando sob a direcção dos conhecidos escultores João Fragoso (1913-2000) e Vasco Pereira da Conceição (1914-1992).

 

Executou também, no campo da escultura, o monumento ao padre Agostinho Antunes de Azevedo (1876-1933), erigido em Vila do Conde, e os trabalhos em bronze do antigo café Palladium, em Lisboa.

 

Embora tenha colaborado com diversos órgãos da imprensa regional da então denominada Metrópole, foi este volume o seu primeiro trabalho publicado na área da literatura, sendo também o único livro seu de que parece haver registo.

 

Ao longo dos textos de todo este volume perpassa uma sólida linha traçada por uma educação de índole cristã paradoxalmente combinada com um latente paganismo e animismo de tradição africana.

 

Ocorre ainda, no conjunto formal e conceptualmente conservador desta poesia, a inusitada heterodoxia do poema intitulado Batuque na Sanzala, onde uma exclusiva composição onomatopaica remete quer para o primeiro modernismo português quer para as composições de inspiração dadaísta.

 

Transcreve-se deste volume o poema Folclore Enfeitiçado:

 

"Casas velhas dos Muceques

 tão cheias de pitoresco...

 feito de assombros, profundo...

 Beleza que de outro mundo

 ali decora o coqueiro...

 Divertimento fagueiro,

 na gíria dos seus «moleques»,

 a ver quem os trepa primeiro...

 O exótico imbondeiro,

 com os seus tortuosos braços,

 lembrava a angústia e os cansaços

 de úberes ventres de Terra... 

 No terreiro a petisada

 tão ranhenta e barriguda...

 Gritos de jaspe a sorrir

 abrindo a boca carnuda...

 

 .......................................................

 .......................................................

 

 Buscas alguém em Luanda?!

 Alguém que tu não descubras?...

 Então não vás à Mutamba,

 não vás à Maianga,

 não vás à Angambota...

 mas vai à Chicala!...

 Procura-o que encontras,

 ouvindo um batuque

 na velha sanzala

 do querido Muceques [sic] ...

 Muceques das quitandeiras,

 das lindas «Acácias Rubras»...

 dos coqueiros expressivos

 dançando «Trópico» aos ventos...

 E que soberbos lamentos

 deixa ali a ventania...

 A velha negra tirando

 fumaças do seu cachimbo...

 Um velho de «Capolana»

 com receio do cacimbo...

 Oh meu antigo Muceques [sic]!

 Oh folclore de Luanda;

 Oh Mouraria africana,

 trago-vos no coração!...

 Desde as negrinhas Cafekos,

 negras de veste escarlata...

 Da carpideira à mulata

 a esses travessos moleques."

 

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publicado por blogdaruanove às 16:39 | comentar | favorito