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Out 16
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Castro Soromenho - A Maravilhosa Viagem

 

Castro Soromenho (1910-1968), A Maravilhosa Viagem (1961).

 

 

Da Primeira Parte, Capítulo Quarto, transcrevem-se três parágrafos:

 

"Vieram do Bailundo distante os primeiros homens que viveram nestas terras com o nome tribal de Sambos. Mas há mais de dois séculos que aqui vieram parar os Nhembas. O seu chefe edificou cubatas no alto de um outeiro, no meio de vasta planície cruzada por rios e riachos. Eram oleiros e viviam da sua indústria, mas também criavam gado e lavravam terras ribeirinhas. Um dia, guerreiros Bailundos, fugidos à ira do seu soba que, mesmo depois de lhes ter morto o chefe, não cessava de os perseguir, pararam no sopé do outeiro e intimaram os Nhembas a abandonarem a aldeia, porque esse lugar só podia ser morada de fidalgos, deles que eram filhos do chefe Sambo, morto na guerra. Medrosos, os pacíficos Nhembas desceram o monte e nesse dia os atabaques dos filhos do Sambo tocaram aos ventos altos da aldeia abandonada, e o povo fugitivo dançou o batuque dos mortos, para que a alma de sambo descansasse em paz.

 

Eram seis os filhos do soba Sambo, cinco rapazes, caçadores de elefantes e hipopótamos, e a moça Alemba, que os irmãos escolheram para rainha. Ali, ela fundou a libata e deu ao país conquistado sem sangue o nome de seu pai Sambo. Tempos depois, Alemba casou com um caçador Ganguela que ousara levantar o fogo das caçadas na planície do Sambos e depois agasalhara na aldeia do outeiro para nunca mais de lá sair, preso nos braços da dona da terra. Seguindo os passos desse jovem caçador, muitos Ganguelas seus amigos vieram morar no país do Sambo e nunca mais regressaram à terra de além Cubango. De outra banda, vieram guerreiros Galangues que trouxeram de presente a Alemba punhados de terra branca, que «é o símbolo da vida e preserva da morte». Ganguelas, Galangues e Sambos cruzaram-se entre si.

 

Alemba morreu de velha, mas ficou viva para sempre na memória e na saudade do seu povo. E treze sobas reinaram no país que ela fundou. Os filhos do último chefe foram educados numa missão católica e ganharam como baptismo nomes europeus. Mas não esqueceram os velhos deuses africanos. E nos momentos de desgraça, é para eles que se voltam, implorando aos «espíritos bons» que intercedam em seu favor junto desses deuses. E sempre que o soba encontra na libata uma serpente, o povo dá-se em sacrifício aos deuses, porque é a alma de Alemba que voltou à terra no corpo da serpente para exigir sacrifícios humanos. Então, os Sambos adoram a serpente. Corre o sangue do sacrificado e a serpente desaparece – e a alma de Alemba regressa ao seu mundo misterioso... O povo baila doidamente nos fadáros dos batuques e cantam-se velhas canções em louvor de Alemba, que é a alma do próprio povo... E a paz desce de novo sobre a terra que recebeu o sacrifício de sangue."

 

© Blog da Rua Nove

 

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Out 16
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Geraldo Bessa Victor - Sanzala Sem Batuque

 

Geraldo Bessa Victor (1917-1985), Sanzala Sem Batuque (1967).

 

Essencialmente poeta, o autor havia publicado antes deste livro, o seu primeiro de "prosa de ficção", diversos ensaios e volumes de poesia. A sua primeira obra poética - Ecos Dispersos, foi publicada em 1941. Ainda na poesia, seguiram-se Ao Som das Marimbas (1943), Debaixo do Céu (1949), Cubata Abandonada (1958), obra que recebera o prémio Camilo Pessanha no ano anterior, e Mucanda (1964).

 

Neste volume reunem-se oito contos - A Filha de Ngana Chica, Duelo de Gigantes, O Pecúlio, É Proibido Brincar, O Comboio e o Navio, Domingas ou as Duas Faces da Alma, Chiula Chitacumba, Estudante e Carnaval. Embora alguns registos narrativos rocem superficialmente o anedotário, como em Chiula Chitacumba, Estudante, alguns outros traduzem inopinados dramas sobre a natureza humana, como em O Pecúlio.

 

Formado em Direito e exercendo em Lisboa, depois de ter sido bancário em Luanda, Geraldo Bessa Victor não esqueceu, contudo, algumas das problemáticas e das tensões sociais que se sentiam em Angola, dedicando particular atenção às que poderiam advir da mestiçagem, tema central em A Filha de Ngana Chica e É Proibido Brincar.

 

Deste último conto transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Lembrava-se bem de certos factos que lhe não deixavam dúvidas sobre a índole maléfica da comadre. Esta orgulhava-se ostensivamente de ter um «marido» mulato e de ser mãe de um filho mulato («O meu marido é mulato». «Sim, como sabes querida Hortense, o meu Julião é mulato». «Existe muita diferença entre um garoto preto-fulo, que pode considerar-se mulato porque é filho de mulato, e outro preto retinto, filho de pai e mãe pretos, não é verdade?». «Bem, minha querida, mulato não é o mesmo que negro, não achas?». «Ah, filha, não tenhas a menor dúvida, o branco não fala para o mulato como fala para o preto!»).

 

Tantas vezes Hortense sentiu vontade de lhe dizer cara a cara: «O teu marido, não; o teu amante, o homem com quem vives. O Bernardo, meu marido, é terceiro oficial da fazenda, ao passo que o teu amante, o Julião, é simples amanuense, inferior hierárquico do meu Bernardo». Susteve-se, porém, dada a disciplina da sua educação. tinha medo da linguagem biliosa e desenfreada que a comadre desalojasse das vísceras.

 

Certa vez, desabafou, sorridente, dissimulando em palavras serenas a fúria que lhe crescia no íntimo:

 

– Se eu quisesse ter um amante mulato ou mesmo branco, tê-lo-ia com facilidade; mas quis casar-me, e porque gostei do meu Bernardo, que calhou ser negro como poderia doutra raça ou cor, casei com ele. É um homem de valor.

 

A outra contestou, também com sorriso simpático, mas venenoso, e com frases também vestidas de aparente serenidade, mas achincalhantes:

 

– Não te iludas, querida! Um mulato é sempre olhado indubitàvelmente como pessoa civilizada, quer pelos brancos quer pelos próprios negros; mas um preto, ainda que muito educado e instruído, tem de provar primeiro que é efectivamente civilizado, senão olham-no e tratam-no como um indígena qualquer.

 

Hortense percebeu onde a outra queria chegar.

 

Um domingo, de manhã, Bernardo e Julião passeavam juntos por altura do Maculusso, nessa Luanda dos anos 30, quando um sipaio, aparecendo-lhes de chofre, berrou:

 

– Xê! A tua cabeça?

 

Foi Bernardo, o negro, e não Julião, o mestiço, quem sentiu uma voz muito funda a segredar-lhe dos recessos da alma violentada: «aquilo é contigo». Altivo, redarguiu, com rebuscada firmeza:

 

– Eu não pago cabeça, sou civilizado.

 

O sipaio escarneceu-o, com uma gargalhada gutural de rancorosa bestialidade, ao mesmo tempo que lhe assentava no dorso duas rijas chibatadas para o amainar:

 

– Civrizado, hem? Civrizado, negro de merda! Ó seu cabrão, você se atreve, seu negro, intrujar  a mim? Você és preto como eu, onde é que és civrizado? Você ainda és pior que a mim, seu monangamba!

 

Depois de lhe descarregar como remate uma formidável bofetada («leva já nesse mazumbo de mabeco!»), o sipaio agarrou-o e foi incorporá-lo, à esquina da rua, na muxinda de negros, alguns descalços e esfarrapados, que a rusga já caçara na sua ronda para seguir a caminho da esquadra. Aí apareceu meia hora depois o compadre Julião, que prudentemente não quisera interferir na operação policial e preferiu dirigir-se ao chefe, seu conhecido, para quem uma noite arranjara uma mulata boa em baile de rebita e de quem obteve a ordem de libertação de Bernardo.

 

Hortense sabia, desgostosa, que Genoveva narrava este incidente às amigas comuns, comentando-o e pondo nos olhos, como artista de comédia, uma expressão mista de magnanimidade e indignação:

 

– Não está certo! Até me revolto toda! O Bernardo, o meu compadre... Ele não é um preto qualquer, mas, sim, terceiro oficial da Fazenda! Mas, creiam, quando o meu marido falou como chefe da esquadra, seu amigo, este desfez-se em mil desculpas."

 

Este volume apresenta ainda, no final, uma lista de "vocabulário", com cinco páginas, onde se clarifica o significado de muitas expressões ou palavras de quimbundo empregadas ao longo das narrativas.

 

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