Alexandre Cabral - Histórias do Zaire

 

Alexandre Cabral (pseudónimo de José dos Santos Cabral, 1917-1996), Histórias do Zaire (1956).

 

Notável estudioso e especialista da obra camiliana, Alexandre Cabral publicou o imprescindível Dicionário de Camilo Castelo Branco (Editorial Caminho, 1988), entre dezenas de estudos, ensaios e obras de ficção. (No início da sua carreira, alguns dos seus trabalhos surgiram também sob o pseudónimo Z. Larbak.)

 

Alexandre Cabral produziu três interessantes volumes de ficção que reflectem a sua estadia em África – Contos da Europa e da África (1947), Terra Quente (novela, 1953) e Histórias do Zaire

 

Até à data de edição deste último livro, o autor havia também publicado já as seguintes obras – Cinzas da Nossa Alma (1937), Parque Mayer em Chamas (1937), Contos Sombrios (1938), Ferreira de Castro – O Seu Drama e a Sua Obra (ensaio, 1940), O Sol Nascerá um Dia (contos, 1942), Fonte da Telha (romance, 1949), Aspecto Literário da Obra do Prof. Egas Moniz (conferência, 1950) e Malta Brava (romance, 1955).

 

Histórias do Zaire, publicado novamente em 1982 (Livros Horizonte), é um volume característico da sua obra ligada a África – uma vivência centrada no antigo território do Congo  (particularmente nas antigas colónias da Bélgica e de França banhadas pelo rio Congo, ou Zaire) e um ponto de vista narrativo dedicado não apenas aos emigrantes portugueses mas também às populações naturais da região. O protagonismo destas constitui, aliás, o núcleo do livro. 'Daba-Goma', 'Kandot era o "boy" do Sr. Hiebler' e 'A "fula" Lubamba desapareceu' são narrativas que evidenciam ser a literatura colonial deste autor uma literatura que retrata a realidade, a magia e o inesperado das colónias africanas sem todavia ser, necessariamente, uma literatura apologista do colonialismo.

 

Embora por razões diversas, note-se que a violência e a tensão que pontuam o conto inicial, 'Gonçalves morreu numa noite de tempestade', surgem quase como premonição dos conflitos coloniais que irromperam em África nos anos subsequentes. Por esse facto, é surpreendente, mesmo, que este volume não tenha sido apreendido ou censurado pelo regime.

 

O único conto dedicado exclusivamente à presença portuguesa em África é a narrativa que encerra o volume – O "cacholas" [i.e., o clandestino]. Uma viagem de navio entre Angola e Portugal serve de pretexto para falar da vida a bordo, da diferença de classes, de viajantes clandestinos e de um tripulante cabo-verdiano, que acaba por falecer devido à indiferença dos serviços médicos de bordo. Um belíssimo conto que nos recorda a força dos contos de J. R. Miguéis (1901-1980) de temática semelhante, como 'Gente da Terceira Classe' e 'O Viajante Clandestino' (Gente da Terceira Classe, 1962).

 

A escrita de Alexandre Cabral, desenvolta e atraente, e o inusitado da ficção de muitos dos seus contos e novelas alertam-nos para a necessidade de redescobrir vários autores do século XX que têm vindo a cair no esquecimento.

 

  

 

Ilustração de Rogério Ribeiro (n. 1930).

 

 

Do conto O "cacholas" transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Durante as refeições, marcadas pela sineta do chefe, a despeito de se escoarem insípidas, com a galinha e a salada vulgaríssimas mascaradas de «churrasco bercy» e e «salada renascença», a intimidade era mais sentida.

 

Na 1.ª classe, os passageiros comiam vagarosamente e com o cerimonial exigido pela condição de tal clientela. Já o ambiente da sala de jantar da 2.ª era mais popular, ainda que, aqui e além, é verdade, como flor de estufa no meio de papoilas singelas do campo, um casal esforçava-se por puxar ao fino.

 

A mesa 9, então, era mesmo um disparate. Composta por empregados dos Caminhos de Ferro, de Moçambique, e outros que entraram no Cabo, representava um tufão vergastando a placidez estabelecida. Os criados receavam muitas vezes que a troca de opiniões, galhofeiras e mordentes, redundasse em disputa.

 

– O Porto, meu amigo, é uma cidade de trabalho, de gente honesta...

 

– Propaganda, cavalheiro. Propaganda. Toda a gente sabe que o Porto é a terra das tripas.

 

– Ah, sim! Então, oiça lá... mas oiça, canudo...

 

E por mais que gritasse ninguém o ouvia. Os parceiros riam da pilhéria. Tinha sido bem atirada, sim senhor.

 

Passando à 3.ª, transbordante como a pança de um glutão, verificava-se que a escala da decência tombara a zero. Quer dizer, aqui o pessoal não tinha a preocupação de se intrujar reciprocamente. Por isso mesmo, é de crer, as damas e cavalheiros da 1.ª nunca arriscaram o nariz naquela promiscuidade. Homens e mulheres dormiam pelos corredores, em cima das caixas de madeira, onde guardavam os seus haveres, ocupada como estava a própria sala de fumo. Um inferno! Havia uma expansão de sentimentos, uma confusão de malas e baús, e um odor de estrebaria, que só o campónio habituado aos apertos das carruagens da beira era capaz de tolerar.

 

O vinho soltava-lhes a língua, chegando um atrevido a proclamar, em altos berros, que estavam a receber um tratamento pior que num campo de concentração fascista. Os criados, gente da mesma laia, ouviram o descoco sem protestar.

 

Servida a refeição da noite, a orquestra de bordo preparava-se para a função, tocando tangos deliciosos e rumbas barulhentas com o propósito firme de limpar a atmosfera da 1.ª de qualquer mancha de tédio. A juventude divertia-se e até os senhores em idade madura sacrificavam os apertos dos pés a uma volta de dança.

 

Não sendo permitida a intromissão dos viajantes da 2.ª ou da 3.ª, toleravam-nos, conquanto que vestissem o seu casaquinho domingueiro e se portassem com decência. Ao começo principiaram por espreitar a medo a sala luxuosa e acabaram por tomar conta dos domínios, num abuso intolerável, pensavam as senhoras respeitáveis, que se regiam pelo severo código da melhor sociedade. E tinham razão. Mas também se não fosse o entusiasmo da rapaziada invasora as suas soirées redundavam num estrondoso fiasco.

 

Às tantas, os homens da orquestra e a menina do piano arrumavam as papeletas, guardavam os instrumentos e recolhiam aos camarotes. A pianista, certamente por espírito romântico, ficava vagueando pela solidão do navio, de braço dado com o terceiro maquinista, de quem, admitia-se, recebia lições de náutica..."

 

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publicado por blogdaruanove às 15:42 | comentar | favorito