Manuel Lopes - Chuva Braba

Capa do autor.

 

 

Manuel Lopes (1907-2005), Chuva Braba (1956)

 

 

Juntamente com o seu conterrâneo cabo-verdiano Baltasar Lopes da Silva (1907-1989), autor do aclamado romance Chiquinho, Manuel Lopes foi um dos fundadores da revista Claridade, em 1936. Revista de inspiração insular, mas também veículo de autonomização cultural e singular afirmação literária, foi um marco essencial da literatura cabo-verdiana da primeira metade do século XX.

 

Manuel Lopes celebrizou-se, ainda, pela publicação desta novela (de acordo com a designação que ele próprio incluíu no volume) e pelos dois livros que se lhe seguiram - O Galo que Cantou na Baía (1959, contos) e Os Flagelados do Vento Leste (1960, romance), este último adaptado para o cinema em 1988 (ver http://www.imdb.com/title/tt0132161/.). Com este livro obteve em 1956 o prémio Fernão Mendes Pinto da Agência Geral do Ultramar.

 

Uma certa semelhança com o discurso neo-realista, nomeadamente o de Manuel da Fonseca (1911-1993) sobre as paisagens do Alentejo, evolui para uma descrição bem distinta e autónoma das paisagens e das gentes cabo-verdianas, no primeiro capítulo (II parte) de Chuva Braba, do qual se transcreve um breve excerto:

  

"Porto Novo não tem montanhas. Ali há vento à solta, mar raso por aí fora franjado de carneirada. Há distância: um azul que navega e naufraga num mundo sem limite. Lá adiante fica S. Vicente, cinzento e roxo, roxo e cinzento, depois é só horizonte. O mar, quando cai a calma sobre o canal, desliza ora para o sul ora para o norte, consoante a direcção da corrente, como as águas dum rio que ora descessem para a foz ora remontassem da foz para a nascente.

 

As árvores são torcidas e tenazes, têm a riqueza dramática das desgraças hereditárias ou das indomáveis perseveranças. Cheira a marisco que vem das praias de seixos rolados e areia negra. Cheira a poeira das ruas onde há bosta de mistura. Cheira a melaço e aguardente, a fazenda e a coiro dos armazéns. Cheira a maresia no vento que sopra sobre os telhados. Mas há água canalizada da Ribeira da Mesa, um chafariz público onde as alimárias bebem, uma horta exuberante no Peixinho e um jardim emaranhado e virgem à beira mar.

 

Porto Novo é vila de futuro, dizem. Uma estrada paralela à praia corta-a ao meio; é a rua principal. No seu portinho aberto de mar picado balançam, quase sempre, um ou dois faluchos vindos de S. Vicente. O comércio progride. As lojas são providas de toda a sorte de bugigangas. Têm fazendas medidas a jardas, lenços de cores berrantes, mercearia, quinquilharias, têm espelhinhos, jóias artificiais, barros de Boa Vista para todos os usos, alfaias, panelas, caldeirões de ferro de três pés, têm tudo. A clientela é vasta, quase a terça parte da população dos campos da ilha cai ali. Trazem produtos agrícolas, trocam ou vendem, invadem as lojas. Deixam os nomes nos livros de conta-corrente; pagam prestações. Há empréstimos, dívidas, hipotecas, juros astronómicos. Fornecedores de frescos à navegação do Porto Grande, vendedores e vendedeiras do mercado de S. Vicente vão ali adquirir frutas, galinhas, ovos, hortaliças, por baixo preço. Contrabandistas de aguardente pululam. Até a hora da debandada das tropas de burricos, dos homens e mulheres de campo, ao meio-dia ou uma hora da tarde, a estrada enche-se movimento e gritos num vaivém de feira ambulante, canastras, frutas, lenha, gado. Os faluchos zarpam ajoujados. S. Vicente devora tudo, pede mais. Uma vela branca e oblíqua cruza com outra no  meio do canal. À tarde Porto Novo é uma vila morta."

 

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publicado por blogdaruanove às 17:35 | comentar | favorito