12
Fev 10

Cartaxo e Trindade - Chinanga

 

Cartaxo e Trindade (1945-?), Chinanga (1969).

 

Autor que, com a sua obra e com as suas opções de vida, radicalmente concitou ora concordância ou discordância, ora acaloradas amizades ou inimizades, Cartaxo e Trindade  viveu vários anos em Moçambique, tendo vindo a exercer o cargo de assistente universitário de Filologia Românica em Lisboa, durante o início da década de 1970. Sendo no final dessa década um militante da amizade e do intercâmbio com o mundo árabe (era entusiasta defensor da singularidade da via política e cultural então iniciada pela Líbia) veio a falecer vítima de SIDA, em data que não foi possível precisar. 

 

Antes deste volume, tinha Cartaxo e Trindade publicado os livros de poesia Leve Aragem das Noites (1966), Treze Poemas Medievos (c. 1967) e 3.º Sexo Seixo (1968), anunciando-se em Chinanga o aparecimento para breve da Antologia da Novíssima Poesia de Moçambique e de Saudade Ronga (poesia), obras que, contudo, não se encontram referenciadas na B.N.L.

 

O seu livro Chinanga é dedicado a doze poetas e poetisas de Moçambique, que o autor classifica como os "novos das letras de Moçambique". Entre eles, encontra-se Luís Bernardo [Honwana (n. 1942)], a quem dedicou o poema Mamana, M'Chovane e Eu, cuja primeira estrofe é a seguinte:

 

   "aperto em meus braços de solidão

   a velha aldeia no monte de micaias

   m'chovane de algumas cantinas

   ermo cerrado flores negras

   estrada de terra batida

   onde o sol doura o doirado do orvalho santo

   as palhotas ficam metidas entre os arbustos

   e o capim cresce entre a terra e a lua(...)"

 

Este discurso escrito, isento de maiúsculas e de qualquer pontuação e por isso próximo da oralidade, já tinha sido levada a outros extremos, conjugados com um aparente caos discursivo, no seu anterior livro, 3.º Sexo Seixo, o qual atingiu uma segunda edição ainda em 1968 e veio a ser compulsoriamente retirado do mercado pouco depois.

 

A produção literária de Cartaxo e Trindade, assumidamente diferente e conscientemente candidata à marginalização na época em que foi publicada (note-se a dedicatória a Honwana, activista da Frelimo que havia estado encarcerado entre 1964 e 1967), surge como uma tentativa clara de dar voz à vivência negra na temática africana, insistindo no uso de léxico particular das várias etnias moçambicanas.  Mas esta característica, que não era exclusiva da literatura deste autor, surge acompanhada de uma proposta de inovação discursiva que remete claramente para um ensaio de modernidade literária na literatura colonial portuguesa. Este aspecto, que já tinha sido ensaiado na prosa durante essa década, particularmente em Angola, não tinha ainda sido consistentemente aplicado na poesia e surge como singular contributo do autor para a literatura colonial portuguesa de Moçambique. 

 

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10
Fev 10

Maria Teresa Galveias - Ivuenu!

 

Maria Teresa Galveias (n. 1933), Ivuenu (1969).

 

Tendo publicado em 1959 o seu primeiro livro, Fronteira, Maria Teresa Galveias veio a ganhar com Ivuenu o prémio literário Camilo Pessanha 1967, da Agência Geral do Ultramar.

 

Um conjunto de poemas que evoca claramente alguma influência do volume Mensagem (1934), de Fernando Pessoa (1888-1935), (vejam-se os poemas D. Dinis, Chaimite, Colono, Padrão e Monumento dos Descobrimentos) Ivuenu veicula uma ideologia que se encontra em perfeita sintonia com a política e o discurso do Estado Novo, particularmente nos poemas Irmão Negro (Vem, meu irmão, / De olhar submisso e calmo, / Com primitiva e sã ingenuidade, / Vem, meu irmão, / Que em Deus e Portugal / É que hás-de ser homem de verdade!) e Raça (Irmãos somos nós todos, / Os descendentes de santos e heróis, / Negros ou brancos, brancos ou mestiços, / Se somos portugueses / Que importa, pois?) e também no poema Eva-Mulata, um hino à mestiçagem.

 

Apesar de esta consonância geral, Ivuenu surge pontuado por poemas que podem permitir leituras dissonantes, como Poema a um Poeta Negro, que se transcreve na íntegra:

 

   Não deixes de cantar,

   Que a tua voz

   Há-de ficar no coração dos homens,

   Há-de abafar os tiros dos canhões,

   Há-de soar na vástica distância!

   Não deixes de cantar.

   Que o teu apelo

   Há-de cruzar o mundo, lés a lés,

   Há-de ampliar-se em ecos repetidos,

   Enchendo o próprio céu de ressonância.

 

Uma leitura geral do volume permite-nos, ainda, encontrar nos títulos dos poemas uma clara homenagem aos povos africanos, suas tradições e culturas (Calema, Kandumbo, Batuque, Ivuenu, Embondeiro), mas também referências a um eventual conceito político de especificidade e unidade atlântica da África Ocidental (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Poema de Angola).  

 

 

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08
Fev 10

Maria Ondina Braga - Eu Vim para Ver a Terra

 

Maria Ondina [Braga] (1932-2003), Eu Vim para Ver a Terra (1965).

 

Embora vários autores portugueses dos séculos XIX e XX tenham passado pelo Oriente e reflectido, de maneira directa ou indirecta, essa estadia na sua literatura – vejam-se os casos de Wenceslau de Moraes (1854-1929), Camilo Pessanha (1867-1926) e Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), entre outros, Maria Ondina Braga surge no século XX como a principal autora portuguesa de ficção ligada a Macau, em particular, e à China em geral.

 

Este seu livro de estreia, Eu Vim para Ver a Terra, apresenta-nos um conjunto de textos sobre Angola, Goa (precisamente em 1961) e Macau, mas são as crónicas de Angola – A Terra, De Luanda a Salazar, De Salazar a Malanje, A Chuva, Cacimbo, Flor da Terra, Mãe Preta, Mercado Indígena, Velho Roque, Nova Lisboa, A Missão do Lombe e as Castanholas da Irmã Manuela, Páscoa – 1961, mais do que as de Macau, que acabam por nos cativar na sua sensibilidade e nos deixam a promessa de toda a literatura notável que a autora haveria de produzir posteriormente.

 

Surgem nestas crónicas fragmentos particularmente belos. A Chuva, Cacimbo, Flor da Terra, Mãe Preta e Mercado Indígena oferecem-nos a expressão de um lirismo a que não podemos ficar insensíveis e deixam-nos impressões de mundos que a maioria de nós apenas pressente. Como se a empatia da autora tivesse absorvido a fugacidade de universos momentâneos e os tivesse cristalizado em toda a sua beleza – a frescura dos aromas e das cores, a humidade e o calor da terra, a alegria e o sofrimento das gentes, criando um políptico perene que retira do húmus dessa terra o seu carácter profundamente humano.

 

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