24
Mar 10

Julião Quintinha - África Misteriosa

Capa de Bernardo Marques (1899-1962).

 

Julião Quintinha (1885-1968), Africa Misteriosa (1928).

 

Com este livro Julião Quintinha recebeu um dos galardões, o terceiro, do Prémio de Literatura Colonial de 1928 da Agência Geral das Colónias, situação que se viria a repetir nas duas edições subsequentes - em 1929 com o segundo volume deste obra, Oiro Africano, que recebeu o segundo prémio, e em 1930, onde já recebeu o primeiro prémio, com A Derrocada do Império Vátua, volume escrito em co-autoria com Francisco Toscano (1873-1943).

 

 

Inserindo-se num género de crónica jornalística que combina impressões de viagem com comentários de carácter histórico e sócio-político, este volume relata a viagem efectuada pelo autor entre Lisboa e Lourenço Marques, com descrições e apreciações detalhadas sobre cada uma das então colónias portuguesas, reservando para Oiro Africano uma descrição mais alongada sobre Moçambique e a África Oriental.

 

Do capítulo que o autor dedicou à Ilha do Príncipe transcreve-se uma passagem:

 

"Eis-me no Principe, ilha encantadora rodeada de grutas e rochedos onde moram negros pescadores de tartarugas, à sombra dos coqueiros; perfumado jardim do Equador, estonteante dos arômas de baunilha, rosa, flôr de café e das orquídeas bravas; praias atapetadas de relvedos que cheirama a lúcia-lima, onde crescem as figueiras bravas, a fruta-pão, o safú, e o Sol dos tropicos doira as amendoas de cacau.

 

A baía parece um lago para brinquedo; do navio tocam-se as árvores com a mão. E ao fundo, estampada no scenário dos três picos, a cidadesinha ajardinada...

 

Desde o Pico do Papagaio até às praias de Nordéste estremece a floresta em verdes metálicos, scintilantes. Para Oéste, os picos aguçados, agulhas e piramides de granito engrinaldadas de trepadeiras onde se despenham cachoeiras, e vai todas as tardes afogar-se o sol.

 

Teorias estranhas de nuvens, muito brancas, envolvem os môrros em caprichosas visões: O pico dum monte, ao sul, parece o bico dum seio rompendo túnica de rendas alvas; rôlos de nuvens, como rebanhos de búfalos, descem vagarosamente aos rios, a pastar; outras vezes são cavalgadas, fantásticos cortejos impelidos pelo vento, que se dispersam na floresta, deixando rastros de veus, farrapos de mantos, flocos de arminho...

 

Em baixo, no porto, vive tranqúila a pequena cidade comercial, "gare" marítima das roças, aguardando que o Príncipe venha a ser imperador do Golfo, com grandes palácios erguidos nêstes jardins do Trópico.

 

Espelhando-se nas águas da baía, entre o silêncio dos jardins, o palacio comercial de Jerónimo Carneiro, que faz lembrar, pelas preciosidades que encerra, a vivenda dum veneziano de bom gôsto, fidalgo, artista, e mercador."

 

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22
Mar 10

Nuno Bermudes - Exílio Voluntário

 

Nuno Bermudes (1924-1997), Exílio Voluntário (1966).

Capa de José Pádua (n. 1934).

 

Nuno Bermudes teve o seu percurso literário marcado pela poesia, por Moçambique e pelo Brasil. A sua primeira obra, O Poeta e o Tempo, foi publicada em 1951. No seu percurso poético seguiram-se, entre outras, a presente obra, As Paisagens Perdidas e Outros Poemas (1980) e Brasil Redescoberto: Poesia Atlântica (1983).

 

Em prosa, publicou, entre outras obras, Gandana e Outros Contos (1959) e Eu, Caçador, e Tu, Impala e Outras Histórias de Homens e Bichos (1983), esta última retomando o título de um poema de Exílio Voluntário.

 

Nuno Bermudes esteve no centro de uma polémica que o opôs ao escritor Craveirinha (1922-2003), episódio que será posteriormente referido neste espaço.

 

A vivência brasileira do autor deixou marcas na sua obra, como nesta colectânea onde surgem dois poemas relativos ao Brasil, Descoberta e Canção do País de Cecília, o último dedicado à poetisa brasileira Cecília Meireles (1901-1964). O Brasil voltaria ainda a ser evocado no seu ensaio Dinah Silveira de Queiroz, sob o Signo da Imortalidade (1981).

 

Dividido em três partes – Exílio Voluntário, Diário de Viagem e Alguns Poemas de Amor, o livro Exílio Voluntário apresenta três temáticas bem diferenciadas. África e as suas metamorfoses, o Brasil, e o amor, através de uma certa expressão que roça o erotismo.

 

De Alguns Poemas de Amor transcreve-se o poema Mapa-Sexo:

 

  "Nossos corpos desenharam nos lençóis

   o mapa de um país imaginário

   – e neles abrimos rios,

   descobrimos oceanos,

   erguemos, entre gritos e gemidos,

   cumes de montanhas,

   desbravámos florestas,

   neles nos perdemos

   e, depois, nos encontrámos,

   deixámo-nos cair,

   exaustos,

   em abismos,

   morremos

   e ressuscitámos."

 

 

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15
Mar 10

Luís Cancela - Surpresas do Sertão

 

Luís Cancela (1866-1927), Surpresas do Sertão (1946).

 

Este volume, subintitulado Cartas de um Missionário a seus Sobrinhos, apresenta de facto uma compilação de 15 cartas endereçadas aos sobrinhos do autor e 1 a seu irmão.

 

Retratando a estadia em Angola de Luís Lourenço Cancela, enquanto missionário Visitador e Superior Principal do Grupo de Missões de Malange da Congregação do Espírito Santo, entre 1910 a 1926, o livro utiliza o género epistolar para registar o itinerário que o autor percorreu e para algumas anotações de carácter sócio-cultural relativas a diversas etnias do território.

 

Trata-se de um registo quase diarístico, onde os relatos fidedignos ou as notas etnográficas se sobrepõem à preocupação literária.

 

Transcreve-se de seguida uma dessas passagens, de carácter etnográfico:

 

"Pelo caminho fomos assaltados por um bando de raparigas, todas pintadas de pemba, espécie de barro, as quais traziam na mão uns bordõezinhos, parecidos com maçanetas de tocar bombo. Não falavam.

 

A nós, missionários, riam, mostrando os dentes e arregalando aos olhos desmesuradamente, mas aos nossos pretos atacavam-nos, procurando tirar-lhes das mãos os seus paus.

 

Que monstros eram aqueles, assim saídos da mata, quase em completa nudez, e de que toda a gente tem de fugir?

 

É costume naquelas terras [Cuanhama e Evale], todos os anos, no tempo do verão, construírem nos matos, longe do povo, uns acampamentos, aonde vão passar dois meses, isoladas, sem falarem com ninguém, todas as raparigas que chegam à idade de casar. É uma espécie de noviciado da vida gentia. Comem o que os pais lhe levam e frutos do mato. De dia podem sair, atacar os passageiros e roubá-los, sem que estes se possam defender. De noite têm obrigação de cantar, sem parar,até pela manhã. Toda a gente, ao vê-las, foge, pois lhes não é permitido, pela sua religião, defenderem-se.

 

Passado aquele tempo de prova, pintam-se de pemba e voltam para o seu povo. Vendo-as assim, todos ficam sabendo que são mulheres e que podem casar. Até ali, nem eram homens nem mulheres; eram do género neutro. Em seguida lavam-se, vestem-se como as outras e esperam que lhes apareça noivo.

 

Para os rapazes existe quase o mesmo costume, mas com outras cerimónias diferentes."

 

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12
Mar 10

Manuel Lopes - O Galo [Que] Cantou na Baía [...]

Capa de Cipriano Dourado (1921-1981).

 

Manuel Lopes (1907-2005), O Galo [Que] Cantou na Baía [...] (1959).

 

Este volume de seis contos – O Galo Que Cantou na Baía..., O Jamaica Zarpou, As Férias do Eduardinho, No Terreiro do Bruxo Baxenxe, O "Sim" da Rosa Caluda, Ao Desamparinho, representa de certo modo um contraponto à temática da obra anterior, Chuva Braba (1956), e da que se lhe seguiu, Os Flagelados do Vento Leste (1960).

 

Embora nestes contos se recuperem personagens do romance Chuva Braba – Eduardinho, Mané Quim, Rui,Tuca, que se movem na mesma paisagem desolada, o tratamento e a caracterização das relações humanas nestas narrativas curtas ficam aquém da tensão e do dramatismo que envolve as personagens dos romances e as atrai para uma espiral de degradação e sofrimento.

 

Tal como anteriormente acontecera com Chuva Braba, este livro veio a ser galardoado com o prémio Fernão Mendes Pinto da Agência Geral do Ultramar, desta vez na edição de 1959.

 

Do conto As Férias do Eduardinho transcrevem-se dois parágrafos:

 

"Em frente do muro, num pequeno rectângulo de terreno com escassa dúzia de regos de pouca largura, pés de mandioca entrecruzam os longos pecíolos tesos em cujas extremidades os limbos parecem mãos espalmadas. Para lá do último rego, o mandiocal transborda e desce rúpidamente [sic] pela ladeira íngreme, de socalco em socalco, até um pequeno bosque de cafeeiros. Sobre as copas dos cafeeiros a vista ganha distância. As árvores, as casas, os polígonos verdes dos regadios formam quadros em miniatura espalhados ao acaso. As "chãs" de plantio, os "tapumes" de pastagem rala, sucedem-se, como gigantescos tombadilhos de navios dispostos lado a lado e irrompendo das montanhas com as proas dirigidas para  saída do vale, a leste da ilha.

 

Corgos profundos cortados a pique, com rebanhos de figueiras bravas ao longo do leito, separam as chãs, como vagas revoltas dum verde esbranquiçado. Dum lado e do outro, nos terrenos ladeirentos, socalcos de cana sacarina, bananeiras e feijoeiros congo. Aqui e ali, a esmo, tufos de verdura viva, manchas brancas de lapili pomítico, oásis de árvores frondosas, laranjeiras e manqueiras [sic] espalhadas como marcos; colinas contorcionadas e estéreis de arestas ásperas e nuas, grandes manchas de terra queimada, esquadrões de monólitos graníticos irrompendo do solo em posturas de monstros pensativos, surpreendidos pela erosão. A servir de pano de fundo, ora por cima das linhas das colinas, ora caindo a prumo sobre os últimos tapumes, a cordilheira circular, à direita e à esquerda, com os altos cumes rendilhados, a perder de vista."

 

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10
Mar 10

Manuel Lopes - Os Flagelados do Vento Leste

 

Capa de Marcelino Vespeira (1925 -2002).

 

Manuel Lopes (1907-2005), Os Flagelados do Vento Leste (1960).

 

Manuel Lopes já tratara a temática da fome no seu anterior romance, Chuva Braba (1956; http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/6599.html). É contudo em Os Flagelados do Vento Leste que desenvolve um intenso cenário de desolação, o qual promove o desespero e a degradação humana.

 

Em páginas sofridas e cheias de tensão, o leitor assiste ao desenvolver de uma narrativa marcada por um neo-realismo de carácter insular, que em parte evoca alguma da ficção de temática nordestina do autor brasileiro Graciliano Ramos (1892-1953).

 

José da Cruz, lavrador, e um dos seus filhos, Leandro, pastor transformado em salteador, são as personagens nucleares de duas narrativas que se entrecruzam, traduzindo a impotência dos habitantes da ilha de Santo Antão perante a força dos elementos.

 

Da narrativa transcrevem-se dois excertos:

 

"Aquela tira de carrapato era sinal de trabalho, símbolo de emancipação, na ideia do rapaz. Significava que nele se estava operando a passagem de menino para homem. Na verdade, era o começo da escravização do menino pela terra, sob o disfarce tentador da responsabilidade de homem. Todo o catraio que ajuda o pai no tráfego sério das hortas sente grandeza em ser tratado de igual para igual e em trazer aquele distintivo. Os homens usavam, naturalmente, o cinto para suster as calças, mas também para enfiar a faca. O pai tinha um lato de coiro e um cartuchinho também de coiro – a bainha – para guardar a faca. Os meninos sonham com a bainha de cabedal, emblema de responsabilidade. "Uá! Tu não tens uma faca como eu. Foi nha-pai que deu para eu ajudar ele nos mandados da horta". Então, às escondidas, já picam tabaco de rolo com a faca, e enrolam o seu cigarrinho na palha de milho. Depois enfiam o calção de dril azul ou cotim ou vichi para esconder a vergonha e andarem mais afoitos no meio de raparigas. E aprendem a limpar o suor com as costas das mãos –a princípio por puro espírito de imitação – quando, no fim do dia, empunhando o rabo da enxada, regressam ao terreiro da casa atrás do chefe de família. Porque infância de menino de campo é isto: trocar as mamas da mãe pelo cabo da enxada do pai. Porque o homem do campo não teve infância. Teve luta só, e luta braba. E esperanças e incertezas; a labuta das águas e o drama da estiagem marcados nas faces chupadas e no olhar sério. [p.52]"

 

 

"Era a luta. A luta braba que começava. Contra os elementos negativos. Contra os inimigos do homem. A luta silenciosa, de vida ou de morte. Introduzia-se primeiro no entendimento. Depois, entrava no sangue e no peito. O homem tornava-se a força contrária às forças da Natureza. Por um mandato de Deus, o homem lutava contra os próprios desígnios de Deus. Dava toda a vontade e a sua força. Não podia fazer mais nada. O que está acima da força do homem não pertence aos seus domínios. O homem tinha uma medida. Chuva, vento e sol estavam fora dessa medida, e o homem não se podia incriminar  pelo que sucedia fora da sua medida. Os desígnios de Deus eram superiores à vontade dos homens, mas o dever do homem era lutar mesmo contra esses desígnios. [p. 96]"

 

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09
Mar 10

Alexandre Valente de Matos - Jaula Aberta

 

Alexandre Valente de Matos (n. 1917), Jaula Aberta (1958).

 

Tal como aconteceu em diversas colónias dos demais países europeus, os missionários desenvolveram nos territórios portugueses ultramarinos funções que não se limitaram à evangelização strictu sensu. Algumas dessas funções concentraram-se na etnologia e na recolha e registo de tradições orais, de que este volume é um exemplo.

 

Recolhendo e publicando estes doze contos chirimas, o padre Alexandre Valente de Matos procedeu ao alargamento da sua obra missionária em direcção ao campo da etnologia, onde se veio a destacar pelo seu interesse na cultura dos Macuas, interesse que, entre outras obras, resultou num dicionário Português-Macua (1974). 

 

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08
Mar 10

Luis Romano - Negrume (Lzimparin)

 

Luis Romano (Luís Romano de Madeira Melo, n. 1922 [sublinhe-se que a  notícia do seu falecimento a 6 de Julho de 2009 era falsa]) refugiou-se em 1962 no Brasil, onde ainda hoje reside, depois de se afirmar partidário da independência de Cabo Verde e de ser perseguido pela PIDE.

 

Em prosa publicou as obras Famintos (1962), novela de índole neo-realista consentânea com a prosa de outros autores cabo-verdianos contemporâneos, e Ilha (1991). Em verso, Clima (1963). Publicou ainda dois livros que conjugam verso e prosa, o presente volume e Cabo Verde: Renascença de uma Civilização no Atlântico Médio (1967).

 

Sobre Negrume, concluído em 1970 na cidade brasileira de Natal e publicado apenas em 1973, também no Brasil, afirma o autor, no prefácio:

 

"Com o título 'LZIMPARÍN' que pode ser tradução emocional, em português, da palavra NEGRUME, apresentamos, pela primeira vez em Portugal e em todo o Mundo de Expressão Portuguesa, um livro de ficção caboverdiana, elaborado e escrito na Língua Caboverdiana, por um Filho-de-Cabo-Verde, de legítima descendência lusa."

 

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07
Mar 10

Gastão Sousa Dias - África Portentosa

 

Gastão Sousa Dias (1887-1955), África Portentosa (1926).

Ilustração para a capa de Tagarro (José Tagarro, 1902?-1931).

 

Autor de algumas dezenas de livros sobre África, essencialmente sobre a administração, a história e a política ultramarina, Gastão de Sousa Dias legou-nos também algumas crónicas que bem evidenciam a sua capacidade literária, particularmente no relato de viagens e na descrição de territórios africanos.

 

Neste volume, que foi galardoado com o prémio do primeiro Concurso de Literatura Colonial, promovido em 1926 pela Agência Geral das Colónias, essa característica é exemplificada nos capítulos intitulados Notas de Viagem, Nos Areais de Mossâmedes e Crónicas Africanas.

 

Aí se encontram páginas literárias de grande fluência e entusiasmo, descrevendo de forma singular as terras de Huíla e do sul de Angola, da Damaralândia e do Namibe, bem como os hábitos de caçadores, carreiros e agricultores dessas regiões.

 

Transcreve-se de seguida um pequeno excerto, um parágrafo, de Nos Areais de Mossâmedes:

 

"Somos ao todo uns vinte caçadores e nem uma palavra se aventura, todos dominados pela impressão estranha da ausência de vida, da escuridão, da planura rasa e negra sôbre que voamos. Nem o vulto duma planta, nem o vulto duma pedra! Marchamos por sobre uma superfície absolutamente plana, onde há a certeza de não encontrar senão areia compacta e firme, numa extensão de que não saberíamos dizer a profundidade. A vida deve ter morrido neste areal desolado e, não obstante irmos todos levados pelo desígnio de caçar, no nosso espírito forma-se a incredulidade de que seja possível encontrar um único ser da criação. Devoramos quilómetros. Uma pressa nervosa se apoderou dos chauffeurs. Dir-se ia que temos receio de perder um espectáculo de passageira duração."

 

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06
Mar 10

Silva Tavares - Pela Fé e pelo Império

Xilogravuras de Attila Mendly de Vétyemy (n. 1911).

 

Publicado em 1937, para comemorar a primeira Exposição Histórica da Ocupação, este volume de Silva Tavares (1893-1964) estabelece claramente um cruzamento dos modelos de Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões (1524?-1580), e da Mensagem (1934), de Fernando Pessoa (1888-1935), para exaltar a  imagem do Estado Novo e do colonialismo.

 

O poema divide-se em sete partes – I, Por mares nunca dantes navegados; II, África misteriosa; III, Exploradores do mato; IV, Missões e missionários; V, O despertar da soberania; VI, Soldados da Ocupação; VII, À Mocidade portuguesa.

 

Constituindo uma obra literária menor, o livro não é notável a não ser em algumas xilogravuras e na carga ideológica patente, de que as três dedicatórias são paradigmáticas – "Aos Missionários, Soldados de terra e mar, e Pioneiros do Ultramar, Defensores da Fé, e do Império; A Sua excelência o General António Óscar de Fragoso Carmona, Venerando Presidente da República, Homenagem e testemuno da gratidão do mais humilde dos portugueses pelo ressurgimento de Portugal; A Sua Excelência o Doutor António de Oliveira Salazar, Grande português a quem os portugueses devem o Acto Colonial".

 

Vejam-se referências a outros livros de Silva Tavares aqui: http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/tag/silva+tavares e aqui: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/41837.html

 

 

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05
Mar 10

Ferreira da Costa - Pedra do Feitiço

Capa e ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).

 

Ferreira da Costa (1907-1974), Pedra do Feitiço (1945).

 

Com este volume, Ferreira da Costa complementa as narrativas que tinha apresentado em Na Pista do Marfim e da Morte, obra que fora publicada um ano antes e constituíra um imediato sucesso de vendas, com várias edições num só ano. Fenómeno que também se verificou com este livro.

 

Compilando neste volume quatro longas narrativas  - A Última Caçada de um Príncipe Negro, O Testamento do "Papa-Rôlas", A Bebedeira Verde e Adeus, irmão! Até um dia!, que mais poderão ser qualificadas como novelas do que como contos, o autor apresenta-se-nos com um narrador exímio mas é na descrição do despertar da terra africana a seguir às chuvas, apresentada em A Bebedeira Verde, que nos oferece um notável momento literário.

 

Transcrevem-se, de seguida, um excerto do prólogo à obra e um trecho da referida descrição:

 

"Prosseguindo  e concluindo as reportagens vividas que constituíram o volume intitulado 'Na Pista do Marfim e da Morte', êste livro encerra os episódios finais da minha vida nos sertões da África Ocidental.

 

Já morreram as maiores personagens das narrativas que ides ler. Mai-Kingombe, José Queiroz, Ricardo e 'Branco Grande' encetaram, há muito, a mais enigmática das aventuras; Raul de Oliveira também partiu para aquêle singular país onde, segundo a lírica visão de Tagore, ' não há noites nem dias, e os cânticos são silenciosos.' No entanto, ao escrever os capítulos que aí vão, pressenti as suas presenças. Eram sombras que rondavam nas minhas reminiscências, sugerindo-me conselhos, a explicarem-me cenas que, outrora, me parecerem inexpressivas. E pensei que lhes ofenderia grosseiramente as memórias, se juntasse à substância de acontecimentos reais – gravados na minha carne e no meu espírito – pormenores ditados pela imaginação. Demais, para que seria necessário recorrer a tanto? Para quê, meu Deus, se ainda reservo ciosamente, até não sei quando, as confidências cruéis de 'Branco Grande' – funante heróico – e a confissão pungente de Ricardo – o misterioso português acicatado pelo remorso?

 

Comovidamente meditado, somatório de recordações fiéis, êste volume nem sequer no título obedece a capricho ocasional ou preferência de eufonia. A Pedra do Feitiço existe. Fica distante de Santo António do Zaire, quási em frente de Boma. É um morro pedregoso, agreste e nu. Triste. Sinistro, por vezes. Assenta no limite de savanas bravias, onde as tsé-tsé instilam venenos letais, os carnívoros despedaçam corças e todos os brutos urram de ansiedades frenéticas, nos contactos da procriação. Para lá da colina rochosa, desliza o grande rio majestoso – o Zaire. O calor martiriza. Entontece. Leva ao desvario. Nem réstea de sombra, para lenitivo de tamanho tormento. Em tôrno, não se vislumbram sinais de vida humana. Paira um silêncio trágico, primitivo, só atenuado, ao descer a noite, pelo resfolegar dos hipopótamos e os gritos estridentes dos abutres. Chega-nos o cheiro nauseabundo da carne podre – carcassas sanguinolentas, restos dos festins nocturnos das panteras e dos chacais. Na margem, entre limos e juncos, brilha o olhar vítreo dos jacarés.

 

Penedos musgosos, carne morta ou chicoteada pelos instintos primários, ranger de queixadas que devoram, exalações de venenos dispersos nas ervagens ou suspensos nos ferrões dos insectos, goelas famintas esperando vítimas na beira-rio, coisas que apodrecem numa fermentação borbulhante que faz mêdo... Calor. Mudez. Ninguém. É  assim a Pedra do Feitiço."

 

 

Ferreira da Costa declara não ter juntado "à substância dos acontecimentos reais pormenores ditados pela imaginação". De facto, tal declaração é irrelevante para a classificação destes como textos literários. Com ou sem imaginação, as narrativas são claramente literárias e as descrições aproximam-se das melhores e mais intensas que se podem encontrar, em língua portuguesa, sobre África:

 

"Um dia, quási a mêdo, o sol descobre a face. Então, se o homem branco penetra na selva, estremece e fica atónito de espanto, confusamente amedrontado. Olha e nada reconhece. Sumiram-se as feições dormentes do estio. A païsagem transfigurou-se. O mato despertou, em frenéticos sobressaltos. E a transmutação entontece, desorienta, enche-nos de enleios singulares. A colinas pardacentas surgem-nos verde-oliváceas. Uma rocha côr de bronze aparece-nos esmeraldina. Há esferas de malaquite onde víramos pedregulhos negros e agudos. Já não existem os cerros ásperos, os penhascais, as penedias sôltas. A selva cresceu, agigantou-se, expandiu-se numa extravasão vertiginosa de seivas; transpôs todos os obstáculos com ímpeto silencioso e feroz. Largas 'picadas' feitas pelos europeus, trilhos gentílicos, tugúrios de caçadores mussorongos, arimos de ginguba, clareiras tisnadas pelo fogo, tudo foi reconquistado pelas vegetações em delírio. Não há brechas, nem veredas. Há muralhas de trepadeiras, de ramúsculos e rebentões; tôrres de folhagens escamulosas, sebes eriçadas de mucrões e acúleos, pêlos rijos como cordas, ramos cortantes como punhais. Corriolas corpulentas marinham até o cocoruto das árvores maiores, enrolam-se, multiplicam os braços, desfiguram os perfis graciosos das palmeiras, os caules raquíticos das matebas, os corpanzis das acácias rubras. O capim avança por cima dos ramos coriscados. Reverdecem estolhos e arbustos, à beira dos gigantes vencidos pelo raio e pelo vendaval. Abrem-se corolas de pesadelo, na berma dos paúis borbulhantes de sapos. Há um fermentar rechinante de coisas pútridas. Adivinham-se as sucções gulosas das humícolas, sorvendo vida na podridão dos lenhos mortos. Sentem-se os frémitos da antese, as vibrações do labor espérmico.

 

Os charcos transformaram-se em lagos; os riachos alastram pelas redondezas e não permitem passagem. Envolve-nos uma luminosidade espectral, lívida e baça. Ficam verdes os rostos e as vestimentas. É verde o bafo que nos sai da bôca. Das penumbras, vêm rumores indistintos. Rangem troncos, na gestação de rebentos; remexem fôlhas, ajeitando-se para maior crescimento; gemem os ramitos novos, para alcançarem alturas onde brilha o Sol. Movimentos furtivos agitam as pedras vestidas de líquenes. Súbitos estremecimentos deslocam a crosta do solo empapado de água. Estalidos, roçagares farfalhantes, silvos inexplicáveis... Os fungos estoiram e abrem bôcas. Rolam troços de  cascas roídas pelas salalé. Despenham-se troncarias velhas, rendidas ao pêso dos cipós. E a neblina virente que nos envolve esbate contornos, esfuma perfis, empresta às coisas e às criaturas assustadas feições de fantasmas. Temos a perturbadora impressão de penetrar num planeta diferente. Compreendemos – mais ìntimamente do que nunca – palpitarem à nossa volta fôrças monstruosas."

 

 

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