21
Mai 10

Luandino Vieira - Luuanda

 

Luandino Vieira (pseudónimo de  José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), Luuanda (1963; primeira edição brasileira, 1965; 3.ª edição portuguesa, em baixo, 1974).

 

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19
Mar 10

Reis Ventura - Engrenagens Malditas

Capa de António Lino (1914-1996).

 

Reis Ventura (1910-1988), Engrenagens Malditas (1964; o cólofon indica que acabou de se imprimir em Fevereiro de 1965).

 

Com este romance, Reis Ventura inicia um percurso que se afasta da literatura com espaços narrativos exclusivamente centrados em África e em Angola, característica da sua produção do final da década anterior e do início da década de 1960.

 

Primeira obra ficcional do autor publicada depois do início da guerra colonial, procura traduzir uma reflexão sobre as engrenagens que levaram ao estabelecimento de uma nova ordem mundial, e a um reequilíbrio de poderes, após a II Guerra Mundial.

 

O próprio texto introdutório da obra reconhece ser esta uma obra de viragem no percurso do autor, ao afirmar – "Reis Ventura inicia, com este romance, uma nova incidência da sua actividade literária."

 

É de facto uma nova incidência, que marca uma ruptura com a anterior homogeneidade e qualidade literária da sua obra.

 

Ao lançar como protagonista do romance um jornalista angolano que relata as suas deslocações pelo mundo e regista as suas reflexões sobre as engrenagens malditas da política e da sociedade, que poderão estar na origem das sublevações em Angola, e no mundo, Reis Ventura perde-se num romance que aspira colocar demasiadas questões.

 

Do mesmo modo perde também a espontaneidade e harmonia de outras obras anteriores, prefigurando o exemplo do romance de antecipação Um Homem de Outro Mundo, também ele um livro onde o talento anteriormente demonstrado pelo autor se dispersa e perde.

 

Com Engrenagens Malditas, Reis Ventura obteve, na sua edição de 1965, o prémio Fernão Mendes Pinto da Agência Geral do Ultramar.

 

Transcreve-se de seguida um pequeno excerto do romance:

 

"Nos escritórios da grande cadeia de jornais, instalados num décimo-quinto andar, não muito longe do Palácio de Vidro, o "ovo cósmico", como todos chamávamos ao nosso espertíssimo e calvíssimo administrador-delegado, desceu os pés da borda da secretária, estendeu-me apressadamente a mão bem tratada e convidou-me a entrar para o compartimento imediato, que era a sala das sessões. Na sala das sessões estavam todos os restantes membros do conselho de administração, menos o Presidente, que andava de visita à Alemanha Ocidental.

Era um grupo notável. Incluía o gordo Stevens, que tinha poços de  petróleo no Texas, o magríssimo Harold, considerado o melhor causídico de Nova Iorque, o melífluo Vaganou, de origem francesa, e o tonitroante Vaterplatz, nascido de emigrantes prussianos e agora dono da mais moderna aciaria do Ohio.

– Então a coisa começou em Angola? – disparou Stevens sem mais preâmbulos. – Conte-nos os factos.

– Há pouco para contar – respondi, surpreendido com a seriedade daquela conferência. E em meia dúzia de palavras, relatei-lhes o assalto de 4 de Fevereiro e o motim do Cemitério Novo.

– Muita tropa, em Luanda? – fez Vaganou displicentemente, enquanto acendia um dos seus caros charutos.

– Quase nenhuma. E a pequena guarnição de Luanda é constituída quase só por nativos.

– Hé! hé! hé!... – gargalhou ruidosamente Vaterplatz. – Os seus compatriotas são um pouco inconscientes, não são?...

– Os portugueses não se assustam com pouco – retorquiu [sic] serenamente. – Estão em África há vários séculos...

– Respeito o seu brio nacional – sussurrou Harold, com aquele ar tímido com que gostava de iniciar as suas grandes tiradas forenses. – Mas receio que os portugueses não estejam por muito mais tempo em Angola... Julgo até que muitos deles já o compreenderam. Parece que há pânico em Luanda...

– Não há pânico em Luanda e ninguém pensa em abandonar Angola! – afirmei, vincando bem as palavras. – Os últimos acontecimentos são destituídos de qualquer importância e não afectaram o moral das populações."

 

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08
Fev 10

Maria Ondina Braga - Eu Vim para Ver a Terra

 

Maria Ondina [Braga] (1932-2003), Eu Vim para Ver a Terra (1965).

 

Embora vários autores portugueses dos séculos XIX e XX tenham passado pelo Oriente e reflectido, de maneira directa ou indirecta, essa estadia na sua literatura – vejam-se os casos de Wenceslau de Moraes (1854-1929), Camilo Pessanha (1867-1926) e Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), entre outros, Maria Ondina Braga surge no século XX como a principal autora portuguesa de ficção ligada a Macau, em particular, e à China em geral.

 

Este seu livro de estreia, Eu Vim para Ver a Terra, apresenta-nos um conjunto de textos sobre Angola, Goa (precisamente em 1961) e Macau, mas são as crónicas de Angola – A Terra, De Luanda a Salazar, De Salazar a Malanje, A Chuva, Cacimbo, Flor da Terra, Mãe Preta, Mercado Indígena, Velho Roque, Nova Lisboa, A Missão do Lombe e as Castanholas da Irmã Manuela, Páscoa – 1961, mais do que as de Macau, que acabam por nos cativar na sua sensibilidade e nos deixam a promessa de toda a literatura notável que a autora haveria de produzir posteriormente.

 

Surgem nestas crónicas fragmentos particularmente belos. A Chuva, Cacimbo, Flor da Terra, Mãe Preta e Mercado Indígena oferecem-nos a expressão de um lirismo a que não podemos ficar insensíveis e deixam-nos impressões de mundos que a maioria de nós apenas pressente. Como se a empatia da autora tivesse absorvido a fugacidade de universos momentâneos e os tivesse cristalizado em toda a sua beleza – a frescura dos aromas e das cores, a humidade e o calor da terra, a alegria e o sofrimento das gentes, criando um políptico perene que retira do húmus dessa terra o seu carácter profundamente humano.

 

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