30
Jan 17

Capelo e Ivens - De Angola á Contra-Costa (I)

 

Hermenegildo Capelo (Hermenegildo Carlos de Brito Capelo, 1841-1917) e Roberto Ivens (1850-1898) - De Angola á Contra-Costa: Descripção de uma Viagem Atravez do Continente Africano, volumes I e II (1886).

 

Tal como a anterior obra destes autores, De Benguella ás Terras de Iácca (1881), também estes dois volumes poderão ser incluídos na literatura de viagens, quando se confere a esta expressão um sentido lato.

 

Do capítulo V – Na Huilla, do primeiro tomo, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Logo que por qualquer circumstancia, como roubo, assassinio ou doença, o adivinhador é chamado por uma tribu, tudo ali se prepara para a ceremonia, que quasi sempre é depois do accaso do sol, escolhendo-se noites escuras, e parece que ás vezes na lua nova, a fim do feiticeiro poder tirar maior vantagem, impressionando a imaginação do publico com o contraste das trevas e do fogo, que para esse effeito ateiam em diversos pontos.

 

Reunidos todos os individuos da terra em vasto circulo, dentro do qual crepitam, como dissemos, fogueiras que pela sua luz tremulante dão á scena phantastico aspecto, colloca-se a meio o n'ganga, prompto e paramentado, a face riscada com traços de cores, um enorme pennacho, a cabeça ornada de chifres de antilope, um bilboquet na mão e ás vezes caudas de animaes á cinta. Junto a elle, em pequena esteira, vê-se uma panella de barro contendo certo liquido especial, pequenos paus dispersos, e uma cabaça cortada em fórma de bacia, com varios objectos, cuja vista causa espanto, e que seria difficil descrever.

 

Bagos de missanga, buzios, pequenas imagens de pau, arremedando um homem ou uma mulher, pedras, bicos de aves, garras, pés ressequidos de corujas, etc., que ahi o visitante póde notar boquiaberto.

 

De subito o adivinho solta um silvo, e agitando o bilboquet enceta uma dança grotesca.

 

As mulheres cantam em côro ao compasso das palmas, emquanto elle, aos saltos, percorre os grupos e observa attentamente os circumstantes.

 

Aqui pergunta, acolá responde; finge afastar-se, de subito volve, mira, affirma-se, e como esperto e observador, espera a todo o momento ver transparecer no rosto ou nos movimentos inquietos de alguemm a provas do crime.

 

Por vezes sáe do circulo, acocora-se, confunde-se com a multidão, e raro será que, no caso de roubo, o supersticioso auctor, estando presente, não se tráhia por algum signal.

 

Apenas iniciado volve, e, em pulos estranhos, approxima-se da esteira.

 

Acocorou-se. Eil-o de joelho em terra, cabaça de feitiços na destra, a mão esquerda estendida horisontalmente, a cabeça curvada, acenando a compasso.

 

Ligeiros impulsos dados no sentido vertical deixam ver os objectos contidos no interior, até que, repetindo o movimento com mais energia, um d'elles cáe no terreno.

 

Largando a cabaça apodera-se d'elle, mira com ar bestial por momentos, firme, emmudecido; depois começa com esgares e momices, que pouco a pouco exagera, escancára a bôca, e arregalando os olhos injectados de sangue, eil-o que se levanta, e em saltos vertiginosos percorre a arena como um louco!

 

Á luz pallida dos madeiros que ardem, esse homem sarapintado, agitando-se no meio das mais estranhas convulsões, narinas entreabertas, labios espumantes, parece um verdadeiro demonio, revestido de todos os attributos com que a imaginação adorna esta casta de creações!

 

Apoz a estranha lucta, cáe emfim extenuado e, estrebuxando, profere o nome da victima, que, cheia de espanto, pretende fugir, mas é acto contínuo agarrada."

 

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08
Dez 16

Castro Soromenho - A Voz da Estepe

 

Castro Soromenho (1910-1968), A Voz da Estepe (s.d. [c. 1956]).

 

Este opúsculo de 48 páginas republica dois contos do autor – A Voz da Estepe e Samba, que anteriormente haviam sido incluídos na sua obra Rajada e Outras Histórias (1943). 

 

Do conto que dá o título a este volume transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Um som vibrante de tambor quebrou o ar e foi levado pelo eco que o atirou planície fora. Matembele ainda tinha punhos fortes, mas ele próprio se surpreendeu com a violência com que tocara o atabaque.

 

– Velho, tu ainda estás novo! – disse-lhe um dos caçadores, o Capua, que desde rapaz só o tratava por velho.

 

Matembele riu e, entusiasmado como uma criança, recomeçou a martelar o tambor, para que todos ouvissem bem que começara a caçada a fogo de Dumba-iá-Cuito.

 

– O vento está bom – disse o velho, com a boca e os olhos a rirem.

 

E, entregando o tambor a um moço, empunhou o fuzil e dirigiu-se para o rio, abrigando-se à sombra da árvore, junto ao ancoradoiro.

 

Na linha azul do horizonte, começou a desdobrar-se uma serpentina de luz alaranjada, que em breve se transmudou numa faixa vermelha, como uma estrada de fogo entre o céu e a terra. De repente, rolou sobre essa faixa uma onda rubra que incendiou o céu, como um pôr de sol, e um rumor de mar encapelado correu sobre a planície, e com ele o vento trouxe uma onda de ar quente. E, de pronto, a voz da estepe acordou em todos os recantos.

 

Do capinzal largaram bandos de borboletas, de lindas e variegadas cores, em demanda da frescura rio, inquietadas com os rumores da planície. Matembele ficou-se a olhá-las com olhos de criança. Um grande pássaro negro riscou o espaço, batendo ruidosamente as asas sobre a cabeça do velho, e lançou um grito agoirento; e como se esse grito fosse aviso de desgraça a todos os pássaros da planície, logo o céu se encheu de asas das mais variadas cores, que se perderam para além do Cuilo.

 

Agora já não se enxerga a linha azul do horizonte. No céu que tomba sobre a terra reflectem-se as vagas de chamas que o vento ondula na planície. Ouve-se, num rumor distante, a respiração ardente da estepe. Os caçadores estão excitados com os rumores que vêm da planície e com a espera da caça. Para as bandas do rio, cruzam-se gritos de alegria selvagem, comentando a marcha do fogo e a violência do vento. Mas ainda não há sinal de caça, nas terras ribeirinhas e nas faixas que de um lado e do outro dividem a planície e são barreiras para o fogo e pontos de apoio de caçadores, porque, se o vento mudar de direcção, atirando com o fogo para ali, toda a caça que foge, em tropel, à frente do fogo, irá ao seu encontro.

 

Uma corpulenta pacaça e três tímidas gazelas, deitaram a cabeça para fora fora do capinzal, mas, logo que viram um dos caçadores, retrocederam precipitadamente. Ninguém deu um passo em sua perseguição, esperando pelo momento em que elas se viessem entregar à morte, quando já não pudessem suportar o calor ou açodadas pelo fogo. De repente, nas terras nuas da margem do rio surgiram, fugidos do capinzal, centenas de ratos, soltando guinchos e correndo como loucos, o que causou grande alegria aos caçadores que, por divertimento, os perseguiam com gritos e os chibatavam."

 

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21
Out 16

Castro Soromenho - A Maravilhosa Viagem

 

Castro Soromenho (1910-1968), A Maravilhosa Viagem (1961).

 

 

Da Primeira Parte, Capítulo Quarto, transcrevem-se três parágrafos:

 

"Vieram do Bailundo distante os primeiros homens que viveram nestas terras com o nome tribal de Sambos. Mas há mais de dois séculos que aqui vieram parar os Nhembas. O seu chefe edificou cubatas no alto de um outeiro, no meio de vasta planície cruzada por rios e riachos. Eram oleiros e viviam da sua indústria, mas também criavam gado e lavravam terras ribeirinhas. Um dia, guerreiros Bailundos, fugidos à ira do seu soba que, mesmo depois de lhes ter morto o chefe, não cessava de os perseguir, pararam no sopé do outeiro e intimaram os Nhembas a abandonarem a aldeia, porque esse lugar só podia ser morada de fidalgos, deles que eram filhos do chefe Sambo, morto na guerra. Medrosos, os pacíficos Nhembas desceram o monte e nesse dia os atabaques dos filhos do Sambo tocaram aos ventos altos da aldeia abandonada, e o povo fugitivo dançou o batuque dos mortos, para que a alma de sambo descansasse em paz.

 

Eram seis os filhos do soba Sambo, cinco rapazes, caçadores de elefantes e hipopótamos, e a moça Alemba, que os irmãos escolheram para rainha. Ali, ela fundou a libata e deu ao país conquistado sem sangue o nome de seu pai Sambo. Tempos depois, Alemba casou com um caçador Ganguela que ousara levantar o fogo das caçadas na planície do Sambos e depois agasalhara na aldeia do outeiro para nunca mais de lá sair, preso nos braços da dona da terra. Seguindo os passos desse jovem caçador, muitos Ganguelas seus amigos vieram morar no país do Sambo e nunca mais regressaram à terra de além Cubango. De outra banda, vieram guerreiros Galangues que trouxeram de presente a Alemba punhados de terra branca, que «é o símbolo da vida e preserva da morte». Ganguelas, Galangues e Sambos cruzaram-se entre si.

 

Alemba morreu de velha, mas ficou viva para sempre na memória e na saudade do seu povo. E treze sobas reinaram no país que ela fundou. Os filhos do último chefe foram educados numa missão católica e ganharam como baptismo nomes europeus. Mas não esqueceram os velhos deuses africanos. E nos momentos de desgraça, é para eles que se voltam, implorando aos «espíritos bons» que intercedam em seu favor junto desses deuses. E sempre que o soba encontra na libata uma serpente, o povo dá-se em sacrifício aos deuses, porque é a alma de Alemba que voltou à terra no corpo da serpente para exigir sacrifícios humanos. Então, os Sambos adoram a serpente. Corre o sangue do sacrificado e a serpente desaparece – e a alma de Alemba regressa ao seu mundo misterioso... O povo baila doidamente nos fadáros dos batuques e cantam-se velhas canções em louvor de Alemba, que é a alma do próprio povo... E a paz desce de novo sobre a terra que recebeu o sacrifício de sangue."

 

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04
Out 16

Geraldo Bessa Victor - Sanzala Sem Batuque

 

Geraldo Bessa Victor (1917-1985), Sanzala Sem Batuque (1967).

 

Essencialmente poeta, o autor havia publicado antes deste livro, o seu primeiro de "prosa de ficção", diversos ensaios e volumes de poesia. A sua primeira obra poética - Ecos Dispersos, foi publicada em 1941. Ainda na poesia, seguiram-se Ao Som das Marimbas (1943), Debaixo do Céu (1949), Cubata Abandonada (1958), obra que recebera o prémio Camilo Pessanha no ano anterior, e Mucanda (1964).

 

Neste volume reunem-se oito contos - A Filha de Ngana Chica, Duelo de Gigantes, O Pecúlio, É Proibido Brincar, O Comboio e o Navio, Domingas ou as Duas Faces da Alma, Chiula Chitacumba, Estudante e Carnaval. Embora alguns registos narrativos rocem superficialmente o anedotário, como em Chiula Chitacumba, Estudante, alguns outros traduzem inopinados dramas sobre a natureza humana, como em O Pecúlio.

 

Formado em Direito e exercendo em Lisboa, depois de ter sido bancário em Luanda, Geraldo Bessa Victor não esqueceu, contudo, algumas das problemáticas e das tensões sociais que se sentiam em Angola, dedicando particular atenção às que poderiam advir da mestiçagem, tema central em A Filha de Ngana Chica e É Proibido Brincar.

 

Deste último conto transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Lembrava-se bem de certos factos que lhe não deixavam dúvidas sobre a índole maléfica da comadre. Esta orgulhava-se ostensivamente de ter um «marido» mulato e de ser mãe de um filho mulato («O meu marido é mulato». «Sim, como sabes querida Hortense, o meu Julião é mulato». «Existe muita diferença entre um garoto preto-fulo, que pode considerar-se mulato porque é filho de mulato, e outro preto retinto, filho de pai e mãe pretos, não é verdade?». «Bem, minha querida, mulato não é o mesmo que negro, não achas?». «Ah, filha, não tenhas a menor dúvida, o branco não fala para o mulato como fala para o preto!»).

 

Tantas vezes Hortense sentiu vontade de lhe dizer cara a cara: «O teu marido, não; o teu amante, o homem com quem vives. O Bernardo, meu marido, é terceiro oficial da fazenda, ao passo que o teu amante, o Julião, é simples amanuense, inferior hierárquico do meu Bernardo». Susteve-se, porém, dada a disciplina da sua educação. tinha medo da linguagem biliosa e desenfreada que a comadre desalojasse das vísceras.

 

Certa vez, desabafou, sorridente, dissimulando em palavras serenas a fúria que lhe crescia no íntimo:

 

– Se eu quisesse ter um amante mulato ou mesmo branco, tê-lo-ia com facilidade; mas quis casar-me, e porque gostei do meu Bernardo, que calhou ser negro como poderia doutra raça ou cor, casei com ele. É um homem de valor.

 

A outra contestou, também com sorriso simpático, mas venenoso, e com frases também vestidas de aparente serenidade, mas achincalhantes:

 

– Não te iludas, querida! Um mulato é sempre olhado indubitàvelmente como pessoa civilizada, quer pelos brancos quer pelos próprios negros; mas um preto, ainda que muito educado e instruído, tem de provar primeiro que é efectivamente civilizado, senão olham-no e tratam-no como um indígena qualquer.

 

Hortense percebeu onde a outra queria chegar.

 

Um domingo, de manhã, Bernardo e Julião passeavam juntos por altura do Maculusso, nessa Luanda dos anos 30, quando um sipaio, aparecendo-lhes de chofre, berrou:

 

– Xê! A tua cabeça?

 

Foi Bernardo, o negro, e não Julião, o mestiço, quem sentiu uma voz muito funda a segredar-lhe dos recessos da alma violentada: «aquilo é contigo». Altivo, redarguiu, com rebuscada firmeza:

 

– Eu não pago cabeça, sou civilizado.

 

O sipaio escarneceu-o, com uma gargalhada gutural de rancorosa bestialidade, ao mesmo tempo que lhe assentava no dorso duas rijas chibatadas para o amainar:

 

– Civrizado, hem? Civrizado, negro de merda! Ó seu cabrão, você se atreve, seu negro, intrujar  a mim? Você és preto como eu, onde é que és civrizado? Você ainda és pior que a mim, seu monangamba!

 

Depois de lhe descarregar como remate uma formidável bofetada («leva já nesse mazumbo de mabeco!»), o sipaio agarrou-o e foi incorporá-lo, à esquina da rua, na muxinda de negros, alguns descalços e esfarrapados, que a rusga já caçara na sua ronda para seguir a caminho da esquadra. Aí apareceu meia hora depois o compadre Julião, que prudentemente não quisera interferir na operação policial e preferiu dirigir-se ao chefe, seu conhecido, para quem uma noite arranjara uma mulata boa em baile de rebita e de quem obteve a ordem de libertação de Bernardo.

 

Hortense sabia, desgostosa, que Genoveva narrava este incidente às amigas comuns, comentando-o e pondo nos olhos, como artista de comédia, uma expressão mista de magnanimidade e indignação:

 

– Não está certo! Até me revolto toda! O Bernardo, o meu compadre... Ele não é um preto qualquer, mas, sim, terceiro oficial da Fazenda! Mas, creiam, quando o meu marido falou como chefe da esquadra, seu amigo, este desfez-se em mil desculpas."

 

Este volume apresenta ainda, no final, uma lista de "vocabulário", com cinco páginas, onde se clarifica o significado de muitas expressões ou palavras de quimbundo empregadas ao longo das narrativas.

 

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27
Set 16

Reis Ventura - A 100.ª C. Cmds.

  Capa de J. A. Preto Pacheco (datas desconhecidas).

 

 

Reis Ventura (1910-1988), A 100.ª C. Cmds. (1970).

 

Na literatura colonial, o conflito armado que deflagrara na década de 1960 havia já sido explicitamente abordado pelo próprio Reis Ventura nos dois volumes de Sangue no Capim (1962), que o autor classifica como sendo volumes de contos, embora estes textos se aproximem mais da crónica, eventualmente ficcionada, e cheguem a incluir fotografias contemporâneas das chacinas e da actividade armada, e por Manuel Barão da Cunha (n. 1938) na obra Aquelas Longas Horas (1968), onde o autor evoca a sua vivência militar em Angola e na Guiné.

 

Na presente obra, de forma distinta do que acontecia naquelas, Reis Ventura cria um ambiente predominantemente ficcional, onde a acção de uma hipotética companhia de comandos traduz aquelas que seriam as eventuais acções reais desta tropa especial em Angola. Ao contrário do que acontecia em Sangue no Capim, não são centrais, aqui, as vivências e preocupações de colonos e civis; do mesmo modo, não tendo sido militar, Reis Ventura não poderia traduzir uma vivência do quotidiano semelhante à que Barão da Cunha experimentara.

 

Entrecruzam-se nesta obra narrativas da acção militar com enredos e relatos amorosos, transcrevendo-se de seguida uma passagem relativa a estes últimos:

 

"A notícia da «captura do Soutello», como logo chamaram ao avançado namoro do alferes, causou o maior espanto entre militares e civis: os militares representados por todos os camaradas da 100.ª Companhia de Comandos, e os civis pelas formosas «mini-saias» que também o queriam.

 

– Vocês já sabem a grande novidade deste século? – lançou o alferes Maninho, numa roda de amigos que saboreavam, no Restaurante Ilha, as famosas gambas grelhadas.

 

– Os marcianos desceram em Nova Iorque? – gracejou o alferes Vieira, depois de molhar a palavra no seu canhangulo de cerveja.

 

– Não.

 

– Apareceu, finalmente, um filme português aceitável? – interveio o Nebrasca.

 

– Não! – fez o inquirido com um trejeito de náusea.

 

– Baixou o preço do vinho em Luanda? – perguntou o Vouzela.

 

– Não!! – urrou o Maninho com mais força.

 

– O Soutello apanhou do pai de alguma menina? – lembrou o Vieira.

 

– Ainda não!!! – vociferou o interrogado.

 

– O que era então? – cantarolou o Vouzela, no tom da incrível cantiga brasileira.

 

– O nosso alferes Soutello caiu como um anjinho. Creio que vai haver pedido de casamento – declarou soturnamente o informador.

 

E todos pararam de comer.

 

Se lhe tivessem dito que o Dr. Agostinho Neto e o Holden Roberto, amiguinhos e de mãos dadas, iam a caminho do Palácio para se apresentar às autoridades, a surpreza dos quatro alferes não teria sido maior. Até se esqueceram de enorme pratada de gambas (cinco doses) que rescendia à sua frente. Depois, o Vouzela reagiu, sacudiu a cabeça num vento de cepticismo e declarou:

 

– É mentira!

 

– É verdade! – teimou o Maninho com a convicção de quem anuncia um facto histórico – O pedido de casamento pode verificar-se de um momento para o outro.

 

Caiu um novo silêncio, já de exame e ponderação, perante o estranho acontecimento.

 

– E quem o capturou? – perguntou de repente o Vouzela, no seu falar delicado.

 

– Sim: – reforçou o Vieira – quem foi a terrorista que lhe armou a emboscada?

 

– Uma loura chamada Hermínia Laranjeiro do Resgate – informou o Maninho – ele chama-lhe Mina e está pelo beiço...

 

– Está resgatado – ironizou o Vouzela.

 

– Está perdido, é o que está – corrigiu compungidamente o Vieira – Apanharam-no...

 

                                                               ***

 

– Apanhou-o, aquela sabidona! – dizia a Ti (o seu nome era Otília, mas a mamã tinha a mania dos monossílabos...), no cabeleireiro, para duas das suas amigas mais íntimas, que também se penteavam naquele pequeno clube de má língua – Como ela o apanhou, é que eu não compreendo!

 

– Oh! – fez a Terezinha Barreiros, com um momo de requintada malícia. – É fácil de compreender: fê-lo escorregar até ao irreparável...

 

– A que chamas tu «o irreparável»? – perguntou a Candinha Mané com um grande ar de ingenuidade.

 

– Morde aqui! – respondeu-lhe a outra com o indicador estendido – Ou queres convencer-me de que não percebeste?!

 

E riram as três.

 

Depois a Candinha vingou-se:

 

– Claro que percebi. Até percebi que estás cheia de ciumes...

 

– Eu, ciumes? Se o rapaz me interessasse, ainda era capaz de desfazer o noivado!

 

– Isso é que era giro! – aplaudiu a Ti – Porque não tentas?

 

– Porque não me apetece – declarou ela, afectando um infinito desdém.

 

Mas mentia com todos os seus bonitos dentes. E, nessa mesma tarde, teve artes de atrair o alferes a um encontro na praia.

 

– Caiste como um parvinho, Soutello – entrou ela, quando se deitaram na areia tépida, logo a seguir ao primeiro mergulho.

 

– É verdade! – concordou ele, aderindo ao tom de brincadeira.

 

– É uma pena! – corrigiu ela – Dentro de algum tempo, nem poderei conversar contigo...

 

– Não sei porquê?... não há mal nenhum em conversar. E eu ainda sou livre...

 

– Parece-te – ironizou ela – Há mulheres que sabem amarrar um homem como se fosse um paio. E a Mina é desse género.

 

– A Mina é uma boa rapariga – declarou o alferes, formalizando –. E eu não me sinto paio.

 

– Então não a deixes pensar que o és, meu menino – aconselhou a despeitada – Defende-te enquanto é tempo!

 

– Se me vir em perigo, peço a tua ajuda – bricou ele.

 

– E olha que sou bem capaz de ta dar. Para ajudar um homem contra uma mulher, não há como outra mulher. E eu gosto de ti...

 

– Porque não o disseste mais cedo?

 

– Porque nunca mo perguntaste..."

 

 

Através de um processo narrativo polifónico, pouco comum nas anteriores obras de Reis Ventura, introduzem-se neste romance diferentes visões que complementam o enredo, aparecendo assim registos narrativos sob os títulos Congeminações dum poeta, onde se apresenta a visão do alferes Nebrasca, e Deixem falar Sarilhos-Grandes, onde surge a visão de João Benfeito, um cabo a quem foi dada a alcunha correspondente à sua terra natal:

 

"Bem: tudo isto veio a propósito – ou a despropósito – das razões por que me ofereci para os comandos após curtos meses de comissão em Angola.

 

Quanto ao libertar-me da alcunha com que indevidamente me crismaram (eu até sou um tipo pacato e cumpridor...) fiquem sabendo desde já que perdi o pano e o feitio, para usar uma linguagem de alfaiate. Ainda eu estava na bicha da entrada para o quartel dos comandos, ali à esquerda de quem vai para Viana, nas antigas instalações do restaurante «Belo Horizonte», quando levei no focinho com o trapo encharcado:

 

«– Eh, Sarilhos-Grandes!»

 

Voltei-me para o berro que vinha mesmo de traz de mim e dei de ventas com o Felício, de trouxa a tiracolo e com aquela sua cara grande e risonha de penico das Caldas.

 

Já viram maior azar?!..."

 

É Sarilhos-Grandes, aliás, a personagem que concede ao romance a maior nota trágica individual. Por entre todas as mortes em combate aqui narradas, a sua surge já no final, pouco antes de a mulher dar à luz. O comandante do seu pelotão, o alferes Nebrasca, que conhecera o casal quando a encontrara na praia com o marido, é o encarregado de lhe transmitir, já na maternidade, a notícia do seu falecimento.

 

Nebrasca não surge apenas como «um poeta», assumindo-se por vezes como o que parece ser um alter ego do autor, particularmente quando nos são apresentados os poemas deste alferes, que evocam uma certa ideia de poesia patente quer em A Romaria (1934), quer em A Grei (1941), e Soldado que Vais À Guerra (1964), a sua posterior versão revista e refundida.

 

Efectivamente, é um longo poema "de Nebrasca", com mais de três páginas, que encerra este romance. Esta abordagem poética, entristecida e dolorosa, questionando a Infinita Bondade divina, remata com a afirmação: "Deixem falar «Sarilhos-Grandes»! / Quem disse que ele morreu?! / É sua, / bem acima da morte, / a voz daquele menino que nasceu, / saudável, belo e forte. / Deixem falar «Sarilhos-Grandes»... / A vida continua. / A Vida venceu!".

 

 

Transcreve-se de seguida uma das muitas passagens que, nesta obra, relatam episódios bélicos, desta vez conjugando a intervenção da força aérea com a acção dos comandos:

 

"O Acampamento «Muxixi» não se via do ar. Mas o Major Reimão sabia exactamente onde ele estava. Era dentro daquele tufo de arvoredo que já se avistava, lá adiante, quase no extremo visível da chana.

 

A esquadrilha de jactos tinha ultrapassado há três minutos a formação de helicópteros que, todavia, gastara quase um quarto de hora até chegar à orla da mata. Corria tudo OK. Os seus «asas» sabiam exactamente como proceder, porque tudo fora combinado logo depois de descolar da pista do Luso. E não era preciso agora usar as comunicações rádio, que poderiam alertar o Inimigo, roubando aos jactos a sua grande vantagem nesta guerra: o favor da surpreza que lhes confere a velocidade.

 

Embora sem ultrapassar a barragem do som, os F.84 voam tão próximo dela que, na prática, os terroristas só dão por eles quando já estão sob o seu fogo. «É avião danado que quando chega já passou, larga as rodas e morre tudo!», – diziam os bandoleiros da UPA, quando estes caças-bombardeiros começaram a operar em Angola, durante a segunda metade de 1961.

 

Hoje os homens do MPLA, aos menos os mais treinados pelos instrutores chineses e cubanos, já sabem que são bombas ou rockets o que os F.84 transportam perto das rodas recolhidas. Mas conservam quase o mesmo medo desses terríveis moscardos zumbidores, que lhes aparecem sempre de surpresa, picando vertiginosamente de entre as nuvens ou razando a copa das árvores como um vendaval da Morte. Se não conhecem antecipadamente os seus raids – o que é muito raro acontecer, porque a FAP sabe guardar os seus segredos – nem as sentinelas de ouvido mais apurado conseguem captar-lhe o silvar a tempo de avisar os camaradas. E depois de eles se revelarem aos ouvidos de todos com o seu característico ranger de toneladas de papel rasgado, desencadeia-se, quase sempre, uma cena de inferno. Passam e repassam, uns a seguir aos outros, sobre o alvo, despejando bombas devastadoras, lançando as serpentes coleantes e rugidoras dos seus «rockets», mordendo tudo com os dentes raivosos das suas metralhadoras...

 

Alguns turras mais corajosos, ou mais inconscientes, ainda disparam as suas armas para o ceu, embora à toa e sem fixar o alvo cuja velocidade lhes não dá tempo para nada. Mas o habitual é fugirem espavoridos para as suas furnas ou afocinharem no capim, colando-se ao terreno até que o furacão passe.

 

E foi isto que aconteceu nessa manhã, à roda do acampamento «Muxixi» do MPLA, logo que o F. 84 do Major Reimão picou contra aquele pedaço de floresta e largou as suas bombas. Uma das sentinelas, empoleirada na copa da frondosa mulemba, nem ouviu nada: – sentiu apenas um grande vento abrasador que lhe secou instantâneamente toda a seiva da vida, quase sem consciência  e sem dor. As outras saltaram dos seus postos de observação e refugiaram-se em buracos cavados junto à raíz das árvores, enquanto novas bombas rebentavam perto.

 

Lançando os seus pesados bilhetes de visita e cuspidos todos os seus «rockets», os jactos entraram em vôo razante, varejando em redondo com todas as suas metralhadoras.

 

Já então os primeiros helicópteros chegavam aos locais de pouso, prèviamente estabelecidos a pequena distância da mata. Desta vez coube à equipa do Sargento Santos o previlégio, pouco desejado, de saltar na vanguarda. Mas não houve ninguém a recebê-los com rajadas de metralhadora, como já lhes tinha acontecido uma vez, durante a Operação Antros, nos Dembos, felizmente sem consequências porque o alferes Maninho, que saltara entre os primeiros, abatera com um tiro certeiro o meliante que apontava a arma checa.

 

Agora, as sentinelas do acampamento «Muxixi» estavam demasiadamente assustadas com o fogo dos F.84, para levantar a cabeça das tocas onde se abrigavam. 

 

Num dos helis seguintes, que trazia a equipa do sargento Quintejo, o Trigueirão lembrou ao Sarilhos-Grandes que devia saltar com jeito...

 

... – Para não escaldares outra vez esse maldito chispe...

 

– Vê lá se tomas tento na língua – resingou o alvejado, muito sensível às piadas que aludissem a porcos. – Senão vou contratar um turra para te lavar com o cloreto das retretes...

 

Mas saltou como pé direito, e depois de se benzer devotamente contra as malas artes do diabo que o tinham deixado amarrado a um pé torcido durante a Operação Antros.

 

Dentro do horário fixado, os dois grupos de combate estavam desembarcados e desdobravam as suas equipas pelo Norte e Poente, enquanto o quarto e quinto grupos, vindos do Lumeje, começavam já a chegar em nova vaga de helicópteros, para fechar o cerco pelo Nascente e pelo Sul.

 

Já com a alvorada em expectativa dos primeiros raios do sol num céu limpo de nuvens, o Capitão Seabra olhou o seu relógio de pulso. Eram 6 horas e vinte e cinco minutos. Os jactos rugiam ainda, quase tocando a copa das árvores mais altas da mata. Mas o capitão sabia que, a partir daquele momento, o seu fogo cessara. Continuavam sobre o objectivo apenas para manter os bandoleiros colados ao terreno ou escondidos nos seus abrigos. E fez o sinal de iniciar a marcha para o «Muxixi».

 

Deixando a protecção que tinham escolhido com o aproveitamento de todas as pregas do terreno, os comandos fizeram uma rápida série de pequenas corridas através da chana descoberta e entraram na mata.

 

Minutos depois, começou a ladrar uma pistola-metralhadora.

 

As rajadas vinham da única sentinela que o medo dos jactos não impedira de olhar em redor. Curtas e bem espaçadas, denunciavam o combatente corajoso e bem treinado. E o Capitão Seabra, que avançava na vanguarda com a equipa do sargento Santos, fez o sinal de abrigar. Ele conhecia o perigo da marcha a peito descoberto contra um inimigo invisível. E obedecia às suas duas grandes preocupações de sempre: poupar os seus homens e não armar grandes tiroteios logo no início duma acção.

 

Dar poucos tiros era aliás uma das características dos comandos da Escola do Coronel Malaforte. Não porque se julgasse necessário poupar as munições. Apenas porque – dizia ele – «os comandos atiram apenas ao inimigo que vêem e com a certeza de acertar no alvo».

 

O Capitão Seabra aderira compenetradamente a esta doutrina. Sem outra família senão os seus homens, só arriscava quando necessário e sempre com inconfessada mas dolorosa preocupação. As acções rápidas, sem baixas e quase sem balas constituiam a sua predilecção de militar.

 

Abrigado por detraz dum morro de salalé abandonado das formigas e já meio esboroado pela erosão da chuva e do vento, o comandante da 100.ª CCMDS apurou todos os seus sentidos de oficial destemido e competente. Mas a sentinela, que também conhecia as pequenas manhas desta guerra, devia estar à espera de que os comandos se descobrissem. Era o sabido jogo das escondidas, numa espécie de luta copiada dos gangsters – pensou o capitão. E, usando um velho estratagema, que ainda resulta muita vez por explorar os reflexos semi-inconscientes da atenção espectante, catou no chão um calhau de bom tamanho e arremessou-o para diante, contra um tufo de espinheiras que via à sua esquerda, a uns oito metros de distância.

 

Alguns ramos do arbusto buliram com um barulho semelhante ao do cauteloso esgueirar de criatura viva. E logo uma gadanha de balas os ceifou rentes..."

 

 

Este volume inclui ainda, no seu final, nove páginas com referências críticas à obra do autor, onde se encontram apreciações de escritores como Amândio César (1921-1987), sobre Cidade e Muceque (1970), Fernando Pessoa (1888-1935), sobre A Romaria (1934), Guedes de Amorim (1901-1979), sobre Caminhos (1959) e Fazenda Abandonada (1965), João Gaspar Simões (1903-1987), sobre Quatro Contos por Mês (1955), Mário António (1934-1989), sobre Queimados do Sol (1966), Mário Mota (1916-1981), sobre Cidade e Muceque, e Rodrigues Júnior (1902-1991), sobre Queimados do Sol e Um Homem de Outro Mundo (1968).

 

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09
Jul 16

Orlando de Albuquerque - Alda Lara: A Mulher e a Poetisa

 

Orlando de Albuquerque (n. 1925), Alda Lara: A Mulher e a Poetisa (1966).

 

Volume de homenagem a Alda Lara (1930-1962), apresenta uma biografia da escritora, uma breve introdução à sua poesia e uma pequena antologia, intitulada Os Poemas Preferidos de Alda, onde se trancrevem treze dos seus poemas. 

 

Organizada pelo também médico, moçambicano radicado em Angola e seu marido, Orlando de Albuquerque (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/4664.html), este opúsculo apresenta ainda, em extra-texto, seis fotografias de Alda Lara, seus quatro filhos e sua família, sendo a última uma imagem da poetisa e seu marido, e da restante equipa cirúrgica, em pleno labor numa sala de operações em Cambambe.

 

No final deste volume refere-se ainda o seguinte – "O produto integral da venda deste livro, edição e propriedade do autor, destina-se à Fundação Alda Lara de Albuquerque, instituição em organização". Embora esta obra ostente na sua abertura a data de 1966, o seu cólofon regista os seguintes dados – "Composto e impresso na / Gráfica da Huíla, Lda. / Sá da Bandeira – 1967".

 

Recorde-se que, já depois de 25 de Abril de 1974, Amândio César (1921-1987) publicou um estudo sobre esta poetisa (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/658.html) e note-se, ainda, que a poetisa Alda Lara era irmã do escritor Ernesto Lara Filho (1932-1977).

 

Transcreve-se de seguida o poema Presença Africana, escrito em Benguela e datado de 1953:

 

"E apesar de tudo,

 ainda sou a mesma!

 Livre e esguia,

 filha eterna de quanta rebeldia

 me sagrou.

 Mãe-África!

 Mãe forte da floresta e do deserto,

 ainda sou,

 a Irmã-Mulher

 de tudo o que em ti vibra

 puro e incerto...

 

 A dos coqueiros,

 de cabeleiras verdes

 e corpos arrojados 

 sobre o azul...

 

 A do dendém

 nascendo dos abraços das palmeiras,...

 A do sol bom, mordendo

 o chão das Ingombotas...

 A das acácias rubras,

 salpicando de sangue as avenidas,

 longas e floridas...

 

 Sim!, ainda sou a mesma.

 A do amor transbordando

 pelos carregadores do cais

 suados e confusos,

 pelos bairros imundos e dormentes

 (Rua 11!... Rua 11!...)

 pelos negros meninos

 de barriga inchada e olhos fundos...

 

 Sem dores, nem alegrias,

 de tronco nu

 e corpo musculoso,

 a raça escreve a prumo,

 a força destes dias...

 

 E eu revendo ainda, e sempre, nela,

 aquela

 longa história inconsequente...

 

 Minha terra...

 Minha, eternamente...

 Terra das acácias, dos dongos,

 dos cólios baloiçando,

 mansamente...

 Terra!

 Ainda sou eu a mesma.

 Ainda sou a que num canto novo

 puro e livre,

 me levanto,

 ao aceno do teu povo!"

 

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13
Jun 16

Eugénio Ferreira da Silva - Trovas Malditas

   Capa de Montoya (datas desconhecidas).

 

 

Eugénio Ferreira da Silva (1917-), Trovas Malditas (1971).

 

Volume que não surge devidamente catalogado em alguns dos registos bibliográficos do autor, Trovas Malditas segue-se ao seu primeiro livro de poemas, Arco-Íris (1962), obra publicada por uma das instituições oficiais do regime – a Agência-Geral do Ultramar (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/tag/ag%C3%AAncia-geral+do+ultramar).

 

Este novo livro, aparentemente em edição de autor, transcreve algumas das apreciações que haviam sido feitas a Arco-Íris, onde se pode ficar a saber que o autor havia nascido no Lobito e que era professor de desenho em Vila Franca de Xira.

 

Aqui se transcreve também uma crítica publicada no Jornal de Notícias, onde se declarava – "Eugénio Ferreira da Silva foi amigo de António Ferro. Neste seu livro [Arco-Íris] mostra-se incomodado com os acontecimentos na sua terra e toma partido por uma solução «lusíada» do conflito, para empregar a sua própria expressão." Apesar do que ali se afirma, uma leitura daquele volume de 1962 não permite uma conclusão inequívoca sobre o partido que o autor toma perante o conflito.

 

De facto, estas Trovas Malditas apresentam determinadas características que agitam essa problemática, nomeadamente através de algumas das dedicatórias que antecedem os poemas, como as dedicatórias a Jorge de Sena – "A Jorge de Sena / com admiração pelo homem esclarecido / e de profundas convicções literárias" e a Bento de Jesus Caraça – "Ao saudoso Prof. Dr. Bento de Jesus Caraça. / Ao homem extraordinário que muito contri- / buiu para a formação moral do jovem que o / admirava."

 

Este último poema e a sua dedicatória, aliás, motivaram uma nota do autor, que veio sublinhar tal ambiguidade – "Este soneto [o derradeiro da colectânea, intitulado... Revolta] foi escrito numa atmosfera de lutas político-sociais por volta dos anos 30 e nada tem que ver com o actual Governo o qual seja justo proclamar, se movimenta numa dinâmica segura a que estávamos pouco habituados."

 

Como acontecera no anterior volume, também este Trovas Malditas apresenta poucos poemas directamente relacionáveis com África. Apenas dois – Inconsciência e Tarde de Bruma, num total de noventa e quatro.

 

Transcrevem-se de seguida Psicose, o soneto dedicado a Jorge de Sena, e Inconsciência, que surge antecedido da dedicatória "Ao poeta Mário António / – meu patrício":

 

 

"Psicose

 

Músculo e cérebro – pólos antagónicos

Deste chiqueiro que me torna inerme...

Que grande é ver na época do verme

O fruto dos eflúvios histriónicos!...

 

Ver na gama profusa da paisagem

Confundirem-se uns outros novos seres!...

Ver um «Mercúrio» em conjunção com «Ceres»

Confundir-se no falso duma imagem!...

 

Mas que agradável esta barafunda,

Esta incoerência doida que me inunda

A própria alma de revolta e grito!...

 

Sinto os nervos a arderem-se partidos!

Sobre a paleta destes meus sentidos...

Tangendo ainda mais alto o meu conflito!..."

 

 

"Inconsciência

 

Agora,

Agora que tudo são balizas

Postas perigosamente nos direitos do homem...

Agora que no horizonte a curva continua frustrada...

E permanece o nojo às coisas rectilíneas...

Ódios e fumos de metralha!

Feitiçaria na arqui-volta do tempo...

E em torno da fogueira,

Chamam-se os espíritos maus e os lobisomens...

Sabém [sic] lá os negros o que é desumanidade!

Sabem lá os negros o que é ignomínia...

Sabem lá eles o que é ser canalha,

Sem que alguém lhes leve a provisão dum dicionário...

O Céu ao longe, meu Deus! Traz um arco-Íris [sic] sem motivo

E, aqui no terreiro, crianças brancas e negras

Brincam com um disco de Newton..."

 

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02
Mai 16

Ferrão Cardoso - Terra, Sol e Aventura

 

Ferrão Cardoso (Jorge Ferrão Cardoso, datas desconhecidas), Terra, Sol e Aventura (1956).

 

Antes desta obra, Ferrão Cardoso havia publicado, em 1948, numa edição de autor, o volume de contos intitulado Caravana, anunciando-se aqui em Terra, Sol e Aventura a futura publicação de crónicas de viagem, sob o título Aguarela Africana, e um romance intitulado A Grande Metrópole, títulos sobre os quais não foi encontada notícia ulterior. 

 

Posteriormente, publicou ainda um conjunto de crónicas sob o título Gesta das Terras Distantes (1962), O Aprendiz de Poeta (2002), um livro de poesia, e um novo livro de crónicas, que eventualmente será uma versão revista e aumentada de Aguarela Africana, intitulado Aguarela Nómada (2010).

 

De ascendência transmontana, Ferrão Cardoso nasceu no Porto e viveu parte da sua infância em Angola, no Huambo, passando depois a viver em Lisboa. Fez os seus estudos universitários em Coimbra, onde se licenciou em Medicina, regressando posteriormente a Lisboa, onde exerceu a especialidade de otorrinolaringologia no Hospital de Santa Maria.

 

Este volume reúne 14 contos, entre os quais o último, As Digestões Calmas, evoca as suas memórias e origens transmontanas, através da acção localizada em Vidago e na serra da Padrela. De todas estas narrativas, apenas Estrada de Damasco, Rotina, "Amuna" e Caboclo apresentam claramente localizações espaciais exteriores a Portugal continental.

 

Do conto Rotina transcrevem-se os primeiros parágrafos:

 

"Separadas meia milha, as duas margens do rio eram fechadas, densas de vegetação. Havia algumas boias balizando o trajecto navegável e pontões espalhados dos dois lados, rio fora.

 

Entre eles, num vaivém constante, o vaporzinho "Flor do Minho" com uma reduzida tripulação de negros e o capitão João de Deus conhecido em todo o mato.

 

Quando havia paquete, o vaporzinho descia o rio até ao litoral e voltava mais garrido, carregado de notícias frescas da metrópole e novos colonos. Até ao entreposto funante, quatro dias de viagem rio acima, o capitão João de Deus tinha tempo de cumular os recém-chegados de todas as atenções possíveis, e, ao mesmo tempo, conhecê-los e aconselhá-los. Pelos conselhos não levava nada, e a conversa era um entretenimento.

 

A coisa era sempre igual. E quando, no regresso, o vaporzinho chegava ao povoado do interior, lá estava a voz roufenha do velho Dôres perguntando «Como está o litoral?», e ele sempre respondendo «Salgado, salgado...», antes de começar a contar as novidades.

 

Viera para África ganhar dinheiro, magoado e insatisfeito como pouco que a vida lhe dera até então, mas depois, com o tempo, toda essa excitção passou. O dinheiro deixou de interessá-lo duma maneira absorvente, e ficou fazendo parte da paisagem, vendo chegar os outros, à cata do velo de oiro, inquietos e aventureiros como ele outrora.

 

Ia buscá-los ao paquete, assustados com o mundo estranho com que sùbitamente deparavam, e subia com eles o rio até ao entreposto. Aí, as casas aviadoras espalhavam-nos pelo interior. Eram duras provações. Mas depois, se havia sorte, lá estava o regresso, o capitão e o seu «Flor do Minho» para os trazer ao mar, a apanhar o navio que vinha da costa oriental rumo à metrópole."  

 

Hoje, o cais do litoral já não era mais um paredão tosco, com madeira meio apodrecida, enterrada na água. Tudo agora era uma sólida estrutura de concreto e grandes imóveis com ruidos de máquinas de escrever, e camaradas de óculos e caneta na mão davam àquilo um aspecto de confusão e dificuldade. João de Deus e o seu vaporzinho tinham que satisfazer uma data de papelada cada vez que lá iam, mas havia ainda os bons amigalhaços, a cerveja no Coelho, linguareiro como dantes, e sempre se conseguiam uns momentos bem passados. Quando zarpava rio acima, o capitão nunca ia desiludido.

 

João de Deus envelheceu e engordou, os pais morreram, a Gracinda já não está solteira, nem nova, nem o espera, e a aldeia, o regresso e as terras do Floripes pegadas com o seu Ribeiral não têm mais o interesse de antigamente.

 

Dantes, quando o navio partia, doía-lhe vê-lo ir-se. Quando o seu vulto acabava por desaparecer lá longe, no horizonte, tudo lhe parecia mais solitário ainda, e sentia uma grande tristeza. Era quando mais recordava todas as coisas deixadas.

 

Mas agora, quando isso acontecia, estava normalmente a beber cerveja no Coelho ou ainda às voltas com a papelada nalgum daqueles gabinetes difíceis, e os apitos do barco, ao partir, nem sequer o distraíam. Desaparecido no mar, a paisagem ficava igual.

 

E quando, depois, à noite, subia o rio, entre as duas margens negras, com o céu tranquilo no alto, João de Deus sentia que tudo aquilo era o seu lar, o único lar que viria a ter na vida. Não havia mais dúvidas."

 

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04
Abr 16

Vitor Silva Tavares - Hot e Etc.

 

Vitor Silva Tavares (1937-2015), Hot e Etc. (1964).

 

Até à data de publicação desta obra, Vitor Silva Tavares havia desenvolvido, na metrópole, obra como pintor, repórter, colaborador literário de jornais e revistas, colaborador da RTP, onde também surgiu como actor, e cenógrafo. Já em Angola, foi jornalista em Benguela, onde colaborou com O Intransigente, e dirigente cine-clubista, tendo realizado, em 8mm., o filme Uma História do Mar.

 

Ecoando o título do opúsculo aqui apresentado, e transpondo homonimamente o título do magazine cultural do Jornal do Fundão, criado por si em 1967, e da revista que lhe sucedeu, entre 1973 e 1974, Vitor Silva Tavares fundou em 1974 uma pequena editora, denominada &etc, que durante mais de quarenta anos haveria de se tornar numa editora de culto e referência entre autores e leitores. 

 

Posteriormente, publicou 2 Textos à Pressão (sem data), prefaciou Como Quem Não Quer a Coisa (1978), de Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004), bem como obras de diversos outros autores, particularmente nas edições &etc. A par da sua actividade editorial, que inclui ainda a direcção da Ulisseia na década de 1960, desenvolveu também extensa actividade como tradutor.

 

Foi ainda co-autor de Ara (1984), com Paulo da Costa Domingos (n. 1953) e Rui Baião (n. 1953), e Poesia em Verso (2007), com Afonso Cautela (n. 1933) e Rui Caeiro (n. 1943), colaborando também no Manifesto contra o desastroso encerramento das livrarias da Cidade de Lisboa no centenário da Livraria Sá da Costa (2013). Em 2015 publicou um conjunto de poemas intitulado Púsias.

 

O presente volume, que, numa nota introdutória, anunciava ter Vitor Silva Tavares em vias de publicação o livro Exposições de Poemas (de que não foi encontrada notícia posterior), reune três textos em prosa – Nada de Importância, Hot e Bop, por onde perpassam, até na sua estrutura narrativa, nítidas influências musicais, particularmente do jazz, e referências a figuras como Frank Sinatra, Miles Davis, Mozart, The Jazz Messengers e Vivaldi.

 

Do conto/crónica Bop transcreve-se a parte final do seu único parágrafo:

 

" (...) O largo despovoa-se, estamos sós, a cidade foi dormir, amanhã há negócios a tratar. Falemos. O cronista não consegue registar o que quer que seja. Também ele está gasto de tanta palavra gasta. Gozemos com Pimpão. Jaimito desforra-se e zurze o orgão cardíaco do bom gigante. Mais cerveja e a festa anima. Decidimos visitar a boite do Hotel. Jaimito, que tal um show? Cá vamos, cantando e rindo. A boite exibe um ar diabólico, pintalga de labaredas toda a fauna. Conferimos as finanças e pedimos um só uísque. Vão roubar gatunos! Encostamo-nos ao balcão do bar. O pianista tecla uma melodia a carácter. Há três pares de atrasados mentais a deslizar na pista. Tudo muito chato. Às tantas, empurramos Jaimito para a bateria. Os românticos vão apanhar ar (que está húmido e fedorento) e começa a função. Jaimito mostra-se um tanto contraído, inclina-se para os tambores, busca a intimidade. Agora vê-se que descobriu qualquer coisa, os músculos distendem, já sorri para a malta. Vamos, seu Jaime, isso mesmo, está bem, está bom, YES SIR! Vem o gerente e recomenda compostura, muito gerentemente. Compostura, o raio que o parta! Saímos. Pimpão, não se arranja um carro? Só se for o da professora, mas já é tão tarde... Que se lixe! Vamos bater à porta da professora, uma cinquentona camarada. Ainda não se deitou, manda-nos entrar, oferece-nos ginguba e cerveja. Quanto ao carrinho, sim senhor, está muito bem, mas cuidado, an? É escusado recomendar, beijinhos à professora, by by. Voamos para o Benfica. Há festa cabo-verdiana, o petromax desenha um rectângulo de luz na escuridão da rua. Marchinhas brasileiras, em 78: a inconcebível geringonça sonora berra o ritmo popular e há camaradas autóctones a dar à perna. E pó e suor e olhos doces e dentes a luzir. Vamos a isto! Encontro-me enfaixado num corpo sinuoso e deixo-me abandonar. Cresce o frenesim, duas tipinhas imitam a dança do ventre e eu já não sei de que terra sou, no literal sentido da expressão. Há alguém que paga uns copos e todos bebemos a mistela, que é de estalo, pois então!... Um cara promete valente churrascada para o almoço de amanhã, mata porco, recebeu verde do Puto e quer reunir tropa à sua mesa. OK, português! A fraternidade escorre dos poros com o suor. A minha parceira chama-se Rosa e eu tenho pena dela e amo-a, amo-te Rosa, sabes?, a sério mesmo, e ela olha-me com aqueles seus olhos africanos e eu fico perplexo, à porta de um segredo, é só entrar e criar raízes. Ouço agora um escarcéu dos demónios e vamos ver o que é. Dois cow-boys resolveram armar sururu e o mais rabioso puxa do revólver e há gritos e fugas histéricas. Devo estar a sonhar. Um tiro rebenta com o petromax e a Rosa pisga-se-me dos braços. Amalgamado de corpos delirantes, deixo-me desaguar na rua. Que festa mais formidável!... A companhia já está no carrro e pomo-nos na alheta, num explosão de pó. Rumo: Lobito. Há um bar que fecha lá para as quatro da manhã, bar de marítimos. Pimpão, tens massas? E tu, Jaimito? Eu tenho 12 angolares e o Mário 7. Dá para umas Cucas. Aterramos no bar, há um alemão muito grosso, muito deutsch, a rosnar por mais bier e o empregado diz-nos ao ouvido que aquele tipo tem já a sua conta, de modo que vá beber a «birra» para a terra dele. O problema é do alemão, claro, também os alemães têm direito a problemas, razão por que nos sentamos pacatamente e bebemos Cucas, enquanto o louro germano dá murros no tampo da mesa. O ambiente está miserável e o melhor que temos a fazer é regressar a Benguela, home sweet home. Entramos na cidade a 120, contornamos a Praça da Câmara e, num banzé apreciável, travamos junto à cancela da nossa casa. Pimpão quer ouvir o Frank Sinatra naquela da solidão, mas mandamo-lo lixar e salta o Jazz Massengers [sic] para o prato. Mário vai buscar o que resta do VAT, Jaimito estira-se no divã e eu estou a coçar o joanete, que me doi como o raio! Ora bem: a África crepita e nós respiramos o ar da maldição. Já nascemos nesta atmosfera, atrofiados de imbecilidade histórica. O reino do silêncio e da vergonha. Quem ouvirá os nossos gritos? E quando? E onde? A conversa está melodramática, pelo que, com vossa licença, vamos despir as farpelas (excepto o Jaimito, por óbvias razões), enfiar os slips e mergulhar no Atlântico. Mergulhar mesmo. Mergulhar. Mergulhar."

 

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22
Mar 16

Ruy Burity da Silva - Cantiga de Mama Zefa

 

Ruy Burity da Silva (n. 1940), Cantiga de Mama Zefa (1969).

 

Nascido no Lobito, o autor estudou no Ambriz e posteriormente em Nova Lisboa (actual Huambo). Nesta cidade frequentou a Escola Industrial e Comercial de Sarmento Rodrigues, onde foi galardoado por um poemeto intitulado Natal, que ali foi depois declamado precisamente num recital natalício.

 

Em 1963 passou a integrar o Centro Juvenil de Estudos do Huambo, departamento dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Nova Lisboa, que veio a promover a publicação de uma página quinzenal no jornal O Planalto, um programa semanal no Rádio Clube do Huambo e a criação de boletim interno destes serviços.

 

Em 1964 ganhou os Jogos Florais de Nova Lisboa, com o poema Marimba, tendo-se mudado para Lisboa em Dezembro, onde passou a trabalhar nos Serviços Culturais da Companhia de Diamantes de Angola. No ano seguinte reuniu a sua poesia, escrita entre 1955 e 1960, no livro Ochandala, assinado Ruy Silva e publicado em Nova Lisboa.

 

Posteriormente, veio a  integrar a equipa que promoveu a exposição A Arte de um Povo de Angola – Quiocos da Lunda, que decorreu em 1966 na Casa do Infante, no Porto.

 

Para além de artigos dispersos nos jornais O Planalto, de Nova Lisboa, A Província de Angola, de Luanda, Jornal do Comércio, de Lisboa, e Alvorada, da Lourinhã, colaborou também no Boletim da Agência-Geral do Ultramar.

 

Em 1969 anunciava-se a publicação do seu volume de poemas Foi Assim..., que acabou por sair em 1971 com chancela da Sociedade de Expansão Cultural, e a preparação do volume ...Também Já Fomos Um, de que não foi possível encontrar qualquer registo. 

 

É provável que a eventual fixação de residência do autor em França, ocorrida ainda antes do 25 de Abril de 1974, tenha motivado a não publicação deste último livro. Há notícia, que não foi possível confirmar, de que o autor terá regressado a Angola depois de 1974.

 

Do presente volume transcrevem-se dois poemas, Ndongo e Cantiga de Mama Zefa:

 

NDONGO

 

Dos vales e das montanhas. Dos mares e dos rios. Das florestas e savanas...

Lembranças de saudade.

Onde chingufos mil se elevam em uníssono com 

o matraquear estonteante dos carros que passam.

Lavas de pranto incandescente se erguem das sonatas doloridas dos quissanges.

O silêncio.

O universo aberto em espaços infinitos onde saltam ridentes cores em simbiose.

Um dongo sulcando águas revoltas de rio escuro de cantares sombrios.

Música.

Caravanas cruzando estradas em passos arrastados de fadiga.

Música.

Até no choro profundo dos vivos em homenagem

derradeira aos mortos que partem há música.

Letras de alegria.

Letras de lágrimas ardentes.

 

Poesia estranha de estranho poeta que ninguém 

conhece. Para lá dos seus poemas que existem, tudo é silêncio.

E indago:

Quem és tu estranho poeta que cantas os vales,

As montanhas, os mares, os rios, as florestas e savanas?...

Silêncio!

Cantas e  teu povo canta também.

Vibras e vibram contigo almas estranhas

que guardam segredos fecundos de vidas passadas.

No anonimato em que persistes vives constante.

Pertenças ao presente, ou ao passado.

Morto, ou vivo.

Existes sempre presente no eco repetido dos teus

cantares e na sonata triste dos tocadores de quissanje.

 

 

 

CANTIGA DE MAMA ZEFA

 

Ainda me lembro dela

matrona forte desengonçada

tinha sempre uma oração nos olhos

uma canção nos lábios grossos

 

dorme menino dorme

oh! oh! oh! oh! oh!

cazumbi não está vir

mama Zefa tá lh'olhar

 

tinha ciúme do menino

de quem mama Zefa falava com paixão

um dia perguntei com ansiedade

se o menino seria assim como eu

 

mama Zefa olhou-me tristemente

e com lágrimas na voz cantou

– não fala assim meu menino

Deus não faz filho mulato

 

Veja-se um comentário a este livro, destinado a ser gravado em 12 de Novembro de 1969, para o programa literário da Emissora Nacional intitulado Horizonte, da responsabilidade de Amândio César e Mário António, e a transcrição de um outro poema do autor, aqui: http://museu.rtp.pt/app/uploads/dbEmissoraNacional/Lote%2041/00014007.pdf.

 

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