03
Mai 10

João Alves das Neves - Poetas e Contistas Africanos (II)

 

 

João Alves das Neves (n. 1927), Poetas e Contistas Africanos (1963).

 

Para esta colectânea o autor seleccionou diversos textos em prosa, com particular relevo, pela sua quantidade e diversidade ficcional, para autores de Angola, Cabo Verde e Moçambique. 

 

Assim, encontramos neste volume excertos, ou transcrições integrais, de O Enterro de Nhá Candinha, de António Aurélio Gonçalves (1901-1984), A Caderneta, de Baltasar Lopes (1907-1989), No Terreiro do Bruxo Baxenxe (1959; cf. http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/10120.html), de Manuel Lopes (1907-2005), e O Rapaz Doente (1963; cf. http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/3552.html), de Gabriel Mariano (1928-2002), em representação de Cabo Verde; excertos de Auá (1934; cf. http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/7517.html), de Fausto Duarte (1903-1953), e Louvam-se Irãs, de Alexandre Barbosa (datas desconhecidas), em representação da Guiné-Bissau; um excerto de Amy-Só, de Fernando Reis (1917-1992), em representação de S. Tomé e Príncipe; excertos de Samba, de Castro Soromenho (1910-1968), A Pessoa não tem Coração, de Óscar Ribas (n. 1909), Aiué, de Cochat Osório (1917-2002), Companheiros, de Luandino Vieira (pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), e A Revelação, de Artur Carlos Pestana (ortónimo de Pepetela, n. 1941), em representação de Angola; e excertos de Muende, de Rodrigues Júnior (n. 1902), O Moleque do Violão, de Guilherme de Melo (n. 1931), Gandana, de Nuno Bermudes (1924-1997), História de Sabão, de António de Almeida Santos (n. 1926), e O Mar Chama por Mim, de Vieira Simões (datas desconhecidas), em representação de Moçambique.

 

Embora alguns destes escritores tenham sido, e vindo a ser, publicados na colecção Unidade, da Agência-Geral do Ultramar, sobressai desta selecção do autor uma preferência por escritores que não estavam conotados com o regime, ou que abertamente o contestavam, com particular destaque para os casos de Luandino Vieira, Pepetela (pseudónimo de Artur Carlos Pestana) e Almeida Santos.

 

Anos mais tarde, contudo, a colectânea Antologia do Conto Ultramarino (1972), promovida pelo regime e organizada por Amândio César (1921-1987), não deixou de incluir muitos dos autores aqui mencionados, como António Aurélio Gonçalves, Baltasar Lopes, Fausto Duarte, Fernando Reis, Castro Soromenho, Cochat Osório, Óscar Ribas, Guilherme de Melo, Nuno Bermudes e Rodrigues Júnior.  

 

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28
Fev 10

Fausto Duarte - Auá

 

 

Fausto Duarte (1903-1953), Auá (primeira e segunda edições, 1934).

Na capa, fotografia de Francisco de Oliveira (datas desconhecidas), exibida no Salão Internacional de Fotografia, Paris, 1933.

 

Com esta obra, Fausto Duarte recebeu o primeiro prémio de literatura colonial para 1934, tendo publicado posteriormente O Negro sem Alma (1935), Rumo ao Degredo (1938), A Revolta (1945) e Foram estes os Vencidos: Contos (1945). Neste último volume anunciava-se ainda a preparação do romance Os Escravos, de que não há registo de publicação.

 

Pouco antes de falecer, foi ainda guionista do filme Sortilégio Africano (também conhecido como Chikwembo!, 1953), realizado por Carlos Marques (datas desconhecidas).

 

Surgindo numa linha que se assume de algum modo como herdeira das obras de análise social e retrato psicológico de Abel Botelho (1854-1917; cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/18759.html) – o próprio autor, na introdução, declara "Auá – documentário etnográfico – é também um novo capítulo da psicologia indígena." – este texto, para além de incluir diversas expressões em língua Fula, inclui ainda largas passagens em Alemão, factos que contribuem para um certo hermetismo do discurso narrativo. A isto soma-se também um constante recurso a palavras eruditas, em Português, que afectam a fluência discursiva e originam certa perplexidade na leitura, como se constata no seguinte excerto:

 

"Em Sare-Sincham a algazarra era infernal. Centenas de indígenas espalhados pela  tabanca envolta na clâmide branca do luar que descia incorpórea do plenilúnio, escutavam a toada rítmica dos balafons e as melodias árabes que os judeus, tocadores de nhanhero, cantavam com esgares de escárnio. Pouco a pouco formava-se o círculo onde o côro das raparigas fulas, vestidas garridamente para a festa, palmeava acompanhando a cadência ruïdosa dos tambores."

 

A narrativa desenvolve-se à volta de Malam, um Fula que vive em Bissau e se desloca à sua tabanca, Sare-Sincham, para desposar Auá. O percurso entre estas duas localidades, atravessando Mansoa, Bafatá, Geba e Contubo-el serve de pretexto para pequenas descrições da paisagem e das populações guineenses, culminando com a estadia na zona de fronteira que é Sare-Sincham e a referência a alguns usos e costumes das tabancas das redondezas – Cadembele, Malibula, Patinbal-a e Sare-Bailela.

 

Tal como em Na Terra do Café (1946; cf. http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/4526.html) de Metzner Leone (1914-1987), um feiticeiro-curandeiro indígena, o marabu Issilda, aproveita-se do seu estatuto para forçar situações de intimidade com as personagens femininas. Neste caso, a situação conduz a um desenlace desagradável para todas as personagens principais, culminando com a morte de Issilda e a separação entre Auá e seu marido Malam.

 

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13
Fev 10

Julião Quintinha - Novela Africana

Literatura Colonial Portuguesa

Capa de Bernardo Marques (1899-1962), ilustrações de Vasco ("Olmo", datas desconhecidas; Vasco Lopes de Mendonça?, 1881-1963).

 

Julião Quintinha (1885-1968), Novela Africana (1933).

 

Jornalista e ficcionista, Julião Quintinha produziu durante a década de 1920 dois pequenos livros de ficção com bastante sucesso, os quais alcançaram novas edições em pouco tempo – Vizinhos do Mar (1.ª edição, 1921; 2.ª, 1923; 3.ª, 1929. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/163465.html) e Terras de Fogo (1.ª edição, 1923 ; 2.ª edição, 1925). Tal não sucedeu com outras obras do mesmo período, como Dor Vitoriosa – Novela Vermelha (1922) ou Cavalgada de Sonho (1924).

 

No final dessa década, e na década seguinte, Quintinha começou a debruçar-se insistentemente sobre questões africanas e coloniais, através das suas crónicas e reportagens: África Misteriosa – Crónicas de Viagem (1929), Oiro Africano – Crónicas de Viagem (1929) e Terras de Sol e da Febre – Reportagem em Colónias Estrangeiras (1932). Publicara também, entretanto, um "esboço histórico" – Derrocada do Império Vátua e Mousinho d'Albuquerque (1930), em colaboração com Francisco Toscano (1873-1943).

 

Quintinha desenvolvera relações com vários artistas do modernismo, destacando-se entre eles o seu conterrâneo (eram ambos naturais de Silves) Bernardo Marques, que ilustrou capas de algumas das suas obras, bem como com o jornalista e ficcionista António Ferro (1895-1956). Em 1933, Ferro foi nomeado  director do recém-criado Secretariado da Propaganda Nacional (SPN; mais tarde SNI), a agência de propaganda do Estado Novo. A Agência Geral das Colónias, fundada ainda durante a I República, em 1924, sofreu novo impulso com o Estado Novo e passou a traduzir a nova política do governo na recuperação do conceito de império colonial.  Surgiu assim a Exposição Colonial do Porto, em 1934, coordenada por um outro africanista entusiasta, Henrique Galvão (1895-1970), mais tarde contestatário do regime e autor de uma façanha quixotesca – o assalto e subsequente desvio para o Brasil do paquete Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação, em 1961.

 

  

 

Naquele contexto, surgiu o livro Novelas Africanas. Apesar do título, este apresenta apenas o esboço de um  texto que se poderia incluir na tipologia das novelas – 'Como se Faz um Colonial', sendo todos os outros cinco textos mais próximos da tipologia do conto.

 

A narrativa 'Como se Faz um Colonial' surge como um texto que conjuga ficção com trechos panfletários do colonialismo, na linha do que o título previamente nos sugere. Aliás, o prólogo de Quintinha assume-se mais como um ensaio ideológico sobre a recuperação do conceito de império colonial do que como uma introdução a textos ficcionais.Uma questão perfeitamente clarificada pelo autor, quando afirma – "[Novelas Africanas] É um livro simples, como simples é a gente a que se destina, e, embora velado dum véuzito de novelesca fantasia, são claros os seus intuitos – tão claros que bem poderiam dispensar-se as palavras deste prólogo. Escrevi-o, porém, muito especialmente para ter o ensejo de declarar que não era êste livro, de factura novelesca, que desejaria publicar neste momento, mas um panfleto violento e verdadeiro, onde exortasse o povo e a juventude das escolas a olharem, bem de frente, o problema colonial português em face das censuráveis ambições estrangeiras."

 

Esta preocupação política de Quintinha, uma preocupação honesta, sentida e vivida pelo autor, com o problema colonial reflecte-se também na diversidade dos espaços narrativos escolhida pelo escritor – Angola, Guiné, Moçambique, S. Tomé e Príncipe, quatro espaços diferentes em apenas seis textos.

 

É indubitável que, em muitos destes textos,  o panfletário prejudicou o ficcionista. Assim, poder-se-á dizer sem muita hesitação que o texto mais bem conseguido deste conjunto é um belíssimo e trágico conto cuja acção se desenrola na Guiné –  A Paixão da "Balanta", onde a trama novelesca quase faz esquecer a propaganda colonial.

 

 

 

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