10
Abr 16

Joaquim Paço d'Arcos - O Samovar e Outras Páginas Africanas

 

Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), O Samovar e Outras Páginas Africanas (1972).

 

Publicam-se neste volume excertos em prosa dos livros Herói Derradeiro (1933), Amores e Viagens de Pedro Manuel (1935), O Navio dos Mortos e Outras Novelas (1952), volume de onde se extraíu o conto O Samovar, que já havia sido publicado autonomamente em 1957 (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/13468.html) e Carnaval e Outros Contos (1958), bem como três poemas do livro Poemas Imperfeitos (1952; volume publicado três anos depois em francês: http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/222251.html).

 

Transcreve-se integralmente um desses poemas:

 

"NEGRA QUE VIESTE DA SANZALA...

 

Negra que vieste da sanzala

E na esteira, sobre o soalho, te estendeste,

Recusando o leito branco e macio;

Negra que trazias no corpo o cheiro do capim

E da terra molhada,

E o travo das queimadas;

Negra que trazias nos olhos castanhos

Sede de submissão,

Que tudo aceitaste em silêncio

E lentamente desnudaste o teu corpo...

 

Estátua de ébano,

Animada pelo sopro da lascívia

e pela febre do desejo;

Negra vinda das terras altas de Chimoio

À cidade que o branco plantou à beira-mar.

Vinda para te venderes...

Comprada a uma preta velha e desdentada,

A troco dum gramofone;

Vendida e trespassada de mão em mão.

 

Que é do pano branco de chita

Em que envolvias teu corpo

E escondias tua carne tremente

De tanta volúpia que guardava?

Que é da esteira gasta em que repousou teu corpo

E vibrou tua carne?

Onde vão as noites de África,

Encharcadas de cacimba,

Impregnadas de álcool do hálito e dos beijos?

Luminosas, serenas...

 

Vinham do pátio as vozes em surdina

Dos teus irmãos em cor...

Vinham do mato os gritos roucos das hienas

E o seu choro lamentoso,

De acentos prolongados,

Tal o de meninos magoados...

 

Tu prendias-te a mim.

Abandonava-te na esteira

E, quando o dia surgia,

No soalho nu havia a esteira nua

E nada mais.

Tinhas partido para a sanzala,

Envolta no pano de chita branca

E no silêncio molhado da cacimba

Da noite transluzente e profunda.

Eu esquecia, saciado, o segredo do teu corpo.

Fazia por te odiar...

Mas, ao sol escaldante do dia,

Queimava-me de novo,

Em ardência e secura,

A sede do teu corpo,

Até que a noite voltava,

Tudo aguando de cacimba...

E na esteira gasta

O teu corpo nu

Voltava a ser

Uma serpe negra...

 

Negra que vieste da sanzala..."

 

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17
Jul 15

Carlos Selvagem - Tropa d'Africa

 

Carlos Selvagem (pseudónimo de Carlos Tavares de Andrade Afonso dos Santos, 1890-1973), Tropa d'Africa (1919).

 

Do capítulo IX, Fatima M'namuka, transcrevem-se os parágrafos iniciais:

 

"Entretanto, vai-se fazendo pela vida...

 

E a primeira palavra suahely que o portuguesinho valente, apenas desembarcado, se apressa a reter e manejar com uso imoderado, é m'namuka, rapariga.

 

São os moleques quem no-las revelam, com suas graças e encantos bárbaros, estas flexuosas e altas raparigas duma elegância de linhas, de fórmas e de gestos que fariam esverdear de inveja e desespêro muita vaidosa patrícia minha dos chãos elegantes do «Bénard» e da Equipagem do Santo Humberto.

 

Péles de ébano macias e tenras, a linha delgada da cintura descaindo graciosamente sôbre o polido contôrno dos quadris, muito esbeltas, bem lançadas, a garganta delgada, o colo alto, há nestas escuras Vénus calipígias uma graça languida de sulâmitas, que só a odiosa carapinha e o focinho hediondo talhado grosseiramente a enxó, nos fazem considerar como animais inferiores, criados brutamente pela Natureza para o comércio bruto dos sentidos.

 

Como se lhes não bastasse ao monstruoso focinho a grossura inquietante da beiçarra e o esmagamento prognático das ventas, usam ainda, por acréscimo de beleza, por bizarria casquilha, uma rodela de marfim, de prata ou de madeira clara, encastoada na beiçana superior, em sinal de suprêma distinção. De perfil, a beiçola assim dilatada avança bestialmente em bico de pato, duma rijeza córnea, dando-lhes a conformação repelente dum focinho de pássaro absurdo – avestruz ou côrvo – num colo de escrava egípcia.

 

Conformámo-nos então com as figurações mitológicas da esfinge e da quiméra; – e de nenhum modo nos admiraria que, das profundezas do mato, nos começassem surdindo, para nosso pasmo, entes híbridos com troncos de leão ou touro, colos de avestruz, cabeças de hipopótamo, caudas de serpente."

 

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21
Dez 13

Nuno Bermudes - Uma Gota de Chuva

Capa de Fernando Marques (datas desconhecidas).

 

Nuno Bermudes (1924-1997), Uma Gota de Chuva (1964).

 

Funcionário, em Moçambique, do Banco Nacional Ultramarino, Nuno Bermudes foi redactor do jornal Notícias da Beira, desde o início da década de 1950, tendo ainda desempenhado as funções de chefe de redacção do jornal Notícias, de Lourenço Marques [actual Maputo], em 1958.

 

Para além das obras anteriormente referidas (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/3842.html), em 1964 tinha já obtido o primeiro prémio de reportagem de Moçambique com Gorongosa – No Reino dos Animais Bravios, e publicado Um Machangane Descobre o Rio – Crónicas de viagem ao Rio de Janeiro.

 

Neste volume reunem-se dois contos – Uma Gota de Chuva e A Visita, cujo enredo se baseia essencialmente numa recorrente analepse evocativa de violência e instinto face ao sentimento de desonra, que alterna com o presente de um caçador, Rodrigo, na primeira narrativa.

 

Na segunda narrativa, as desafiantes decisões do passado surgem como a origem de um caminho levando à presente desilusão e desalento de Isabel, mulher casada com um fazendeiro e afastada da sua origem urbana, que já não encontra qualquer razão para os sacrifícios a que se submeteu. 

 

Do conto A Visita transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Subiam agora as escadas de casa. Falcato abriu a porta de rede e empurrou a de madeira. Entraram e ele distribuiu-os pelas várias cadeiras da sala. Chamou a mulher e apresentou-a. Apesar da roupa mal feita, do cabelo descuidado, do abandono de todo o seu corpo prematuramente amolecido, os Serpas sentiram-na diferente.

 

Ela sorriu-lhes, Júlio reparou-lhe nos dentes alinhados e pequenos, Ramiro no seios que arredondavam a blusa.

 

Enquanto bebiam o uísque, Isabel Falcato, com um cigarro entre os dedos longos, amarelecidos pela nicotina, olhava-os de frente, observando-os, estudando cada um deles, com um desembaraço que os fazia desviar a vista. Dizia, aqui e ali, uma frase amável, marcando a presença, alisava a saia sem gosto, num gesto automático e vago. Andava pela casa dos trinta e cinco e na linha sinuosa da boca havia uma leve sombra de amargura que o sorriso, em vez de desanuviar, ainda carregava mais.

 

Falcato falava:

 

– Ora, sim senhor, meus amigos! Nem era preciso a carta! Aqui a nossa porta está sempre aberta para os vizinhos! Não é Isabel?

 

Ela encolheu o corpo. Sorriu.

 

– Os vizinhos são poucos... – articulou, e era o sorriso que falava. – Os mais próximos, até agora, que os senhores vieram, vivem a setenta quilómetros. A última vez que aqui estiveram foi há dois meses. Mas é, Alberto, a nossa porta está sempre aberta.

 

O marido alongou-se sobre a luta mantida durante quinze anos, antes de lograrem alcançar tudo aquilo, toda aquela reconfortante sensação de segurança e estabilidade. Anastácio e Ramiro bebiam-lhe as palavras, mentalmente tentavam identificar-se com ele, seguir-lhe os passos, conquistar a mesma vitória.

 

Júlio fumava em silêncio, distante das palavras que rodopiavam pela sala, os olhos perdidos na noite, que descera agora completamente, para lá da janela.

 

E, repentinamente, deu pelo olhar de Isabel fito em si, agarrado na sua carne como um ferrão persistente, doloroso. A princípio, aborreceu-o a insistência, imaginava-se, sabendo-se socialmente abaixo dela, sendo avaliado e depreciado pela interpretação patrícia da mulher citadina. Depois, duas ou três vezes, os seus olhos encontraram-se e nos dela Júlio viu, admirado, o apelo do náufrago que procura, nas ondas tumultuosas, uma ilha ou apenas um destroço. Viu, e nunca mais olhou. A impressão era agora outra, atingia-o de maneira diferente, não a conseguia explicar."

 

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27
Jul 13

Nuno Bermudes - O Círculo de Luz (I)

Capa e desenhos de José Pádua (n. 1934).

 

Nuno Bermudes (1924-1997), O Círculo de Luz (1973).


Esta obra de Nuno Bermudes apresenta alguns aspectos extrínsecos às suas características literárias que merecem breves notas prévias.


O primeiro relaciona-se com o facto de esta obra marcar o início da breve fase editorial da Casa Salema, uma livraria cuja actividade se desenvolveu na cidade da Beira durante cerca de cinco décadas.


Profusamente ilustrada com dezassete desenhos (consideraram-se nesta categoria os desenhos reproduzidos em página inteira) e dezasseis vinhetas de José Pádua, desenhos dos mais interessantes e conseguidos na década de 1970 por este artista, a obra caracteriza-se ainda pelo belo tipo de letra escolhido para o texto das narrativas. 


O segundo aspecto relaciona-se com o interessante prefácio, de oito páginas, assinado por Fernando Couto (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/7113.html), e o terceiro com o glossário apresentado no final da obra.


Como seria de esperar, neste glossário surgem diversas designações relacionadas com a fauna – chango, charu, cudo, gondonga, impala, inhacoso, inhala, inharuguè, inhate, mamba, mussopo, oribi, pala-pala, secretário, sengo, tuca, que justificam quase só por si este apêndice com 24 entradas.


Da narrativa O Círculo de Luz transcrevem-se os primeiros parágrafos:


"No tando envolto pelo manto espesso de uma noite sem luar, a paz é qualquer coisa em que quase se pode tocar com os dedos, tão viva e tão presente ela paira sobre tudo e de tudo tão viva e tão presente se desprende.


Só o trilar de uma cigarra com insónia ou um vago rumor de asas, entre a folhagem da floresta perto, de vez em quando enruga a negra e lisa pele do silêncio que se espalha pela planície, se insinua na copa do arvoredo e voga nas lagoas e nos pântanos, docemente, entre juncais.


Imprevistamente, porém, o rosnar rouco de um motor despedaça a quietude nocturna e uma camioneta assoma, lá no extremo da planura, e adianta-se, vagarosamente, abrindo uma risca tortuosa na cabeleira crespa do capim.


Precede-a uma lâmina de luz intensa que, esgrimida por mão hábil, percorre, viola, trespassa a escuridão, reanimando as ervas e as pedras, devassando os mais ocultos recessos do mato, demorando-se aqui, perscrutando ali, logo se projectando, rápida, para além.


No seu rasto, milhões de insectos esvoaçam doidamente.


Borboletas e gafanhotos, despertos pela rude voz da máquina, atiram-se e esmagam-se de encontro ao rosto impávido do monstro metálico que, inexoràvelmente, avança."


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17
Dez 12

Rui Knopfli - A Ilha de Próspero

 

Rui Knopfli (1932-1997), A Ilha de Próspero (1972).

 

Até à saída desta obra, Rui Knopfli havia já publicado O País dos Outros (1959), Reino Submarino (1962), Máquina de Areia (1964) e Mangas Verdes com Sal (1972), todos eles volumes exclusivamente de poesia.

 

Este volume, um conjunto de textos e fotografias consagrado à Ilha de Moçambique, abre com dedicatórias a Jorge Sena (1919-1978) – "Português das Sete Partidas", que nesse ano visitou Moçambique, e a Alexandre Lobato (n. 1915), Amílcar Fernandes (datas desconhecidas) e Manuel Barreto (datas desconhecidas), – "Rivais directos nesta pretensão romântica e junto de quem aprendi a conhecer  e a amar a Ilha."

 

Transcreve-se de seguida o poema Muipíti:

 

"Ilha, velha ilha, metal remanchado,

minha paixão adolescente,

que doloridas lembranças do tempo

em que, do alto do minarete,

Alah  – o grande sacana! – sorria

aos tímidos versos bem comportados

que eu te fazia.

 

Eis-te, cartaz, convertida em puta histórica,

minha pachacha psedo-oriental

a rescender a canela e açafrão,

maquilhada de espesso m'siro

e a mimar, pró turismo labrego,

trejeitos torpes de cortesã decrépita.

 

Meu Sitting Bull de carapinha e cofió,

têm-te de cócoras na sopa melancólica

de uma arena limosa e marinha,

gaivota tonta a adejar inùtilmente

ao lume de água contra a amarra

que te cinge para sempre

ao bojo ventrudo do continente.

 

De teu, cultivam-te a vénia e a submissão

solícitas, trazidas nos pangaios

lá do distante Katiavar,

expondo-te apenas no que tens de vil,

razão talvez para que ao longe, de troça,

piquem mortiças as luzes do Mossuril

ou sangre no meu peito esta mágoa incurável.

 

Mas retomo devagarinho as tuas ruas vagarosas,

caminhos sempre abertos para o mar,

brancos e amarelos filigranados

de tempo e sal, uma lentura

brâmane (ou mussulmana?) durando no ar,

no sangue, ou no modo oblíquo como o sol

tomba sobre as coisas ferindo-as de mansinho

com a luz da eternidade.

 

Primeiro a ternura da mão que modelou 

esta parede emprestando-lhe a curva hesitante

de uma carícia tosca mas porfiada,

logo o cheiro a sândalo, o madeiramento

corroído da porta súbito entreaberta,

o refulgir da prata na sombra mais densa:

assim descubro, subtil e cúmplice,

que adura linha do teu perfil autêntico

te vai, aos poucos, fissurando a máscara."

 

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10
Nov 11

Joaquim Paço d'Arcos - O Samovar

 

 

Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), O Samovar (1957).

 

Esta edição autónoma do conto O Samovar foi efectuada a partir do original publicado no livro O Navio dos Mortos e Outras Novelas (1952), tendo este título voltado a ser utilizado posteriormente numa colectânea de Joaquim Paço d'Arcos, O Samovar e Outras Páginas Africanas (1972).

 

Com uma acção apresentando breves passagens pela Suécia e Suíça e uma mais longa pela África do Sul, esta narrativa relata o singular percurso de Marya Dmitryevna, Madame Fazenda após o seu segundo casamento, desde a saída da Rússia, sua terra natal, até à chegada a Moçambique.

 

Num espaço temporal que o autor declara decorrer "entre as duas grandes guerras", assistimos depois à migração da protagonista dentro de Moçambique, desde a povoação que se desenvolvia na foz do Pungue (actual cidade da Beira), até ao Chimoio e à Zambézia.

 

Evocando as memórias ficcionalizadas do autor sobre a  sua estadia no território então administrado pela Companhia de Moçambique, a narrativa conclui com a morte da protagonista poucos meses depois da invasão da Polónia, datada de 1 de Setembro [de 1939], acabando ainda por mencionar uma nova visita do narrador à cidade da Beira, após o final da guerra, romagem essa que terá originado estas memórias.

 

Deste conto trancrevem-se dois parágrafos:

 

"Mas madame Fazenda não tinha uma exigência, um queixume. Passava o dia inteiro sentada na cadeira de palha, na varanda. Dali governava a casa, ralhava com o moleque, gritava para o marido que eram horas de almoço ou de jantar, conversava com uma ou outra rara visita, via passar os transeuntes, seu principal entretenimento, e retribuia com o sorriso nédio as saudações dos que a cumprimentavam.

 

De tanto lhe passar à porta ascendi de transeunte a visitante. Às vezes, ao fim da tarde, dava-lhe dois dedos de conversa. Ela nunca perdera o forte sotaque estrangeiro e a língua que falava era uma mexerufada do idioma natal, de português, do inglês dos bars e do patuá tosco dos moleques com quem lidava de perto. Era muito sensível a todas as provas de deferência. Não se julgava rica, nem sequer remediada, porque o marido nunca lhe dava contas dos negócios, do que tinha ou deixava de ter. Mas considera-se, por ser um dos habitantes mais antigos da cidade, e por aquela longa vida exemplar ao lado do Fazenda, com jus ao respeito dos que tinham chegado muito depois dela e não haviam passado pelo que ela passara. Não o dizia abertamente, mas esse pensamento norteava nìtidamente a sua atitude. E caso curioso: velha, gorda, desdentada, gasta pela vida, abandonada ao calor dentro duns roupões enormes em que o seu corpo pesado e flácido escorregava como massa de gelatina, Madame Fazenda era uma senhora. O dobrar do tempo e aquela quase imobilidade numa varanda nua dum casebre de África, com as redes de protecção rotas  e tombadas nos caixilhos das janelas – para que gastar dinheiro a repará-las? dizia o marido, os mosquitos já não metiam dente nem com ele nem com a velha –, o dobrar do tempo e o alheamento de todos os interesses, de todas as lutas, haviam-lhe incutido um estado de espírito totalmente oposto ao do companheiro que a seu lado enriquecia e enriquecia sem ela se aperceber sequer."

 

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03
Mai 10

João Alves das Neves - Poetas e Contistas Africanos (II)

 

 

João Alves das Neves (n. 1927), Poetas e Contistas Africanos (1963).

 

Para esta colectânea o autor seleccionou diversos textos em prosa, com particular relevo, pela sua quantidade e diversidade ficcional, para autores de Angola, Cabo Verde e Moçambique. 

 

Assim, encontramos neste volume excertos, ou transcrições integrais, de O Enterro de Nhá Candinha, de António Aurélio Gonçalves (1901-1984), A Caderneta, de Baltasar Lopes (1907-1989), No Terreiro do Bruxo Baxenxe (1959; cf. http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/10120.html), de Manuel Lopes (1907-2005), e O Rapaz Doente (1963; cf. http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/3552.html), de Gabriel Mariano (1928-2002), em representação de Cabo Verde; excertos de Auá (1934; cf. http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/7517.html), de Fausto Duarte (1903-1953), e Louvam-se Irãs, de Alexandre Barbosa (datas desconhecidas), em representação da Guiné-Bissau; um excerto de Amy-Só, de Fernando Reis (1917-1992), em representação de S. Tomé e Príncipe; excertos de Samba, de Castro Soromenho (1910-1968), A Pessoa não tem Coração, de Óscar Ribas (n. 1909), Aiué, de Cochat Osório (1917-2002), Companheiros, de Luandino Vieira (pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), e A Revelação, de Artur Carlos Pestana (ortónimo de Pepetela, n. 1941), em representação de Angola; e excertos de Muende, de Rodrigues Júnior (n. 1902), O Moleque do Violão, de Guilherme de Melo (n. 1931), Gandana, de Nuno Bermudes (1924-1997), História de Sabão, de António de Almeida Santos (n. 1926), e O Mar Chama por Mim, de Vieira Simões (datas desconhecidas), em representação de Moçambique.

 

Embora alguns destes escritores tenham sido, e vindo a ser, publicados na colecção Unidade, da Agência-Geral do Ultramar, sobressai desta selecção do autor uma preferência por escritores que não estavam conotados com o regime, ou que abertamente o contestavam, com particular destaque para os casos de Luandino Vieira, Pepetela (pseudónimo de Artur Carlos Pestana) e Almeida Santos.

 

Anos mais tarde, contudo, a colectânea Antologia do Conto Ultramarino (1972), promovida pelo regime e organizada por Amândio César (1921-1987), não deixou de incluir muitos dos autores aqui mencionados, como António Aurélio Gonçalves, Baltasar Lopes, Fausto Duarte, Fernando Reis, Castro Soromenho, Cochat Osório, Óscar Ribas, Guilherme de Melo, Nuno Bermudes e Rodrigues Júnior.  

 

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31
Mar 10

Brito Camacho - A Caminho de África

 

Brito Camacho (1862-1934), A Caminho d' Africa (1923).

 

Tal como muitas outras obras da década de 1920 e 1930, este livro relata aspectos da jornada que o autor efectuou "a caminho de África", neste caso uma viagem efectuada entre Lisboa e Lourenço Marques. 

 

Esta viagem, contudo, não seria efectuada num mero âmbito jornalístico nem com a finalidade de o autor se estabelecer como colono. Médico e político destacado da I República, durante a qual chegou a exercer o cargo de Ministro do Fomento, Brito Camacho relata-nos a viagem que o levou até Moçambique, onde iria exercer o cargo de Alto Comissário entre 1921 e 1923.

 

Autor de algumas dezenas de títulos, que englobam quer textos de natureza política quer crónicas e textos ficcionais, Brito Camacho oferece-nos ao longo deste volume diversas considerações sócio-políticas intercaladas com interessantes descrições dos locais por onde foi passando.

 

Transcrevem-se de seguida dois excertos da obra, o primeiro sobre S. Tomé e Príncipe, o segundo sobre o início das suas funções em Moçambique, trecho que encerra o volume:

 

"Desce a noite pelas encostas dos montes, cobertos de vegetação exuberante até aos ultimos cocurutos, e ainda temos que ir a Rio d'Ouro. A distancia não é grande, mas ha que percorrel-a em vagonete, puxado a mulas, num decauville sem maquinas.

 

Tenho a impressão de caminhar atravez de uma floresta sem murmurios, no silencio augusto de uma noite opaca... Aquela anedota do homem que se deitava no chão para ouvir crescer a herva, seria historia verdadeira em S. Thomé, que eu bem sinto os galgões da seiva na rêde vascular destes gigantes frondosos; bem vejo o arfar destes peitos rudes abrigando pulmões cujos alvéolos são cavernas, e nos silencios da conversa, as inevitaveis pausas sincopais que rompem o fio de todo o falaciar palreiro, o que eu oiço é o bater rithmico, o tic-tac isocronico do coração de Pan a dormir na floresta, embriagado de perfumes exóticos.

 

Pois se no meu regresso de Agua Izé, perto da cidade, eu notei que um óakas, á margem da estrada, do lado direito, crescera um palmo!

 

O Rio d'Ouro é uma torrente que vem lá de cima, não sei donde, quebrando-se nas fragas, tumultuoso e devastador no tempo das cheias, reduzido agora a  um minusculo fio  de agua cantante, que atravessamos numa pinguela feita de pernadas e troncos. Sobe-se uma pequena rampa e está-se nas instalações da roça, uma das melhores propriedaddes de S. Thomé. Somos recebidos por uma multidão de pretinhos chilreantes, alegres e desenvoltos como passaros em liberdade – bom dia doutô! bom dia doutô!"

 

 

"Ganso d'Almeida, meu condiscipulo, era um rapaz muito inteligente, muito amigo de ler, e tinha uma graça infinita. De quando em quando dava-lhe para fazer versos, quasi sempre satyras e epigramas.

 

Um dia, a gracejar, tendo-me elle lido uma ode que fizera na vespera, perguntei-lhe:

 

– Como diabo é que fazes versos depois de leres Victor Hugo?

 

E vai elle responde, como a justificar-se d'uma acusação grave:

 

– Peço perdão, mas eu não faço versos depois de ler Victor Hugo; faço-os depois de ler o Pedro Covas.

 

Vinha a ser o Pedro Covas um poetastro da Vidigueira, colaborador de todos os almanaques de Portugal e Brasil, com estravasamento de rimas por alguns jornaes da provincia. Pedro Covas, a poetar, abusava talvez das liberdades que a Carta garantia a todos os cidadãos, e como isso lhe dava prazer, e não prejudicava ninguem, sangrava a veia poetica  até quasi ficar anemico. A especialidadde de Pedro Covas era o acrostico, genero de composição poetica, então muito em uso. Ganso d'Almeida entretinha-se, muitas vezes, a parodiar-lhe a versalhada, mandando-lhe a troça pelo correio.

 

Reflectindo na resposta dada, achei que o meu amigo tinha rasão. Só um verdadeiro, autentico poeta tem o direito de fazer versos depois de ler as Orientais; mas pode qualquer ter escrupulos de versejar depois de ler o Almanaque de Lembranças?

 

São horas de ir para o emprego.

 

No jardim, a caminho da Secretaria, um velho colono, vindo ao meu encontro, dá-me familiarmente os bons dias, e informa que o Enes e o Mousinho, em geral, despachavam na Residencia.

 

Desfecho-lhe esta, que o deixa aturdido:

 

– Pois sim, mas o Pedro Covas despachava sempre na Secretaria.

 

Forte de semelhante evocação, animado da coragem que ao Raposão faltou no momento em que iria cair lhe nas mãos a fortuna da Titi, instalo-me no gabinete de despacho e toco a campainha, chamando o continuo.

 

– Saberá v. exa, que já chegou o sr. director da agrimensura.

 

– Mande entrar.

 

Começa a minha administração.

 

Que Deus lhe ponha a virtude..."

 

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22
Mar 10

Nuno Bermudes - Exílio Voluntário

 

Nuno Bermudes (1924-1997), Exílio Voluntário (1966).

Capa de José Pádua (n. 1934).

 

Nuno Bermudes teve o seu percurso literário marcado pela poesia, por Moçambique e pelo Brasil. A sua primeira obra, O Poeta e o Tempo, foi publicada em 1951. No seu percurso poético seguiram-se, entre outras, a presente obra, As Paisagens Perdidas e Outros Poemas (1980) e Brasil Redescoberto: Poesia Atlântica (1983).

 

Em prosa, publicou, entre outras obras, Gandana e Outros Contos (1959) e Eu, Caçador, e Tu, Impala e Outras Histórias de Homens e Bichos (1983), esta última retomando o título de um poema de Exílio Voluntário.

 

Nuno Bermudes esteve no centro de uma polémica que o opôs ao escritor Craveirinha (1922-2003), episódio que será posteriormente referido neste espaço.

 

A vivência brasileira do autor deixou marcas na sua obra, como nesta colectânea onde surgem dois poemas relativos ao Brasil, Descoberta e Canção do País de Cecília, o último dedicado à poetisa brasileira Cecília Meireles (1901-1964). O Brasil voltaria ainda a ser evocado no seu ensaio Dinah Silveira de Queiroz, sob o Signo da Imortalidade (1981).

 

Dividido em três partes – Exílio Voluntário, Diário de Viagem e Alguns Poemas de Amor, o livro Exílio Voluntário apresenta três temáticas bem diferenciadas. África e as suas metamorfoses, o Brasil, e o amor, através de uma certa expressão que roça o erotismo.

 

De Alguns Poemas de Amor transcreve-se o poema Mapa-Sexo:

 

  "Nossos corpos desenharam nos lençóis

   o mapa de um país imaginário

   – e neles abrimos rios,

   descobrimos oceanos,

   erguemos, entre gritos e gemidos,

   cumes de montanhas,

   desbravámos florestas,

   neles nos perdemos

   e, depois, nos encontrámos,

   deixámo-nos cair,

   exaustos,

   em abismos,

   morremos

   e ressuscitámos."

 

 

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09
Mar 10

Alexandre Valente de Matos - Jaula Aberta

 

Alexandre Valente de Matos (n. 1917), Jaula Aberta (1958).

 

Tal como aconteceu em diversas colónias dos demais países europeus, os missionários desenvolveram nos territórios portugueses ultramarinos funções que não se limitaram à evangelização strictu sensu. Algumas dessas funções concentraram-se na etnologia e na recolha e registo de tradições orais, de que este volume é um exemplo.

 

Recolhendo e publicando estes doze contos chirimas, o padre Alexandre Valente de Matos procedeu ao alargamento da sua obra missionária em direcção ao campo da etnologia, onde se veio a destacar pelo seu interesse na cultura dos Macuas, interesse que, entre outras obras, resultou num dicionário Português-Macua (1974). 

 

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