09
Jul 16

Orlando de Albuquerque - Alda Lara: A Mulher e a Poetisa

 

Orlando de Albuquerque (n. 1925), Alda Lara: A Mulher e a Poetisa (1966).

 

Volume de homenagem a Alda Lara (1930-1962), apresenta uma biografia da escritora, uma breve introdução à sua poesia e uma pequena antologia, intitulada Os Poemas Preferidos de Alda, onde se trancrevem treze dos seus poemas. 

 

Organizada pelo também médico, moçambicano radicado em Angola e seu marido, Orlando de Albuquerque (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/4664.html), este opúsculo apresenta ainda, em extra-texto, seis fotografias de Alda Lara, seus quatro filhos e sua família, sendo a última uma imagem da poetisa e seu marido, e da restante equipa cirúrgica, em pleno labor numa sala de operações em Cambambe.

 

No final deste volume refere-se ainda o seguinte – "O produto integral da venda deste livro, edição e propriedade do autor, destina-se à Fundação Alda Lara de Albuquerque, instituição em organização". Embora esta obra ostente na sua abertura a data de 1966, o seu cólofon regista os seguintes dados – "Composto e impresso na / Gráfica da Huíla, Lda. / Sá da Bandeira – 1967".

 

Recorde-se que, já depois de 25 de Abril de 1974, Amândio César (1921-1987) publicou um estudo sobre esta poetisa (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/658.html) e note-se, ainda, que a poetisa Alda Lara era irmã do escritor Ernesto Lara Filho (1932-1977).

 

Transcreve-se de seguida o poema Presença Africana, escrito em Benguela e datado de 1953:

 

"E apesar de tudo,

 ainda sou a mesma!

 Livre e esguia,

 filha eterna de quanta rebeldia

 me sagrou.

 Mãe-África!

 Mãe forte da floresta e do deserto,

 ainda sou,

 a Irmã-Mulher

 de tudo o que em ti vibra

 puro e incerto...

 

 A dos coqueiros,

 de cabeleiras verdes

 e corpos arrojados 

 sobre o azul...

 

 A do dendém

 nascendo dos abraços das palmeiras,...

 A do sol bom, mordendo

 o chão das Ingombotas...

 A das acácias rubras,

 salpicando de sangue as avenidas,

 longas e floridas...

 

 Sim!, ainda sou a mesma.

 A do amor transbordando

 pelos carregadores do cais

 suados e confusos,

 pelos bairros imundos e dormentes

 (Rua 11!... Rua 11!...)

 pelos negros meninos

 de barriga inchada e olhos fundos...

 

 Sem dores, nem alegrias,

 de tronco nu

 e corpo musculoso,

 a raça escreve a prumo,

 a força destes dias...

 

 E eu revendo ainda, e sempre, nela,

 aquela

 longa história inconsequente...

 

 Minha terra...

 Minha, eternamente...

 Terra das acácias, dos dongos,

 dos cólios baloiçando,

 mansamente...

 Terra!

 Ainda sou eu a mesma.

 Ainda sou a que num canto novo

 puro e livre,

 me levanto,

 ao aceno do teu povo!"

 

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13
Jun 16

Eugénio Ferreira da Silva - Trovas Malditas

   Capa de Montoya (datas desconhecidas).

 

 

Eugénio Ferreira da Silva (1917-), Trovas Malditas (1971).

 

Volume que não surge devidamente catalogado em alguns dos registos bibliográficos do autor, Trovas Malditas segue-se ao seu primeiro livro de poemas, Arco-Íris (1962), obra publicada por uma das instituições oficiais do regime – a Agência-Geral do Ultramar (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/tag/ag%C3%AAncia-geral+do+ultramar).

 

Este novo livro, aparentemente em edição de autor, transcreve algumas das apreciações que haviam sido feitas a Arco-Íris, onde se pode ficar a saber que o autor havia nascido no Lobito e que era professor de desenho em Vila Franca de Xira.

 

Aqui se transcreve também uma crítica publicada no Jornal de Notícias, onde se declarava – "Eugénio Ferreira da Silva foi amigo de António Ferro. Neste seu livro [Arco-Íris] mostra-se incomodado com os acontecimentos na sua terra e toma partido por uma solução «lusíada» do conflito, para empregar a sua própria expressão." Apesar do que ali se afirma, uma leitura daquele volume de 1962 não permite uma conclusão inequívoca sobre o partido que o autor toma perante o conflito.

 

De facto, estas Trovas Malditas apresentam determinadas características que agitam essa problemática, nomeadamente através de algumas das dedicatórias que antecedem os poemas, como as dedicatórias a Jorge de Sena – "A Jorge de Sena / com admiração pelo homem esclarecido / e de profundas convicções literárias" e a Bento de Jesus Caraça – "Ao saudoso Prof. Dr. Bento de Jesus Caraça. / Ao homem extraordinário que muito contri- / buiu para a formação moral do jovem que o / admirava."

 

Este último poema e a sua dedicatória, aliás, motivaram uma nota do autor, que veio sublinhar tal ambiguidade – "Este soneto [o derradeiro da colectânea, intitulado... Revolta] foi escrito numa atmosfera de lutas político-sociais por volta dos anos 30 e nada tem que ver com o actual Governo o qual seja justo proclamar, se movimenta numa dinâmica segura a que estávamos pouco habituados."

 

Como acontecera no anterior volume, também este Trovas Malditas apresenta poucos poemas directamente relacionáveis com África. Apenas dois – Inconsciência e Tarde de Bruma, num total de noventa e quatro.

 

Transcrevem-se de seguida Psicose, o soneto dedicado a Jorge de Sena, e Inconsciência, que surge antecedido da dedicatória "Ao poeta Mário António / – meu patrício":

 

 

"Psicose

 

Músculo e cérebro – pólos antagónicos

Deste chiqueiro que me torna inerme...

Que grande é ver na época do verme

O fruto dos eflúvios histriónicos!...

 

Ver na gama profusa da paisagem

Confundirem-se uns outros novos seres!...

Ver um «Mercúrio» em conjunção com «Ceres»

Confundir-se no falso duma imagem!...

 

Mas que agradável esta barafunda,

Esta incoerência doida que me inunda

A própria alma de revolta e grito!...

 

Sinto os nervos a arderem-se partidos!

Sobre a paleta destes meus sentidos...

Tangendo ainda mais alto o meu conflito!..."

 

 

"Inconsciência

 

Agora,

Agora que tudo são balizas

Postas perigosamente nos direitos do homem...

Agora que no horizonte a curva continua frustrada...

E permanece o nojo às coisas rectilíneas...

Ódios e fumos de metralha!

Feitiçaria na arqui-volta do tempo...

E em torno da fogueira,

Chamam-se os espíritos maus e os lobisomens...

Sabém [sic] lá os negros o que é desumanidade!

Sabem lá os negros o que é ignomínia...

Sabem lá eles o que é ser canalha,

Sem que alguém lhes leve a provisão dum dicionário...

O Céu ao longe, meu Deus! Traz um arco-Íris [sic] sem motivo

E, aqui no terreiro, crianças brancas e negras

Brincam com um disco de Newton..."

 

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19
Mai 16

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (II)

 

Capa de Gracinda Candeias (n. 1947).

 

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (1970).

 

Antologia organizada por Ivone Maria Gabriel Pinheiro da Silva (datas desconhecidas) e publicada em Luanda, no ano de 1970 (embora o cólofon registe Julho de 1971), pelo Comissariado Provincial da Mocidade Portuguesa Feminina. Apresenta excertos de obras, ou transcrições integrais de poemas, dos seguintes autores:

 

Angola – Alda Lara, Amélia Veiga, Dala (Maria José Duarte Martins), Ernesto Lara Filho, Fausto José, Gracinda Candeias, Guilhermina de Azeredo, Jorge Macedo, José Candeias, Lena Alves do Carmo Castelo, Manuela Cerqueira, Maria Beatriz da Fonseca, Maria Teresa Andrade Santos, Mário António, Mário de Oliveira (surge também associado a São Tomé e Príncipe), Tomás Jorge, Tomás Vieira da Cruz.

 

Cabo Verde – António Aurélio Gonçalves, António Mendes Cardoso, Jorge Barbosa, Onésimo Silveira, Yolanda Morazzo.

 

Índia (Goa) – Vimala Devi.

 

Moçambique – Alberto de Lacerda, Cartaxo e Trindade, Merícia de Lemos, Papiniano Carlos, Salette Tavares.

 

São Tomé e Príncipe – Alda do Espírito Santo, Costa Alegre, Maria Manuela Margarido, Mário de Oliveira (surge também associado a Angola), Viana Almeida.

 

Timor – Fernando Sylvan.

 

Embora seja feita referência às suas províncias de origem na metrópole e não às províncias ultramarinas a que estavam ligados, ou onde se encontravam, surgem ainda nesta colectânea textos de outros autores associados à temática colonial, tais como Amândio César (Minho), António de Penacova (Beira Litoral), Augusto Casimiro (Minho), Cândido da Velha (Beira Litoral), Clementina Relvas (Trás-os-Montes e Alto Douro), Estela Brum (Açores), Hugo Rocha (Entre-Douro-e-Minho), J. Galvão Balsa (Ribatejo), Maria José Guerreiro Duarte (Estremadura), Maria de Lourdes Amorim (Estremadura), Maria Ondina [Braga] (Minho), Maria Teresa Galveias (Estremadura), Neves e Sousa (Douro Litoral), Reis Ventura (Trás-os-Montes), e Ruy Belo (Estremadura).

 

De Hugo Rocha (1907-1993), transcreve-se o poema Tonga:

 

Rapariga bronzeada

Moça formosa e núbil do Equador

Quem te deu, quem te deu tão linda cor,

Rapariga bronzeada?

 

"Tonga" de corpo airoso

Ninfa dos coqueirais de S. Tomé

Tanagra negra; baila o "socopé",

"Tonga" de corpo airoso!

 

Porque fitas o mar,

Nostálgica, ao sol-pôr, no "Espalmadouro"?

Quando o horizonte é pedraria e ouro,

Porque fitas o mar?

 

Nos teus olhos saudosos

Passam visões do negro continente...

De lá vieram teus pais. Há um brilho ardente

Nos teus olhos saudosos...

 

"Tonga" de S. Tomé,

Negra vestal entre o verdor do "Obó":

Se te vê triste, o coqueiral tem dó,

"Tonga" de S. Tomé...

 

O teu lenço de cor

Envolve-te a cabeça, qual turbante,

Dá-te um ar de mistério perturbante

o teu lenço de cor.

 

Quais bagos de café

São teus beiços vermelhos a sangrar.

Quem os há-de colher e há-de provar,

Quais bagos de café?

 

Rapariga bronzeada:

No verde paraíso da Ilha

Tu és a mais estranha maravilha

rapariga bronzeada...

 

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10
Abr 16

Joaquim Paço d'Arcos - O Samovar e Outras Páginas Africanas

 

Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), O Samovar e Outras Páginas Africanas (1972).

 

Publicam-se neste volume excertos em prosa dos livros Herói Derradeiro (1933), Amores e Viagens de Pedro Manuel (1935), O Navio dos Mortos e Outras Novelas (1952), volume de onde se extraíu o conto O Samovar, que já havia sido publicado autonomamente em 1957 (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/13468.html) e Carnaval e Outros Contos (1958), bem como três poemas do livro Poemas Imperfeitos (1952; volume publicado três anos depois em francês: http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/222251.html).

 

Transcreve-se integralmente um desses poemas:

 

"NEGRA QUE VIESTE DA SANZALA...

 

Negra que vieste da sanzala

E na esteira, sobre o soalho, te estendeste,

Recusando o leito branco e macio;

Negra que trazias no corpo o cheiro do capim

E da terra molhada,

E o travo das queimadas;

Negra que trazias nos olhos castanhos

Sede de submissão,

Que tudo aceitaste em silêncio

E lentamente desnudaste o teu corpo...

 

Estátua de ébano,

Animada pelo sopro da lascívia

e pela febre do desejo;

Negra vinda das terras altas de Chimoio

À cidade que o branco plantou à beira-mar.

Vinda para te venderes...

Comprada a uma preta velha e desdentada,

A troco dum gramofone;

Vendida e trespassada de mão em mão.

 

Que é do pano branco de chita

Em que envolvias teu corpo

E escondias tua carne tremente

De tanta volúpia que guardava?

Que é da esteira gasta em que repousou teu corpo

E vibrou tua carne?

Onde vão as noites de África,

Encharcadas de cacimba,

Impregnadas de álcool do hálito e dos beijos?

Luminosas, serenas...

 

Vinham do pátio as vozes em surdina

Dos teus irmãos em cor...

Vinham do mato os gritos roucos das hienas

E o seu choro lamentoso,

De acentos prolongados,

Tal o de meninos magoados...

 

Tu prendias-te a mim.

Abandonava-te na esteira

E, quando o dia surgia,

No soalho nu havia a esteira nua

E nada mais.

Tinhas partido para a sanzala,

Envolta no pano de chita branca

E no silêncio molhado da cacimba

Da noite transluzente e profunda.

Eu esquecia, saciado, o segredo do teu corpo.

Fazia por te odiar...

Mas, ao sol escaldante do dia,

Queimava-me de novo,

Em ardência e secura,

A sede do teu corpo,

Até que a noite voltava,

Tudo aguando de cacimba...

E na esteira gasta

O teu corpo nu

Voltava a ser

Uma serpe negra...

 

Negra que vieste da sanzala..."

 

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22
Mar 16

Ruy Burity da Silva - Cantiga de Mama Zefa

 

Ruy Burity da Silva (n. 1940), Cantiga de Mama Zefa (1969).

 

Nascido no Lobito, o autor estudou no Ambriz e posteriormente em Nova Lisboa (actual Huambo). Nesta cidade frequentou a Escola Industrial e Comercial de Sarmento Rodrigues, onde foi galardoado por um poemeto intitulado Natal, que ali foi depois declamado precisamente num recital natalício.

 

Em 1963 passou a integrar o Centro Juvenil de Estudos do Huambo, departamento dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Nova Lisboa, que veio a promover a publicação de uma página quinzenal no jornal O Planalto, um programa semanal no Rádio Clube do Huambo e a criação de boletim interno destes serviços.

 

Em 1964 ganhou os Jogos Florais de Nova Lisboa, com o poema Marimba, tendo-se mudado para Lisboa em Dezembro, onde passou a trabalhar nos Serviços Culturais da Companhia de Diamantes de Angola. No ano seguinte reuniu a sua poesia, escrita entre 1955 e 1960, no livro Ochandala, assinado Ruy Silva e publicado em Nova Lisboa.

 

Posteriormente, veio a  integrar a equipa que promoveu a exposição A Arte de um Povo de Angola – Quiocos da Lunda, que decorreu em 1966 na Casa do Infante, no Porto.

 

Para além de artigos dispersos nos jornais O Planalto, de Nova Lisboa, A Província de Angola, de Luanda, Jornal do Comércio, de Lisboa, e Alvorada, da Lourinhã, colaborou também no Boletim da Agência-Geral do Ultramar.

 

Em 1969 anunciava-se a publicação do seu volume de poemas Foi Assim..., que acabou por sair em 1971 com chancela da Sociedade de Expansão Cultural, e a preparação do volume ...Também Já Fomos Um, de que não foi possível encontrar qualquer registo. 

 

É provável que a eventual fixação de residência do autor em França, ocorrida ainda antes do 25 de Abril de 1974, tenha motivado a não publicação deste último livro. Há notícia, que não foi possível confirmar, de que o autor terá regressado a Angola depois de 1974.

 

Do presente volume transcrevem-se dois poemas, Ndongo e Cantiga de Mama Zefa:

 

NDONGO

 

Dos vales e das montanhas. Dos mares e dos rios. Das florestas e savanas...

Lembranças de saudade.

Onde chingufos mil se elevam em uníssono com 

o matraquear estonteante dos carros que passam.

Lavas de pranto incandescente se erguem das sonatas doloridas dos quissanges.

O silêncio.

O universo aberto em espaços infinitos onde saltam ridentes cores em simbiose.

Um dongo sulcando águas revoltas de rio escuro de cantares sombrios.

Música.

Caravanas cruzando estradas em passos arrastados de fadiga.

Música.

Até no choro profundo dos vivos em homenagem

derradeira aos mortos que partem há música.

Letras de alegria.

Letras de lágrimas ardentes.

 

Poesia estranha de estranho poeta que ninguém 

conhece. Para lá dos seus poemas que existem, tudo é silêncio.

E indago:

Quem és tu estranho poeta que cantas os vales,

As montanhas, os mares, os rios, as florestas e savanas?...

Silêncio!

Cantas e  teu povo canta também.

Vibras e vibram contigo almas estranhas

que guardam segredos fecundos de vidas passadas.

No anonimato em que persistes vives constante.

Pertenças ao presente, ou ao passado.

Morto, ou vivo.

Existes sempre presente no eco repetido dos teus

cantares e na sonata triste dos tocadores de quissanje.

 

 

 

CANTIGA DE MAMA ZEFA

 

Ainda me lembro dela

matrona forte desengonçada

tinha sempre uma oração nos olhos

uma canção nos lábios grossos

 

dorme menino dorme

oh! oh! oh! oh! oh!

cazumbi não está vir

mama Zefa tá lh'olhar

 

tinha ciúme do menino

de quem mama Zefa falava com paixão

um dia perguntei com ansiedade

se o menino seria assim como eu

 

mama Zefa olhou-me tristemente

e com lágrimas na voz cantou

– não fala assim meu menino

Deus não faz filho mulato

 

Veja-se um comentário a este livro, destinado a ser gravado em 12 de Novembro de 1969, para o programa literário da Emissora Nacional intitulado Horizonte, da responsabilidade de Amândio César e Mário António, e a transcrição de um outro poema do autor, aqui: http://museu.rtp.pt/app/uploads/dbEmissoraNacional/Lote%2041/00014007.pdf.

 

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11
Mar 16

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (I)

Capa de Gracinda Candeias (n. 1947).

 

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (1970).

 

Antologia organizada por Ivone Maria Gabriel Pinheiro da Silva (datas desconhecidas) e publicada em Luanda, no ano de 1970 (embora o cólofon registe Julho de 1971), pelo Comissariado Provincial da Mocidade Portuguesa Feminina.

 

Com 816 páginas, este volume apresenta um conjunto de prosa e poesia de inúmeros autores de língua portuguesa, incluindo escritores de Angola, Cabo Verde, Índia (Goa), Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Timor.

 

Apresenta ainda dezenas de ilustrações, gravuras e fotografias, entre as quais surgem reproduzidas pinturas de diversos artistas europeus, bem como obras dos pintores angolanos Gracinda Candeias e Neves e Sousa (1921-1995).

 

Transcrevem-se hoje dois poemas desta colectânea, um de Alda do Espírito Santo (1926-2010), de São Tomé, intitulado Lá no Água Grande, outro de Mário de Oliveira (1934-1989), de Angola, intitulado "Água Grande".

 

 

LÁ NO ÁGUA GRANDE

 

Lá no "Água Grande" a caminho da roça

Negritas batem que batem co'a roupa na pedra.

Batem e cantam modinhas da terra.

 

Cantam e riem em riso de mofa

Histórias contadas, arrastadas pelo vento.

 

Riem alto de rijo, com a roupa na pedra

E põem de branco a roupa lavada.

 

As crianças brincam e a água canta.

Brincam na água felizes...

Velam no capim um negrito pequenito.

 

E os gemidos cantados das negritas lá do rio

Ficam mudos lá na hora do regresso...

Jazem quedos no regresso para a roça.

 

Óleo de Neves e Sousa.

 

 

"ÁGUA GRANDE"

 

Nas águas do "água-grande",

Onde coqueiros balanceiam,

Lavam as lavadeiras

Que contam tristes histórias

do vento e da "gravana"

Enquanto seus filhos brincam

Nas águas do "água-grande"

Que passam e limpam tudo,

Até confissões de dor...

 

E as lavadeiras lavam sempre,

Cantando no "água-grande",

Suas ilusões de amor.

 

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12
Abr 14

Delfim Guimarães - Manzalé

Capa de Helena Roque Gameiro Leitão de Barros (1895-1986).

 

José Galino Marques, (1888-19??), org., In Memoriam de Delfim Guimarães: 1872-1933 (1934).

 

Apesar de esquecida na actualidade, a obra de Delfim Guimarães desmultiplicou-se por vários volumes no domínio da poesia – entre Lisboa Negra (1893) e A Paixão de Soror Mariana (1926) publicou quinze outros títulos, da prosa, como Alma Dorida (1893) ou Ares do Minho (1908), da dramaturgia ou ainda da história da literatura.

 

Autor de poesia tão diversa como a que se encontra em Confidências (1894), onde é patente o desalento pela decadência da pátria (cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/408477.html), ou O Livro de Bèbé (1917), álbum dedicado aos recém-nascidos e ao registo do seu desenvolvimento com belíssimas ilustrações de Raquel Roque Gameiro (1889-1970; cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/tag/raquel+roque+gameiro), Delfim Guimarães foi também o fundador, em 1899, da editora Guimarães, a qual resultou da reorganização de uma companhia que entrara em dificuldades financeiras, a Empresa Literária Lisbonense.

 

Delfim Guimarães foi ainda administrador do concelho de Ponte de Lima e representante da firma D. Aurora de Macedo, Lda., proprietária da Roça Pinheira, na ilha de S. Tomé.

 

No âmbito da gestão daquela firma, deslocou-se a S. Tomé nos anos de 1906, 1907, 1909, 1912, 1916, 1921, 1922 e 1925. Durante esta última estadia na ilha, escreveu um longo poema com 47 quadras, intitulado Manzalé e datado de 22 de Junho. Este publicou-se, sob o pseudónimo Dominó Branco, nos números 73 e 74, de 25 de Junho e 2 de Julho, do jornal local A Desafronta

 

Conjuntamente com várias outras poesias do autor, esta composição poética foi reproduzida no volume, com 470 páginas, cuja capa se apresentou acima. As notas biobliográficas deste artigo são também baseadas nas informações constantes dessa obra.

 

De Manzalé transcrevem-se algumas quadras:

 

"MANZALÉ

 

Vê-la dançar a rebita,

Ou bailar o sòcopé!...

Era a fôrra mais bonita

Da ilha de S. Tomé;

 

(...)

 

Fui-me embora um belo dia...

Disse-lhe adeus contristado;

Com certa melancolia,

Deu-me um abraço apertado.

 

E entre risonha e chorosa

Disse, muito perturbada:

– Q'ria pedir-lhe uma cousa,

Mas sinto-me envergonhada...

 

– Seja o que fôr!... Dize! Pede!

Que desejas, Manzalé?...

Queres um tronco de pau-fede,

Queres a Roça de Água-Izé?

 

Pede-me o Sol, mais os astros,

Quanto desejes ou queiras...

Basaltos ou alabastros,

Mamões, okás, bananeiras!

 

Alma de pomba, sòmente

Uma lembrança apontou...

A prenda mais inocente

Que alguma mulher sonhou...

 

Em trinados, com as notas

Dum violino, num suspiro,

Disse-me ela: – Quero uns botas

Di loja Sun Casimiro!

 

 

Delfim Guimarães na Roça Pinheira, durante o ano de 1909. 

 

(...)

 

Ficou me p'ra tôda a vida

Uma fagueira impressão...

Eu tinha menos vinte anos,

E o meu peito era um vulcão.

 

Hoje estou muito mudado:

Deu comigo o salalé...

Ainda assim, fiquei radiante

Quando te vi, Manzalé;

 

E recordei, com carinho,

Agitado o coração,

Presentes que me fazias 

De goiabas e mamão!...

 

E as tardes que nós passámos

À sombra fresca do obó;

E as refeições que me davas

De calilu e jògó!

 

Aos teus rogos acedendo

– Manzalé, lembras-te tu! –

Trinquei um dentche de cola,

E até provei o sàfu...

 

Aos sàfus fui-me afazendo,

Com açúcar, por sinal,

Pois não podia comê-los,

Como tu, com água e sal...

 

Transformei-me quàsi em fôrro,

E em Mato-Andim construí

Uma casa de peralto

Que, Manzalé, te ofereci...

 

E dei-te também, recordo,

Enxoval liró, reinol,

Alvas camisas de rendas,

E um belo e farto lençol...

 

Que delícias que gosámos,

Que bela quadra louçã!

Aua di cõco, vim péma,

Jindungo, aua, banã!

 

Vai tudo isto distante!...

E é doloroso, ó se é,

Não poder voltar de novo

A êsse tempo, Nazaré!...

 

(...)"

 

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27
Fev 14

Revista Atlântico (I)

Capa do número 4, Nova Série, de 1947.

 

Mantendo a tradição iniciada a partir do seu primeiro número, que havia sido lançado em 1941 e divulgara, sob o título O Sr. Euclides Varanda, um excerto de Chiquinho, romance de Baltasar Lopes (1907-1989) que haveria de vir a ser publicado em 1947, este número 4 da nova série da revista apresenta colaboração de mais um autor africano.

 

Sob o título Poemas Caboverdianos, publicam-se aqui dois poemas de Manuel Lopes (1907-2005) – Pescadores de Santo Antão, dedicado ao compatriota e "claridoso" companheiro Manuel Velosa (1901-1956), e Terra, dedicado ao escritor e diplomata brasileiro Ribeiro Couto (1898-1963; cf. http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/200643.html).

 

Colaborador do movimento literário Claridade desde a primeira hora, mas consagrado essencialmente como prosador, Manuel Lopes (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/tag/manuel+lopes) apresenta-nos aqui dois poemas que antecedem temáticas posteriormente desenvolvidas nos seus contos e romances.

 

Essas temáticas aproximam-se dos princípios que estiveram na base daquilo que, na literatura portuguesa, se denominou como movimento neo-realista.

 

Transcreve-se de seguida, integralmente, o poema Terra:

 

"Endireitou o busto suado.

O sol traçou a sua sombra esguia

na terra remexida.

 

Pensou no mar enorme,

nas velas perdidas sobre a vasta monotonia

do mar enorme,

nos temporais e nos naufrágios,

nas vidas perdidas dos marinheiros,

nas lutas inúteis,

na escuridão sem fé do homem nos portos estrangeiros.

 

Limpou da fronte o suor,

no gesto simbólico de quem faz o sinal da cruz.

– O suor que cai na terra maternal,

leva o milagre fecundante do amor –.

 

Olhou ao redor,

viu as montanhas altas e tranquilas,

o céu azul,

– sobre o vale pairava um vasto silêncio.

E sentiu-se protegido e abençoado,

seguro e livre na sua doce escravidão antiga.

 

– O sol desenhou uma sombra no dorso nu, curvado,

e uma enxada cavando, cavando na mãe-terra amiga..."

 

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23
Set 13

Eugénio Ferreira da Silva - Arco-Íris

 

Eugénio Ferreira da Silva (1917-), Arco-Íris (1962).

 

Formado na área de Belas-Artes, Eugénio Ferreira da Silva integrou as equipas de escultores que intervieram na Exposição do Mundo Português, realizada em Lisboa  no ano de 1940, trabalhando sob a direcção dos conhecidos escultores João Fragoso (1913-2000) e Vasco Pereira da Conceição (1914-1992).

 

Executou também, no campo da escultura, o monumento ao padre Agostinho Antunes de Azevedo (1876-1933), erigido em Vila do Conde, e os trabalhos em bronze do antigo café Palladium, em Lisboa.

 

Embora tenha colaborado com diversos órgãos da imprensa regional da então denominada Metrópole, foi este volume o seu primeiro trabalho publicado na área da literatura, sendo também o único livro seu de que parece haver registo.

 

Ao longo dos textos de todo este volume perpassa uma sólida linha traçada por uma educação de índole cristã paradoxalmente combinada com um latente paganismo e animismo de tradição africana.

 

Ocorre ainda, no conjunto formal e conceptualmente conservador desta poesia, a inusitada heterodoxia do poema intitulado Batuque na Sanzala, onde uma exclusiva composição onomatopaica remete quer para o primeiro modernismo português quer para as composições de inspiração dadaísta.

 

Transcreve-se deste volume o poema Folclore Enfeitiçado:

 

"Casas velhas dos Muceques

 tão cheias de pitoresco...

 feito de assombros, profundo...

 Beleza que de outro mundo

 ali decora o coqueiro...

 Divertimento fagueiro,

 na gíria dos seus «moleques»,

 a ver quem os trepa primeiro...

 O exótico imbondeiro,

 com os seus tortuosos braços,

 lembrava a angústia e os cansaços

 de úberes ventres de Terra... 

 No terreiro a petisada

 tão ranhenta e barriguda...

 Gritos de jaspe a sorrir

 abrindo a boca carnuda...

 

 .......................................................

 .......................................................

 

 Buscas alguém em Luanda?!

 Alguém que tu não descubras?...

 Então não vás à Mutamba,

 não vás à Maianga,

 não vás à Angambota...

 mas vai à Chicala!...

 Procura-o que encontras,

 ouvindo um batuque

 na velha sanzala

 do querido Muceques [sic] ...

 Muceques das quitandeiras,

 das lindas «Acácias Rubras»...

 dos coqueiros expressivos

 dançando «Trópico» aos ventos...

 E que soberbos lamentos

 deixa ali a ventania...

 A velha negra tirando

 fumaças do seu cachimbo...

 Um velho de «Capolana»

 com receio do cacimbo...

 Oh meu antigo Muceques [sic]!

 Oh folclore de Luanda;

 Oh Mouraria africana,

 trago-vos no coração!...

 Desde as negrinhas Cafekos,

 negras de veste escarlata...

 Da carpideira à mulata

 a esses travessos moleques."

 

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17
Dez 12

Rui Knopfli - A Ilha de Próspero

 

Rui Knopfli (1932-1997), A Ilha de Próspero (1972).

 

Até à saída desta obra, Rui Knopfli havia já publicado O País dos Outros (1959), Reino Submarino (1962), Máquina de Areia (1964) e Mangas Verdes com Sal (1972), todos eles volumes exclusivamente de poesia.

 

Este volume, um conjunto de textos e fotografias consagrado à Ilha de Moçambique, abre com dedicatórias a Jorge Sena (1919-1978) – "Português das Sete Partidas", que nesse ano visitou Moçambique, e a Alexandre Lobato (n. 1915), Amílcar Fernandes (datas desconhecidas) e Manuel Barreto (datas desconhecidas), – "Rivais directos nesta pretensão romântica e junto de quem aprendi a conhecer  e a amar a Ilha."

 

Transcreve-se de seguida o poema Muipíti:

 

"Ilha, velha ilha, metal remanchado,

minha paixão adolescente,

que doloridas lembranças do tempo

em que, do alto do minarete,

Alah  – o grande sacana! – sorria

aos tímidos versos bem comportados

que eu te fazia.

 

Eis-te, cartaz, convertida em puta histórica,

minha pachacha psedo-oriental

a rescender a canela e açafrão,

maquilhada de espesso m'siro

e a mimar, pró turismo labrego,

trejeitos torpes de cortesã decrépita.

 

Meu Sitting Bull de carapinha e cofió,

têm-te de cócoras na sopa melancólica

de uma arena limosa e marinha,

gaivota tonta a adejar inùtilmente

ao lume de água contra a amarra

que te cinge para sempre

ao bojo ventrudo do continente.

 

De teu, cultivam-te a vénia e a submissão

solícitas, trazidas nos pangaios

lá do distante Katiavar,

expondo-te apenas no que tens de vil,

razão talvez para que ao longe, de troça,

piquem mortiças as luzes do Mossuril

ou sangre no meu peito esta mágoa incurável.

 

Mas retomo devagarinho as tuas ruas vagarosas,

caminhos sempre abertos para o mar,

brancos e amarelos filigranados

de tempo e sal, uma lentura

brâmane (ou mussulmana?) durando no ar,

no sangue, ou no modo oblíquo como o sol

tomba sobre as coisas ferindo-as de mansinho

com a luz da eternidade.

 

Primeiro a ternura da mão que modelou 

esta parede emprestando-lhe a curva hesitante

de uma carícia tosca mas porfiada,

logo o cheiro a sândalo, o madeiramento

corroído da porta súbito entreaberta,

o refulgir da prata na sombra mais densa:

assim descubro, subtil e cúmplice,

que adura linha do teu perfil autêntico

te vai, aos poucos, fissurando a máscara."

 

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