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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

20.04.22

Jorge Ferrão Cardoso - Caravana


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Jorge Ferrão Cardoso (datas desconhecidas), Caravana (1948).

Desenho da capa de Raúl Coelho (datas desconhecidas).

 

Tal como haveria de vir a suceder com o seu segundo livro, já aqui referido (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/ferrao-cardoso-terra-sol-e-aventura-23828), Terra, Sol e Aventura (1956), igualmente uma colectânea de contos, o presente volume incorpora dois contos cuja acção decorre em Trás-os-Montes – Vida Silenciosa e Entardecer Tranquilo, este último espacialmente localizado entre Carrazedo de Montenegro e Santa Maria de Émeres, e dois outros com cenários e enredos exóticos – Trono de Marfim e Doze Horas em Honolulu, verificando-se que apenas três dos seus doze contos apresentam referências africanas ao longo da acção – Do Diário de António Firmino, Mocambos ao Luar e Angústia.

 

Do conto intitulado Do Diário de António Firmino transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Há festa na senzala do lado de lá do rio. Os tambores sôam sincopadamente. No silêncio que nos envolve, aquele ruído surdo trás até nós algo de misterioso e ardente.

De cá, vemos brilhar as labaredas da fogueira. É um clarão avermelhado onde, esfumadas e imprecisas pela distância, se recortam silhuetas negras, trementes de sensualidade na dança erótica.

Os meus ganguelas, anichados em redor do fôgo, fitam sonolentamente o clarão longínquo e quedam-se num  mutismo que tem algo de feroz e primevo.

Mais tarde, um deles fala. Murmura imperceptìvelmente. Conta a história de «Saleia, a pantera», a mesma lenda que escutei numa noite de sangue, no Baixo-Cuito.

«... Saleia veio, de noite, do alto da montanha e roçou a planície. Malala, o feiticeiro, deu a sua carne seca na penúltima hora escura e agora que Saleia tinha provado sangue humano, os seus rugidos eram mais fortes e mais próximos, e os seus olhos brilhavam contìnuamente por  entre os troncos da floresta.

Naquela noite Bangu teve festa. Pela anhara imensa veio gente dos outros povos, e a sagrada fogueira iluminou a senzala.

O batuque durou toda a noite. A capata toldou os espíritos, e o pirão com belos «condutos» alimentou os corpos negros, estuantes de sensualidade.

O som cavo dos tambores num ritmo bárbaro ecoava pela selva, e lá longe, nos outros povos, a gente velha escutava e dizia: «Ouvi! Há festa em Bangu!»

Na penúltima hora da noite, Malala tomou o fogo que havia de incendiar a anhara. Ele invocou Saleia, a deusa do Fogo, e correu para o mato. Quando na planície se começaram a erguer chamas rubras, Malala caiu morto. Todos tinham visto que a pantera enfrentara o fogo. Ela era a Deusa! Acaso teme o fogo o próprio fogo? Era Saleia! Saleia, a deusa! 

Saleia voltou depois, durante muitas noites. Ela gostava de Bangu, e da selva próxima os seus rugidos vibravam no ar e chegavam até à senzala. A Deusa queria carne! Desde que provara sangue humano, todas as noites os seus urros sequiosos acordavam Bangu...»

Não ouço o fim da história. é como se outro ser estivesse  dentro do meu, roubando-me o sossego. Aqueles ganguelas ingénuos contam sucessos raros, e eu, embora seja mais culto do que eles, não consigo apreender todo o sentido de tão estranhas narrações. Sinto-me como se não tivesse pátria!"

 

© Blog da Rua Nove

18.02.22

Ruy Cinatti - Memória Descritiva


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Ruy Cinatti (1915-1986), Memória Descritiva (1971).

Capa de João da Câmara Leme (1930-1983).

 

Poeta cuja obra está intimamente associada a Timor, onde viveu durante 1946 e 1947 e entre 1951 e 1955, tendo ali regressado ainda em 1966, Cinatti limita-se no presente volume, dedicado à memória de José Régio (José Maria dos Reis Pereira, 1901-1969), a evocar apenas num dístico a sua ilha dilecta – "Consegui tarde Timor / ilha perdida."

 

Já no ano anterior à saída deste volume havia publicado Uma Sequência Timorense, que consolidava a afirmação de uma essência poética intimamente ligada à ilha, após mais de vinte anos de uma vivência insular ora local, ora mental, ora emocional.

 

A sua obra, contudo, denotava também outras influências geográficas e culturais, como se pode constatar nos volumes Crónica Cabo-Verdiana (obra publicada em 1967, sob o pseudónimo Júlio Celso Delgado) ou Ossobó - História de um Pássaro das Ilhas de S. Tomé e Príncipe (1967), edição posterior de um conto da juventude que havia sido escrito em 1936, na sequência da sua participação no 1.º Cruzeiro de Férias às Colónias Portuguesas de África Ocidental.

 

Distinguido com o Prémio Antero de Quental, em 1958, com o Prémio Nacional de Poesia, em 1968, com o Prémio Camilo Pessanha, em 1971, e com o Prémio P.E.N. Clube Português de Poesia, em 1982, para além de diversas monografias específicas sobre determinadas características de Timor, editadas a partir de 1950, Cinatti havia ainda publicado, até 1971, os seguintes volumes de poesia – Nós Não Somos Deste Mundo (1940), Anoitecendo a Vida Recomeça (1941), Poemas Escolhidos (1951), O Livro do Nómada Meu Amigo (1958), Sete Septetos (1968), O Tédio Recompensado (1968) e Borda d'Alma (1970).

 

Transcreve-se de seguida o poema História Contemporânea, onde surge o dístico referido anteriormente:

 

"Enquanto a Europa ardia,

nós apodrecíamos.

(Heil Hitler, galhardetes, mocidade

e os VV da liberdade)

Fantochadas!

 

Mil novecentos e quarenta.

(Não esqueçam)

Amávamos a pátria com delírio.

 

Eu apanhei uma sova

por causa da Inglaterra,

porque era parvo, fiel

e lusitano.

A Espanha era ibérica...

(Não esqueçam)

 

Entretanto, outros e outros,

de antes e depois,

assumiam postos.

Repetiam passos dados.

Condenados.

 

E nós de Peniche ao Porto,

a pé,

novos peregrinos. (Não esqueçam)

 

Social, o colectivo

é o mote do dia

(repetido).

 

O indivíduo,

esse não (senão

quando habitar arbitrários

lugares vários).

 

Era doutrina encerrada

em discursos

com as patas no ar

em vez de apertos de mão.

 

Ó meritória

condição  a nossa

de novos Amadizes!

 

Outrora havia prodígios.

Aos quinze,

era a Índia.

Aos dezassete o Japão.

Aos trinta

tínhamos dado a volta ao mundo

e voltado à terra, entre

Almada e a Caparica,

para escrever um livro:

Peregrinação!

 

Agora há que ver a vida

como ela é. (Não esqueçam)

Eu quis ir ao México.

Quis ir a Paris.

Era proibido.

 

Consegui tarde Timor,

ilha perdida.

 

Mas tanta sublimação

do super ego

no ego.

Mas tanta fastidiosa

inibição, intervenção...

 

Foi preciso ter pecado,

unir-me a mim próprio, todo,

para descobrir o mundo.

 

Há que ver a vida

como ela é. (Não esqueçam)

 

E merda para a Inglaterra,

bêbeda invertida,

maga, soleníssima

terra onde nasci. (Não esqueçam)

 

Mas nós somos portugueses.

Não esqueçamos."

 

© Blog da Rua Nove

26.01.22

Costa Andrade - Poesia com Armas


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Costa Andrade (n. 1936), Poesia com Armas (1975; presente edição, segunda, 1977).

Capa de Sebastião Rodrigues (1929-1997).

 

Depois de estudar no Huambo e no Lubango, Francisco Fernando da Costa Andrade viajou na década de 1950 para Portugal, onde cursou arquitectura e se envolveu na dinamização das actividades da Casa dos Estudantes do Império. Posteriormente seguiu para o exílio, passando pelo Brasil, por Itália e pela Jugoslávia, antes de se juntar à guerrilha angolana, já durante a década de 1960.

 

Na sua actividade literária, política e militar adoptou diversos pseudónimos, como Africano Paiva, Angolano de Andrade, Fernando Emílio, Flávio Silvestre, Nando Angola, Wayovoka André ou Ndunduma Wé Lépi enquanto guerrilheiro.

 

Antes de esta obra, Costa Andrade havia já publicado Terra de Acácias Rubras (1960) e Tempo Angolano em Itália  (1962), publicando posteriormente O Regresso e o Canto (1975), Caderno dos Heróis (1977), O País de Bissalanka (1980), O Cunene Corre para Sul (1981) e Luanda: Poema em Movimento Marítimo (1997), entre outras.

 

Neste volume, que apresenta um prefácio ensaístico de Mário de Andrade (Mário Pinto de Andrade, 1928-1990), reunem-se poesias de diferentes cadernos, todos datados de antes da independência de Angola – O Capim Nasceu Vermelho (Huambo, 1960 - Lisboa, 1961), Canto de Acusação (1961 a 1963), Cela 1 (São Paulo, Brasil - Abril de 1964), Flores Armadas (1970...), O Guerrilheiro (Moxico, 1969, 1970 e 1971), O Amor Distante (Angola, 1969), Requiem para um Homem (1973), O Povo Inteiro (1974), O Lundoji e o Eco (Setembro de 1974) e O Futuro Nasceu da Noite (25 de Outubro de 1974).

 

Poeta profundamente emocional, atitude a que se alia uma sólida formação intelectual, Costa Andrade deixa transparecer na estrutura e nos conceitos de alguns dos seus poemas, particularmente nos mais longos, uma certa influência da heteronímia pessoana e, consequentemente, uma certa ressonância whitmaniana.

 

No conjunto destes cadernos consegue também, habilmente, entrelaçar traços profundamente líricos e amorosos com registos característicos de manifesto político, revelando um notável equilíbrio entre a sensibilidade do poeta e a vivência do guerrilheiro.

 

Transcrevem-se de seguida três poemas, que integram respectivamente os cadernos Flores Armadas, O Guerrilheiro e O Amor Distante:

 

ENXERTIA

Teu corpo mulata

é o corpo da vida nova

é o corpo do futuro.

 

Olha para ti

descansa os olhos sobre as coisas

desenha com os dedos na areia

a nossa humana geografia

 

verás as rosas enxertadas nas acácias

darem flores mais belas que elas próprias.

 

EMBOSCADA

O dia estranhamente frio

o tempo estranhamente lento

a vegetação estranhamente lenta

a estrada estranhamente clara

todos estranhamente mudos

placados e estranhamente à espera.

 

                    Um tiro

                    e as rajadas uns segundos

 

até que estranhamente duro

o silêncio comandou de novo os movimentos.

 

Talvez fossem homens bons os que caíram

mas cumpriam estranhamente o crime

de assassinar a pátria alheia que pisavam.

 

 

A PARTIDA

As horas chamaram-me.

 

Porquê que o tempo tem medida

e abre com punhais o seu avanço?

 

Por medo

não olhámos os relógios

nem em torno

nem nos olhámos

não nos falámos

com medo que as palavras

                                      as luzes

                                             as coisas

nos prendessem com cadeias inquebráveis.

 

Eram retratos dos pais

               e dos amigos

                     as casas velhas

o nosso quinto aniversário

as praias e os navios grandiosos

o que víamos.

 

Os murmúrios desgarrados

das presenças

parecem lianas poderosas.

 

                Mas quem mede o tempo agora?

                Quem tem coragem de dizer-me

                        que o tempo é um comandante

                                com plumas nos dedos ansiosos?

 

Oh paisagem da minha infância!

Oh mulemba solitária!

 

              As praças estão mais iluminadas

              a gente fala mais

              as vozes mecanizadas

              anunciam a partida de aviões

              para Tóquio ou Buenos Aires

                            não importa.

 

Corpo presente eu sinto as tuas mãos

                                                                 humedecidas

como se os olhos se tivessem transplantado

para chorar escondidos do luar

              e da hora exacta.

 

Longe 

os homens morrem sob a fúria americana de matar

e nós aqui sem palavras

              sem gestos            sem silêncio

não sabemos se a partida se retarda

não sabemos nada

queremos nada saber como se pedras

como se asfalto que encurta os pólos

               dos dois mundos em rotura.

 

Mas quem é esta gente

              que nos recorda sermos dois

                            nos instantes que antecedem o vulcão?

 

Não quero ouvir ninguém!

Não quero ouvir ninguém

              que eu sou um homem transformado

                     em temporal.

Eu não inventei os aviões

nem construí os aeroportos

              apenas me senti discriminado

                     homem sem sombra

                             a quem roubaram a juventude

                                    e os ecos.

 

Eu vou partir

             pagar um preço

                     para ser homem igual

                             ao mundo

                                   e pelo mundo em frente.

 

Não afastes o teu rosto desse espelho

                quero olhar-te assim sem que me vejas

                quero descobrir-me um braço mais

                o que parte a empunhar metralhadoras

                e os que ficam para estreitar-te

                num abraço permanente.

 

                A morte pode talvez supreender-me,

                um guerrilheiro pisa caminhos

                               que ninguém traçou

                        e a moradia dos seus passos

                        é um medo feito de mil coragens

                        reunidas

                                       no dever

                                 e no amor de olhar a própria terra

                 como quem beija um botão de rosa.

 

Não alongues o olhar agora

              que te vejo mais serena

quero beijar-te como se beija uma laranja sequioso

 

um laranjal que nos perdesse

para sempre

               entre os seus perfumes acres

                                                                 e suaves.

 

Dêem-me laranjas

dêem-me laranjas tão doces

                                      que os meus lábios

saibam pronunciar apenas paz

e desconheçam lágrimas de sal

e corações que batam apressados.

 

Os canhões       as armas       esperem do futuro

               museus da bestialidade humana

                a liberdade seja o fruto do pomar inesgotável

                configurado nas mãos de todos os que amam.

 

Até que eu desapareça não te movas

dos vidros que dentro de momentos serão intransponíveis.

 

Deixa que te fixe um gesto que não mude

              e me acompanhe

              e me confunda

              entre o estar presente e a ausência.

 

Agora

agora meu Amor

que se iniciam os passos da distância

podes chorar

ficar tranquilamente

                                   olhando o mar

porque só partem

              os guerrilheiros

              que amam a terra

                                   totalmente

                      a possuem

                             e engravidam

                                     com o próprio sangue.

 

 

© Blog da Rua Nove

08.12.21

Modernos Poetas Cabo-Verdianos (I)


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Jaime de Figueiredo (1905-1974; selecção e apresentação), Modernos Poetas Cabo-Verdianos (1961).

 

Bibliotecário conservador da Biblioteca Municipal da Praia, na ilha de Santiago, para além de artista plástico, crítico, dramaturgo e ensaísta, Jaime de Figueiredo organizou esta antologia, considerada como a primeira da poesia cabo-verdiana.

 

Na introdução a esta colectânea, que reproduz alguma da produção poética de vinte autores, Jaime de Figueiredo estabelece três períodos para a poesia cabo-verdiana do século XX – o primeiro associado à geração da revista Claridade (1936), com autores nascidos entre 1902 e 1907, o segundo associado à geração da folha de letras Certeza (1944), com autores nascidos entre 1915 e 1920, e o último associado ao Suplemento Cultural (1958) e às publicações suas contemporâneas, com autores nascidos depois de 1925.

 

O critério seguido neste artigo, para a reprodução prioritária de algumas das poesias deste volume, prende-se apenas com a decisão de divulgar em primeiro lugar a obra de poetas ainda não referidos neste espaço, ficando a obra dos restantes para publicação posterior.

 

Assim, reproduzem-se agora dois poemas, o primeiro, Momento, de Jorge Barbosa (1902-1971), o segundo, Liberdade, de Pedro Corsino Azevedo (1905-1942), respeitando a cronologia de nascimento dos autores.

 

MOMENTO

 

Quem aqui não sentiu

esta nossa

fininha melancolia?

 

Não a do tédio

desesperante e doentia.

Não a nostálgica 

nem a cismadora.

 

Esta nossa

fininha melancolia

que vem não sei de onde.

Um pouco talvez 

das horas solitárias

passando sobre a ilha

ou da música 

do mar defronte

entoando

uma canção rumorosa

musicada com os ecos do mundo. 

 

Quem aqui não sentiu

esta nossa

fininha melancolia?

a que suspende inesperadamente

um riso começado

e deixa um travor de repente

no meio da nossa alegria

dentro do nosso coração,

a que traz à nossa conversa

qualquer palavra triste sem motivo?

 

Melancolia que não existe quase

porque é um instante apenas

um momento qualquer.

 

LIBERDADE

 

Olho-me a rir

espantado de me não conhecer.

 

Menino traquinas

que caiu no poço

e envelheceu lá dentro

não posso conceber

o que vêem as meninas

dos meus olhos

depois que sou livre.

 

Abrolhos são flores,

amores, vida.

O que é a magia da sombra!...

 

Agora já posso gritar:

Livre! Livre!

 

Tapei o poço da morte, a cantar.

 

© Blog da Rua Nove

12.11.21

Arlindo Barbeitos - Angola, Angolê, Angolema


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Arlindo Barbeitos (1940-2021), Angola, Angolê, Angolema (1976; presente edição, segunda, 1977).

Capa e ilustração de Sebastião Rodrigues (1929-1997).

 

Arlindo Barbeitos é o primeiro escritor com uma primeira obra publicada depois de 1974 que aqui se apresenta. Justifica-se tal opção por três razões – por um lado, muitos destes seus poemas foram escritos nas décadas de 1960 e 1970, antes do 25 de Abril, reflectindo um contexto anterior ao da independência de Angola; por outro lado, o seu primeiro livro, este, foi publicado ainda em Portugal, pela Sá da Costa; finalmente, a terceira razão prende-se com uma afirmação do próprio autor, registada na entrevista que introduz esta obra – " Transmito a minha poesia numa língua que não posso esquecer, é a língua colonial, mas que não deve ser a única língua a ser falada pelo povo angolano. Seria um massacre cultural horrível. Essa língua continua sendo ainda uma língua de estrangeiro em Angola. Então, já que aqui eu sou um ignorante, não conheço as línguas de Angola o suficiente, tento pelo menos, dando um conteúdo nosso, africanizar a língua colonial. Aliás, o próprio povo já o fez e o poeta, finalmente, segue-o. As línguas africanas foram capazes de uma poesia oral belíssima, porque não seriam elas capazes de uma poesia escrita belíssima também? Simplesmente os poetas é que não foram capazes, e o povo angolano não deve sequecer isso. "

 

De facto, não só a poesia do autor é belíssima como não poderia ser, no seu íntimo, mais africana. Militante da oposição política e armada ao regime colonial do Estado Novo, Arlindo Barbeitos não necessita de, a exemplo de outro militante da resistência armada, Costa Andrade (1936-2009), transformar a sua poesia num manifesto político explícito para lhe dar africanidade ou materializar a resistência ao colonialismo, que tanto coexiste subtilmente como explicitamente em alguns dos seus registos líricos.

 

Paradigma pleonástico da poesia enquanto poética, a sua obra ora assenta em modelos orientais, minimalistas e quase anafóricos, da poesia, ora em poemas onde a explícita crítica à realidade colonial se materializa na encadeada e desconcertante simplicidade do quotidiano.

 

Poeticamente, a sua resistência e sua angolanidade traduzem-se ainda, no título deste volume, na evocação da oralidade que a palavra "angolê" transmite e na inovação lexical do neologismo "angolema", que tanto sugere ser Angola um poema, como o poema, a sua poesia, ser Angola.

 

Deste volume transcrevem-se quatro poemas, com distintas características, pela sua ordem de publicação:

 

"amada

minha amada

a revolução

não é um conto

uma borboleta

não é um elefante

 

como agarrá-lo

 

devagarinho

o menino ia comendo o peixe frito

assim como quem toca gaita-de-beiço"

 

 

"à sombra da árvore velha de muitos sobas

só cresceram muxitos

 

o sussurrar encarcoleante dos surucucus d'areia

marcava dédalos efémeros

que os quissondes iam devorando

 

à sombra da árvore velha de muitos sobas

só cresceram muxitos"

 

 

"eu quero escrever coisas verdes

verdes

como as folhas desta floresta molhada

verdes

como teus olhos

que só a saudade deixa ver

verdes

como a menina duma trança só

que soletra em português sa-po sa-po

verdes

como a cobra esguia que me surpreendeu

naquela cubata sem outra história

verdes

como a manhã azul

que acaba de nascer

 

eu quero escrever coisas verdes"

 

 

"o Inácio cambuta

que vendia lotaria na Maianga

ficou assim

porque um dia quando a jogar à bilha

um rapaz de Maculusso

lhe passou a perna pela cabeça e fugiu

 

o camoquengue Camões 

que varria o chão na loja do Sidónio

ficou assim

porque um dia quando atrás das piteiras

um sapo preto

lhe mijou no olho direito

 

o André matumbo

que era contínuo na Fazenda

ficou assim

porque um dia quando na sanzala do Botomona

comeu laranja roubada com casca e tudo

 

o Luís molumba

que vadiava por todo o musseque

ficou assim

porque um dia não acreditou que o sipaio

seu primo

lhe ia dar uma bordoada com o pau do ofício"

 

© Blog da Rua Nove

26.10.21

Castro Soromenho - A Chaga


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Castro Soromenho (1910-1968), A Chaga (1970 [1964]; presente edição, terceira, 1985).

 

Embora o manuscrito seja datado de 1964, esta obra de Castro Soromenho apenas foi publicada postumamente. A primeira edição surgiu no Brasil (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970), a segunda em Portugal (Lisboa: Sá da Costa, 1979) e esta, a terceira, em Angola (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1985).

 

A curiosidade desta terceira edição é que, efectivamente, foi impressa na República de Cuba, pelas Ediciones Cubanas, para a União dos Escritores Angolanos, no período de intervenção cubana em Angola, de apoio ao Movimento Popular de Libertação de Angola, que decorreu entre 1975 e 1991.

 

Recorrendo sempre às memórias que guardou de África, de onde saíu com menos de trinta anos, à vivência governativa de seu pai e à sua própria experiência administrativa, e até como recrutador de mão de obra, Castro Soromenho evoca aqui a herança negreira, que se prolongou até ao século XIX e ainda ecoava nalgumas práticas do século XX, denunciando os abusos e desvios de certos funcionários coloniais perpetrados a coberto dos seus cargos administrativos.

 

Contudo, o autor não deixa de abordar o antagonismo e as divergências existentes entre várias etnias, apontando essa como uma das razões para a administração portuguesa colocar lundas nos cargos de  sipaios e capitas a controlar grupos de quiocos. Nesta sua habitual digressão pela caracterização étnica, coloca ainda os bangalas de permeio, como sendo aqueles que têm um certo sentido poético e ouvido musical.

 

Metaforicamente, as duas povoações com um só nome – Camaxilo, desdobram-se em muitas mais, pois, para além das povoações dos brancos e dos negros, existem dentro delas ainda outras "povoações", como a dos colonos e a da administração, a dos sipaios e capitas e a dos prisioneiros, a dos lundas e quiocos, ou a dos mestiços. A questão da mestiçagem, como decorrente de uma situação de facto mas não de jure, formalizada ou legalizada através do casamento entre brancos e negras, serve ainda para tratar frontalmente o racismo e o hipócrita relacionamento colonial entre raças.

 

Transcrevem-se de seguida os  primeiros parágrafos deste romance:

 

"As árvores estavam mergulhadas no nevoeiro e das frondes pesadas do orvalho da madrugada tombava uma chuva miudinha que fazia tiritar os homens que marchavam, em longa fila indiana, no vale de Camaxilo, para chegarem às suas terras altas antes de o cabo de sipaios apagar a fogueira do terreiro onde se apruma o pau da  bandeira.

A mão calosa de Gunga estendeu-se sobre o braseiro que restava da noite, os dedos megulharam rapidamente na cinza e como tenaz truxeram uma brasa, logo solta na palma da mão e rolada para a boca do cachimbo de água. Com sofreguidão puxou uma fumaça, uma nuvem de fumo envolveu-lhe a cara talhada de rugas, piscou os olhos raiados de sangue e atirou-se para a frente sacudido por forte ataque de tosse. Escarrou para o chão e quedou-se acocorado com a mutopa fumegante nas mãos a olhar para o vale ravinado a seus pés e esbeiçado no outro lado numa encosta suave a rasar-se à beira da povoação dos colonos. As cinco casas dos comerciantes, com grandes quintais defendidos dos matagais e da surtida da onça por fortes paliçadas, recortavam-se na luz do amanhecer na orla da planície de largos horizontes azuis para as bandas de Caungula.

Gunga acabava de enxergar o vulto, alto e esguio, do velho colono Lourenço, encostado a um pilar da varanda da sua casa de adobe, à beira da estrada que talha a planície, atravessa o povoado de colonos e, sombreada pela floresta de acácias vermelhas, desce numa curva à garganta do vale para através da ponte de madeira se prolongar em rampa até à povoação dos funcionários. Duas povoações e um só nome – Camaxilo.

Todas as manhãs, o velho Lourenço está ali na varanda a fumar o seu primeiro cachimbo, olhando para Camaxilo de cima onde, à volta do terreiro centrado pelo pau da bandeira e por uma mangueira de grande copa, branquejam os edifícios da Administração e residências dos funcionários. A gente do governo, civis fardados, alcandorara-se no alto do vale, com vista rasgada sobre a povoação de baixo, as lojas dos colonos a olho nu.

Entre o negro velho e o colono velho abre-se o vale, o rio Camaxilo ao fundo, o primeiro postado no alto das ravinas, o outro lá embaixo na lomba da encosta, à boca da planície. Ali estão há um ror de anos sob o mesmo céu ardente e sobre a terra perfumada de acácias."

 

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30.09.21

Eduardo Paixão - Cacimbo


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Eduardo Paixão (19??-1977), Cacimbo (1972; presente edição, segunda,1974)

Capa de Fernando Lopes Direito (datas desconhecidas).

 

No ano de 1972, Eduardo Paixão publicou Os Espinhos da Micaia (1972) e este romance, escrito ao longo de três meses durante o ano de 1971, cuja primeira edição apresentava uma capa de fundo amarelo, um distintivo recurso gráfico comum, aliás, a outras publicações de literatura africana da década de 1940, nomeadamente às obras de Ferreira da Costa (1907-1974).

 

Esta segunda edição do romance, publicada já depois de 25 de Abril de 1974, é particularmente interessante pelos "Apontamentos" que antecedem a introdução e veementemente reclamam um estatuto de contestatário do anterior regime para o autor, ao mesmo tempo que ameaçam denunciar os "homúnculos" que o antagonizaram durante esse período – "Oportunamente serão identificados em A Destruição de uma Quadrilha, não pelo mal que hoje me possam fazer, mas em obediência a um imperativo de consciência que me obriga a pôr de sobreaviso os homens verticais. Estes homúnculos não têm mais lugar num Moçambique novo, numa sociedade que será construída com base no respeito e na dignidade humana, em que todos fraternalmente terão que dar as mãos numa entreajuda leal e sincera empenhada na tarefa ingente da reconstrução do país. / Este  rebotalho humano, ainda vivendo impante de vaidade, terá que ser apontado, julgado pela consciência do povo. Não os podemos esquecer. (...)"

 

Antes destes dois romances, o autor apenas havia publicado A Árvore das Patacas (1953), uma revista em dois actos e 22 quadros, com arranjo musical de Artur Fonseca (datas desconhecidas), vindo posteriormente a publicar O Mulungo (1973) e Tchova, Tchova! (1975).

 

O romance Cacimbo parece querer evocar uma herança literária de influência queirosiana, particularmente derivada da crítica de costumes patente na trilogia O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e Os Maias, com um toque dos pretensos estudos sociais e de psicologia individual de Abel Botelho (1854-1917). A isto poderia somar-se ainda o aroma colonial da trilogia das cenas de Luanda, iniciadas na década de 1950 por Reis Ventura (1910-1988).

 

A opção por tentar gerir literariamente esta complexa combinação de heranças literárias parece coincidir com o curioso retrato que António Botelho de Melo (datas desconhecidas), recordando o cargo que Eduardo Paixão desempenhou como director do Desportivo de Lourenço Marques, traçou dele no presente ano de 2021 – " (...) presidida pelo sorumbático escritor Eduardo Paixão, que andava sempre de óculos escuros e de cachimbo na mão com um ar que estava a pensar no destino final da vida (...)". (https://bigslam.pt/historia/acontecimentos/100-anos-do-grupo-desportivo-lourenco-marques-1921-2021-por-antonio-botelho-de-melo/

 

 

A verdade é que tal complexidade resulta num romance certamente mais superficial do que o pretendido, com diálogos e momentos de reflexão demasiado longos e enfadonhos, onde os considerandos filosóficos e sócio-políticos do narrador participante  se entrelaçam com os discursos de alguns protagonistas.

 

A narrativa acaba, assim, por assentar muitas vezes em maçadores e inverosímeis diálogos artificiais, particularmente quando o mesmo registo discursivo é atribuído aos protagonistas adolescentes, contribuindo para que certas passagens possam causar nos leitores o mesmo efeito que causou em D. Emília o discurso de seu marido, como se pode constatar em alguns parágrafos, do final do capítulo XXIII, que abaixo se transcrevem:

 

"(...) Calou-se por uns momentos. A sua lúcida inteligência estava a fazer uma análise objectiva dos problemas de Moçambique. Bebeu um pequeno golo de licor, encheu uma chávena de café e continuou, concentrado, uma força interior dominando-o:

– A promoção social dum povo faz-se com base no seu desenvolvimento económico. O povo de Moçambique é pouco exigente, aspira, sim, por uma vida desafogada que lhe permita satisfazer as necessidades que a civilização lhe criou. Dormimos tranquilamente durante séculos, a herança é pesada, mas há que nos situarmos dentro das realidades, não podemos mais viver de improvisações, de indústrias caseiras. Fomos sempre mais um povo de aventureiros, nada ambiciosos, com pouco nos contentamos. Ligados, direi antes, amarrados a um atavismo das épocas recuadas em que as caravelas despejavam no reino carregamentos de especiarias vindas da costa do Malabar, continuamos até à presente época com o mesmo sistema, olhos fechados à realidade ultramarina. Hoje temos que revolucionar sistemas antiquados, não travar o progresso com peias bolorentas, com medo dos grandes empreendimentos que sempre mais nos assustaram que que as tormentas do Cabo, na rota de quinhentos. Tivemos sempre nos povos que civilizámos amigos fiéis que nada nos pediram, que defenderam as nossas fronteiras, que trabalharam resignadamente sem um queixume, sem um reparo. Somos um país multirracial, vivemos sempre em paz e concórdia, tivemos essa felicidade, não a deixemos hoje fugir com posições de intransigência, de incompreensão. A subversão acabará quando todos tenham pão, quando todos, independentemente de raças ou credos tenham na sociedade o lugar a que a sua inteligência, o seu valor lhes dão jus, quando todos brancos e negros, lado a lado, tirarem da terra tudo o que ela generosamente lhes oferece. Queria ver altas chaminés lançarem nos ares lavados de Moçambique o fumo negro dos grandes complexos industriais, desejava uma agricultura organizada, que Moçambique fosse um dos celeiros do mundo. Gostava de ver nas planícies imensas, fadadas para a pastorícia, grandes manadas de cabeças de gado, milhões de cabeças de gado, a industrialização das suas carnes, do leite e seus derivados. Por trás da subversão que hoje nos aflige existem Himalaias de interesses, de cobiças, de que o povo ingénuo e simples de Moçambique é um instrumento ao serviço de grandes «trusts» internacionais. Doutrinas ideológicas, sem dúvida aliciantes, mas a que se agarram como a ostra à rocha, a cupidez, a ganância, todo um cortejo de ideias inconfessáveis. Nós ainda estamos em África e, quando digo nós, refiro-me a brancos e negros, temos que aproveitar hoje esta consoladora realidade procurando estabelecer bases sólidas, baseadas no amor, na compreensão, no diálogo, deixar Moçambique galopar sem as peias que o paralizam, um galope dirigido para a meta do bem, da harmonia, da paz. Estamos numa época em que as fronteiras já perderam, em parte, o seu bolorento significado, já não são a eterna faúlha que, ateada, projecta labaredas avassaladoras, já não são as muralhas intransponíveis, invulneráveis à compreensão e amizade dos povos. Do espaço aéreo descem em todas as capitais, diariamente, milhares de indivíduos que quase se não sentem estrangeiros, as correntes migratórias fazem-se em todos os sentidos, aos milhares se não aos milhões. Todos  anseiam por viver em paz e só os grandes «trusts» internacionais se ocupam do fabrico de armas bélicas, procurando atear as labaredas da guerra, alimentando-a com a lenha dos engenhos de morte que lhe proporcionam prósperas situações económicas. Esta é a dura realidade e, cobrindo-a com «um manto diáfano», papagueiam-se sistemas ideológicos, ânsias de liberdade, ingredientes que no cadinho da política internacional se caldeiam extravasando em torrentes de ódio.

Carlos de Sucena falava, alheado do ambiente e nem mesmo a mulher, dormitando, lhe quebrava o entusiasmo.

– Temos a grande, a rara, a única felicidade de aqui em Moçambique podermos erguer uma barreira contra as nefastas influências de doutrinas ideológicas faladas ou escritas em «slogans» requentados. Temos tudo o que desejamos: a terra prenhe de riquezas, uma situação geográfica privilegiada. Resta-nos intensificar a a única doutrina por que todos os povos anseiam: o amor fraterno, a compreensão, o respeito pela dignidade da pessoa humana, independentemente da sua raça, a liberdade de cada um poder dar livre curso ao seu pensamento, sem arcas encoiradas, sem interesses inconfessáveis, antes com aquela fraternidade de criança ainda não contaminada pela epidemia do ódio e da traição. A todos podemos dar a suprema ambição duma vida digna sem preocupações pelo dia de amanhã, escolas espalhadas por todo o sertão, como estrelas brilhando no mato, fábricas transformando o subsolo em riquezas, grande splantações agrícolas, força e vitalidade. Para esta grandiosa obra há, como primeiro passo, que arejar os quadros de algumas repartições especializadas, onde alguns restos de velhos fósseis da época colonial teimam em continuar agarrados, sem nível, sem mentalidade, entretendo-se apenas a contar as notas do vencimento no fim de cada mês, emperrando todas as iniciativas pela nula actualização às exigências duma vida dinâmica e actual. Velhos chaços que na era espacial teimam em caminhar a passo. Quando tudo isto acontecer, então sim, Moçambique será eterno, seja qual for o seu estatuto.

Calou-se e por último, num desabafo:

– Como eu desejaria ter hoje vinte anos!

O ressonar da D. Emilia despertou-o dos seus pensamentos.

– Estás a dormir, Emília?

A esposa sobressaltada acabou por sorrir e disse:

– Não, filho, gostei muito de te ouvir. Já são horas de nos irmos deitar."

 

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07.07.21

António Mendes Correia - Contos e Novelas Angolanos


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António Mendes Correia (1906-1982), Contos e Novelas Angolanos (1955).

 

Este livro apresenta sete contos e novelas – Um Caso de Consciência, A Nossa Terra é o «Huambo», Sonho Realizado, A Vingança da Morta, Um Fantástico Quissange, Condenados de Angola e Os Últimos Abencerragens.

 

Uma anotação à página de título de A Nossa Terra é o «Huambo» refere que este texto foi galardoado com o segundo prémio do Concurso Literário promovido pelo Município de Nova Lisboa, no ano de 1950, e uma anotação à página de título de Sonho Realizado refere que o texto foi galardoado com o primeiro prémio do Concurso Literário promovido pela Associação dos Naturais de Angola, no ano de 1951.

 

O volume abre com umas "Palavras Prévias" do autor que, ao longo de cinco páginas, discorre sobre a distinção entre conto, novela e romance, citando de permeio, e a esse propósito, a autoridade do escritor inglês E. M. Forster (1879-1970) e do crítico e teórico literário alemão Wolfgang Kayser [grafado Keyser, no texto) (1906-1960).

 

As sete narrativas, quiçá involuntariamente, não deixam de oscilar entre uma visão colonial etnocêntrica e uma visão paternalista ou crítica dos costumes gentílicos. Os conceitos subjacentes aos diversos enredos sofrem, por vezes, algum desequilíbrio na transposição para as formas narrativas adoptadas, dando talvez razão ao que o autor já anotara nas suas palavras prévias – "Mas... de almas cheias de boas intenções está o Inferno cheio. E será esse, certamente, o destino da do autor destes «Contos e Novelas», porque vai grande distância entre o saber, teòricamente [sic], como as coisas se fazem, e fazê-las, na realidade."

 

A Biblioteca Nacional de Portugal regista uma reedição desta obra, ocorrida no ano 2000, como sendo a primeira edição da mesma, não apresentando registo para este volume de 1955 da Coimbra Editora.

 

Do conto Os Últimos Abencerragens transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Perante este espectáculo inesperado, Cavango ficou paralizado. De pé, ao lado da velha escrava, observava-lhe o ritmo lento da respiração, ao mesmo tempo que cofiava, apreensivo, a barbicha já grisalha. Depois de uns momentos de hesitação, debruçou-se sobre ela, tirou da bainha de madeira um longo punhal que nunca o abandonava e cortou com ele uma tira de couro de gazela, com a qual lhe envolveu o braço e estancou o sangue. Agachando-se em seguida, transpôs a baixa e estreita porta da cubata e foi buscar à sua residência uma cabaça de «marufo». À força, introduziu, entre os dentes cerrados da velha escrava, o gargalo da cabaça, fazendo-lhe ingerir alguns goles da «marufo». Depois, acocorado ao lado dela aguardou a reacção provocada pelo líquido. Alguns minutos depois, a velha, virou lentamente a cabeça para a direita e descerrou um pouco as pálpebras. Os seus olhos mortiços de cão humilde, negros e liquefeitos, fitaram Cavango docemente, articulando num cicio, num sopro quase imperceptível:

 

– Num mata meu neta... o teu filho tá agora na barriga dela... porque nunca pôde estar no meu barriga...

 

Deixou cair de novo as pálpebras. E alguns minutos depois, pendeu-lhe a cabeça mais para a direita ainda, e numa inspiração profunda soltou o último suspiro.

 

Cavango manteve ainda, durante algum tempo a neta da escrava mucuísse. E quando, ao fim de nove meses, deu à luz um rapaz cheio de vida, a que Cavango  quis pôr o nome de Kilela, fez desaparecer a mãe.

 

Dizia-se na tribo, muito em segredo, que fora vendida aos mutchilengues; mas outros afirmavam convictos que tinha sido enterrada viva."

 

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18.05.21

Luís Bernardo Honwana - Nós Matámos o Cão Tinhoso!


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Luís Bernardo Honwana (Luís Augusto Bernardo Manuel, n. 1942), Nós Matámos o Cão Tinhoso! (1964; presente edição, segunda, revista, 1972).

Capa de João Machado (n. 1942).

 

Luís Bernardo Honwana constitui-se como um caso excepcional e singular entre os escritores africanos de língua portuguesa – com esta obra da sua juventude, o seu único livro de ficção publicado até hoje, atingiu uma consagração que lhe conferiu um estatuto de referência na literatura colonial portuguesa e na literatura moçambicana.

 

De facto, para além desta obra, Honwana, que regista numa nota à primeira edição – "Chamo-me Luís Augusto Bernardo Manuel. O apelido Honwana não vem nos meus documentos. Sou filho de Raul Bernardo Manuel (Honwana) e de Nally Jeremias Nhaca. Ele intérprete de administração da Moamba, ela doméstica. Tenho oito irmãos.", apenas publicou um outro livro de certa extensão, A Velha Casa de Madeira e Zinco (2017), obra que ele próprio refere ser um conjunto de "crónicas, depoimentos e testemunhos".

 

O presente volume inclui sete contos – Nós Matámos o Cão Tinhoso!, Inventário de Imóveis e Jacentes, Dina, A Velhota, Papá, Cobra e Eu, As Mãos dos Pretos e Nhinguitimo. O quinto destes contos, Papá, Cobra e Eu, viria a ser editado em separado, em 1975, nos Cadernos Capricórnio, que se publicavam na cidade angolana do Lobito. Honwana publicara ainda, em 1971, um outro conto inédito, Rosita até Morrer, na revista Vértice.

 

O aparecimento desta segunda edição na Afrontamento, uma editora do Porto, assume contornos peculiares, uma vez que Honwana já tinha estado preso durante três anos, precisamente a partir do ano em que publicara a primeira edição desta obra, devido às suas opções políticas – nesse ano tornara-se também membro da Frelimo.

 

Por isso, talvez não seja de estranhar que a quarta página desta edição apresente a seguinte indicação: "Edição de / Luís Bernardo Honwana / Lisboa 1972", um subterfúgio editoral que pretendia isentar a Afrontamento de represálias editoriais e políticas e evitar as consequências de eventuais apreensões, como se pode verificar na história da editora disponibilizada no seu site (www.edicoesafrontamento.pt).

 

Até então, a Afrontamento apenas havia publicado catorze obras, entre as quais O Homem Invisível (1954; edição Afrontamento, 1964), de Pablo Neruda (Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, 1904-1973), cuja contracapa apresenta o lema da editora – "Quando a desordem se torna ordem / uma atitude se impõe / AFRONTAMENTO", uma citação de Emmanuel Mounier (1905-1950).

 

A evidente opção ideológica e política desta editora explicará as razões pelas quais, em 1972, do seu heterogéneo e reduzido catálogo de quinze obras, quatro se encontravam esgotadas e sete estavam fora do mercado. Entre as obras esgotadas encontrava-se Vietnam, A Oposição à Guerra nos E.U.A. - Programa da Frente Nacional de Libertação do Vietname do Sul (1969) e entre as que estavam fora do mercado encontrava-se Em Defesa de Joaquim Pinto de Andrade (1971), que teve uma tiragem de 20 mil exemplares e se constituíu como o maior êxito de vendas da editora, até então.

 

Os sete contos de Nós Matámos o Cão Tinhoso! caracterizam-se por apresentarem narrativas desenvolvidas num tom aparentemente coloquial e despretensioso que, no entanto, é claramente subversivo e denuncia subtilmente a ideologia colonial, a injustiça social e as desigualdades raciais.

 

A tensão social e racial desenvolve-se de forma menos diáfana em contos como Nhinguitimo e Papá, Cobra e Eu, atingindo o seu culminar em Dina, narrativa que ilustra ainda, magistralmente, a vergonhosa impotência perante a indignidade e a desonra.

 

Apesar disto, Honwana fez questão de abrir a sua já referida nota à primeira edição com a seguinte declaração – "Não sei se realmente sou escritor. Acho que apenas escrevo sobre coisas que, acontecendo à minha volta, se relacionam intimamente comigo ou traduzem factos que me pareçam decentes. Este livro de histórias é o testemunho em que tento retratar uma série de situações e procedimentos que talvez interesse conhecer."

 

Este homem, que assim duvidava do seu estatuto como escritor, estudaria Direito, em Lisboa, a partir de 1970, tornando-se, depois de 1975, Secretário de Estado e Ministro da Cultura de Moçambique. Foi ainda presidente da Organização Nacional dos Jornalistas de Moçambique, presidente do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa e membro do Conselho Executivo da UNESCO, entre vários outros cargos exercidos em diversas instituições moçambicanas e internacionais.

 

Em 2014, esta obra, Nós Matámos o Cão Tinhoso!, foi agraciada com o Prémio José Craveirinha de Literatura, um prémio, instituído pela Associação de Escritores Moçambicanos, que pretende homenagear a memória e a obra do poeta José Craveirinha (1922-2003).

 

Transcrevem-se de seguida os primeiros oito parágrafos do conto As Mãos dos Pretos:

 

"Já não sei a que propósito é que isso vinha, mas o Senhor Professor disse um dia que as palmas das mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes ia escurecendo o resto do corpo. Lembrei-me disso quando o Senhor Padre, depois de dizer na catequese que nós não prestávamos mesmo para nada e que até os pretos eram melhores do que nós, voltou a falar nisso de as mãos deles serem mais claras, dizendo que isso era porque eles, às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar.

Eu achei um piadão tal a essa coisa de as mãos dos pretos serem mais claras que agora é ver-me a não largar seja quem for enquanto não me disser por que é que eles têm as palmas das mãos assim mais claras. A Dona Dores, por exemplo, disse-me que Deus fez-lhes as mãos assim mais claras para não sujarem a comida que fazem para os seus patrões ou qualquer outra coisa que lhes mandem fazer e que não deva ficar senão limpa.

O Senhor Antunes da Coca-Cola, que só aparece na vila de vez em quando, quando as coca-colas das cantinas já tenham sido todas vendidas, disse que tudo o que me tinham contado era aldrabice. Claro que não sei se realmente era, mas ele garantiu-me que era. Depois de eu lhe dizer que sim, que era aldrabice, ele contou então o que sabia desta coisa das mãos dos pretos. Assim:

«Antigamente, há muitos anos, Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, Virgem Maria, São Pedro, muitos outros santos, todos os anjos que nessa altura estavam no céu e algumas pessoas que tinham morrido e ido para o céu, fizeram uma reunião e resolveram fazer pretos. Sabes como? Pegaram em barro, enfiaram-no em moldes usados e para cozer o barro das criaturas levaram-nas para os fornos celestes; como tinham pressa e não houvesse lugar nenhum, ao pé do brasido, penduraram-nas nas chaminés. Fumo, fumo, fumo e aí os tens escurinhos como carvões. E tu agora queres saber porque é que as mãos deles ficaram brancas? Pois então se eles tiveram de se agarrar enquanto o barro deles cozia?!»

Depois de contar isto o Senhor Antunes e os outros Senhores que estavam à minha volta desataram a rir, todos satisfeitos.

Nesse mesmo dia, o Senhor Frias chamou-me, depois de o Senhor Antunes se ter ido embora, e disse-me que tudo o que tinha estado para ali a ouvir de boca aberta era uma grandessíssima pêta. Coisa certa e certinha sobre isso das mãos dos pretos era o que ele sabia: que Deus acabava de fazer os homens e mandava-os tomar banho num lago do céu. Depois do banho as pessoas estavam branquinhas. Os pretos, como foram feitos de madrugada e a essa hora a água do lago estivesse muito fria, só tinham molhado as palmas das mãos e as plantas dos pés, antes de se vestirem e virem para o mundo.

Mas eu li num livro que por acaso falava nisso, que os pretos têm as mãos assim mais claras por viverem encurvados, sempre a apanhar o algodão branco de Virgínia e de mais não sei onde. Já se vê que a Dona Estefânia não concordou quando eu lhe disse isso. Para ela é só por as mãos deles desbotarem à força de tão lavadas.

Bem, eu não sei o que vá pensar disso tudo, mas a verdade é que ainda que calosas e gretadas, as mão dum preto são sempre mais claras que todo o resto dele. Essa é que é essa!"

 

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30.04.21

Luandino Vieira - Nós, os do Makulusu


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Luandino Vieira (pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), Nós, os do Makulusu (1974).

Capa e ilustração de Sebastião Rodrigues (1929-1997).

 

Primeiro livro de Luandino Vieira publicado após o 25 de Abril de 1974, este volume integra uma nova colecção então lançada pela editora Sá da Costa, a colecção Vozes do Mundo, que apresentara no seu primeiro volume a obra Sagrada Esperança (1974), de Agostinho Neto (1922-1979) e anunciava como terceiro volume uma reedição de Terra Morta, de Castro Soromenho (1910-1968).

 

Até esta data, Luandino Vieira havia publicado A Cidade e a Infância (1959), A Vida Verdadeira de Domingos Xavier (1961), Luuanda (1964), Velhas Estórias (1964) e No Antigamente, na Vida (1969).

 

Embora Luuanda seja, talvez, a sua obra mais conhecida e discutida, certamente devido à atribuição do Grande Prémio de Novelística, que a Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE) lhe concedeu em 1965, numa altura em que o autor cumpria pena de prisão de 14 anos no Tarrafal, e à subsequente polémica que resultou na sua proibição e na extinção da SPE, Nós, os do Makulusu surge como uma notável obra literária.

 

Escrita também no Tarrafal, entre 16 e 23 de Abril de 1967, é uma narrativa que se assume apenas como tal no frontispício, não reclamando sequer a denominação de novela ou romance. A verdade é que tal estrutura tipológica e tal nomenclatura não seriam adequadas para uma narrativa com as características inovadoras desta obra.

 

Quebrando as regras sintáticas, as estritas concordâncias gramaticais e as habituais delimitações e formatações de parágrafos, algo que ocorre, aliás, na sequência do que já acontecera em Luuanda, esta narrativa, que se inicia e conclui com a evocação da morte e, paradoxalmente, com a omnipresença de ausentes, desenvolve-se através de um discurso que encerra em si uma metafórica mestiçagem da língua portuguesa.

 

A subversão do discurso directo ou indirecto, a informal polifonia da memória narrativa e a aproximação à oralidade, constroem uma complexidade argumentativa e conceptual que desencadeia o fulgurante entretecer das múltiplas linhas da memória e do pensamento crítico apresentadas nesta obra excepcional.

 

Transcrevem-se, de seguida, alguns dos seus parágrafos:

 

"Estás a olhar a farda? Pensas que não tenho coragem de a despir e de me recusar como papagueámos todos a propósito dos tipos da Argélia? Mas eu sei o que tu nem sabes: isso é fácil, de certo modo é uma abstracção, ideias, etecétera. O mais difícil, Mais-Velho, acredita é vestir-lhe assim, um camuflado e ir ainda hoje à noite deitar com a Maricota ao Bê-Ó, não com Rute, estará fria de morte, as mulheres que amam conhecem a morte no amor, e ela generosa se entregar como sempre, sabendo que vou lhe matar no irmão em cada irmão que matar e vai chorar porque vou, não é porque vou lhe matar no irmão. Porque ela também sabe: as mulheres que amam, sabem que o amor e a vida são dois jogos de morte; que, se o irmão me vir – oh! Kibiaka da infância, salta e vamos sondar os gunguastros nas gaiolas! – de cima da sua árvore, que a sua mão não vai tremer quando me apontar a carabina do roceiro que decapitou e não tremerá e eu não tremerei se o vir primeiro e aponto a minha metralhadora e vou ficar com o coração leve a ver-lhe cair lá de cima do pau no capim alto e fofo da nossa infância. Que não é ele que revistarei; não é ele que vou procurar salvar para depois lhe matarem com torturas para lhe fazer falar o que ele não vai falar. Ele ficará, ficou, fica nos capins soterrados do Makulusu quando a gente pelejávamos até no cansaço e no sangue derramado porque vamos já, lavados de sujos, receber quicuerra e micondos de mamã Ngongo. isto, Mais-Velho, é que é difícil e tenho de o fazer: o capim do Makulusu secou em baixo do alcatrão e nós crescemos. E enquanto não podemos nos entender porque só um lado de nós cresceu, temos de nos matar uns aos outros: é a razão da nossa vida, a única forma que lhe posso dar, fraternalmente, de assumir a sua dignidade, a razão de viver – matar ou ser morto, de pé.

Mas eu sei que tu compreendes, mas não aceitas, tu não sabes o que é dormir tranquilo com Maricota no lado e saber que ela sabe e aceita o eu ir e matar ou morrer. Tu achas que isso é uma injustiça e tens razão, Mais-Velho. Mas me diz só: que posso eu fazer que não seja uma injustiça? Ou então prova que sim, que  o caminho é o que constantemente discutimos nestas tantas semanas, pega numa espingarda e vai para o lado do irmão da Maricota e mata-me. E então, Mais-Velho? Lês Marx e comes bacalhau assado, não é? Não te deitas com negras nem mulatas – a tua cunhada é mulata, fico descansado... – por respeito. Vê bem, Mais-Velho! Como tu és um baralhado: por respeito lhe recusas a humanidade dessa coisa simples, onde que só o humano se revela, onde só se pode aí comunicar, saber, aprender... Rio, sabes, mas me dói muito no coração, fico pesado de amargura. Espalha os teus panfletos, que eu vou matar negros, Mais-Velho! E sei que eles te dirão o  mesmo: «espalha os teus panfletos, vou matar nos brancos.»

Olha, Mais-Velho: não a odeias mais do que eu. E só há uma maneira de a acabar, esta guerra que não queres e eu não quero: é fazer-lhe depressa, com depressa, até no fim, gastá-la toda, matar-lhe.

Só porque tens razão, também tenho.

Desembeco na Travessa da Sé e é o cheiro a mar que me rusga. Mas quero sentir-lhe todo, não posso, não aceita, não lhe deixa o ramo branco das flores que estou levar, o fato escuro que pedi emprestado e a gravata disfarça. Não pode: mar mesmo só cheira a mar num corpo todo nu.

– Xalados, vocês!..."

 

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