21
Jun 19

Augusto Casimiro - Portugal Atlântico

Augusto Casimiro (1889-1967), Portugal Atlântico (1955).

 

Compilação de vários poemas datados de diferentes anos – 1914 (Acampamento – Noite, O Zambeze e um Mapa, Fogueira de África), 1924 (Horas Africanas, Oração da Noite Africana), 1944 (Colono), este volume foi distinguido com o Prémio Camilo Pessanha em 1954.

 

Inspirados por todos os territórios coloniais banhados pelo Atlântico, como o nome sugere, predominam, contudo, nestes poemas, referências a Cabo Verde, particularmente às ilhas Brava e Santo Antão, e a Angola.

 

Não deixa de ser interessante o facto de parecerem perpassar, em algumas destas composições poéticas, conceitos também presentes na Mensagem (1934), de Fernando Pessoa (1888-1935), impressão que, do mesmo modo e do ponto de vista estrutural, tende a ser suscitada no início do volume.

 

Com efeito, as primeiras poesias integradas na secção Pela Batalha ao Restelo apresentam títulos sugestivos dessas evocações – Portugal, A Canção do Novo Restelo, Sinfonia do Mar Alto, Hora do Ponto.

 

Curiosamente, para sublinhar toda estas ténues evocações, até a própria expressão "É a hora!", patente no poema Nevoeiro (1928), de Pessoa, surge no poema Oração da Noite Africana, alegadamente datado de 1924, embora num contexto completamente diferente.

 

Um ponto distinto nesta estruturação, no entanto, é a secção intitulada Canto ao Brasil no Mar, que apresenta três poemas dedicados a esta temática.

 

Desta obra, transcrevem-se, de seguida, o poema Fala Crioula e o soneto Prece, inspirados, respectivamente, por Cabo Verde e Angola:

 

 

FALA CRIOULA

 

"Esta fala é sempre nossa.

Fala crioula?... Afinal,

Para alma que bem a ouça,

É fala de Portugal!

 

É uma fala de menina,

Andou ao colo, amimou-se,

Ficou sempre pequenina,

E, de preguiça, mais doce.

 

Ouço-a agora, embala, arrola...

Sabe a amor, sabe a tristeza...

Na voz da gente crioula

Oiço a alma portuguesa...

 

E, às vezes, com mais doçura...

Algumas palavras têm

Mais humildade e altura,

Mais gosto da terra e além...

 

Morabêsa... amor e beijo

Que se não dá, que se fala,

Em que há gosto de desejo

E o aroma que o cravo exala...

 

O que é doce à alma e ao gosto

É sabi... sabe a carinho...

Saber não contém desgosto...

O que é mais sabi... é sabinho.

 

Grandeza... Entre nós humilha

Se não é Deus. Grandeza

Aqui, nas almas da Ilha,

É alegria, é morabeza...

 

Contente... quem diz contente

Entre nós diz alegria,

Mas na boca desta gente

Só quer dizer: simpatia...

 

A fala crioula é nossa

Trouxe-a ao colo Portugal..."

 

 

PRECE

 

"Terra de Angola, Mãe da Primavera:

– Só de te descobrir logo o tocou,

Ao primeiro que veio e te encontrou,

Do teu bárbaro encanto a lei severa.

 

Estás, sempre e sem fim, à nossa espera.

Por ti sofremos. Contra ti pecou

A nossa Alma e a tua nos perdoou.

– Quem amar-te não soubesse te perdera...

 

Desejada e rendida te violámos

E ficamos escravos, de ti... Esta hora

É a doutro encontro, como dois irmãos,

 

Na terra em que sonhamos e lavramos,

À luz igual duma fraterna aurora, 

Um destino mais alto, dando as mãos."

 

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04
Fev 19

Nuno Bermudes - Gandana

Capa e ilustrações de José Pádua (n. 1934).

 

Nuno Bermudes (1924-1997), Gandana e Outros Contos (1959).

 

Primeiro volume da Colecção Prosadores de Moçambique, um projecto editorial do jornal Notícias da Beira continuado com Cães da Mesma Ninhada (1960; cf. https://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/339350.html), de Ascêncio de Freitas (1926-2015), esta obra surge prefaciada por Fernando Couto (1924-2013) que, num dos seus parágrafos, evoca e homenageia vários escritores moçambicanos:

 

"Que tenhamos fundadas esperanças [que algo de importante se está a processar na vida espiritual moçambicana] nada o impede; antes pelo contrário: Afonso Ribeiro, Rodrigues Júnior, Eugénio Lisboa, Vieira Simões, Ilídio Rocha, Guilherme José de Melo, Cordeiro de Brito, Rui Knopfli, Jorge Vila, Nuno Bermudes, José Craveirinha, Joaquim Sabino, Noémia de Sousa, Carlos Lança, As Cêncio de Freitas, Virgílio de Lemos, Artur M. Costa, Alberto de Lacerda e outros, são hoje presenças que é preciso ter em conta, ou porque já começaram a construir uma obra válida ou porque dentro em breve a apresentarão. E dos que a morte nos roubou não podemos esquecer Rui de Noronha e Reinaldo Ferreira."

 

Para além do que já foi referido em outros artigos sobre este autor, registe-se para a sua biografia que Nuno Bermudes nasceu em Macequece, Moçambique, tendo-se mudado aos cinco anos para o que então se designava como Metrópole. Regressou posteriormente, em 1947, a Moçambique. 

 

Como já foi anteriormente referido, extraíram-se deste volume os contos Uma Gota de Chuva e A Visita que posteriormente surgiram no opúsculo Uma Gota de Chuva (1964), publicado na Colecção Imbondeiro.

 

Os restantes contos que integram a presenta obra são Gandana, Pedra de Fogo, Um Pedaço de Vida, Os Amantes Inocentes, O Redactor de Serviço e Ciganos, o único que não apresenta um enredo de inspiração africana.

 

Do conto Gandana transcrevem-se os primeiros parágrafos:

 

"Sem fim, sem horizonte e sem caminhos, é o mato. Nele, a doçura não existe. A própria polpa dos frutos é ácida e ardente. O sol, uma ferida vermelha que não sara nunca e, de cada vez que reabre na pele cinzenta do céu, os habitantes do mato procuram a frescura negada nas florestas sombrias onde a ribeira corre e a nascente faz ouvir o seu murmúrio. Só a charu, a mamba e a jibóia se deixam ficar no capim dos tandos e as rolas sussurram na copa despida do arvoredo.

 

O mato não termina nunca. Toda a espécie de árvore e planta enche o mato sem fim, sem horizonte e sem caminhos. A micaia agreste, abrindo para o alto os dedos afiados e hostis, a maçala carregada de frutos cujo coração é áspero e azedo, o cajueiro bravio e perfumado. Léguas e léguas de desolação e aqui e além o grito colorido de uma flor desafiando a sonolenta monotonia.

 

Só quando a noite vem e a lua paira, grande e redonda como um disco de âmbar, só então os habitantes do mato deixam as florestas e surgem a vagabundear na planície. As cigarras  e os grilos iniciam a sua cega-rega e o sapo-boi atira pela noite dentro com o seu grito rouco e dissonante.

 

E esse é o mato. Esse é o mundo indecifrável e misterioso dos bichos que desafia o pé humano que o pisa a violar os seus recantos naturais que apenas os felinos, os répteis e os antílopes conhecem.

 

Ali, na orla da lângua, Gandana parou. Sob o sol brilhante que enchia de cintilações douradas a verde planície, a pele do negro luzia como aço, com estranhas reverberações azuladas e vermelhas. Dentro da sua cabeça, os pensamentos queriam ordenar-se, mas quando roçavam uns nos outros, como os ombros de uma multidão apressada, ora se repeliam ora se fundiam.

 

Então, ele disse para dentro de si:

 

 –Gandana, você não vai 'guentar...

 

No entanto, ele sabia que era só atravessar a lângua e a floresta, para alcançar a montanha e ficar livre como um chango. Via a linha de luz que, do outro lado da planura, poisava sobre a cumiada roxa do arvoredo e ouvia o manso arrulhar das rolas. Mas, insistia:

 

– Gandana, você não vai chegar na serra...

 

Deitou-se de bruços, afastou o capim e afundou os beiços na terra escura e ensopada, bebendo, com as mãos enormes e patudas cravadas no matope, de cada lado da cabeça. Parecia, assim, naquela grotesca posição, um gigantesco escaravelho acachapado."

 

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17
Jan 19

José de Almeida Santos - Longe, Lá Longe...

 

José de Almeida Santos (1922-1997), Longe, Lá Longe... (1962).

 

José de Almeida Santos publicou mais de duas dezenas de obras, destacando-se na sua bibliografia um conjunto de estudos sobre a história social de Luanda no século XIX.

 

Para além do volume agora apresentado, no âmbito da poesia e da ficção, publicou Seis Histórias Quiocas (1965) e Tábua de Esmeralda (1966), tendo ainda publicado, em co-autoria com Maria Lígia de Almeida Santos, o volume Aquele Velho Chapéu... ; Traição (1964), na colecção de livros de bolso da Imbondeiro.

 

Os poemas que nesta obra estão intimamente ligados à temática africana são, por ordem de publicação, Canção da Muana-Maria, História do branco Cauache e André Luembe está preso, os quais são acompanhados no final de cada um por uma lista de vocabulário que totaliza dezanove palavras.

 

Surge ainda o manifesto-poema Os tais «ventos da história», que se transcreve integralmente abaixo não só como um documento literário sobre a actualidade da sublevação nas colónias e a sua contextualização, mas também pelo seu anti-americanismo, pelo seu conceito de comunidade lusófona e miscigenização e por um certo paralelismo com as patrióticas manifestações literárias anti-Ultimatum de 1890.

 

Refira-se, como curiosidade, o último poema deste volume, intitulado O Mundo em que vivemos (Poema radiofónico - ruídos bélicos), pela evocação que, na quase totalidade do seus versos, faz das onomatopaicas obras futuristas e dadaístas.

 

Finalmente, note-se que não se deve confundir o poema que dá título a este volume com o poema Lá Longe, de Florêncio Neto de Carvalho (1924-1985), o qual está na origem do conhecido fado de Coimbra interpretado, entre outros, por António Almeida Santos (1926-2016).

 

"Os tais «ventos da história»

 

Os tais «ventos da História»

Não são uma invenção americana

Nada disso!

São sim a resultante

Da evolução natural da mente humana,

Verdadeiros,

Reais,

Soprando no sentido

Da Paz e da Concórdia universais.

 

Que o rico tio Sam,

Desbaratando os dólares às mãos cheias

Co'a sua bem montada propaganda,

Queira modificar o curso dos elementos

Para poder tirar

Mais chorudos proventos,

É uma coisa perfeitamente natural.

Mas tal não implica

Que os racismos, ódios e crueldades,

Fomentados p'los nórdicos dinheiros,

Não sejam episódios passageiros,

E que a fusão dos povos em blocos

(No sentido dos quais sopram os ventos)

Se não verifique, mais ano menos ano,

Mau grado o esforço

E os montes de armamentos

Do Estado americano.

 

Um dos futuros blocos naturais

(Bloco varonil

Firmado no interesse

E na cultura e entendimento humanos)

É o que ligará os povos do Brasil

Aos povos Lusitanos.

 

Da terra do chewing-gum, o mercador

Por certo, lutará, com todo o seu vigor

Contra a constituição dessa comunidade,

Pois teme do Brasil

A grande actividade fabril

Que o fará derrubar da forte posição

(Conquistada à custa de milhões

E falsa ajuda ao preto independente)

Donde enche de bugigangas e sabões

O negro continente.

 

E ele,

O inventor do Ku-Klux-Klan,

Da Lei de Lynch, da Reserva Pagã

(Onde, como animais encurralados

Vivem uma existência deletérica

Os nativos de côr da própria América)

Tem agora o afã,

Que é pura e mentirosa propaganda,

De mostrar ao negro primitivo

Ser muito seu amigo.

 

Mas, isso, irmão de côr, é tudo fantasia.

 

Irmão de côr :

 

Tu e eu que, juntos, fizemos o Brasil

(Esse Brasil moreno

Caldeado do teu sangue de negro

e do meu sangue de luso e agareno),

Tu e eu que, há muitos anos já,

Vamos juntos à escola

E juntos trabalhamos e jogamos a bola,

Tu negro português e eu branco português

Não vamos deixar que o terrorismo,

Descendo da fronteira

E pago com dinheiro americano,

Instile em nós o ódio racial.

Não!

Pensando em Portugal

E pensando no Brasil, ali em frente,

Tu negro português e eu branco português

Apertemos as mãos

Solenemente."

 

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17
Jun 17

Silva Tavares - Cruzeiro da Saüdade

 

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03
Mar 17

Reynaldo Ferreira - Preto e Branco

Capa de Martins Barata (1899-1970).

 

Reynaldo Ferreira (1897-1935), Preto e Branco (s.d. [1923]).

 

Jornalista, celebrizado com o pseudónimo de Repórter X, escritor e realizador de cinema, Reynaldo Ferreira viveu durante o final da década de 1910 em França, na Bélgica e na Holanda, e, já na primeira metade da década seguinte, em Espanha, país onde, aliás, nasceu o poeta Reinaldo Ferreira (1922-1959), seu filho.

 

Entrou para a redacção do jornal A Capital aos dezassete anos, colaborando em 1918 nos jornais Manhã, Opinião e Século, ano em que também passou a ser redactor do Le Soir, de Paris. De Paris seguiu para a Bélgica, onde colaborou no jornal Le Neptune, de Antuérpia, daí para a Holanda e finalmente para Barcelona.

 

Em Espanha, onde terá dado primazia à actividade literária sobre a jornalística, publicou diversas obras logo em 1921, como La Princesa que no Reia, Los Rusos de Mi Pension, El Taller de Madame X, El Vencedor, El Hombre que Vivió Doscientos Años.

 

Já em 1923, centrou novamente a sua atenção no jornalismo, publicando o livro Los Reyes en la Intimidad. No ano seguinte, ainda em Espanha, a sua obra El Botones del Ritz veio a ser adaptada ao cinema.

 

Uma das suas obras mais célebres, assinada com o pseudónimo Repórter X – Memórias de um Ex-Morfinómano, foi publicada em 1933.

 

Preto e Branco, uma pequena novela de 27 páginas divididas em cinco partes, surge como uma desconcertante reflexão sobre o racismo, a missionação e a insegurança íntima do protagonista, um milionário negro ocidentalizado que consegue mudar a cor da sua pele e vem a descobrir que essa decisão lhe traz a infelicidade. 

 

Da segunda parte desta obra transcrevem-se dois parágrafos:

 

"...Ainda ela não havia quebrado o seio, com as cordas que na sua tribu, [sic] enlaçava [sic] o peito das virgens que entravam na puberdade, dois homens brancos, vestidos de negro, irmãos de sangue e de fé se apresentaram um dia, dizendo aos indígenas que vinham ensinar-lhes que no ceu existia um Deus, e que esse Deus nada tinha de comum com os manipansos de madeira que eles adoravam. Todos os escutaram atentos, dispostos a crêr, na sua indolencia espiritual esse novo Deus que lhes ofereciam, prometendo-lhes paraizos eternos. E o sóba não hesitou em dar aos missionários a sua melhor cabana e as melhores esteiras. Ebu dormia, esse sono, sem sonhos dos seres primitivos, quando dois braços brutais, abriram em cruz os seus braços, e uma boca escaldante, mordeu com os lábios, a sua boca. Desperta e assustada pela violencia do ataque, quiz gritar, mas não poude. E então os seus olhos afilados pelo pavôr, cravaram-se na treva e reconheceram o mais novo dos missionários. Durante horas e horas, o seu espirito afugentado pela dôr fisica pelo panico, abandonou o corpo, num pesado desmaio. Quando voltou a si, já o sol ardia pela planicie sem fim – e os missionários haviam partido em direcção á cidade. Ela guardou o segredo daquele brusco assalto á sua virgindade – pobre flôr desprezada que o sóba não teria hesitado em regalar ao padre – até que o nascimento de Jolué a obrigou a revelá-lo.

 

Os moços da tribu exigiram, então, em berros, o corpo do recemnascido, cuja pele negra deixava adivinhar, através uma transparencia ligeiramente clara, a côr do homem que a fecundára. Mas as bestas das florestas tambem têm o instinto da maternidade; e Ebu, quando comprendeu que lhe iam arrancar do peito aquela cria ainda cria ainda quente do seu ventre, fugiu e, durante horas e horas, correu, correu como uma louca, com os pés a queimarem-se sobre a terra que escaldava como fogo vivo – até cair sem sentidos, vencida pelo cansaço e pela fome... Voltou a si sentindo que a sua cabeça repousava sobre os joelhos de alguem; colados ás fontes, lenços humidos, refrescavam-na com delicia. O filho, dormitava, ao seu lado. Procurou descobrir quem fôra o salvador, e os seus olhos encontraram-se com um homem, muito branco, todo vestido de negro. Era um dos missionarios; era o mais velhos dos dois; era... o reverendo Agostinho de Jesus."

 

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19
Fev 17

Portugal: Pergunte para Saber

Capa de João Paulo de Abreu e Lima (1922-2009).

 

Portugal: Pergunte para Saber (1972).

 

Publicação da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, através da sua Direcção-Geral de Informação, este volume segue a tradição de propaganda que já havia sido instituída por António Ferro (1895-1956) na década de 1930, quando este estabeleceu o Secretariado da Propaganda Nacional.

 

Com um grafismo ancorado na Op-Art, e uma capa claramente inspirada pela obra de Victor Vasarely (1906-1997), este volume, ilustrado com dezenas de fotografias, apresenta 16 secções dedicadas a diferentes aspectos que pretendiam caracterizar Portugal – País e População, História, Religião, Governo e Administração, Cultura, Educação, Informação, Economia, Turismo, Transportes, Finanças, Política Social, Facetas típicas da vida portuguesa, Informações úteis, Portugal no mundo e Quais os principais acontecimentos da história de Portugal.

 

Na secção Cultura surgem várias subsecções dedicadas à literatura, entre elas uma intitulada «E a Temática Ultramarina?». Inevitavelmente curta e incompleta, esta é particularmente interessante nas suas referências, pois embora não mencione Luandino Vieira (n. 1935) menciona outros autores marginalizados pelo regime, como Castro Soromenho (1910-1968) e Orlando da Costa (1929-2006), não mencionando, por sua vez, um autor considerado muito próximo do estado corporativo e do governo provincial de Angola, como Reis Ventura (1910-1988).

 

Certo é que Reis Ventura, apesar de ser um prolífico autor, nunca teve as suas obras incluídas nas publicações oficiais da Agência-Geral do Ultramar. Embora privilegiasse a Editora Pax, chegou a publicar na Imbondeiro, uma dinâmica e bem-sucedida editora angolana, de Sá da Bandeira, que, no entanto, não tinha os favores do regime.

 

Transcreve-se integralmente aquela subsecção: 

 

"Remonta ao século XVI a presença da temática ultramarina na literatura portuguesa, mas foi especialmente a partir do 2.º quartel do século XX que o Portugal africano, asiático ou da Oceânia surgiu plurifacetado na obra dos escritores ultramarinos e na de escritores metropolitanos com longa vivência do ultramar.

 

Relativamente aos primeiros, muitos figuram em posição relevante na literatura nacional. Citem-se, em Cabo Verde, o romancista Baltasar Lopes, autor do romance "Chiquinho", e o poeta Jorge Barbosa («Caderno de um ilhéu») que focam os problemas regionais.

 

De S. Tomé e Príncipe é um poeta de estirpe, Francisco José Tenreiro («Ilha de Nome Santo»).

 

Em Angola, da geração actuante antes da década de 1940, e que abriu à novelística caminhos válidos, mencione-se Castro Soromenho («Nhári», «Homens sem Caminho»), e Óscar Ribas («Ecos da minha Terra»). Depois, outros valores surgiram, como: Geraldo Bessa Vítor («Sanzala sem batuque»), Orlando de Albuquerque («O homem que tinha a chuva»). A poesia tem cultores de mérito em Tomás Vieira da Cruz («Quissange», «Cazumbi»), Alda Lara, Geraldo Bessa Vítor («Cubata Abandonada», «Mucambo»), Mário António («Chingufo», «100 Poemas»).

 

Ainda dentro do sector dos escritores africanos, os valores literários de Moçambique sobressaem na poesia, em que Rui de Noronha («Quenguelequeze»), Alberto Lacerda («Exílio»), Ruy Knophli [sic], com pouca influência do ambiente («Reino Submarino», «O País dos outros») conquistaram posição de relevo. Na novelística, Guilherme de Melo chamou a atenção com o livro «A Estranha aventura».

 

Timor é tema para Fernando Sylvan, assim como a Índia Portuguesa é lugar de acção nos contos de Vimala Devi («Monção»), que é também poetisa («Hologramas»), e no romance de Agostinho Fernandes («Bodki»).

 

Mas não é de menor valor e autenticidade a obra, com temática ultramarina, de escritores metropolitanos. Têm lugar destacado: Manuel Ferreira, que em «Morabeza», «Hora Di bai» aborda problemas da terra e das gentes de Cabo Verde; Ferreira da Costa, que no 2.º quartel do século XX, debruçando-se sobre temas de África, escreveu obras como «Pedra do Feitiço» e «Na pista do marfim e  da morte», cuja acção decorre em Angola, terra em que Guilhermina de Azeredo situa o romance «Feitiços». A vida e o povo de S. Tomé encontram eco na novelística de Fernando Reis («Roça»). Timor inspira a poesia de Ruy Cinatti («Sequência Timorense»). O romance «O Signo da Ira» de Orlando Costa é documento humano de Goa. Outros prosadores e poetas como Fernanda de Castro («África Raiz»), Merícia de Lemos, etc., foram atraídos pela temática africana, o que confere à literatura nacional uma diversidade plena de interesse."

 

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30
Jan 17

Capelo e Ivens - De Angola á Contra-Costa (I)

 

Hermenegildo Capelo (Hermenegildo Carlos de Brito Capelo, 1841-1917) e Roberto Ivens (1850-1898) - De Angola á Contra-Costa: Descripção de uma Viagem Atravez do Continente Africano, volumes I e II (1886).

 

Tal como a anterior obra destes autores, De Benguella ás Terras de Iácca (1881), também estes dois volumes poderão ser incluídos na literatura de viagens, quando se confere a esta expressão um sentido lato.

 

Do capítulo V – Na Huilla, do primeiro tomo, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Logo que por qualquer circumstancia, como roubo, assassinio ou doença, o adivinhador é chamado por uma tribu, tudo ali se prepara para a ceremonia, que quasi sempre é depois do accaso do sol, escolhendo-se noites escuras, e parece que ás vezes na lua nova, a fim do feiticeiro poder tirar maior vantagem, impressionando a imaginação do publico com o contraste das trevas e do fogo, que para esse effeito ateiam em diversos pontos.

 

Reunidos todos os individuos da terra em vasto circulo, dentro do qual crepitam, como dissemos, fogueiras que pela sua luz tremulante dão á scena phantastico aspecto, colloca-se a meio o n'ganga, prompto e paramentado, a face riscada com traços de cores, um enorme pennacho, a cabeça ornada de chifres de antilope, um bilboquet na mão e ás vezes caudas de animaes á cinta. Junto a elle, em pequena esteira, vê-se uma panella de barro contendo certo liquido especial, pequenos paus dispersos, e uma cabaça cortada em fórma de bacia, com varios objectos, cuja vista causa espanto, e que seria difficil descrever.

 

Bagos de missanga, buzios, pequenas imagens de pau, arremedando um homem ou uma mulher, pedras, bicos de aves, garras, pés ressequidos de corujas, etc., que ahi o visitante póde notar boquiaberto.

 

De subito o adivinho solta um silvo, e agitando o bilboquet enceta uma dança grotesca.

 

As mulheres cantam em côro ao compasso das palmas, emquanto elle, aos saltos, percorre os grupos e observa attentamente os circumstantes.

 

Aqui pergunta, acolá responde; finge afastar-se, de subito volve, mira, affirma-se, e como esperto e observador, espera a todo o momento ver transparecer no rosto ou nos movimentos inquietos de alguemm a provas do crime.

 

Por vezes sáe do circulo, acocora-se, confunde-se com a multidão, e raro será que, no caso de roubo, o supersticioso auctor, estando presente, não se tráhia por algum signal.

 

Apenas iniciado volve, e, em pulos estranhos, approxima-se da esteira.

 

Acocorou-se. Eil-o de joelho em terra, cabaça de feitiços na destra, a mão esquerda estendida horisontalmente, a cabeça curvada, acenando a compasso.

 

Ligeiros impulsos dados no sentido vertical deixam ver os objectos contidos no interior, até que, repetindo o movimento com mais energia, um d'elles cáe no terreno.

 

Largando a cabaça apodera-se d'elle, mira com ar bestial por momentos, firme, emmudecido; depois começa com esgares e momices, que pouco a pouco exagera, escancára a bôca, e arregalando os olhos injectados de sangue, eil-o que se levanta, e em saltos vertiginosos percorre a arena como um louco!

 

Á luz pallida dos madeiros que ardem, esse homem sarapintado, agitando-se no meio das mais estranhas convulsões, narinas entreabertas, labios espumantes, parece um verdadeiro demonio, revestido de todos os attributos com que a imaginação adorna esta casta de creações!

 

Apoz a estranha lucta, cáe emfim extenuado e, estrebuxando, profere o nome da victima, que, cheia de espanto, pretende fugir, mas é acto contínuo agarrada."

 

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25
Jan 17

Manuel Barão da Cunha - Aquelas Longas Horas

 Capa de Neves e Sousa (1921-1995).

 

Manuel Barão da Cunha (n. 1938), Aquela Longas Horas (1968; presente edição, 2.ª, revista, 1970).

 

 

 

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08
Dez 16

Castro Soromenho - A Voz da Estepe

 

Castro Soromenho (1910-1968), A Voz da Estepe (s.d. [c. 1956]).

 

Este opúsculo de 48 páginas republica dois contos do autor – A Voz da Estepe e Samba, que anteriormente haviam sido incluídos na sua obra Rajada e Outras Histórias (1943). 

 

Do conto que dá o título a este volume transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Um som vibrante de tambor quebrou o ar e foi levado pelo eco que o atirou planície fora. Matembele ainda tinha punhos fortes, mas ele próprio se surpreendeu com a violência com que tocara o atabaque.

 

– Velho, tu ainda estás novo! – disse-lhe um dos caçadores, o Capua, que desde rapaz só o tratava por velho.

 

Matembele riu e, entusiasmado como uma criança, recomeçou a martelar o tambor, para que todos ouvissem bem que começara a caçada a fogo de Dumba-iá-Cuito.

 

– O vento está bom – disse o velho, com a boca e os olhos a rirem.

 

E, entregando o tambor a um moço, empunhou o fuzil e dirigiu-se para o rio, abrigando-se à sombra da árvore, junto ao ancoradoiro.

 

Na linha azul do horizonte, começou a desdobrar-se uma serpentina de luz alaranjada, que em breve se transmudou numa faixa vermelha, como uma estrada de fogo entre o céu e a terra. De repente, rolou sobre essa faixa uma onda rubra que incendiou o céu, como um pôr de sol, e um rumor de mar encapelado correu sobre a planície, e com ele o vento trouxe uma onda de ar quente. E, de pronto, a voz da estepe acordou em todos os recantos.

 

Do capinzal largaram bandos de borboletas, de lindas e variegadas cores, em demanda da frescura rio, inquietadas com os rumores da planície. Matembele ficou-se a olhá-las com olhos de criança. Um grande pássaro negro riscou o espaço, batendo ruidosamente as asas sobre a cabeça do velho, e lançou um grito agoirento; e como se esse grito fosse aviso de desgraça a todos os pássaros da planície, logo o céu se encheu de asas das mais variadas cores, que se perderam para além do Cuilo.

 

Agora já não se enxerga a linha azul do horizonte. No céu que tomba sobre a terra reflectem-se as vagas de chamas que o vento ondula na planície. Ouve-se, num rumor distante, a respiração ardente da estepe. Os caçadores estão excitados com os rumores que vêm da planície e com a espera da caça. Para as bandas do rio, cruzam-se gritos de alegria selvagem, comentando a marcha do fogo e a violência do vento. Mas ainda não há sinal de caça, nas terras ribeirinhas e nas faixas que de um lado e do outro dividem a planície e são barreiras para o fogo e pontos de apoio de caçadores, porque, se o vento mudar de direcção, atirando com o fogo para ali, toda a caça que foge, em tropel, à frente do fogo, irá ao seu encontro.

 

Uma corpulenta pacaça e três tímidas gazelas, deitaram a cabeça para fora fora do capinzal, mas, logo que viram um dos caçadores, retrocederam precipitadamente. Ninguém deu um passo em sua perseguição, esperando pelo momento em que elas se viessem entregar à morte, quando já não pudessem suportar o calor ou açodadas pelo fogo. De repente, nas terras nuas da margem do rio surgiram, fugidos do capinzal, centenas de ratos, soltando guinchos e correndo como loucos, o que causou grande alegria aos caçadores que, por divertimento, os perseguiam com gritos e os chibatavam."

 

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01
Nov 16

Orlando da Costa - Sem Flores Nem Coroas

 

Orlando da Costa (1929-2006), Sem Flores Nem Coroas (1971).

 

Do II acto desta peça transcreve-se um pequeno excerto:

 

" (...)

 

Bostú    Partir? Para onde vão..., para onde a levam?

 

             A Filha sai de cabeça baixa, seguida da Mãe. Bostú fixa os olhos no Pai, insistentes e ansiosos.

 

Pai        (Afastando-se com ar despreocupado, mas com a voz séria.) Vou pô-la a salvo. É de esperar o pior... (Voltando-se, com ironia.) ...Ou você acha que não?

 

Bostú    (Procurando sorrir, ingénuo ou incrédulo.) O tio crê que os soldados vão oferecer resistência?, que combaterão o cerco que se aperta?

 

Pai        (Exaltando-se, solene.) Defenderão tudo e todos até ao último dos homens fardados!

 

Bostú    Mas isso é uma loucura... 

 

Pai        São ordens!

 

Bostú    (Continuando.) ... uma loucura assassina. (Sorri amargamente.) Até tombar o último homem fardado, quantos, quantos homens não fardados não cairão, mortos ou feridos, no chão desta terra, tio?... (A sua voz é angustiada.) E tudo isso para nada, já pensou?...

 

Pai         (Com firmeza.) Temos de nos sacrificar pelos que expõem as suas vidas na nossa defesa!

 

Bostú   (Num apelo de sinceridade.) Mas, tio!, não somos nós que vamos ser atacados!... Esta terra vai ser simplesmente...

 

Pai          (Impetuosamente.) ... Arrasada!

 

Bostú      (Tentando continuar.) ... Os soldados, desarmados...

 

Pai          ... Chacinados, como todos os outros – homens, mulheres, crianças...

 

Bostú      O tio acredita...

 

Pai          (Continuando, sem lhe dar ouvidos.) ... Nós... elas..., eu... Eu! Eu! (Repetirá, batendo com a mão no peito, enquanto Bostú fala.)

 

Bostú        ... consegue aceitar – já não digo acreditar – que as nossas crianças morram nesta noite ou na próxima..., que os nossos velhos e as mulheres... e a vida terminem da noite para o dia..., nesta terra que os viu nascer?

 

Pai              (Num lance desesperado.) Quem pode sobreviver a uma terra arrasada! Quem?...

 

Bostú          (Sufocado.) Arrasada?!

 

Pai              (Explodindo em fúria.) Sim, arrasada! São ordens!

 

Bostú          (Após um momento de silêncio.) Se esta terra vai ser arrasada de que vale tentar pôr a salvo a sua filha, de que vale juntar as jóias e fugir... (A sua voz ganha sùbitamente um tom intenso, inquisitorial...) É só para iludir a sua consciência?... enganar a nossa?... e diga-me uma coisa... (Gestos largos.) Fugir... fugir... para onde? (Acintosamente e apontando para a parede ao fundo.) A sua terra acaba aí, bem perto, no mar, o mar que já recebeu invasores e não receberá fugitivos!

 

Pai              (No limite da histeria.) Cale-se! Proíbo-lhe!...

 

Bostú          (Erguendo finalmente um gesto apaziguador.) Tio...

 

Pai              (Apopléctico.) Proíbo-lhe de falar..., de continuar nesta casa...

 

Bostú          ... mas... tio...

 

Pai              (Com rudeza.) Proíbo-lhe de continuar a chamar-me tio!...

 

(...) "

 

 

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