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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

12.01.26

Mário António - 100 Poemas


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Mário António (Mário António Fernandes de Oliveira, 1934-1989), 100 Poemas (1963).

Capa de Eduardo Pires Júnior (datas desconhecidas).

 

Muitos dos aspectos bio-bibliográficos de Mário António (1934-1989) já foram anteriormente aqui referidos (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/tag/m%C3%A1rio+ant%C3%B3nio), pelo que este artigo se limitará a transcrever excertos das duas notas críticas patentes na adenda e três dos poemas apresentados nesta obra.

 

O volume consultado, para esta transcrição, ostenta a dedicatória manuscrita "Para / Maria Manuela Couto Viana / Poetisa da minha admiração / desde há muitos anos, / com a simpatia / do / M. Antonio / Lisboa, Fev. 66" e reproduz 102 dois poemas do autor, datados de 1950 a 1962, entre os quais um poema intitulado Sobre Quadros de Eduardo Pires Júnior (1961).

 

Apresenta ainda uma marginália crítica, com textos de Amândio César (1921-1987), O poeta angolano Mário António, publicado no jornal Diário de Notícias, de Lisboa, em 25 de Abril de 1961, e de Alfredo Margarido (1928-2010), A poesia de Mário António, publicado no jornal Diário de Lisboa, em 10 e 7 de Outubro de 1960.

 

Do texto de Alfredo Margarido, destacam-se dois parágrafos – " (...) Bem certo é que esta poesia oscila ainda entre uma memória da saudade de uma cidade da infância – de certo que, em grande parte, uma cidade da idade de ouro, do paraíso perdido – que neste caso devemos compreender como aquela que coincidia com a existência viva do pai que, nos movimentos posteriores, se transforma na fixação fotográfica. Eis o profundo desfazamento do domínio poético: a um pai vivo e que fala, isto é, que vive ainda dentro da palavra viva, da palavra actuante, substitui-se um pai que é apenas a estratificação fotográfica  de um instante, logo transformado em não-instante. E se atendermos a que o pai branco enuncia o trânsito para uma sociedade mestiça bem tipicizada, melhor poderemos compreender o traumatismo profundo sofrido pelo poeta. / Para compreender inteiramente a poesia de Mário António é necessário penetrar no cerne da problemática do quê da experiência. Em boa verdadade é o feixe dos sentidos vividos pelas subjectividades, cuja permanente e válida intercomunicação garante a ampla estruturação do poema, que nos permite perceber os graus das mudanças fundamentais do ângulo de visão do poeta. De um ponto extremamente particularizado, e preenchido ainda por recalques que não eram ainda os movimentos da alienação, passa-se para uma validade por assim dizer universal dos movimentos de formação cultural em que o poeta está incluído, não já como um ego absoluto, mas antes como um dos elos que levarão às normas ideais capazes de permitir a revelação de uma verdade incondicionada. A verdade objectiva sobrepõe-se, de imediato, aos quadros estreitos da vida quotidiana, ou antes, apresenta-nos uma vida quotidiana concebida como transcendência. (...)"

 

Do texto de Amândio César destaca-se este parágrafo, a propósito do livro Poemas & Canto Miúdo (1960) – " (...) De resto há sempre um forte poder evocativo, como sucede em apontamentos sobre o mar em apontamentos como o que sobra da Cidade de S. Filipe de Benguela, ou como, ainda, o das «Donas de outro tempo». Por vezes ressalta na poesia de Mário António uma atitude semelhante à do romântico Amiel, aquele Amiel que um dia disse que «chaque jour nous laissons en chemin une partie de nous mêmes». Esses bocados de si próprio, que Mário António vai deixando ficar pelo caminho aparecem depois recriados pelo poder mágico da poesia, pelo poder evocativo da sua memória sentimental, pela necessidade de evasão ou de regresso aos jogos paradisíacos da infância, essa infância que o entristece por a ter perdido e por cuja consciência memorativa vai reconstruindo os retábulos mais íntimos e mais seus. Isto pode lembrar Alain Fournier, pode lembrar Drasillach, pode lembrar grande número de escritores e de poesia cuja obra surgiu entre duas grandes guerras. Mas Mário António possui um alto grau de individualização. A sua poesia é só dele: os sentimentos é que são universais. Daí que a sua poesia comungue com uma temática universal, sem deixar de ser profundamente enraizada em África. E, aqui está um exemplar típico de um escritor que é, simultâneamente, cidadão do seu País, sem deixar de possuir uma voz de tonalidades universalistas. Universalistas e não internacionalistas... para que não haja confusões de interpretação. (...) "

 

Deste volume trancrevem-se, assim, três poemas – Poema para Benguela (1951), Noite de Natal (1962) e o famoso Canto de Farra (1952), posteriormente musicado, cantado e gravado (1975) por Ruy Mingas (1939-2024), sob o título Poema da Farra.

 

POEMA PARA BENGUELA

 

Cidade de S. Filipe, cheiro de mar e peixe.

Praia Morena, gente morena

sabendo a mar.

 

Cidade de S. Filipe, essa mulata.

Mulata, essa cidade?

Não, cabrita:

Tem cabelos de cabrita.

A cor?

A cor é negra.

 

Cidade de S. Filipe, eu voltarei.

Vitória é de Benguela: Eu voltarei.

Vencido, ficarei preso ao teu corpo,

Cidade de S. Filipe de Benguela!

 

 

NOITE DE NATAL

 

Era noite de rixas a noite de Natal,

No Morro desamparado ante a vinda do Homem:

As mesmas bebedeitras e o batuque

De um Sábado maior.

 

Na cubata de adobe,

Sob o imbondeiro tutelar,

Sem a ficção da chaminé

Para o Menino entrar,

Era aí que esperávamos

Em esteiras sob o céu,

A Hora sem brinquedo algum...

 

E o tempo apenas se contava

Pelo pulsar

De pequeninos corações ansiosos,

Té o sinal

Que era

Irrompendo na Noite

O canto dos alunos

Da Escola Missionária

Atravessando o Morro...

 

( – «Canários da Maianga» de Mestre Coelho,

       Meninos sofridos de vozes límpidas,

       Quantos silêncios vos esperariam?... )

 

Dormíamos então

Sob a impressão

De uma chuva de estrelas

– Presente de Natal.

 

 

CANTO DE FARRA

 

Quando li Jubiabá

Me cri António Balduíno.

Meu primo, que nunca o leu,

Ficou Zeca Camarão. 

                                       Eh, Zeca!

 

Vamos os dois numa chunga

Vamos farrar toda a noite

Vamos levar duas moças

Para a praia da Rotunda!

Zeca, me ensina o caminho:

Sou António Balduíno!

 

E fomos farrar por aí,

Camarão na minha frente.

Nem verdiano se mete:

Na frente Zé Camarão,

Balduíno vai no trás.

 

Que moça levou meu primo!

Vai remexendo no Samba

Que nem a negra Rosenda:

Eu praqui olhando só!

 

Que moça ele levou!

Cabrita que vira os olhos.

Meu primo, rei do musseque:

Eu praqui olhando só!

 

Meu primo tá segredando:

Nossa Senhora da Ilha

ou que outra feiticeira?

A moça o acompanhando.

 

Zé Camarão a levou:

E eu para aqui a secar

e eu para aqui a secar.

 

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07.01.26

Antologia da Ficção Cabo-Verdiana Contemporânea (IV)


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Virgílio ("Djila") Avelino Pires (1935-1985) está representado nesta antologia com quatro contos breves – A Herança, Peregrina, Órfão, todos publicados na revista Claridade, número 8, de Maio de 1958, e Lulucha, inédito.

 

Virgílio Pires nasceu na ilha de Santiago e concluíu o liceu no Mindelo, passando depois a ser funcionário administrativo. A partir de 1964 tornou-se chefe de posto no Huambo, em Angola.

 

Publicou, ainda, no número 9 da revista Claridade, os contos Titina e Noite e colaborou também com o boletim Cabo Verde. Os seus contos completos foram reunidos no volume Herança (datas desconhecidas), cujo título remete para o conto homónimo, que consagrou esse breve, mas intenso, paradigma da sobrevivência trágica que é a personagem Puxim. Virgílio Pires, que também cultivou o género lírico, é patrono de uma das 40 cátedras da Academia Cabo-verdiana de Letras.

 

Do conto Lulucha, o mais longo destes quatro, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Quando Lulucha partiu, Pelada já tinha voltado com a ninhada. Pelada chocava os ovos sempre fora. Desaparecia e só voltava no prazo próprio, carejando gravemente, com a ninhada. Então, o galo preto avançava, altaneiro, como que a verificar se havia algum pinto preto.

O Pedrinho e o Chico tentavam adivinhar o número de pintos da Pelada. E apostavam.

– Desta vez são doze.

– Não, senhor são dez.

– Se forem doze o que é que me dás?

– Dou-te a minha bola de borracha. E se forem dez?

– Dou-te a minha lata de botões... com metade dos botões.

Daquela vez, quando Pelada voltou, vinda do monte de bredos que ficava atrás da casa, Pedrinhoo gritou: «São treze. Lulucha é que acertou». Lulucha tinha partido. O pequeno calou-se e ficou a pensar na camioneta verde que se sumiu lá longe, na recta de Bolanha, e levou Lulucha para a Praia.

Lulucha era contente. Estava sempre a sorrir. Tinha a boca grande, e quando ria os dentes muito brancos apareciam. Era boa para os meninos. É certo que às vezes aplicava ao Chico algumas sonoras palmadas. Mas eram merecidas. Chico era irrequieto e ela não lhe perdoava. Pedrinho era diferente. Pedrinho, sim. Pedrinho era o seu menino.

Lulucha gostava de arreliar nhâ Simoa. Nhâ Simoa era velha e feia. Diziam que era bruxa. Os meninos faziam figas e a mão na algibeira para ela não ver. Acocorava-se a um canto do quintal, e se Lulucha cantava aquela cantiga:

                    «Nhô S. Pedro câ nhô mata'm Caela

                    Pamô Caelaê badjadêra fox...»,

ela dizia: «Menina, abranda o brio do corpo... Rapariga nova pensa que o mundo lhe pertence...» Lulucha então, respondia: «Figas, nhâ Simoa. A mimm feiticeira não come. Tenho sangue amargo, fique sabendo». Nhâ Simoa levantava-se e saía, zangada. Lulucha chamava-a. Para não se zangar, era brincadeira... Qualquer dia iria para Praia, e ficaria com saudades dela. «Vais para a Praia? É melhor sentares-te num sítio! Rapariga nova...» – E ia-se embora a resmungar.

Às vezes, Lulucha fazia doces. E, então, era uma festa. El agostava de fazer beijos. Batia a clara do ovo até ficar branquinha comoa espuma de sabão, ajuntava açúcar e levava ao forno. Muitas vezes, Pedrinho pedinchava: «Lulucha, dá-me um beijo». Ela sorria e aguçava os lábios. Então Pedrinho dizia, amuado: «Estes, não quero, vai dá-los ao John de Tita». Ah, malandro, espera que eu te apanho» – dizia ela. E o pequeno fugia, rindo.

Lulucha nunca tinha ido à Praia, mas contava coisas maravilhosas da cidade. Havia um sítio chamado Montagarro. Ali havia uma enorme casa-de-água. À frente, um jardim com a estátua de uma menina que tinha caído no tanque. Na praça tocava-se música com cornetas e instrumentos melodiosos. Uma música maravilhosa, diferente da música de gaitas e de ferrinhos. As lojas eram deslumbrantes. Tinham toda a espécie de brinquedos. Carrinhos de corda, gaitas, bolas, tambores, bicicletas, triciclos, balões. E tudo muito barato. Quase de graça. Lulucha dizia que, quando fosse à Praia, havia de trazer aos meninos muitas coisas. Chico pedia uma bola de couro, como aquela que o John da Tita chutava no campo. Pedrinho pedia uma «biscleta».

Lulucha dizia sempre que iria à Praia. E acabou por ir mesmo.

Muito tempo depois, os pequenos perguntavam:

– Mambia, Lulucha volta?

– Volta, sim.

Mas os pintos da Pelada já eram frangos e Lulucha não voltava."

 

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14.12.25

Emília de Sousa Costa - No Reino do Sol


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Emília de Sousa Costa (1877-1959), No Reino do Sol (1933).

Desenho da capa, e das 22 ilustrações interiores, a preto e branco, de Raquel Roque Gameiro Ottolini (1889-1970).

 

Como já foi referido anteriormente (Autógrafos - Emília de Sousa Costa - Blog da Rua Nove), "Emília de Sousa Costa foi uma prolífica autora de histórias infantis e uma divulgadora empenhada da obra dos irmãos Grimm, Jakob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859), em Portugal, através da adaptação de muitos dos seus contos para a língua portuguesa.

 

Parte do seu espólio encontra-se actualmente depositado no Grémio Literário Vila Realense, juntamente com o espólio do romancista, ensaísta e cronista Sousa Costa (1879-1961), seu marido, que documentou, retratou e comentou a época final da monarquia bem como toda a agitação da I República. (http://www.noticiasdevilareal.com/noticias/listar_detalhes.php?id=852)".

 

Tal como Fernanda de Castro (1900-1994), e outras autoras cuja obra foi escrita e publicada durante o Estado Novo, Emília de Sousa Costa não foi imune à ideologia vigente, que desenvolveu, promoveu e ampliou o conceito de Império Colonial, intercalando na sua literatura infantil contos, ou temas, ligados às colónias portuguesas.

 

Alguns números desta mesma colecção, Biblioteca dos Pequeninos, dirigida e organizada pela autora, são evidente exemplo dessa influência, como sejam O Pretinho de Angola (1930), de César de Frias (1894-?), com ilustrações de Ilberino dos Santos (1905-1965) e Joanito Africanista (1932), da própria Emília de Sousa Costa, também com ilustrações de Raquel Roque Gameiro Ottolini.

 

No caso particular deste volume, entre as suas nove histórias – No Reino do Sol, Ninho desfeito, Que feio... ser invejoso!, O Coelho boateiro, O Bibi e a Dona Rã, O imperador, a menina e o cão, Guerra das Abelhas,Porque se separaram e O Cisne venceu, surge a alegada adaptação de uma tradicional narrativa da oralidade guineense, de que se transcrevem, abaixo, alguns parágrafos.

 

Como é evidente, a introdução da história, através da antítese entre a "língua de trapos" e a "dôce língua portuguesa", deixa antever uma preconceituosa afirmação ideológica, que se receia venha a predominar ao longo de toda narrativa, mas que, afinal, se vai diluindo e desaparece até ao seu final.

 

"PORQUE SE SEPARARAM 

– O LOBO 

– O ELEFANTE 

– O TIGRE 

– O LEÃO 

– E A CABRA!

Os meus amores não adivinham? Pois vão sabê-lo agora, tal como referem os indígenas da Guiné, na sua língua de trapos, a quem os quere ouvir e consegue entendê-los.

E depois de o saberem, podem os meninos contá-lo, mas na nossa língua, na dôce língua portuguesa, a quem gostar de historiazinhas ingénuas.

                                                                        *

                                                                  *          *

Certo casal de velhotes vivia desgostoso, por não ter tido filhos. Um dia, e quando já por sua idade não esperavam que Deus lhes fizesse a mercê de dar-lhes descendentes, tiveram um filho que, apenas nasceu, muito espevitado, declara aos pais:

«Quero chamar-me Himbo-Inéné!»

Imaginem o assombro dos velhotes!

Tinha o menino quinze dias e a mãi disse ao pai:

«Enquanto vais à caça e à pesca, vou eu colher bananas.»

E o rapazito, lampeiro, intromete-se na conversa:

«Deixa-te estar em casa, minha mãi, que eu vou buscar as bananas.»

Palavras não eram ditas, salta das costas da mãi, onde ela o trazia, enquanto lidava nos queafazeres domésticos e vai pela porta fora!

Daí a pouco, regressa, trazendo enorme cacho de bananas. Depois, pula ao colo da mãi, mama sofregamente e dorme a sua sonequinha, como os petizes da sua idade.

No dia seguinte, ao amanhecer, a mãi obrigada a sair, deixa-o na palhota. Ao voltar a casa, vários rapazes vizinhos a esperam e se lhe queixam do filho.

«Vizinha, o seu rapaz bateu-nos! É muito mau!»

«O quê? O meu filho é um pequenino de peito que deixei a dormir quando saí. Vós, uns tamanhões, a queixar-vos dêle, até parece mal... Vinde cá ver como êle está sossegadinho!»

Mas a velhota fica espavorida, ao enfrentar o seu pimpolho, de varapau nas mãos, esperando a arremetida dos outros rapazes, pronto a defender-se, se tentarem agredi-lo.

A pobre mulher pede desculpa aos rapazes e ralha ao menino que, de novo quere maminhas e torna a adormecer tranqüilo.

Mas já na aldeia se começa a murmurar que Himbo-Inéné tem feitiço mau e porisso [sic] é necessário fazê-lo morrer. Feita uma comunicação ao régulo, êste manda vir o petiz à sua presença."

 

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29.11.25

Felipe Nery - Rumores da Lunda


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Felipe Nery (datas desconhecidas), Rumores da Lunda (s. d. [D. L. 1961]).

 

Quase nada se sabe sobre o autor, excepto que viveu e trabalhou na Lunda, Angola, entre as décadas de 1930 e 1950. Sabe-se ainda que foi amigo de José Redinha (1905-1983), estudioso da etnologia da província da Lunda Norte, célebre pela sua produção diamantífera, e promotor do seu museu, que assina o prefácio desta edição.

 

Embora esta edição não esteja datada, podemos constatar que o prelúdio de Redinha está datado de 1950 e a introdução, de Nery, de Julho de 1960, sendo que o depósito legal é do ano seguinte.

 

Felipe Nery reúne, neste livro, trinta e um poemas e sete crónicas, onde se registam olhares diversificados sobre a vivência e o sentir que experimentou durante a estadia na região. Poder-se-á argumentar que a sua poesia é superficial e está repleta de lugares comuns, mas a verdade é que traduz um profundo fascínio pela região e pelos seus povos, roçando ainda o neo-realismo na sua abordagem das injustiças a que estão sujeitos os trabalhadores e os desfavorecidos.

 

Transcrevem-se, de seguida, quatro poemas deste volume.

 

"ESCORÇO

Selva brava, terra de gentios,

de capins agrestes e rasteiros escalrachos,

onde serpenteiam caudalosos rios

e é múmura e fresca a água dos riachos

 

Nos moxitos, verdecidos e velados,

campeiam feras, cruas e arteiras:

ruflam asas -  que são bandos alados

sobrevoando as cristas das palmeiras.

 

O sol doira a chã em cores ardentes

de planície fulva e infecunda...

À tarde, descem breves os poentes

a incendiar a misteriosa Lunda!

 

NÁCONDE - PRINCESA LUNDA

 

Bailarina negra, genial escultura,

que a voz do vento faz rodopiar.

Ó feiticeira, cor de noite escura!

Corpo de ébano feito para dançar!

 

Como ave sacudindo as penas,

fremes as ancas fartas, sensuais.

Ó princesa das lúbricas luenas!

Ó rainha de negras bacanais!

 

«Tchisanjes» gemem, vazam melodias,

que modulam o teu passo ritmado

pontificando nas pagãs orgias.

 

O «tchingufo» ressoa em vibrações,

que agitam o teu corpo requebrado

em frémitos de desejos e paixões.

 

O RIO LUACHIMO

 

Em seu leito coleante,

caprichoso,

entre margens frescas,

verdejantes,

nimbadas de mistério,

desliza triunfante e rumoroso

seu caudal maravilhoso

de águas mansas,

claras,

azuladas,

que turvam, avolumam,

e embravecem, assustadas,

ao sabor do vento,

e no momento

culminante das trovoadas.

 

 

O MINEIRO NEGRO

 

Lá muito longe, na sanzala tosca,

feita de madeiros, coberta de capim,

decorria a sua vida inerte,

vegetativa e rotineira.

Bastavam-lhe frutos, raízes,

e o sumo da palmeira.

A carne ele a caçava:

tinha sempre, alià mão,

a zagaia, e a velha lazarina,

de pederneira...

 

Ia contando, erradamente, os anos

pelas chuvas e os meses pelas luas.

Estendido sobre a terra deixava,

deleitado, os raiso do sol

penetrar-lhe as carnes

negras, nuas!

 

E em noites de batuque,

lascivo e estonteado,

ele cantava e dançava,

dançava toda a noite

até ficar cansado.

 

Mas tinha por pagar o justo imposto

à grei, ao Estado,

e numa manhã viscosa e fria

resolveu ser contratado.

 

Lá vai calcorreando trilhos.

Leva sobre a cabeça todos os seus haveres

e canta, canta sempre:

«Mãma iá mim. Mãma iá mim».

seguem-no a mulher e os filhos.

 

Rodam máquinas e vagonetas.

Flectem os corpos e as alavancas.

Erguem-se as pás e as picaretas

fendendo a terra e o cascalho!

Tanto trabalho!

 

Tosta-lhe a pele o sol impiedoso,

ferem-se-lhe as mãos a manejar o aço,

a revolver-lhe a terra nas suas entranhas.

Há manchas negras, movediças,

desafiando o espaço,

a derribar barreiras e montanhas!

 

Tressuam os corpos.

Estátuas de bronze em movimento

erguem os braços.

E as picaretas, marcando o tempo,

fendem a terra.

 

As pás de ferro descrevem arcos

no seu vaivém e a terra voa

brilhando ao sol que cai a pique.

As alavancas, cavando fundo,

ferem a rocha que se desfaz!

 

E o mineiro negro, pigmentado,

de dorso nu, duro e face prognata,

volta à libata,

obreiro obscuro

e ignorado.

 

O DRAMA DOS DIAMANTES

 

Os morros de Maludi são vermelhos,

são parábolas de Averno.

Os negros que os derribam são negros.

São negros mas são homens.

 

Os morros se esboroam sangrando

e a terra vermelha rola até ao canal

impelida pela água jorrante

e pelas bagas de suor dos negros.

 

Por vezes, os negros rolam também

e a mesma terra vermelha os sepulta.

 

Em baixo, no sopé do monte que parece inferno,

a faixa irregular e sinuosa do cascalho

esconde, ávida, as pedras lucilantes.

 

Mas, nas Metrópoles «snobes» e distantes,

Maludi é conhecido apenas pelos letreiros

colocados sobre gemas

nas montras faustosas de ricos joalheiros!"

 

© Blog da Rua Nove

20.10.25

Orlando Mendes - País Emerso (I)


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Orlando Mendes (1916-1990), País Emerso (1975).

 

Acabado de imprimir em Maio de1975, na Empresa Moderna, de Lourenço Marques, este volume surgiu no mês anterior ao mês da declaração da independência de Moçambique, ocorrida a 25 de Junho daquele ano.

 

O próprio título traduz já os sentimentos políticos e sociais, decorrentes da revolução de 25 de Abril de 1974, em Portugal, associados às colónias portuguesas desde o ano anterior.

 

A obra literária de Orlando Mendes nunca havia sido explicitamente política, mas em alguns dos poemas, num conto e na peça de teatro que reuniu neste primeiro caderno (País Emerso II viria a ser publicado no ano seguinte), o autor assume-se como arauto das mudanças sócio-políticas, procurando descrever e promover a consciência do que está a acontecer em Moçambique.

 

Uma vez que já anteriormente se referiram alguns dados biobliográficos do autor, o presente artigo registará apenas que este volume apresenta quinze poemas – De ontem para hoje, Deserção do infante, Meditação, E nunca mais serei eu, País emerso, Revolução, A caminho, Menino agora, Libertação do poeta, Um fósforo na noite, Invenção na voz, Escola Nova, Chuva, Carta para, Bilhete de filho, dois contos  O Segredo e A Reunião, e a peça de teatro Na Machamba de Maria – Sábado às 3 horas da tarde.

 

Transcreve-se de seguida, integralmente, o poema A Caminho.

 

A CAMINHO

 

Quando as luzes acendem na cidade

salpica-se de casas escuras por abandono.

Lá, nas machambas com cantina, o motor

funciona toda a noite para iluminar o centro

patronal, matilhas de cães ladram ao mínimo

lume de pirilampos e voo de insectos.

Acorda-se quase sem se saber porquê, instinto

a louvar o faro-zelo dos mastins, necessidade

de sono rebentando pragascontra os ladridos.

Nas povoações só (se acontecem) estrelas e lua

iluminam os caminhos de passagem comunal

que ninguém devassa pela noite adiante

porque os cães mansamente dormem as horas

que faltam para despertarem a madrugada.

E um novo dia amanhece na cidade

e nas dispersas machambas com cantina

e nas povoações que simples contaram histórias

e entoaram uma canção da luta em paz

e foram deitar-se sobre as esteiras rugosas

para dormir fadiga sem sonhos ou pesadelos.

Dia que um forasteiro poderia dizer que

não alterou a cara das coisas que havia já

dia que muitos de aqui pensam que não

traz mudança, além da cor que mais sobressai.

A manhã dura o mesmo tempo, o sol queima

como ontem, a chuva é de mais ou de menos

como nos ciclos passados. Mas o povo, esse

vai a caminho com o início da Revolução

tem outro rosto, outras palavras, outro andar

para um cântico-música que sabe improvisar

o que por este poema talvez insólito se noticia

para conhecimento daqueles que nos seus lares

de chinelos e tomando bebidas reconfortantes

apenas ouvem a rádio e lêem os jornais

pois ver multidões os arrepia debaixo da pele.

 

© Blog da Rua Nove

17.09.25

Revista Cultura (VIII)


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Com já foi referido, este número da revista apresenta um conto de Onésimo Silveira (1935-2021), intitulado Superstição, e um poema de Ovídio Martins (1928-1999), que se transcreveu anteriormente.

 

Alguns dados bio-bibliográficos relativos a Onésimo Silveira também já foram mencionados, pelo que aqui se transcrevem, apenas, os primeiros parágrafos do conto Superstição. 

 

"A princípio, nhâ Livramento desconfiou ser pirraça dos filhos de nhô Giraldo; mas, por fim veio a ter a certeza de que era «medo», que era obra das almas desaparecidas. Por isso foi ela quem disse ao neto que se tratava de coisa malignas, porque «Planeta» estava mau.

 

– Impossível! – disse ela. Filhos de nhô Giraldo a tirar pedras todos os dias no Fundo de Nhô 'Velino, não pode ser... Não! há qualquer mistério nesta historiada...

 

– Sempre, sempre, mamã – observou Julim. Primeiro pensei que fossem as cabras que rolavam as pedras da ladeira; mas hoje, de-vontade, não deixei sair nenhumas da ribeira. E... pronto. Um bocadinho depois lá vinham novamente as pedradas... Parece até, que depois de bocê ter esconjurado... as coisas têm andado pior. Da primeira vez foi só uma pedrada... Meninos de nhô Giraldo, não pode ser, tanto mais que Toi e Esteve foram dar comida às cabras na Chã de Nhô Henrique Batista.

 

Nhâ Livramento passou as mãos descarnadas pelos cabelos brancos, que lhe tomavam a cabeça de ponta à ponta. Levou depois a direita à testa e benzeu-se: – «... Pai... Filho... Espírito Santo, Amen».

 

O clarão avermelhado do sol tombava sobre a linha do horizonte, para trás do Monte da Cara. Mal acabou de se benzer, nhâ Livramento deixou-se ficar parada a olhar vagamente em direcção à rocha da Craquinha, em cuja base fica o Fundo de Nhô 'Velino. Quando pressentiu que Julim acabara de amarrar as cabras no curral de pedra solta ligado à cozinha, deslizou religiosamente até à porta do seu quarto de dormir, estendeu o braço e puxou um mocho de tábuas de caixote e assentou-se; em seguida, com a voz denunciadora dos seus bons setenta e tantos anos, gritou: – «Julim! Ó Julim!».

 

Ligeiro que nem um cabrito Julim logo a encostar-se junto à avó, a quem tratava por mãe. Instintivamente acocorou-se, e a sua cara espantada tomou ares de alegria, assim que sentiu os dedos doces de nhâ Livramento roçar-lhe a carapinha. Como esta se demorasse sem dizer alguma coisa, Julim quebrou o silêncio:

 

– Mamã, e se uma pedra acertar em mim?!

 

– Credo, menino. Credo, Deus te salve? [sic] – berrou nhâ Livramento soerguendo-se do mocho.

 

Após breve pausa, continuou:

 

– ... E amanhã levas os bichinhos para Chã de Mesa, que esta trapalhada das pedras já não me está caindo nada bem!

 

– Mas, mamã, só no Fundo de Nhô Velino é que tem um ou outro pé de palha. Nos outros lugares, é pedra de cima de pedra...

 

– Fundo de nhô 'Velino, não! – retorquiu a velha, um tanto irritada. Tu não sabes a fama desse lugar, menino de Nossenhor. Eu é que sei o que se fazia por lá outrora... Mesmo que nha mãe que Deus haja dizia que lugar de pomba e vaidade é lugar sujo. Quando corria dinheiro, era uma vida de pândegas dia e noite... Agora, os espíritos daninhos que morreram naquela casa grande, que está a dois passos da estrada que dá para o Mato Inglês, têm de cangar nos coitadinhos...

 

– Mas meninos de nhô Giraldo nunca sentiram nada... Só eu, porquê?

 

– Menino, menino! Esta casa parece-me que não anda resguardada: ùltimamente tem havido aqui muita contrariedade... Se o leite não coalha antes de chegar à cidade, é o peixe que vem a cheirar mal; e, quando não é nem o leite ou o peixe, és tu que vens com a história das pedradas! Minha casa nunca foi sítio endemoninhado! Casa de oração é casa de boas sombras, é casa de  Deus Nossenhor 'Sus Cristo. Se há alguma coisa, que vá para os Paços Superiores!...

 

Assim que ouviu dizera nhâ Livramento que casa de oração é casa de boas sombras, Julim lembrou-se de acender a lamparina, não porque se fazia muito tarde, mas sim porque a velha lhe ralhava quando abandonava os santos às escuras. Dirigiu-se à cozinha e, de baixo de uma lata de manteiga «margarine», assente em três pedras negras, em que fervia barulhenta a cachupa, retirou um tição e com ele acendeu a lamparina a gasóleo."

 

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30.08.25

Lourenço de Carvalho - O Bípede sem Plumas


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Lourenço de Carvalho (datas desconhecidas), O Bípede sem Plumas (1974).

 

Não existem grandes registos biográficos ou bibliográficos sobre Lourenço de Carvalho, sabendo-se que, para além deste volume de poesia, publicou ainda um outro volume, intitulado Minha Ave Africana, em data desconhecida, mas provavelmente na década de 1970.

 

Esta última obra apresenta extenso prefácio de Eugénio Lisboa (1930-2024), sabendo-se ainda que existia um exemplar deste volume, com dedicatória do autor, na biblioteca de Jorge de Sena (1919-1978), exemplar que hoje integra o acervo da Biblioteca Nacional, em Lisboa.

 

Será muito provável, portanto, que Lourenço de Carvalho orbitasse à volta do grupo constituído por António Quadros (1933-1994), Eugénio Lisboa, José Craveirinha (1922-2003) e Rui Knopfli (1932-1997), o qual havia estado na génese da revista Caliban e manteve estreito contacto com Sena, que visitou Moçambique em 1972.

 

Esta ideia é reforçada ainda pelo facto de Eugénio Lisboa, Lourenço de Carvalho e Rui Knopfli terem colaborado com o jornal A Voz de Moçambique (1959-1975).

 

O volume O Bípede sem Penas, tem uma pequena introdução, numa badana, do poeta Sebastião Alba (Dinis Albano Carneiro Gonçalves, 1940-2000), uma citação de Natália Correia (1923-1993) – "As coisas que tocámos cobrimos de raízes / com a estranha violência / de as amarmos demais", uma dedicatória – "À Resi, ao Miguel / à Bárbara" e apresenta três longos poemas, intitulados ODE viagem celular ou o bípede sem plumas incómodo e suspeito (datado de 15 de abril de 1970), PERCURSO INTERIOR entre o silêncio e a luta (datado de 10 de novembro de 1972) e POR ANDASTE JEAN NICOLAS RIMBAUD (datado de 5 de janeiro de 1972), que se reproduz, na íntegra, abaixo.

 

Para além da modernidade que ignora pontuação, maiúsculas e estabelece longos espaços entre algumas palavras, esta poesia denota influência não apenas de Arthur Rimbaud (1854-1891), mas também de Walt Whitman (1819-1892) e Álvaro de Campos (pseudónimo de Fernando Pessoa, 1888-1935), apresentando uma visão crítica e subversiva das heróicas epopeias do mundo ocidental, da sociedade no mundo contemporâneo e da própria existência.

 

"POR ONDE ANDASTE JEAN NICOLAS RIMBAUD?

 

por onde andaste jean nicolas rimbaud

arremessando o barco por montanhas e mares?

 

em estradas solitárias    cobertas por restolhos de guerras

e castástrofes   venenos e demónio submersos na pele   odor a sonho

esplêndido e vibrátil

labirintos iguais a ossaturas de tigre e de veado

manhãs escritas com assombro   temor

e porventura arrancadas à vertigem de nunca acontecer

aquilo que tomamos por infinita alegria

e que nos mata

 

ancoraste em cidades povoadas   de gestos importantes

sensações tão sombrias   cautelosas

como gatos de gravata e luto

praças de tédio om o sabor febril de angústias milenares

paraste em cemitérios   olhado com rancor por gente

muito digna   armadade espingarda para te amar   diziam

 

abandonado e limpo   ó traficante azul

que atravessavas áfrica entre putas e escombros

flutuando o navio carregado esquecido

anterior à própria floração da bruma

secreção de alguma ideia muito nova e vasta à flor da boca

no começo do mal

no cume do  meu dia

 

fabricante de anjos   de papel com silêncio e espada

monstros teleguiados por tuas mãos argutas entre o demónio

ae a luta abandonando flores e apodrecendo gritos

destruidor disseste de homens bons e simples trasnformados

em bichos de olhos enormes   vivos

pelos sinais dos tempos do fogo e dos videntes

essas cartas deixadas em lugares ignorados

quartos setentrionais nas vertentes dos sol

foi aí que te vi

 

vi-te a chorar no chão meu anjo sanguinário

pela rua   tão branco   esperei-te num murmúrio

com foi que não vieste   ficaste tenebroso

– a torturar crianças   adolescentes belos

com gritos de martírio –

tornado informe   imenso (chamar-me nomes não!)

estilhaçado horrível com casaco e carteira

serpente muito lenta

odiar-me e dizer-te   com raiva e com razão

 

no meio destas mortes destas cabeças ocas

trago-te a uso aqui   levito-te no espelho

da terra que me atribuo e digo

e percorro o mistério   paixão e  morte

da palavra a transformar-se em homem

(esse astronauta louco a masturbar-se em espuma

semelhante e igual a mártires e exploradores e santos de cartola

mágicos expostos na solidão dos tempos)

 

jean nicolas rimbaud

trago-te a uso aqui   gasto-te no sono e na vigília

a falar de negócios   a tropeçar de bruços

na exactidão de crimes entorpecentes simples

pendurado dos ombros entre franjas e mambas

ofídios perigosíssimos como o perfume a lepra

das situações difíceis

imprevisível estou

e me consumo

e mato?

 

como sempre é penoso

preencher um buraco de horas tão fodidas e estreitas

nesta áfrica   empório

de gente tão igual

traficante rimbaud que fartaste jovem

do fastio de merda dos grandes personagens a conservar

direitos admiráveis e limpos

como foi que perdi o sinal de contacto?

e não fiquei na fuga   nem ficaste na fuga

repartido entre o mar e a densidade líquida de espaços vazios?

 

eras tão sóbrio... azul

o mais impressionante   o mais justo e claro

percurso para o barco flutuar despido

 

atento na razão

coisas imprescindíveis

onde nasceste morro   onde amas   não deitas essa cauda tão longa

ó fera cautelosa

porque te esconde agora a selva fraudulenta?

 

neste tráfico branco

de chicotes e balas

ah! este medo usado

este medo e suor diariamente posto

é a prova dos nove

ou a ferida passada a crivo pela pátria

 

ó heróis ó heróis

companheiros serenos acomodados   neutros

debruço-me outra vez na sala dos avós

emoldurados rígidos

reminiscências dúbias

de corsário e mitos

 

nós conquistámos áfrica

ó rimbaud ó poeta

pusemo-nos em cima

com calças e sapatos

nesta terra a crescer entre o terror as vísceras

restos de corpos de condição diferente

a ignorar punir

 

daí que não se infira outra culpa

outra dúvida

a esta geração que estuda a cibernética

entre a cama e o barbeiro e o contágio sereno da mão

na algibeira

 

no meio destas mortes   destas cabeças ocas

trago-te a uso aqui   levito-te no espelho

da terra que me atribuo 

e digo?

 

l. marques, 5 de janeiro de 1972"

 

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17.07.25

Orlando de Albuquerque - Sôbre o Vento Noroeste


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Orlando de Albuquerque (1925-1997), Sôbre o Vento Noroeste (1964).

 

Orlando de Albuquerque, médico moçambicano radicado em Angola e marido da médica e poetisa Alda Lara (1930-1962), havia publicado, até este ano, quatro obras, entre as quais Batuque Negro (1947), que se indica neste volume estar proibida.

 

Para além das três obras que já se indicaram anteriormente (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/4664.html), publicara também um livro de crónicas, intitulado A Casa do Tempo (1964).

 

O presente volume encontra-se subdividido em três secções, Cantares, Consolança e Asfalto, apresentando trinta e sete poemas datados de anos que decorrem entre 1960 e 1963.

 

De todos estes poemas, apenas um, Chove Insistentemente, se relaciona explicitamente com África, pelo que se transcreve aqui, em conjunto com dois outros de registo bem distinto, sendo que o último até poderá sugerir uma certa ironia premonitória:

 

CHOVE INSISTENTEMENTE   [1960]

 

Chove insistentemente

com a persistência bruta

das coisas tropicais...

 

Jamais

consigo identificar-me com a chuva

nesta minha África abandonada.

 

Todo o instante é fugaz, é nada

perdido no oceano dos desejos

e ansiedades.

 

Possa a verdade

ainda um dia vir à tona da água

e sejamos nós, então, realidade

mesmo à custa da nossa mágoa.

 

ESPANHA   [1961]

 

Junto à trincheira

duma qualquer praça de touros

– ai Espanha! –

a angústia é companheira...

 

Trinta e sete carabineiros

trinta e sete balas dispararam

e trinta e sete corpos vararam...

 

Naquela manhã de Outono

o sangue tingiu a arena

de vermelho,

sem leões nem gladiadores...

 

Numa qualquer praça de Espanha

trinta e sete tiros soaram...

 

A IRONIA DOS CRAVOS VERMELHOS   [1963]

 

Mãos colheram para um outro destino

já adivinhado nos olhos fundos

cheios de mágoa e pressentimento.

Mãos que souberam afagar e se traíram

no destino inconfessado das carícias,

que não podem ser negadas.

Mãos pendentes em desengano

e desalento arrependido

mas sem coragem,

a coragem do vermelho das vossas pétalas,

que hoje restam em ironia

de ser...

 

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12.06.25

Revista Cultura (VII)


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Este número 9, publicado em 1957, apresenta poemas de autores associados a Angola, Emílio [Machado] da Costa Rosa (1932-1998), Cabo Verde, Manuel Lopes (1907-2005) e Moçambique, F. A. Barradas (datas desconhecidas), que haviam sido anteriormente publicados no Boletim Cabo Verde e na revista ELO (Moçambique).

 

Curiosamente, embora Emílio da Costa Rosa, que assina o poema Para uma tarde de neve, tenha nascido em Angola, foi em Moçambique que desenvolveu parte da sua carreira profissional, quer como magistrado quer como advogado, depois de ter passado pelo Colégio de S. Luiz, em Espinho, onde completou a Instrução Primária e fez o curso do Liceu, e pela Faculdade de Direito, em Lisboa.

 

F. A. Barradas, que assina Meus tristes poemas, não aparece mencionado em muitas fontes, embora o seu nome surja na revista Pela Patria, publicação mensal da comunidade portuguesa de Xangai, também relacionada com Macau, que foi editada nos anos de 1940 e 1941.

 

Embora já se tenham apresentado aqui passagens de outros trabalhos do consagrado Manuel Lopes, quer em verso quer em prosa, transcreve-se agora mais um poema do autor, um olhar claridoso sobre a emigração que ainda hoje caracteriza a realidade de Cabo Verde:

 

Poema de quem ficou

 

Eu não te quero mal

por este orgulho que tu trazes,

por este ar de triunfo iluminado

com que voltas...

 

... O mundo não é maior

que uma pupila dos teus olhos:

tem a grandeza

das tuas inquietações e das tuas revoltas.

 

...Que teu irmão que ficou

sonhou coisas maiores ainda,

mais belas que aquelas que conheceste...

Crispou as mãos à beira-mar

e teve saudades estranhas, de terras estranhas,

com bosques, com rios, com outras montanhas,

– bosques de névoa, rios de prata, montanhas de ouro –

que nunca viram teus olhos

no mundo que percorreste...

 

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