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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

19.11.20

Poetas de S. Tomé e Príncipe (I)


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Alfredo Margarido (1928-2010; prefácio e estudo crítico), Poetas de S. Tomé e Príncipe (1963).

Ilustração da capa de José Pádua (n. 1934).

 

Este volume foi publicado pela Casa dos Estudantes do Império (CEI) numa edição dactilografada e policopiada, no seu miolo, embora apresente uma capa impressa tipograficamente, a exemplo de outras edições anteriores.

 

A CEI foi fundada em 1944 e extinta em 1965, depois de o Estado Novo concluir que seria um foco de instabilidade e contestação à sua política colonial, acção que atingiu um ponto alto com a saída clandestina do país, em 1961, de cerca de cem estudantes, os quais vieram posteriormente a desempenhar relevante acção nos movimentos de libertação africanos.

 

A CEI publicava também um boletim intitulado Mensagem, promovendo ainda a edição de várias outras obras, como a anterior Antologia de Poetas Angolanos, lançada em 1962.

 

Para esta colectânea, Alfredo Margarido, autor da introdução crítica de teor literário, histórico e sociológico, selecionou poemas de (por ordem de indexação na obra) Caetano da Costa Alegre (1864-1890), Francisco José Tenreiro (1921-1963), Alda do Espírito Santo (1926-2010), António Alves Tomaz Medeiros (1931-2019), Maria Manuela Margarido (1925-2007), Marcelo da Veiga (1892-1976) e Francisco Stockler (1834-1881).

 

Discorrendo sobre a obra de Francisco José Tenreiro na sua introdução, Alfredo Margarido salienta as díspares influências que ecoam na sua poesia, bem como o pioneirismo da sua abordagem poética:

 

"O conjunto de poemas de Francisco José Tenreiro insere-se na linha de negritude que, a partir de 1935, vinha sendo propugnada, no campo particular da poesia negra e malgache de expressão francesa, por Leopold Sedar Senghor e Aimé Cesaire. Mas, a [sic] lição destes dois poetas, soma-se, em Tenreiro, a presença dos poetas norte-americanos, como Countee Cullen e Langston Hugues [sic] e ainda a do cubano Nicolás Guillén. É meditando na lição destes poetas que Francisco José Tenreiro pode dar início, em língua portuguesa, a um movimento poético de negritude, onde o sentido social é a primeira e fundamental coordenada."

 

Francisco José Tenreiro publicara a sua primeira obra literária, Ilha de Nome Santo (1942), no âmbito da colecção coimbrã Novo Cancioneiro. Nesse mesmo ano publicou também, em co-autoria com Carlos Alberto Lança (datas desconhecidas), a colectânea Contos e Poemas.

 

Seguiram-se-lhes a colectânea Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1953), agora em co-autoria com Mário Pinto de Andrade (1928-1990) e, numa reedição posterior (1982), com prefácio de Manuel Ferreira (1917-1992), Coração em África (1962) e o volume póstumo Obra Poética de Francisco José Tenreiro (1967).

 

Deste autor transcreve-se o poema Canção do Mestiço:

 

"Mestiço!

 

Nasci do negro e do branco

e quem olhar para mim

é como quem olhasse

para um tabuleiro de xadrez:

a vista passando depressa

fica baralhando cor

no olho alumbrado de quem vê.

 

Mestiço!

 

E tenho no peito uma alma grande

uma alma feita de adição

como 1 e 1 são 2.

Foi por isso que um dia

o branco cheio de raiva

contou os dedos das mãos

fez uma tabuada e falou grosso

mestiço!

a tua conta está errada.

Teu lugar é ao pé do negro.

Ah!

Mas eu não me danei...

E muito calminho

arrepanhei o meu cabelo para trás

fiz saltar fumo do meu cigarro

cantei do alto

a minha gargalhada livre

que encheu o branco de calor!...

 

Mestiço!

 

Qaundo amo a branca

   sou branco...

Quando amo a negra

   sou negro..."

 

© Blog da Rua Nove

 

18.10.20

Amadeu Ferreira - Um Dia de 12 Horas


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Amadeu Ferreira (1925-2002), Um Dia de 12 Horas (1966).

Ilustração da capa de José Garcês (1928-2020).

 

A presente obra foi galardoada com o prémio de novelística Fernão Mendes Pinto. No âmbito da ficção, Amadeu Ferreira já havia publicado o volume de contos Catana, Canhangulo e Arma Fina (1964) e viria a publicar depois o romance As Árvores Reverentes do Congo (1967).

 

Militar de carreira, o piloto-aviador Amadeu José Ferreira, já como coronel, foi comandante da base aérea de Sintra (1968-1969) e secretário-geral da Comissão Portuguesa de História Militar (1990-1993), entre vários outros cargos que desempenhou.

 

A narrativa deste romance evoca os trágicos acontecimentos ocorridos em Angola a 15 de Março de 1961, embora a chacina dos colonos portugueses e daqueles que lhes eram fiéis não surja como vector único ou central, sequer, da obra. Obviamente, sendo esta uma obra visada pela censura, nada refere sobre as subsequentes acções militares de retaliação, como a de 27 de Abril do mesmo ano.

 

Recorrendo a um processo parcial e verosimilmente autobiográfico, o enredo desenvolve-se ao longo de quatro partes e dezoito capítulos, apresentando um protagonista oriundo de Trás-os-Montes e aviador, como o autor, que, já em Angola, recorda a sua infância e adolescência no ambiente transmontano. 

 

A primeira parte da obra, onde se inscrevem estas rememorações, apresenta ainda um conjunto de várias reflexões sobre o indivíduo, a ética e as questões políticas, administrativas e sociais de Angola, bem como sobre o papel dos americanos na política mundial e na acção colonial.

 

A segunda parte, de uma forma surpreendente, apresenta uma narrativa na segunda pessoa para traduzir a familiaridade do protagonista com um colono branco chacinado e relatar aspectos da própria chacina.

 

De uma forma mais breve, a terceira parte apresenta algumas das consequências dos massacres daquele dia para a vida dos colonos brancos, mas também para os negros que inocentemente são perseguidos e acusados.

 

A quarta parte relata o regresso do protagonista à sua terra natal, de uma forma que deixa em aberto um possível regresso a Angola.

 

Da segunda parte desta obra transcrevem-se os últimos parágrafos do capítulo 10:

 

"  «Não te admires pois do modo como te falo, mas devia-te esta explicação. A despeito da distância toda na vertical que me separa de ti, deste isolamento que me rodeia enquanto distingo a fazenda traçada com trabalho e amor, compreendo bem os conflitos humanos do teu mundo de ontem e de hoje.

 

«Sabes?!... Estas coisas refinam quando se meditam; mais quando se apalpam e observam de perto. E este púlpito é particularmente propício à meditação. Ninguém nos estorva, ninguém nos distrai, pode dedicar-se todo o coração e parte do cérebro aos problemas do mundo. Os conflitos do homem, que aqui não chegam em ruído, surgem-me com mais clareza e despidos da ganga que lhes pode desvirtuar a verdadeira essência e natureza.

 

«Com estes créditos positivos, não posso louvar-te por tudo que fazias na fazenda. Mas antes de atirar-te a primeira pedra procurei entender que dentro da tua realidade não foste pior que todos os outros de todas as épocas, mas apenas igual e, em muitos sentidos, melhor. E numa sociedade não se condena um homem igual a todos os outros.

 

«Foste um pioneiro e um embaixador; à tua maneira, como já disse. Mas quem te censura pensa também que quando se querem embaixadores por conta alheia, se lhes paga e se lhes ensina o como, o quando e o porquê do que se lhes exige? Não pensam nisso, mas estranham agora não lhes teres defendido o nome, o não inculcares nos trabalhadores a noção que eles próprios têm de Pátria e convivência social, o não teres elevado como eles desejariam o nível dos homens que te eram confiados para os trabalhos agrícolas ou domésticos. A verdade justa e real só pode pôr-se assim: que crédito tínhamos nós, Emílio, que tu, apesar de tudo, dos teus defeitos ou prepotências, não retribuísses com juros também acima dos legalmente estabelecidos? Que nos devias tu, Emílio?...

 

«Por isso digo para não te mortificares. De resto, não sabes mas vou esclarecer-te: todos os vizinhos em redor, espalhados por esta área imensa que posso enxergar da vertical da tua fazenda, estão como tu, amarrados como porcos no banco da matança. Aos bons e compassivos de nada lhes valeu o coração, e aos maus e refinados o fel não agravou os sofrimentos. O cataclismo foi gadanha que cortou cerce o trigo todo, granado ou chocho, e também o joio que na época própria escapou às mondadeiras. E isto pelo facto simples e verificado de que nenhum João do Congo procurou motivos e invocou razões válidas para o que foi feito.

 

«Tu não sabes, mas o que está a dar-se contigo passa-se à mesma hora por léguas e léguas. Não te mortifiques, Emílio, tu não eras santo, eras apenas homem.

 

«Eu digo eras, porque quase o não és. Se tirarmos esse sopro, teòricamente [sic] a animar-te ainda, sabes o que me pareces? A imagem, dura, choca e arrepia, mas a ti pouco impressiona já e eu tenho-te falado com franqueza que quero levar até ao fim. No mundo material, Emílio, a figura justa, fiel, da coisa a que te reduziram é o bucho. Lembras-te?... aquele enchido de carne e ossos a esmo, ensacados num estômago de porco?... És um bucho de ossos esmigalhados, carne picada, vísceras moídas, no saco que é a tua pele cheia de laivos de sangue pisado.

 

«À medida que as chufas, as troças e as pauladas cresceram, a dor física foi-se esbatendo na sucessividade dos golpes, e o tormento de alma, dos gritos abafados da tua mulher, foi-se embotando na semi-inconsciência que te ia invadindo. Começaste a ter uma boa desculpa para largar a vida e já não compreendias porque adiavam o golpe final. Não há centímetro quadrado que esteja sem mossa. Todos quiseram vingar a sua afronta, limpar a sua ofensa, desforçar o seu despeito recalcado, ou pelo menos afirmar uma posição com crédito a haver, agora que te viam vencido e amarrotado. Mas eles nem essa esperança última dum fim próximo te deixaram, quando a vida passou a fardo mais pesado que a morte. Foi a um bucho vivo que eles conscientemente te quiseram reduzir, e conseguiram-no. 

 

«Já não vês, Emílio, mas isso agora é um bem. Se visses, custava-te mais. A casa está esventrada, os trastes estraçalhados, o gerador, na barragem que era o teu orgulho, está desfeito. Os corpos de alguns que mais fielmente te serviram estão aqui e ali, no sítio onde foram acabando. Mas o corpo de Emília não está. A tua criada, escolhida por simpatia onomástica, tal como o João também sabia. Emília, sereia negra de mil fascinações, sabia que este teu dia não chegaria ao fim. Lembras-te que só ficou descansada quando se assegurou do teu regresso à fazenda na tarde seguinte, quando viu que a tua ausência não ia além de algumas horas?

 

«Os seus receios, Emílio, nada tinham com os azares de ante-ontem [sic] como julgaste por ser um dia 13, mas com a possibilidade de escapares ao que sabia esperar-te hoje, um dia 15, número sem história nas tradições do bruxedo e da superstição.

 

«E tenho outra prova, tenho outra prova de que ela sabia, Emílio, e se valeu da sua habilidade maior para te arranjar um parceiro de açougue, mas não vale a pena mostrar-ta.

 

«Quanto à tua mulher, aguentou uns tantos, mas depois... Não, neste assunto não quero falar; sei que não vês, mas ainda ouves; pouco, mas ouves, e se não te tenho poupado a desgostos, na franqueza que venho usando, neste ponto quero fazê-lo.

 

«Emílio, volto a falar-te com o à-vontade [sic] que apenas pus de lado ao referir-me à tua mulher. À medida que te foste tornando nessa miséria chagada que repugna e revolta os sentidos, estás a sublimar-te, e chega cá acima, a este ambiente asséptico onde o bafo dos ódios não persiste, a verdade justa daquilo que estás quase a ser. De nada te servirá essa lágrima grossa que soltou agora e pouco valerá o que vou dizer, até porque já não ouves talvez, mas eu entendo-te, Emílio, como irmão e como homem. Não por compaixão, não por lisonja, nem sequer por acordo total como viste, mas porque essa ausência de esperança que te deixaram neste segundo dia de menos de vinte e quatro horas foi penitência a absolver-te de todas as culpas que porventura possam assacar-te.

 

«Emílio?... Emílio?... Já não ouves?... Não, já não ouves, nem sentes.

 

«No meu mundo, Emílio, no meu mundo desta hora, com o Sol por testemunha e as nuvens por vizinhas, és agora o símbolo grande e trágico de todo o ser racional que neste dia e nesta terra, ensopada de ti, esvaziaram de esperança. Mas no mundo da matéria és finalmente um bucho sem alma, como eles queriam, ensacado na pele avergoada e repelente, a que as cordas, tensas, mantêm ainda a forma e seguram de encontro ao tronco grande da mulemba frondosa que domina o terreiro.» "

 

© Blog da Rua Nove

20.07.20

Rui Knopfli - Reino Submarino


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Rui Knopfli (1932-1997), Reino Submarino (1962).

Capa e ilustrações de Jorge Garizo do Carmo (1927-1997).

 

Segundo livro de poesia do autor, o primeiro havia sido O País dos Outros (1959), este volume, que iniciava a colecção Cancioneiro de Moçambique e será talvez um dos mais importantes da bibliografia de Rui Knopfli, caracteriza-se por uma diversidade conceptual que varia entre a problemática da génese do texto poético - como em "aprendiz na oficina da poesia" ou "ofício novo", a lírica amorosa - como em "a um amor adolescente", "cecília noutro planeta" ou "passeio", os textos de temática africana ou uma secção, Sketch-book, com quatro poemas escritos em Inglês - "ihb", "deanie with some jazz", "monotonous song" e "exercise in loneliness".

 

O conteúdo desta obra oscila, assim, entre uma reflexão sobre a praxis poética como experiência pessoal e um ensaio de influências da literatura anglófona, na estruturação textual e nas propostas conceptuais, antecipando o envolvimento de Rui Knopfli nos emblemáticos cadernos de poesia Caliban, que, juntamente com João Pedro Grabato Dias (pseudónimo do também pintor e ceramista António Quadros [1933-1994]), editaria a partir de 1972.

 

Data deste ano, também, um estreitamento de relações entre estes autores e Jorge de Sena (1919-1978) que visitaria Moçambique, por sugestão e insistência destes, no âmbito do centenário da publicação de Os Lusíadas (1572). Aliás, nesta ocasião, António Quadros ofereceu a Jorge de Sena uma das suas obras, com moldura também artesanalmente executada por si, que Sena colocaria na sala de estar da sua casa de Santa Barbara, EUA, e Mécia de Sena (1920-2020) haveria de preservar no mesmo local após o falecimento deste.

 

Note-se que o autor das ilustrações em estampa extra-texto, Jorge Garizo do Carmo, ceramista, artista plástico e decorador de interiores, era irmão mais novo do arquitecto João Garizo do Carmo (1917-1974).

 

Sublinhe-se, ainda, o facto de a ilustração desta capa estar em consonância com o abstraccionismo geométrico contemporâneo, particularmente com aquele que Nadir Afonso (1920-2013) vinha desenvolvendo desde a década de 1950.

 

Transcrevem-se desta obra dois poemas de temática africana, onde se acentua a preocupação social e a dissonante consciência política de Rui Knopfli:

 

MULATO

 

Sou branco, escolhi-te.

Hoje durmo contigo.

Negro é teu ventre,

porém macio.

E meus dedos capricham

sobre o aveludado relevo

das tatuagens.

Denso e morno é o luar,

cálido o cheiro húmido

do capim, acre o hálito

fundo da terra.

Venho cansado e tenho

fome de mulher.  Sou branco.

Escolhi-te. Hoje durmo contigo:

Um ventre negro de mulher

arfando, a meu lado arfando,

o cansaço, o espasmo

e o sono. Nada mais.

Amanhã parto. E esqueço-te.

Depressa te esqueço.

                                       E teu ventre?

 

 

SUBÚRBIO

 

Daqui avistamos o perfil cinzento

da cidade.

Daqui a vemos, recortando o perfil

arrogante

entre densas ramadas

de cajueiros e mafurreiras.

Daqui vemos a cidade, 

seus dedos enclavinhados

na cinza das nuvens,

seus dentes de incerta geometria

mordendo um céu ensanguentado.

                    Diz-me, velho Dotana,

                    Cidade tem dentes?

                    Mulungo, cidade tem dentes,

                    cidade tem dentes de n'goenha.

Daqui vemos a cidade

crescendo sobre nós,

abatendo-se sobre nós

como gigantesco xipócuè

de cimento armado.

                     Diz-me, velho Dotana,

                     cidade tem fantasma?

                     Mulungo, Dotana não tem medo

                     xipócuè do mato

                     Dotana tem medo grande,

                     xipócuè da cidade.

Daqui a vemos,

cada vez mais próximo 

de nós,

triturando na larga maxila

matos e terreiros,

xipócuè de cimento armado

sobre nós,

perto de nós,

dentro de nós,

de grandes, compridas

mãos estendidas.

                              Dotana, velho dotana,

                              estendes-lhe a mão? Mulungo,

                              branco aperta a mão de preto?

 

© Blog da Rua Nove

16.09.19

José Craveirinha - Karingana Ua Karingana


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José Craveirinha (1922-2003), Karingana Ua Karingana (1974).

Capa de José Craveirinha (Filho).

 

Considerada a obra mais significativa de José Craveirinha, este livro tem a peculiaridade de ter sido acabado de imprimir a 29 de Maio de 1974, num período já marcado pela Revolução de 25 de Abril de 1974.

 

Terá começado este volume a ser preparado, certamente, muitos meses antes, mas, mesmo assim, não deixa de apresentar alguns problemas de revisão, pois reproduz em duas páginas diferentes (7 e 21) o mesmo poema – Dádiva do Céu que, nesta última página, surge com dedicatória a Manuel Barreto e com a datação de 1958.

 

Alguns dos poemas aqui reunidos correspondem a um período explicitamente delimitado entre 1951 e 1963, ano que surge também na dedicatória e faz supor que era essa a data inicial de publicação prevista para este livro.

 

O livro encontra-se subdividido em quatro partes – Fabulário, Karingana, 3 Odes ao Inverno, e Tingolé, apresentando ainda, no final, um glossário Xi-Ronga/Português, de quatro páginas.

 

Tristan Tzara (1896-1963), em declarações que, neste volume, erradamente, como é óbvio, são datadas de 1964, declarou o seguinte sobre este autor no contexto da poesia moçambicana: "Mas o grande poeta actualmente em Moçambique, em Lourenço Marques, é José Craveirinha. É um poeta que sofreu a influência dos surrealistas, que tem uma veia muito popular e cuja poesia toda possui um carácter social. Ela radica nas camadas mais profundas do povo negro. É um poeta que se aparenta, se quisermos, com Guillen [Nicolás Cristóbal Guillén Batista, 1902-1989]. Ele é considerado pelos intelectuais brancos como o poeta mais importante e mais autêntico do país."

 

Não esquecendo belíssimos ou importantes poemas como Na Morte do Meu Tio António / Segunda Elegia a Meu Pai, Cântico do Pássaro Azul em Sharpeville, Os Alambiques da Ponte-Cais, Ao Meu Belo Pai Ex-Emigrante, Hossanas ao Hôssi Jesus, ou Hino de Louvor a Valentina Tereskova, transcrevem-se aqui três poemas mais curtos que traduzem algo do surrealismo e do social de que falava Tzara:

 

"MACHIMBOMBOS

 

Nas tépidas ilhargas

dos machimbombos os frutos

silvestres aos cachos vão amadurecendo

ao mobiloil do desespero no estribo

enquanto o alcatrão

da rua em comissuras de saibro

plagia o azimute das bocas das mamanas

perplexas na paragem

radical."

 

"3 DIMENSÕES

(para a Carol e o Nuno)

 

Na cabina

o deus da máquina

de boné e ganga

tem na mão o segredo das bielas.

 

Na carruagem

o deus da primeira classe

arquitecta projectos no ar condicionado.

 

E no ramal 

- pés espalmados no aço dos carris -

rebenta pulmões um deus

negro da zorra."

 

"À BUZINADELA DO TÁXI

 

Existe

em nós esta espécie de nova sesta

que não permite cerrar de sono autêntico as pálpebras

ou senão uma ferrugem dilapida-nos mais os negros

diamantes foscos de insónias antiquíssimas

no duro chão arenoso das aringas.

 

E os narizes anticorrosivos

tresandam a brilhantina comum de muitos na almofada

e na sina de artífice moderna a Rita Mamas-Tesas

à buzinadela do táxi temperando o arroz insosso

da madrugada ela reage preta célula fotoeléctrica

até à ficha das pernas."

 

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21.06.19

Augusto Casimiro - Portugal Atlântico


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Augusto Casimiro (1889-1967), Portugal Atlântico (1955).

 

Compilação de vários poemas datados de diferentes anos – 1914 (Acampamento – Noite, O Zambeze e um Mapa, Fogueira de África), 1924 (Horas Africanas, Oração da Noite Africana), 1944 (Colono), este volume foi distinguido com o Prémio Camilo Pessanha em 1954.

 

Inspirados por todos os territórios coloniais banhados pelo Atlântico, como o nome sugere, predominam, contudo, nestes poemas, referências a Cabo Verde, particularmente às ilhas Brava e Santo Antão, e a Angola.

 

Não deixa de ser interessante o facto de parecerem perpassar, em algumas destas composições poéticas, conceitos também presentes na Mensagem (1934), de Fernando Pessoa (1888-1935), impressão que, do mesmo modo e do ponto de vista estrutural, tende a ser suscitada no início do volume.

 

Com efeito, as primeiras poesias integradas na secção Pela Batalha ao Restelo apresentam títulos sugestivos dessas evocações – Portugal, A Canção do Novo Restelo, Sinfonia do Mar Alto, Hora do Ponto.

 

Curiosamente, para sublinhar toda estas ténues evocações, até a própria expressão "É a hora!", patente no poema Nevoeiro (1928), de Pessoa, surge no poema Oração da Noite Africana, alegadamente datado de 1924, embora num contexto completamente diferente.

 

Um ponto distinto nesta estruturação, no entanto, é a secção intitulada Canto ao Brasil no Mar, que apresenta três poemas dedicados a esta temática.

 

Desta obra, transcrevem-se, de seguida, o poema Fala Crioula e o soneto Prece, inspirados, respectivamente, por Cabo Verde e Angola:

 

 

FALA CRIOULA

 

"Esta fala é sempre nossa.

Fala crioula?... Afinal,

Para alma que bem a ouça,

É fala de Portugal!

 

É uma fala de menina,

Andou ao colo, amimou-se,

Ficou sempre pequenina,

E, de preguiça, mais doce.

 

Ouço-a agora, embala, arrola...

Sabe a amor, sabe a tristeza...

Na voz da gente crioula

Oiço a alma portuguesa...

 

E, às vezes, com mais doçura...

Algumas palavras têm

Mais humildade e altura,

Mais gosto da terra e além...

 

Morabêsa... amor e beijo

Que se não dá, que se fala,

Em que há gosto de desejo

E o aroma que o cravo exala...

 

O que é doce à alma e ao gosto

É sabi... sabe a carinho...

Saber não contém desgosto...

O que é mais sabi... é sabinho.

 

Grandeza... Entre nós humilha

Se não é Deus. Grandeza

Aqui, nas almas da Ilha,

É alegria, é morabeza...

 

Contente... quem diz contente

Entre nós diz alegria,

Mas na boca desta gente

Só quer dizer: simpatia...

 

A fala crioula é nossa

Trouxe-a ao colo Portugal..."

 

 

PRECE

 

"Terra de Angola, Mãe da Primavera:

– Só de te descobrir logo o tocou,

Ao primeiro que veio e te encontrou,

Do teu bárbaro encanto a lei severa.

 

Estás, sempre e sem fim, à nossa espera.

Por ti sofremos. Contra ti pecou

A nossa Alma e a tua nos perdoou.

– Quem amar-te não soubesse te perdera...

 

Desejada e rendida te violámos

E ficamos escravos, de ti... Esta hora

É a doutro encontro, como dois irmãos,

 

Na terra em que sonhamos e lavramos,

À luz igual duma fraterna aurora, 

Um destino mais alto, dando as mãos."

 

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04.02.19

Nuno Bermudes - Gandana


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Capa e ilustrações de José Pádua (n. 1934).

 

Nuno Bermudes (1924-1997), Gandana e Outros Contos (1959).

 

Primeiro volume da Colecção Prosadores de Moçambique, um projecto editorial do jornal Notícias da Beira continuado com Cães da Mesma Ninhada (1960; cf. https://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/339350.html), de Ascêncio de Freitas (1926-2015), esta obra surge prefaciada por Fernando Couto (1924-2013) que, num dos seus parágrafos, evoca e homenageia vários escritores moçambicanos:

 

"Que tenhamos fundadas esperanças [que algo de importante se está a processar na vida espiritual moçambicana] nada o impede; antes pelo contrário: Afonso Ribeiro, Rodrigues Júnior, Eugénio Lisboa, Vieira Simões, Ilídio Rocha, Guilherme José de Melo, Cordeiro de Brito, Rui Knopfli, Jorge Vila, Nuno Bermudes, José Craveirinha, Joaquim Sabino, Noémia de Sousa, Carlos Lança, As Cêncio de Freitas, Virgílio de Lemos, Artur M. Costa, Alberto de Lacerda e outros, são hoje presenças que é preciso ter em conta, ou porque já começaram a construir uma obra válida ou porque dentro em breve a apresentarão. E dos que a morte nos roubou não podemos esquecer Rui de Noronha e Reinaldo Ferreira."

 

Para além do que já foi referido em outros artigos sobre este autor, registe-se para a sua biografia que Nuno Bermudes nasceu em Macequece, Moçambique, tendo-se mudado aos cinco anos para o que então se designava como Metrópole. Regressou posteriormente, em 1947, a Moçambique. 

 

Como já foi anteriormente referido, extraíram-se deste volume os contos Uma Gota de Chuva e A Visita que posteriormente surgiram no opúsculo Uma Gota de Chuva (1964), publicado na Colecção Imbondeiro.

 

Os restantes contos que integram a presenta obra são Gandana, Pedra de Fogo, Um Pedaço de Vida, Os Amantes Inocentes, O Redactor de Serviço e Ciganos, o único que não apresenta um enredo de inspiração africana.

 

Do conto Gandana transcrevem-se os primeiros parágrafos:

 

"Sem fim, sem horizonte e sem caminhos, é o mato. Nele, a doçura não existe. A própria polpa dos frutos é ácida e ardente. O sol, uma ferida vermelha que não sara nunca e, de cada vez que reabre na pele cinzenta do céu, os habitantes do mato procuram a frescura negada nas florestas sombrias onde a ribeira corre e a nascente faz ouvir o seu murmúrio. Só a charu, a mamba e a jibóia se deixam ficar no capim dos tandos e as rolas sussurram na copa despida do arvoredo.

 

O mato não termina nunca. Toda a espécie de árvore e planta enche o mato sem fim, sem horizonte e sem caminhos. A micaia agreste, abrindo para o alto os dedos afiados e hostis, a maçala carregada de frutos cujo coração é áspero e azedo, o cajueiro bravio e perfumado. Léguas e léguas de desolação e aqui e além o grito colorido de uma flor desafiando a sonolenta monotonia.

 

Só quando a noite vem e a lua paira, grande e redonda como um disco de âmbar, só então os habitantes do mato deixam as florestas e surgem a vagabundear na planície. As cigarras  e os grilos iniciam a sua cega-rega e o sapo-boi atira pela noite dentro com o seu grito rouco e dissonante.

 

E esse é o mato. Esse é o mundo indecifrável e misterioso dos bichos que desafia o pé humano que o pisa a violar os seus recantos naturais que apenas os felinos, os répteis e os antílopes conhecem.

 

Ali, na orla da lângua, Gandana parou. Sob o sol brilhante que enchia de cintilações douradas a verde planície, a pele do negro luzia como aço, com estranhas reverberações azuladas e vermelhas. Dentro da sua cabeça, os pensamentos queriam ordenar-se, mas quando roçavam uns nos outros, como os ombros de uma multidão apressada, ora se repeliam ora se fundiam.

 

Então, ele disse para dentro de si:

 

 –Gandana, você não vai 'guentar...

 

No entanto, ele sabia que era só atravessar a lângua e a floresta, para alcançar a montanha e ficar livre como um chango. Via a linha de luz que, do outro lado da planura, poisava sobre a cumiada roxa do arvoredo e ouvia o manso arrulhar das rolas. Mas, insistia:

 

– Gandana, você não vai chegar na serra...

 

Deitou-se de bruços, afastou o capim e afundou os beiços na terra escura e ensopada, bebendo, com as mãos enormes e patudas cravadas no matope, de cada lado da cabeça. Parecia, assim, naquela grotesca posição, um gigantesco escaravelho acachapado."

 

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17.01.19

José de Almeida Santos - Longe, Lá Longe...


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José de Almeida Santos (1922-1997), Longe, Lá Longe... (1962).

 

José de Almeida Santos publicou mais de duas dezenas de obras, destacando-se na sua bibliografia um conjunto de estudos sobre a história social de Luanda no século XIX.

 

Para além do volume agora apresentado, no âmbito da poesia e da ficção, publicou Seis Histórias Quiocas (1965) e Tábua de Esmeralda (1966), tendo ainda publicado, em co-autoria com Maria Lígia de Almeida Santos, o volume Aquele Velho Chapéu... ; Traição (1964), na colecção de livros de bolso da Imbondeiro.

 

Os poemas que nesta obra estão intimamente ligados à temática africana são, por ordem de publicação, Canção da Muana-Maria, História do branco Cauache e André Luembe está preso, os quais são acompanhados no final de cada um por uma lista de vocabulário que totaliza dezanove palavras.

 

Surge ainda o manifesto-poema Os tais «ventos da história», que se transcreve integralmente abaixo não só como um documento literário sobre a actualidade da sublevação nas colónias e a sua contextualização, mas também pelo seu anti-americanismo, pelo seu conceito de comunidade lusófona e miscigenização e por um certo paralelismo com as patrióticas manifestações literárias anti-Ultimatum de 1890.

 

Refira-se, como curiosidade, o último poema deste volume, intitulado O Mundo em que vivemos (Poema radiofónico - ruídos bélicos), pela evocação que, na quase totalidade do seus versos, faz das onomatopaicas obras futuristas e dadaístas.

 

Finalmente, note-se que não se deve confundir o poema que dá título a este volume com o poema Lá Longe, de Florêncio Neto de Carvalho (1924-1985), o qual está na origem do conhecido fado de Coimbra interpretado, entre outros, por António Almeida Santos (1926-2016).

 

"Os tais «ventos da história»

 

Os tais «ventos da História»

Não são uma invenção americana

Nada disso!

São sim a resultante

Da evolução natural da mente humana,

Verdadeiros,

Reais,

Soprando no sentido

Da Paz e da Concórdia universais.

 

Que o rico tio Sam,

Desbaratando os dólares às mãos cheias

Co'a sua bem montada propaganda,

Queira modificar o curso dos elementos

Para poder tirar

Mais chorudos proventos,

É uma coisa perfeitamente natural.

Mas tal não implica

Que os racismos, ódios e crueldades,

Fomentados p'los nórdicos dinheiros,

Não sejam episódios passageiros,

E que a fusão dos povos em blocos

(No sentido dos quais sopram os ventos)

Se não verifique, mais ano menos ano,

Mau grado o esforço

E os montes de armamentos

Do Estado americano.

 

Um dos futuros blocos naturais

(Bloco varonil

Firmado no interesse

E na cultura e entendimento humanos)

É o que ligará os povos do Brasil

Aos povos Lusitanos.

 

Da terra do chewing-gum, o mercador

Por certo, lutará, com todo o seu vigor

Contra a constituição dessa comunidade,

Pois teme do Brasil

A grande actividade fabril

Que o fará derrubar da forte posição

(Conquistada à custa de milhões

E falsa ajuda ao preto independente)

Donde enche de bugigangas e sabões

O negro continente.

 

E ele,

O inventor do Ku-Klux-Klan,

Da Lei de Lynch, da Reserva Pagã

(Onde, como animais encurralados

Vivem uma existência deletérica

Os nativos de côr da própria América)

Tem agora o afã,

Que é pura e mentirosa propaganda,

De mostrar ao negro primitivo

Ser muito seu amigo.

 

Mas, isso, irmão de côr, é tudo fantasia.

 

Irmão de côr :

 

Tu e eu que, juntos, fizemos o Brasil

(Esse Brasil moreno

Caldeado do teu sangue de negro

e do meu sangue de luso e agareno),

Tu e eu que, há muitos anos já,

Vamos juntos à escola

E juntos trabalhamos e jogamos a bola,

Tu negro português e eu branco português

Não vamos deixar que o terrorismo,

Descendo da fronteira

E pago com dinheiro americano,

Instile em nós o ódio racial.

Não!

Pensando em Portugal

E pensando no Brasil, ali em frente,

Tu negro português e eu branco português

Apertemos as mãos

Solenemente."

 

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03.03.17

Reynaldo Ferreira - Preto e Branco


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Capa de Martins Barata (1899-1970).

 

Reynaldo Ferreira (1897-1935), Preto e Branco (s.d. [1923]).

 

Jornalista, celebrizado com o pseudónimo de Repórter X, escritor e realizador de cinema, Reynaldo Ferreira viveu durante o final da década de 1910 em França, na Bélgica e na Holanda, e, já na primeira metade da década seguinte, em Espanha, país onde, aliás, nasceu o poeta Reinaldo Ferreira (1922-1959), seu filho.

 

Entrou para a redacção do jornal A Capital aos dezassete anos, colaborando em 1918 nos jornais Manhã, Opinião e Século, ano em que também passou a ser redactor do Le Soir, de Paris. De Paris seguiu para a Bélgica, onde colaborou no jornal Le Neptune, de Antuérpia, daí para a Holanda e finalmente para Barcelona.

 

Em Espanha, onde terá dado primazia à actividade literária sobre a jornalística, publicou diversas obras logo em 1921, como La Princesa que no Reia, Los Rusos de Mi Pension, El Taller de Madame X, El Vencedor, El Hombre que Vivió Doscientos Años.

 

Já em 1923, centrou novamente a sua atenção no jornalismo, publicando o livro Los Reyes en la Intimidad. No ano seguinte, ainda em Espanha, a sua obra El Botones del Ritz veio a ser adaptada ao cinema.

 

Uma das suas obras mais célebres, assinada com o pseudónimo Repórter X – Memórias de um Ex-Morfinómano, foi publicada em 1933.

 

Preto e Branco, uma pequena novela de 27 páginas divididas em cinco partes, surge como uma desconcertante reflexão sobre o racismo, a missionação e a insegurança íntima do protagonista, um milionário negro ocidentalizado que consegue mudar a cor da sua pele e vem a descobrir que essa decisão lhe traz a infelicidade. 

 

Da segunda parte desta obra transcrevem-se dois parágrafos:

 

"...Ainda ela não havia quebrado o seio, com as cordas que na sua tribu, [sic] enlaçava [sic] o peito das virgens que entravam na puberdade, dois homens brancos, vestidos de negro, irmãos de sangue e de fé se apresentaram um dia, dizendo aos indígenas que vinham ensinar-lhes que no ceu existia um Deus, e que esse Deus nada tinha de comum com os manipansos de madeira que eles adoravam. Todos os escutaram atentos, dispostos a crêr, na sua indolencia espiritual esse novo Deus que lhes ofereciam, prometendo-lhes paraizos eternos. E o sóba não hesitou em dar aos missionários a sua melhor cabana e as melhores esteiras. Ebu dormia, esse sono, sem sonhos dos seres primitivos, quando dois braços brutais, abriram em cruz os seus braços, e uma boca escaldante, mordeu com os lábios, a sua boca. Desperta e assustada pela violencia do ataque, quiz gritar, mas não poude. E então os seus olhos afilados pelo pavôr, cravaram-se na treva e reconheceram o mais novo dos missionários. Durante horas e horas, o seu espirito afugentado pela dôr fisica pelo panico, abandonou o corpo, num pesado desmaio. Quando voltou a si, já o sol ardia pela planicie sem fim – e os missionários haviam partido em direcção á cidade. Ela guardou o segredo daquele brusco assalto á sua virgindade – pobre flôr desprezada que o sóba não teria hesitado em regalar ao padre – até que o nascimento de Jolué a obrigou a revelá-lo.

 

Os moços da tribu exigiram, então, em berros, o corpo do recemnascido, cuja pele negra deixava adivinhar, através uma transparencia ligeiramente clara, a côr do homem que a fecundára. Mas as bestas das florestas tambem têm o instinto da maternidade; e Ebu, quando comprendeu que lhe iam arrancar do peito aquela cria ainda cria ainda quente do seu ventre, fugiu e, durante horas e horas, correu, correu como uma louca, com os pés a queimarem-se sobre a terra que escaldava como fogo vivo – até cair sem sentidos, vencida pelo cansaço e pela fome... Voltou a si sentindo que a sua cabeça repousava sobre os joelhos de alguem; colados ás fontes, lenços humidos, refrescavam-na com delicia. O filho, dormitava, ao seu lado. Procurou descobrir quem fôra o salvador, e os seus olhos encontraram-se com um homem, muito branco, todo vestido de negro. Era um dos missionarios; era o mais velhos dos dois; era... o reverendo Agostinho de Jesus."

 

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19.02.17

Portugal: Pergunte para Saber


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Capa de João Paulo de Abreu e Lima (1922-2009).

 

Portugal: Pergunte para Saber (1972).

 

Publicação da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, através da sua Direcção-Geral de Informação, este volume segue a tradição de propaganda que já havia sido instituída por António Ferro (1895-1956) na década de 1930, quando este estabeleceu o Secretariado da Propaganda Nacional.

 

Com um grafismo ancorado na Op-Art, e uma capa claramente inspirada pela obra de Victor Vasarely (1906-1997), este volume, ilustrado com dezenas de fotografias, apresenta 16 secções dedicadas a diferentes aspectos que pretendiam caracterizar Portugal – País e População, História, Religião, Governo e Administração, Cultura, Educação, Informação, Economia, Turismo, Transportes, Finanças, Política Social, Facetas típicas da vida portuguesa, Informações úteis, Portugal no mundo e Quais os principais acontecimentos da história de Portugal.

 

Na secção Cultura surgem várias subsecções dedicadas à literatura, entre elas uma intitulada «E a Temática Ultramarina?». Inevitavelmente curta e incompleta, esta é particularmente interessante nas suas referências, pois embora não mencione Luandino Vieira (n. 1935) menciona outros autores marginalizados pelo regime, como Castro Soromenho (1910-1968) e Orlando da Costa (1929-2006), não mencionando, por sua vez, um autor considerado muito próximo do estado corporativo e do governo provincial de Angola, como Reis Ventura (1910-1988).

 

Certo é que Reis Ventura, apesar de ser um prolífico autor, nunca teve as suas obras incluídas nas publicações oficiais da Agência-Geral do Ultramar. Embora privilegiasse a Editora Pax, chegou a publicar na Imbondeiro, uma dinâmica e bem-sucedida editora angolana, de Sá da Bandeira, que, no entanto, não tinha os favores do regime.

 

Transcreve-se integralmente aquela subsecção: 

 

"Remonta ao século XVI a presença da temática ultramarina na literatura portuguesa, mas foi especialmente a partir do 2.º quartel do século XX que o Portugal africano, asiático ou da Oceânia surgiu plurifacetado na obra dos escritores ultramarinos e na de escritores metropolitanos com longa vivência do ultramar.

 

Relativamente aos primeiros, muitos figuram em posição relevante na literatura nacional. Citem-se, em Cabo Verde, o romancista Baltasar Lopes, autor do romance "Chiquinho", e o poeta Jorge Barbosa («Caderno de um ilhéu») que focam os problemas regionais.

 

De S. Tomé e Príncipe é um poeta de estirpe, Francisco José Tenreiro («Ilha de Nome Santo»).

 

Em Angola, da geração actuante antes da década de 1940, e que abriu à novelística caminhos válidos, mencione-se Castro Soromenho («Nhári», «Homens sem Caminho»), e Óscar Ribas («Ecos da minha Terra»). Depois, outros valores surgiram, como: Geraldo Bessa Vítor («Sanzala sem batuque»), Orlando de Albuquerque («O homem que tinha a chuva»). A poesia tem cultores de mérito em Tomás Vieira da Cruz («Quissange», «Cazumbi»), Alda Lara, Geraldo Bessa Vítor («Cubata Abandonada», «Mucambo»), Mário António («Chingufo», «100 Poemas»).

 

Ainda dentro do sector dos escritores africanos, os valores literários de Moçambique sobressaem na poesia, em que Rui de Noronha («Quenguelequeze»), Alberto Lacerda («Exílio»), Ruy Knophli [sic], com pouca influência do ambiente («Reino Submarino», «O País dos outros») conquistaram posição de relevo. Na novelística, Guilherme de Melo chamou a atenção com o livro «A Estranha aventura».

 

Timor é tema para Fernando Sylvan, assim como a Índia Portuguesa é lugar de acção nos contos de Vimala Devi («Monção»), que é também poetisa («Hologramas»), e no romance de Agostinho Fernandes («Bodki»).

 

Mas não é de menor valor e autenticidade a obra, com temática ultramarina, de escritores metropolitanos. Têm lugar destacado: Manuel Ferreira, que em «Morabeza», «Hora Di bai» aborda problemas da terra e das gentes de Cabo Verde; Ferreira da Costa, que no 2.º quartel do século XX, debruçando-se sobre temas de África, escreveu obras como «Pedra do Feitiço» e «Na pista do marfim e  da morte», cuja acção decorre em Angola, terra em que Guilhermina de Azeredo situa o romance «Feitiços». A vida e o povo de S. Tomé encontram eco na novelística de Fernando Reis («Roça»). Timor inspira a poesia de Ruy Cinatti («Sequência Timorense»). O romance «O Signo da Ira» de Orlando Costa é documento humano de Goa. Outros prosadores e poetas como Fernanda de Castro («África Raiz»), Merícia de Lemos, etc., foram atraídos pela temática africana, o que confere à literatura nacional uma diversidade plena de interesse."

 

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