Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Joaquim Paço d'Arcos - O Samovar

por blogdaruanove, em 10.11.11

 

 

Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), O Samovar (1957).

 

Esta edição autónoma do conto O Samovar foi efectuada a partir do original publicado no livro O Navio dos Mortos e Outras Novelas (1952), tendo este título voltado a ser utilizado posteriormente numa colectânea de Joaquim Paço d'Arcos, O Samovar e Outras Páginas Africanas (1972).

 

Com uma acção apresentando breves passagens pela Suécia e Suíça e uma mais longa pela África do Sul, esta narrativa relata o singular percurso de Marya Dmitryevna, Madame Fazenda após o seu segundo casamento, desde a saída da Rússia, sua terra natal, até à chegada a Moçambique.

 

Num espaço temporal que o autor declara decorrer "entre as duas grandes guerras", assistimos depois à migração da protagonista dentro de Moçambique, desde a povoação que se desenvolvia na foz do Pungue (actual cidade da Beira), até ao Chimoio e à Zambézia.

 

Evocando as memórias ficcionalizadas do autor sobre a  sua estadia no território então administrado pela Companhia de Moçambique, a narrativa conclui com a morte da protagonista poucos meses depois da invasão da Polónia, datada de 1 de Setembro [de 1939], acabando ainda por mencionar uma nova visita do narrador à cidade da Beira, após o final da guerra, romagem essa que terá originado estas memórias.

 

Deste conto trancrevem-se dois parágrafos:

 

"Mas madame Fazenda não tinha uma exigência, um queixume. Passava o dia inteiro sentada na cadeira de palha, na varanda. Dali governava a casa, ralhava com o moleque, gritava para o marido que eram horas de almoço ou de jantar, conversava com uma ou outra rara visita, via passar os transeuntes, seu principal entretenimento, e retribuia com o sorriso nédio as saudações dos que a cumprimentavam.

 

De tanto lhe passar à porta ascendi de transeunte a visitante. Às vezes, ao fim da tarde, dava-lhe dois dedos de conversa. Ela nunca perdera o forte sotaque estrangeiro e a língua que falava era uma mexerufada do idioma natal, de português, do inglês dos bars e do patuá tosco dos moleques com quem lidava de perto. Era muito sensível a todas as provas de deferência. Não se julgava rica, nem sequer remediada, porque o marido nunca lhe dava contas dos negócios, do que tinha ou deixava de ter. Mas considera-se, por ser um dos habitantes mais antigos da cidade, e por aquela longa vida exemplar ao lado do Fazenda, com jus ao respeito dos que tinham chegado muito depois dela e não haviam passado pelo que ela passara. Não o dizia abertamente, mas esse pensamento norteava nìtidamente a sua atitude. E caso curioso: velha, gorda, desdentada, gasta pela vida, abandonada ao calor dentro duns roupões enormes em que o seu corpo pesado e flácido escorregava como massa de gelatina, Madame Fazenda era uma senhora. O dobrar do tempo e aquela quase imobilidade numa varanda nua dum casebre de África, com as redes de protecção rotas  e tombadas nos caixilhos das janelas – para que gastar dinheiro a repará-las? dizia o marido, os mosquitos já não metiam dente nem com ele nem com a velha –, o dobrar do tempo e o alheamento de todos os interesses, de todas as lutas, haviam-lhe incutido um estado de espírito totalmente oposto ao do companheiro que a seu lado enriquecia e enriquecia sem ela se aperceber sequer."

 

© Blog da Rua Nove

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:08



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D