18
Fev 10
18
Fev 10

Fernanda de Castro - África Raiz

Capa de Inês Guerreiro (n. 1915).

 

Fernanda de Castro (1900-1994), África Raiz (1966).

 

Autora de inúmeros livros, no âmbito da literatura infantil, da poesia, do romance e do teatro, e ainda tradutora (traduziu o Diário, de Katherine Mansfield [1888-1923], e Cartas a um Poeta, de Rilke [1875-1926]), Fernanda de Castro tem tido a sua obra ignorada nas últimas décadas. Esquecimento a que não será alheia a marginalização da própria obra de seu marido, António Ferro (1895-1956). Factos certamente indissociáveis, pelos menos em parte, da imagem de ligação ao Estado Novo que o casal teve nas décadas de 1930 e 1940 e do entusiasmo que Ferro inicialmente manifestou pelo modelo fascista de Mussolini (1883-1945).

 

Diversos aspectos autobiográficos da vida da escritora, desde 1906 a 1987, encontram-se registados nas memórias intituladas Ao Fim da Memória, I (1986) e II (1988), uma reformulação do volume de memórias O Pequeno Eu, anunciado na década de 1960 e nunca publicado. A actividade da escritora e as suas relações com  elementos do meio artístico e literário, nacional e internacional, encontrar-se-ão também documentadas naquela que se presume seja a sua volumosa correspondência, ainda inédita. Sabe-se que, entre outras personalidades, manteve longa correspondência com a poetisa brasileira Cecília Meireles (1901-1964).

 

Desenho de Eleutério Sanches (n. 1935) para África Raiz.

 

 

Fernanda de Castro raramente se debruçou sobre a temática africana até à publicação deste longo poema, que surge por  razões particulares. A dedicatória do livro desvenda parte dessas razões – "À terra de Bolama, em cujos braços repousa minha Mãe." Antes deste volume, havia publicado Mariazinha em África (1959), uma obra de literatura infantil, tendo publicado posteriormente Fim de Semana na Gorongosa (1973).

 

África Raíz é uma narrativa em verso de fragmentos da vida de várias personagens da Guiné, Fulas, Mancanhas, Manjacos, Papéis, que culmina com a morte de Joaquim Có. Mas, é acima de tudo, uma elegia a África – "Ventre de Continentes, / és mater e matriz. / Ásia é semente, Europa é flor, / outros serão essência ou tronco, / tu, África, és raiz."

 

Desenho de Eleutério Sanches (n. 1935) para África Raiz.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 11:52 | comentar | favorito
17
Fev 10
17
Fev 10

Gabriel Mariano - O Rapaz Doente

 

Gabriel Mariano (pseudónimo de José Gabriel Lopes da Silva, 1928-2002), O Rapaz Doente (1963).

 

As publicações Imbondeiro, com sede em Sá da Bandeira (actual Lubango), Angola, constituíram um marco particularmente importante na edição da literatura colonial – revelaram uma diversidade espantosa de novos autores e publicaram as suas obras independentemente de serem, ou não, afectas ao regime. A 1.ª Canção do Mar e Duas Histórias de Pequenos Burgueses, de Luandino Vieira (pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), foram publicadas na colecção Imbondeiro, dirigida por Garibaldino de Andrade (1914-1970; será referido em breve na secção autógrafos) e Leonel Cosme (n. 1934).

 

Esta colecção com mais de seis dezenas de títulos, apesar de coordenada a partir de Angola, divulgava autores de todas as colónias portuguesas em África e também do Brasil. A mesma editora publicava ainda as colecções Dendela (contos para crianças), Imbondeiro Gigante (contos de autores africanos, brasileiros e portugueses da metrópole), Livro de Bolso Imbondeiro, Mákua (poesia) e Primavera (cadernos didácticos).

 

Gabriel Mariano, um autor de Cabo Verde formado em Direito na Universidade de Lisboa, já tinha publicado na revista Claridade e na colecção de poesia Mákua quando este conto foi lançado. Posteriormente, surgiram 12 Poemas de Circunstância (1965), Louvação da Claridade (1986) e Ladeira Grande – Antologia Poética (1993). Na ficção, publicou Capitão Ambrósio (1975) e Vida e Morte de João Cabafume (1976).

 

O Rapaz Doente é um conto que relata um episódio na vida de Júlio, rapaz da Praia, que se desloca a S. Vicente a fim de obter cura para a sua doença. Abordando retrospectivamente as condições quase esclavagistas a que os trabalhadores de S. Tomé (onde a personagem diz ter começado a sua doença) eram submetidos, o conto evolui para a solidão e abandono a que os doentes pobres acabavam por ser entregues.

 

Uma narrativa centrada na tristeza, na impotência e na aceitação resignada e fatalista do destino. Um destino que parecia emsombrar toda a vida dos pobres em Cabo Verde.

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 13:48 | comentar | favorito
16
Fev 10
16
Fev 10

Henrique Galvão - Kurika

Capa de Moura (datas desconhecidas) e ilustrações de Ilberino dos Santos (datas desconhecidas).

 

Henrique Galvão (1895-1970), Kurika (1944).

 

Africanista convicto desde a década de 1920, Henrique Galvão colaborou inicialmente com a política do Estado Novo, tendo coordenado a Exposição Colonial do Porto, realizada nos terrenos do Palácio de Cristal, em 1934.

 

Posteriormente, afastou-se da política do regime, vindo a protagonizar o sequestro do paquete Santa Maria em 1961, acto  que, por coincidência ou talvez não, ocorreu poucos anos depois da frustrada tentativa de candidatura do general Humberto Delgado (1906-1965) à presidência da República, em 1958.

 

Ao contrário da maioria dos autores referidos até ao momento, Henrique Galvão assume na sua lista bibliográfica a designação "literatura colonial" para os ensaios, crónicas e ficções relacionadas com África. Publicou em 1929 um conjunto de crónicas intituladas Em Terra de Pretos, sendo posteriormente galardoado com prémios de literatura colonial pelas seguintes obras de ficção – O Velo d'Oiro (romance, 1932), Terras de Feitiço (contos, 1934) e O Sol dos Trópicos (romance, 1936).

 

Seguindo uma linha de êxito das narrativas portuguesas do século XX ligadas a animais, iniciada com O Romance da Raposa (1924), de Aquilino Ribeiro (1885-1963), e continuada com Bichos (1940), de Miguel Torga (1907-1995), Henrique Galvão obteve enorme sucesso com a narrativa Kurika, a história de um pequeno leão órfão recolhido por um colono e "adoptado" por um cão e uma macaca, atingindo em poucos meses a 3.ª edição.

 

 

Uma narrativa que certamente deve o seu êxito ao ambiente em que a ficção se desenvolve  e à minuciosa descrição dos vários animais que povoam a selva e a savana angolana. Mas também à verosimilhança que o autor atribui aos factos narrados, aspecto em que insiste particularmente, ao ilustrar o romance com duas fotografias apresentando as seguintes legendas – "As personagens deste romance existiram..." (fotografia de uma macaca e de um pequeno leão) e "As personagens deste romance não são imaginárias..." (fotografia de dois olongos mortos, com os cornos entrelaçados). O autor, aliás, fez questão de transformar o seu texto num conjunto que combina a ficção com o texto ensaístico de características técnico-científicas, particularmente no que respeita à classificação científica da fauna.

 

    

 

Não se deve o leitor surpreender, por isso, ao encontrar notas como esta – "Walt Disney, num dos seus maravilhosos flmes, chama "Bambi" a um veado. O bambi não é um veado nem a designação se pode aplicar a este animal, que não existe na África, à qual o termo pertence, como vocábulo da língua bantu, para denominar um pequeno antílope do grupo das chamadas "cabras do mato", e que os naturalistas distinguem chamando-lhe "Cephalophus Sylvicapra, grimmi".

 

O autor pretendeu, contudo, escrever uma obra para todas as idades, como ele muito bem declarou no prefácio, antecipando-se ao famoso lema ("Dos 7 aos 77 Anos") da revista belga Tintin (1946-1993) – "Este livro não se destina àquelas pessoas que conseguiram deixar de ser crianças na porção de tempo que decorre entre o termo da puberdade e o degrau convencional da maioridade civil. Pretendemos, é certo, que fosse um livro para crianças – mas para as crianças de todas as idades, entre os quinze e os oitenta anos, as crianças, enfim, que a idade não consegue matar nem abandonar na alma dos homens, mesmo quando as rugas já lhes sulcam as faces e seus cabelos embranquecem – ou caem para não sofrerem o desaire de mudar de cor."

 

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 14:43 | comentar | favorito
15
Fev 10
15
Fev 10

Rodrigues Júnior - Era o Terceiro Dia de Vento Sul

 

Rodrigues Júnior (1902-1991), Era o Terceiro Dia de Vento Sul (1968).

 

Apesar de se assumir essencialmente como jornalista, Rodrigues Júnior publicara antes deste livro os romances Sehura (1944), O Branco da Motase (1952), Calanga (1955) e Muende (1960, galardoado com o prémio Fernão Mendes Pinto). 

 

Além destas obras, publicara também mais de uma trintena de títulos correspondentes a textos  que o autor classificara como "ensaios", "estudos de assuntos ultramarinos" e "reportagens-inquéritos".

 

As narrativas reunidas no volume Era o Terceiro Dia de Vento Sul surgem como um conjunto de pequenos textos autónomos, mas relacionados entre si através das personagens e dos espaços ficcionais, textos que supostamente serviram de esboço para uma romance anunciado em 1968 mas publicado apenas em 1976 – Omar Ali.

 

A temática destas narrativas, classificadas pelo autor como "apontamentos", lida essencialmente com aspectos da vida indígena em Moçambique, como se verifica pelos títulos "Nhangau – O Curandeiro Negro", "Sambula – O Feiticeiro Negro" ou "Batuque", na perspectiva de um narrador europeu. Surgem também, inevitavelmente, os vocábulos específicos de várias etnias que, ao contrário do que acontece com outros autores, não são abrangidos por um glossário explicativo, em notas-de-rodapé ou no final do volume.

 

Rodrigues Júnior aborda ainda temáticas de índole social que traduzem questões coloniais, como a mestiçagem e, aspecto particular de Moçambique, a fixação de etnias indianas na região, de que o texto "Mulgy – O 'Monhê' do Mercado" é particularmente significativo.

 

As narrativas deste volume consubstanciam também o núcleo do romance Omar Ali através dos vários textos que tratam da vida dos pescadores da Ilha de Moçambique. É, aliás, um destes textos, "Era o Terceiro Dia do Vento Sul", que dá origem ao título do livro.

 

© Blog da Rua Nove  

publicado por blogdaruanove às 10:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito
14
Fev 10
14
Fev 10

Eduardo Teófilo - Cacimbo em Angola

 

Eduardo Teófilo (1923-1980), Cacimbo em Angola (1966).

 

Tal como aconteceu com muitos dos autores que nasceram na então metrópole, e posteriormente se deslocaram para África, Eduardo Teófilo iniciou a sua carreira literária com textos cujas temáticas reflectiam essas origens.

 

Sendo essencialmente poeta e ficcionista, o autor começou, contudo, por publicar um conjunto de crónicas sob o título Alentejo não tem Sombra (1954), a que se seguiu o volume de poemas Vida ou Pecado (1955). Já em Angola, onde chegara em 1954, Eduardo Teófilo lançou o seu primeiro volume de contos, Estrelas da Noite Escura (1958), sob a égide das Publicações Imbondeiro, que aliás editaram posteriormente os seus contos Tempestade (1960) e O Regresso do Emigrante (1961). O autor publicara entretanto a colectânea de contos Quando o Dia Chegar (1962), que recebera o prémio Fialho de Almeida, concluindo a sua produção como contista com o volume Contos Velhos (1971). A sua produção poética veio a incluir ainda Primeiro Livro de Horas (1964).

 

Apesar da longa estadia em África (1954-1975), Eduardo Teófilo não reproduziu exclusivamente essa experiência na maior parte da sua obra escrita no continente africano. Cacimbo em Angola, um conjunto de "notas, contos, crónicas e narrativas" de acordo com a classificação do próprio autor, surge com um livro de conteúdo obviamente heterogéneo. Aí se publicam contos dos anos 50 e republicam narrativas de anos posteriores, entretanto saídas nas publicações Imbondeiro. Aí surgem também informações e reflexões importantes sobre a colecção Imbondeiro, os seus dinamizadores, Garibaldino de Andrade (1914-1970) e Leonel Cosme (n. 1934), e as vicissitudes que entretanto afectaram a editora. Aí surgem, finalmente, extraordinárias e inesperadas considerações, como aquelas que encontramos na "nota" Missão Sagrada – "Já quase deixei de ler jornais, quer nossos quer dos outros. A Rádio, já a não escuto. (...) E são páginas exaltadas dos nacionalismos de uns, cheirando a neo-fascismo odiento, ou frases empoladas de um marxismo ortodoxo, ultrapassadas e que já não convencem, palavras que mais cavam os abismos fundos, abertos, a dividir os homens, que mais acendem ódios, em lugar de unir e empolgar."

 

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 17:35 | comentar | favorito
13
Fev 10
13
Fev 10

Julião Quintinha - Novela Africana

Literatura Colonial Portuguesa

Capa de Bernardo Marques (1899-1962), ilustrações de Vasco ("Olmo", datas desconhecidas; Vasco Lopes de Mendonça?, 1881-1963).

 

Julião Quintinha (1885-1968), Novela Africana (1933).

 

Jornalista e ficcionista, Julião Quintinha produziu durante a década de 1920 dois pequenos livros de ficção com bastante sucesso, os quais alcançaram novas edições em pouco tempo – Vizinhos do Mar (1.ª edição, 1921; 2.ª, 1923; 3.ª, 1929. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/163465.html) e Terras de Fogo (1.ª edição, 1923 ; 2.ª edição, 1925). Tal não sucedeu com outras obras do mesmo período, como Dor Vitoriosa – Novela Vermelha (1922) ou Cavalgada de Sonho (1924).

 

No final dessa década, e na década seguinte, Quintinha começou a debruçar-se insistentemente sobre questões africanas e coloniais, através das suas crónicas e reportagens: África Misteriosa – Crónicas de Viagem (1929), Oiro Africano – Crónicas de Viagem (1929) e Terras de Sol e da Febre – Reportagem em Colónias Estrangeiras (1932). Publicara também, entretanto, um "esboço histórico" – Derrocada do Império Vátua e Mousinho d'Albuquerque (1930), em colaboração com Francisco Toscano (1873-1943).

 

Quintinha desenvolvera relações com vários artistas do modernismo, destacando-se entre eles o seu conterrâneo (eram ambos naturais de Silves) Bernardo Marques, que ilustrou capas de algumas das suas obras, bem como com o jornalista e ficcionista António Ferro (1895-1956). Em 1933, Ferro foi nomeado  director do recém-criado Secretariado da Propaganda Nacional (SPN; mais tarde SNI), a agência de propaganda do Estado Novo. A Agência Geral das Colónias, fundada ainda durante a I República, em 1924, sofreu novo impulso com o Estado Novo e passou a traduzir a nova política do governo na recuperação do conceito de império colonial.  Surgiu assim a Exposição Colonial do Porto, em 1934, coordenada por um outro africanista entusiasta, Henrique Galvão (1895-1970), mais tarde contestatário do regime e autor de uma façanha quixotesca – o assalto e subsequente desvio para o Brasil do paquete Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação, em 1961.

 

  

 

Naquele contexto, surgiu o livro Novelas Africanas. Apesar do título, este apresenta apenas o esboço de um  texto que se poderia incluir na tipologia das novelas – 'Como se Faz um Colonial', sendo todos os outros cinco textos mais próximos da tipologia do conto.

 

A narrativa 'Como se Faz um Colonial' surge como um texto que conjuga ficção com trechos panfletários do colonialismo, na linha do que o título previamente nos sugere. Aliás, o prólogo de Quintinha assume-se mais como um ensaio ideológico sobre a recuperação do conceito de império colonial do que como uma introdução a textos ficcionais.Uma questão perfeitamente clarificada pelo autor, quando afirma – "[Novelas Africanas] É um livro simples, como simples é a gente a que se destina, e, embora velado dum véuzito de novelesca fantasia, são claros os seus intuitos – tão claros que bem poderiam dispensar-se as palavras deste prólogo. Escrevi-o, porém, muito especialmente para ter o ensejo de declarar que não era êste livro, de factura novelesca, que desejaria publicar neste momento, mas um panfleto violento e verdadeiro, onde exortasse o povo e a juventude das escolas a olharem, bem de frente, o problema colonial português em face das censuráveis ambições estrangeiras."

 

Esta preocupação política de Quintinha, uma preocupação honesta, sentida e vivida pelo autor, com o problema colonial reflecte-se também na diversidade dos espaços narrativos escolhida pelo escritor – Angola, Guiné, Moçambique, S. Tomé e Príncipe, quatro espaços diferentes em apenas seis textos.

 

É indubitável que, em muitos destes textos,  o panfletário prejudicou o ficcionista. Assim, poder-se-á dizer sem muita hesitação que o texto mais bem conseguido deste conjunto é um belíssimo e trágico conto cuja acção se desenrola na Guiné –  A Paixão da "Balanta", onde a trama novelesca quase faz esquecer a propaganda colonial.

 

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 13:13 | comentar | favorito
12
Fev 10
12
Fev 10

Cartaxo e Trindade - Chinanga

 

Cartaxo e Trindade (1945-?), Chinanga (1969).

 

Autor que, com a sua obra e com as suas opções de vida, radicalmente concitou ora concordância ou discordância, ora acaloradas amizades ou inimizades, Cartaxo e Trindade  viveu vários anos em Moçambique, tendo vindo a exercer o cargo de assistente universitário de Filologia Românica em Lisboa, durante o início da década de 1970. Sendo no final dessa década um militante da amizade e do intercâmbio com o mundo árabe (era entusiasta defensor da singularidade da via política e cultural então iniciada pela Líbia) veio a falecer vítima de SIDA, em data que não foi possível precisar. 

 

Antes deste volume, tinha Cartaxo e Trindade publicado os livros de poesia Leve Aragem das Noites (1966), Treze Poemas Medievos (c. 1967) e 3.º Sexo Seixo (1968), anunciando-se em Chinanga o aparecimento para breve da Antologia da Novíssima Poesia de Moçambique e de Saudade Ronga (poesia), obras que, contudo, não se encontram referenciadas na B.N.L.

 

O seu livro Chinanga é dedicado a doze poetas e poetisas de Moçambique, que o autor classifica como os "novos das letras de Moçambique". Entre eles, encontra-se Luís Bernardo [Honwana (n. 1942)], a quem dedicou o poema Mamana, M'Chovane e Eu, cuja primeira estrofe é a seguinte:

 

   "aperto em meus braços de solidão

   a velha aldeia no monte de micaias

   m'chovane de algumas cantinas

   ermo cerrado flores negras

   estrada de terra batida

   onde o sol doura o doirado do orvalho santo

   as palhotas ficam metidas entre os arbustos

   e o capim cresce entre a terra e a lua(...)"

 

Este discurso escrito, isento de maiúsculas e de qualquer pontuação e por isso próximo da oralidade, já tinha sido levada a outros extremos, conjugados com um aparente caos discursivo, no seu anterior livro, 3.º Sexo Seixo, o qual atingiu uma segunda edição ainda em 1968 e veio a ser compulsoriamente retirado do mercado pouco depois.

 

A produção literária de Cartaxo e Trindade, assumidamente diferente e conscientemente candidata à marginalização na época em que foi publicada (note-se a dedicatória a Honwana, activista da Frelimo que havia estado encarcerado entre 1964 e 1967), surge como uma tentativa clara de dar voz à vivência negra na temática africana, insistindo no uso de léxico particular das várias etnias moçambicanas.  Mas esta característica, que não era exclusiva da literatura deste autor, surge acompanhada de uma proposta de inovação discursiva que remete claramente para um ensaio de modernidade literária na literatura colonial portuguesa. Este aspecto, que já tinha sido ensaiado na prosa durante essa década, particularmente em Angola, não tinha ainda sido consistentemente aplicado na poesia e surge como singular contributo do autor para a literatura colonial portuguesa de Moçambique. 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 15:15 | comentar | favorito
11
Fev 10
11
Fev 10

Castro Soromenho - Calenga

Capa e ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).

 

Castro Soromenho (1910-1968), Calenga (1945).

 

Um dos maiores prosadores da literatura colonial portuguesa, Castro Soromenho legou-nos uma obra sui generis, porque centrada quase exclusivamente nas temáticas e nas narrativas perspectivadas segundo as tradições e a cultura dos povos nativos de África.

 

Numa época em que no nosso país ressurgia e se consolidava politicamente o conceito de império colonial e os escritores se extasiavam perante a grandeza de África e todas as potencialidades que esta apresentava para a colonização, Castro Soromenho extasiou-se perante as tradições de sociedades que lhe pareciam estar ameaçadas pela cultura ocidental e perante a sabedoria dos povos dessas sociedades, como os "lundas, êsses poetas da planície". 

 

Castro Soromenho ousou ainda levantar uma voz dissonante da voz do regime. "Ama, 'mãe negra', é essa saüdade, velha de mais de trinta anos, que invoca a tua memória ao findar êste livro dos homens da tua raça infeliz.", afirma o autor no seu preâmbulo a este livro. Pagou essa sua opção consciente e sentida de homenagem aos povos negros de África com o silêncio oficial sobre a sua obra. E com a proibição ou censura da maioria dos seus trabalhos. Terra Morta, um romance da década de 1940, surge referenciado na lista bibliográfica de Calenga com a seguinte nota – "Não pode entrar no mercado", verificando-se a sua publicação apenas posteriormente, já na década de 1960. Esta obra, em particular, teve várias reedições nas últimas três décadas.

 

Duas novelas integram o livro Calenga, 'Calenga e a lenda dos rios do amor e morte' e 'Lueji e Ilunga na terra da amizade'. A primeira narra a história de Calenga, o menino que cresceu para ser soba dos calambas,  e o seu encontro com os cassongos. A segunda apresenta-nos a história da criação do país dos lundas, "como êles a contaram a Henrique de Carvalho [1843-1909], o grande explorador da Lunda, e eu a ouvi nos seus sertões", conforme diz o autor.

 

Dois textos cujas narrativas fluem naturalmente, mostrando que uma aparente simplicidade discursiva pode ser sinónima de excelente literatura.

 

© Blog da Rua Nove 

publicado por blogdaruanove às 13:22 | comentar | favorito
10
Fev 10
10
Fev 10

Maria Teresa Galveias - Ivuenu!

 

Maria Teresa Galveias (n. 1933), Ivuenu (1969).

 

Tendo publicado em 1959 o seu primeiro livro, Fronteira, Maria Teresa Galveias veio a ganhar com Ivuenu o prémio literário Camilo Pessanha 1967, da Agência Geral do Ultramar.

 

Um conjunto de poemas que evoca claramente alguma influência do volume Mensagem (1934), de Fernando Pessoa (1888-1935), (vejam-se os poemas D. Dinis, Chaimite, Colono, Padrão e Monumento dos Descobrimentos) Ivuenu veicula uma ideologia que se encontra em perfeita sintonia com a política e o discurso do Estado Novo, particularmente nos poemas Irmão Negro (Vem, meu irmão, / De olhar submisso e calmo, / Com primitiva e sã ingenuidade, / Vem, meu irmão, / Que em Deus e Portugal / É que hás-de ser homem de verdade!) e Raça (Irmãos somos nós todos, / Os descendentes de santos e heróis, / Negros ou brancos, brancos ou mestiços, / Se somos portugueses / Que importa, pois?) e também no poema Eva-Mulata, um hino à mestiçagem.

 

Apesar de esta consonância geral, Ivuenu surge pontuado por poemas que podem permitir leituras dissonantes, como Poema a um Poeta Negro, que se transcreve na íntegra:

 

   Não deixes de cantar,

   Que a tua voz

   Há-de ficar no coração dos homens,

   Há-de abafar os tiros dos canhões,

   Há-de soar na vástica distância!

   Não deixes de cantar.

   Que o teu apelo

   Há-de cruzar o mundo, lés a lés,

   Há-de ampliar-se em ecos repetidos,

   Enchendo o próprio céu de ressonância.

 

Uma leitura geral do volume permite-nos, ainda, encontrar nos títulos dos poemas uma clara homenagem aos povos africanos, suas tradições e culturas (Calema, Kandumbo, Batuque, Ivuenu, Embondeiro), mas também referências a um eventual conceito político de especificidade e unidade atlântica da África Ocidental (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Poema de Angola).  

 

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 18:07 | comentar | favorito
09
Fev 10
09
Fev 10

Artur Augusto - A Grande Aventura

 

Artur Augusto [da Silva] (1912-1983), A Grande Aventura (1941).

Capa de Luís Dourdil (1914-1989).

 

Tendo nascido em Cabo Verde, Artur Augusto da Silva veio a passar a sua infância e adolescência entre Portugal e a Guiné. Alguns anos depois de concluir o curso de Direito, em Lisboa, partiu para Angola. Aí permaneceu durante o final dos anos trinta e início dos anos quarenta, radicando-se na Guiné no final dessa mesma década.

 

O percurso literário do autor iniciou-se em 1931 com o volume de poesia Mais Além e ficou marcado pela censura ao seu segundo livro, Sensuais / Helena Maria (1933), assinado com o pseudónimo Júlia Correia da Silva, um livro apreendido e destruído pela polícia.

 

Para além de outras obras de ficção e ensaio, Artur Augusto publicara já antes deste romance duas monografias sobre artistas portugueses – António Soares (1937) e Jorge Barradas (1938), a que se seguiu em 1944 novo volume – João Carlos: um artista do livro, uma monografia sobre o escritor e ilustrador João Carlos Celestino Gomes (1899-1960) [ver alguma da sua arte gráfica em http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/150192.html]. O interesse do autor pela pintura e ilustração não seria estranho ao facto de ser irmão de João Augusto da Silva (n. 1910), que havia escrito e ilustrado o volume Grandes Chasses [cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/323322.html] para a exposição de Paris de 1937. Já depois de radicado na Guiné, Artur Augusto da Silva dedicou particular atenção às tradições e leis dos seus povos, tendo publicado, entre outros estudos, Usos e Costumes Jurídicos dos Fulas da Guiné Portuguesa  (1958) e Usos e Costumes Jurídicos dos Felupes da Guiné (1960).

 

Enquanto poeta, o autor colaborou com a revista Claridade, de Cabo Verde, e com as revistas Seara Nova e Vértice, entre outras.

 

O romance A Grande Aventura relata a viagem de um jovem para Angola, onde vai exercer um cargo administrativo, e a sua descoberta da vida em Luanda e no interior. Conclui-se com a decisão do jovem de permanecer no território, mesmo depois de a sua colocação ter sido cancelada. Aí, no final da narrativa, começa a sua grande aventura.

 

Pela obra perpassa a evocação directa da obra de João Augusto da Silva, no episódio da caçada, e a emoção da descoberta da grande África por um jovem. A tudo isto se sobrepõe o sentimento de dever colonial, bem expresso na dedicatória do romance – "Aos colonos d'África a quem devo a maior lição que um homem pode tomar: a de que não há merecimento na vida quando não sabemos conquista-la, hora a hora, com o nosso próprio sangue. A êsses homens obscuros que para ali vão, e morrem sem terem regressado a suas casas, como se cumprissem um destino."

 

© Blog da Rua Nove

publicado por blogdaruanove às 10:59 | comentar | favorito