08
Fev 10
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Fev 10

Maria Ondina Braga - Eu Vim para Ver a Terra

 

Maria Ondina [Braga] (1932-2003), Eu Vim para Ver a Terra (1965).

 

Embora vários autores portugueses dos séculos XIX e XX tenham passado pelo Oriente e reflectido, de maneira directa ou indirecta, essa estadia na sua literatura – vejam-se os casos de Wenceslau de Moraes (1854-1929), Camilo Pessanha (1867-1926) e Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), entre outros, Maria Ondina Braga surge no século XX como a principal autora portuguesa de ficção ligada a Macau, em particular, e à China em geral.

 

Este seu livro de estreia, Eu Vim para Ver a Terra, apresenta-nos um conjunto de textos sobre Angola, Goa (precisamente em 1961) e Macau, mas são as crónicas de Angola – A Terra, De Luanda a Salazar, De Salazar a Malanje, A Chuva, Cacimbo, Flor da Terra, Mãe Preta, Mercado Indígena, Velho Roque, Nova Lisboa, A Missão do Lombe e as Castanholas da Irmã Manuela, Páscoa – 1961, mais do que as de Macau, que acabam por nos cativar na sua sensibilidade e nos deixam a promessa de toda a literatura notável que a autora haveria de produzir posteriormente.

 

Surgem nestas crónicas fragmentos particularmente belos. A Chuva, Cacimbo, Flor da Terra, Mãe Preta e Mercado Indígena oferecem-nos a expressão de um lirismo a que não podemos ficar insensíveis e deixam-nos impressões de mundos que a maioria de nós apenas pressente. Como se a empatia da autora tivesse absorvido a fugacidade de universos momentâneos e os tivesse cristalizado em toda a sua beleza – a frescura dos aromas e das cores, a humidade e o calor da terra, a alegria e o sofrimento das gentes, criando um políptico perene que retira do húmus dessa terra o seu carácter profundamente humano.

 

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07
Fev 10
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Fev 10

Augusto Casimiro - Nova Largada

 

Augusto Casimiro (1889-1967), Nova Largada (1929).

Capa de José Tagarro (1902?-1931).

 

Augusto Casimiro desde cedo evidenciou nos seus textos preocupação com os territórios africanos sob administração portuguesa, não deixando de equacionar a questão sob termos políticos e militares. Com efeito, os títulos de alguns dos seus primeiros livros deixam clara essa abordagem e a relação entre África e a participação portuguesa na I Grande Guerra – Nas Trincheiras da Flandres (1918), Sidónio Pais (1919), Portugal e o Mundo : Um Sentido Português (1921), Naulila: 1914 (1922).

 

A partir do final da década de 1920, mas sobretudo nas décadas de 1930 e 1940, este sentimento africanista de Augusto Casimiro acentua-se e, a par de obras de carácter eminentementemente político, como Cartilha Colonial (1936), passamos a encontrar obras de ficção que traduzem a sua preocupação em idealizar ficcionalmente uma presença portuguesa em África, talvez por oposição à sempre difícil implementação na prática de alguns conceitos eventualmente demasiado utópicos.

 

Surgem, então, obras como Alma Africana (193-?), Portugal Crioulo (1940) e Paisagens de África (194-?). Augusto Casimiro, no entanto, desenvolveu durante décadas um percurso poético que se revelou em diversos livros e acabou por ser compilado postumamente no volume Obra Poética, editado em 2001 pela Imprensa Nacional–Casa da Moeda.

 

Nova Largada aparece-nos como uma narrativa a várias vozes, que se desenvolve quer através de excertos de diários quer através de excertos epistolares que são intercalados ao longo do desfiar da(s) história(s), tendo esta obra sido galardoada com o segundo prémio do concurso literário promovido em 1929 pala Agência Geral das Colónias. 

 

Traduzindo  aspectos da vida em África após o final da I Grande Guerra, este romance insere-se claramente na problemática que se colocou à administração portuguesa dos territórios africanos no pós-guerra, como podemos constatar em algumas passagens da introdução do autor – "No desbrave de terras afastadas – colonos, soldados, funcionários, – homens do meu país servem as mais diversas actividades, ao sabor de objectivos nem sempre acordes e na obediência a nem sempre justas normas. Entre êles, sôbre o naufrágio dos incapazes, sempre, – no ambiente mais rude, no esfôrço mais fiel ao instinto, quando não à alma, sobresai [sic], impõe-se o temperamento, a fôrça que só nas terras novas é possível aos homens das velhas metrópoles."

 

A crítica implícita em algumas das afirmações anteriores torna-se posteriormente mais clara, quando o autor afirma – "Vi-os [aos homens do meu país], inimigos ou ignorantes das populações nativas, perturbar-lhes a disciplina orgânica, os sentimentos tradicionais, as possibilidades de devenir. Mas conheci-os também fieis a intenções magníficas de humanidade, verdadeiros construtores, não de impérios mas de humanidade, entre povos ainda desconfiados e hesitantes, marcados pelas hesitações ou violências do passado domínio."

 

Assim se deveria entender, então, a proposta contida no título – Nova Largada, uma largada, uma nova largada, para a construção de um império humanista, um império de humanidade.

 

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06
Fev 10
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Fev 10

Amândio César - Antologia do Conto Ultramarino

 

Amândio César (1921-1987), Antologia do Conto Ultramarino (1972).

 

A publicação do livro Luuanda, de José Luandino Vieira (pseudónimo de  José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), no início da década de 1960 veio consolidar e consagrar os percursos alternativos que a literatura colonial portuguesa estava a desenvolver desde há algum tempo.

 

O aparecimento em 1963, no Brasil, do volume Poetas e Contistas Africanos de Expressão Portuguêsa (será novamente mencionado neste blog, em data posterior), de João Alves das Neves (n. 1927) veio conferir suporte antológico a essa literatura alternativa e lançar a preocupação entre os ortodoxos do regime salazarista.

 

Estas publicações surgiram numa altura em que a crise política com a oposição do general Humberto Delgado (1906-1965) ainda estava latente, numa altura em que o assalto ao paquete Santa Maria, liderado em Janeiro de 1961 por Henrique Galvão (1895-1970), ele próprio um africanista convicto e autor do célebre livro Kurika (1944), ainda estava bem presente na memória de todos os portugueses, numa altura em que a guerra colonial já se tinha iniciado.

 

Compreende-se assim que o regime necessitasse, urgentemente, de reactivar a sua máquina de propaganda também na área da literatura. O professor, jornalista, contista, poeta e ensaísta Amândio César, elemento solidamente conotado com o regime (publicara Angola, 1961, um conjunto de crónicas sobre os acontecimentos desse ano no norte de Angola) desempenhou papel fundamental nesse desígnio.

 

Tendo publicado Parágrafos de Literatura Ultramarina (1960), Algumas Vozes Líricas da África (1962), Elementos Para uma Bibliografia da Literatura e Cultura Portuguesa Ultramarina e Contemporânea (1968, em co-autoria) e Novos Parágrafos de Literatura Ultramarina (1972), surgiu como um das escolhas naturais do regime para efectuar a presente antologia.

 

Promovendo autores que estavam claramente conotados com o regime, ou que por ele eram tolerados, esta antologia apresenta textos de António Aurélio Gonçalves (1901-1984) e Baltasar Lopes (1907-1989), em representação de Cabo Verde, Fausto Duarte (1903-1953) e João Augusto Silva (n. 1910), em representação da Guiné, Fernando Reis (1917-1992) e Viana de Almeida (n. 1903), em representação de S. Tomé, Amaro Monteiro (n. 1935), Arnaldo Santos (n. 1936), Castro Soromenho (1910-1968), Cochat Osório (1917-2002), Mário António (1934-1989), Orlando de Albuquerque (n. 1925), Óscar Ribas (n. 1909) e Reis Ventura (1910-1988), em representação de Angola, Campos Monteiro Filho (1897-1939), Guilherme de Melo (n. 1931), João Dias (1926-1949), Luís Bernardo Honwana (n. 1942), Nuno Bermudes (1924-1997), Orlando Mendes (1917-1990) e Rodrigues Júnior (n. 1902), em representação de Moçambique, Alberto de Menezes Rodrigues (?-1971) e Vimala Devi (n. 1932), em representação do Estado Português da Índia [sic], Deolinda da Conceição (1914-1957) e Wenceslau de Moraes (1854-1929), em representação de Macau, e Fernando Sylvan (1917-1993) e Ferreira da Costa (n. 1907), em representação de Timor.

 

Numa fase posterior da sua vida, Amândio César dedicou ainda um livro à poesia de Alda Lara (1930-1962), Alda Lara na Moderna Poesia de Angola (1978), autora que já tinha sido incluída na obra Poetas e Contistas Africanos de Expressão Portuguêsa, de João Alves das Neves.

 

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05
Fev 10
05
Fev 10

Reis Ventura e a Literatura Colonial Portuguesa

Fotografia da década de 1920 com a seguinte legenda, manuscrita por Reis Ventura, no verso: "Creio que já lhe falei no passeio que demos todos os do curso superior a Caminha, de barco. Foi muito interessante. Como vê estamos todos à secular porque a Portugal não podemos ir de hábito. Este retrato foi-nos tirado pelos padres Jesuitas da Guardia no claustro do seu convento. Eu sou esse trampolineiro marcado com uma cruz. Reis". Na frente, no canto superior esquerdo, uma dedicatória parcialmente ilegível: "A meu irmão (...) do Vasco (...)".

 

 

Manuel Reis Ventura (1910-1988) foi um dos escritores que integrou aquela que se pode classificar como a segunda fase da literatura colonial portuguesa de inspiração africana, no século XX. A primeira fase, representada por escritores como Henrique Galvão (1895-1970), Julião Quintinha (1885-1968) e Castro Soromenho (1910-1968), desenvolveu-se entre as décadas de 20 e 40 coincidindo predominantemente com a recuperação do conceito de império colonial, preconizado pelo Estado Novo. A segunda fase veio a coincidir com o início da autodeterminação dos países francófonos de África, já na década de 50, e com a sublevação nas colónias portuguesas, na década seguinte. Em Angola, esta fase cristalizou-se à volta do Grupo da Província, um conjunto de artistas e escritores que contribuíram para o Suplemento Literário do jornal "a província de Angola" [sic], logo a partir da década de 40.

 

 

  

Luuanda, 1.ª edição brasileira (1965), à esquerda, e 3.ª edição portuguesa (1974).

 

 

Durante a década de 60, este grupo, apoiado tacitamente pelo governo e pela Agência Geral do Ultramar, veio a ser contestado, na sua literatura comprometida com  o regime, por escritores de oposição ao colonialismo e ao Salazarismo, como José Luandino Vieira (pseudónimo de  José Vieira Mateus da Graça, n. 1935). Um autor que já se notabilizara na década de 50 através da sua colaboração nas revistas Mensagem e Cultura, veio a ser galardoado em 1965 com o prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores pelo seu livro Luuanda (1963). Um prémio que se revelou controverso pela oposição que mereceu das instituições governamentais da época e pela evidente contestação ao regime que tal atribuição representava, visto Luandino Vieira ser então um preso político.

 

 

Cafuso (1956), capa de Neves e Sousa.

 

 

Em plena década de 60, devido à guerra, o compromisso ideológico de Reis Ventura para com o regime acentuou-se, vindo a sua literatura a ser fortemente condicionada por esse facto. A sua prosa passou a reflectir aspectos panfletários e dogmáticos, características já anteriormente sugeridas na personagem Bolchevique de A Romaria, congregando o reconhecimento do regime e dos defensores do sistema colonial. Nesta transição perdeu-se, contudo, a simplicidade, a clareza e a atracção de uma prosa corrida que o autor desenvolvera nos anos 50. Assim, talvez as suas obras literariamente mais conseguidas tenham sido precisamente as dessa década, merecendo particular destaque os romances que constituem a trilogia Cenas da vida em Luanda – Quatro Contos por Mês (1955), Cidade Alta (1958), Filha de Branco (1960), bem como o romance parcialmente autobiográfico Cafuso (1956). Nesta última obra, o narrador intradiegético relata a sua passagem por Tuy, a sua preparação sacerdotal e o abandono da vocação. Reis Ventura efectuara esse mesmo percurso, tendo embarcado para Moçambique em 1934, de onde transitou para Angola, três anos depois. Deste último romance, transcrevem-se algumas passagens que retratam de um modo divertido a vocação sacerdotal da personagem adolescente:

 

"O meu nome é José da Silva Taveira e tenho alguns estudos. Cheguei mesmo a cursar Filosofia com os Padres Franciscanos do Colégio de Santo António, na cidade fronteiriça de Tuy. Eu já lhes conto como isso aconteceu."

 

(...)

 

"Entrei, muito acanhado, na pobre saleta, famosa em toda a aldeia pela sua mesa de centro e alguns móveis desirmanados que meu pai trouxera do Brasil. O sr. Padre Inocêncio lá estava, alto e encorpado, com a testa rompendo até à coroa por entre duas farripas altas de cabelos, a fitar-me com os olhos bondosos, por baixo das sobrancelhas espessas. Naquela sua voz sonora de prègador de nomeada, perguntou-me logo, sem rodeios:

– O menino quer ir para o colégio?

Colhido de surpresa, derivei para minha mãe um olhar indeciso.

– Vá, responde! – encorajou ela.

Na minha consciência infantil, entendi que me destinavam para padre. Ràpidamente, corri os olhos cobiçosos pela grande fila de botões que o austero franciscano ostentava na batina. Lembrei-me dos puxões de orelhas que tinha apanhado pela mania de tirar à braguilha das calças o material para o jogo do botão. E, no meu íntimo, concluí:

– "É furo!"

O sr. Padre Inocêncio, bem longe dos meus silenciosos cálculos, ergueu-me o queixo com dois dedos amáveis e, olhando-me com bondade, proferiu:

– É um colégio muito grande, numa cidade muito bonita. Queres ir?

Mirei-lhe novamente os botões da batina. Caramba! Eram mais de vinte, alinhados, pretos, luzidios... E, resolutamente, respondi:

– Eu quero, sim senhor."

 

 

Engrenagens Malditas (1964), capa de António Lino (1914-1996).

 

 

A propósito da controvérsia que envolveu a atribuição do prémio do SPN em 1934, transcreve-se um excerto da entrevista que Reis Ventura concedeu ao jornal "a província de Angola" em 10 de Junho de 1970:

 

"– Sabemos que ganhou o Prémio Antero de Quental em concorrência com Fernando Pessoa...

– Não é verdade! E sinto-me envergonhado sempre que se fala nisso. Aconteceu apenas que a "Mensagem" de Fernando Pessoa, apresentada como "a Romaria", ao primeiro concurso literário do Secretariado da Propaganda Nacional, em 1934, não tinha o mínimo de cem páginas, exigido pelo Regulamento para as obras concorrentes ao Prémio Antero de Quental. Mas, ao atribuir-lhe o Segundo Prémio (apenas para respeitar a letra do Regulamento), o Júri proclamou o valor excepcional da "Mensagem" e declarou equiparados  os dois prémios da Poesia. Perante tão clara atitude, até eu, que era então ainda um garoto cheio de pequenas vaidades, compreendi que o Primeiro Prémio de Poesia, em 1934, estava conferido, de direito e de facto, a uma obra de génio, perante a qual os meus versinhos de rapaz nem sequer existem."

 

Estas considerações tinham sido já consubstanciadas estrutural e conceptualmente em A Grei (1941), obra que em plena guerra colonial ressurgiu com o título Soldado Que Vais À Guerra (1964). Nesta reedição ligeiramente modificada, Reis Ventura passou a apresentar como composições introdutórias quatro poemas que anteriormente surgiam no final do livro e cujos títulos e conceitos são obviamente evocativos da Mensagem – Viriato, Aljubarrota, O Sonho do Infante, 1640.

 

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