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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

30.08.25

Lourenço de Carvalho - O Bípede sem Plumas


blogdaruanove

 

 

Lourenço de Carvalho (datas desconhecidas), O Bípede sem Plumas (1974).

 

Não existem grandes registos biográficos ou bibliográficos sobre Lourenço de Carvalho, sabendo-se que, para além deste volume de poesia, publicou ainda um outro volume, intitulado Minha Ave Africana, em data desconhecida, mas provavelmente na década de 1970.

 

Esta última obra apresenta extenso prefácio de Eugénio Lisboa (1930-2024), sabendo-se ainda que existia um exemplar deste volume, com dedicatória do autor, na biblioteca de Jorge de Sena (1919-1978), exemplar que hoje integra o acervo da Biblioteca Nacional, em Lisboa.

 

Será muito provável, portanto, que Lourenço de Carvalho orbitasse à volta do grupo constituído por António Quadros (1933-1994), Eugénio Lisboa, José Craveirinha (1922-2003) e Rui Knopfli (1932-1997), o qual havia estado na génese da revista Caliban e manteve estreito contacto com Sena, que visitou Moçambique em 1972.

 

Esta ideia é reforçada ainda pelo facto de Eugénio Lisboa, Lourenço de Carvalho e Rui Knopfli terem colaborado com o jornal A Voz de Moçambique (1959-1975).

 

O volume O Bípede sem Penas, tem uma pequena introdução, numa badana, do poeta Sebastião Alba (Dinis Albano Carneiro Gonçalves, 1940-2000), uma citação de Natália Correia (1923-1993) – "As coisas que tocámos cobrimos de raízes / com a estranha violência / de as amarmos demais", uma dedicatória – "À Resi, ao Miguel / à Bárbara" e apresenta três longos poemas, intitulados ODE viagem celular ou o bípede sem plumas incómodo e suspeito (datado de 15 de abril de 1970), PERCURSO INTERIOR entre o silêncio e a luta (datado de 10 de novembro de 1972) e POR ANDASTE JEAN NICOLAS RIMBAUD (datado de 5 de janeiro de 1972), que se reproduz, na íntegra, abaixo.

 

Para além da modernidade que ignora pontuação, maiúsculas e estabelece longos espaços entre algumas palavras, esta poesia denota influência não apenas de Arthur Rimbaud (1854-1891), mas também de Walt Whitman (1819-1892) e Álvaro de Campos (pseudónimo de Fernando Pessoa, 1888-1935), apresentando uma visão crítica e subversiva das heróicas epopeias do mundo ocidental, da sociedade no mundo contemporâneo e da própria existência.

 

"POR ONDE ANDASTE JEAN NICOLAS RIMBAUD?

 

por onde andaste jean nicolas rimbaud

arremessando o barco por montanhas e mares?

 

em estradas solitárias    cobertas por restolhos de guerras

e castástrofes   venenos e demónio submersos na pele   odor a sonho

esplêndido e vibrátil

labirintos iguais a ossaturas de tigre e de veado

manhãs escritas com assombro   temor

e porventura arrancadas à vertigem de nunca acontecer

aquilo que tomamos por infinita alegria

e que nos mata

 

ancoraste em cidades povoadas   de gestos importantes

sensações tão sombrias   cautelosas

como gatos de gravata e luto

praças de tédio om o sabor febril de angústias milenares

paraste em cemitérios   olhado com rancor por gente

muito digna   armadade espingarda para te amar   diziam

 

abandonado e limpo   ó traficante azul

que atravessavas áfrica entre putas e escombros

flutuando o navio carregado esquecido

anterior à própria floração da bruma

secreção de alguma ideia muito nova e vasta à flor da boca

no começo do mal

no cume do  meu dia

 

fabricante de anjos   de papel com silêncio e espada

monstros teleguiados por tuas mãos argutas entre o demónio

ae a luta abandonando flores e apodrecendo gritos

destruidor disseste de homens bons e simples trasnformados

em bichos de olhos enormes   vivos

pelos sinais dos tempos do fogo e dos videntes

essas cartas deixadas em lugares ignorados

quartos setentrionais nas vertentes dos sol

foi aí que te vi

 

vi-te a chorar no chão meu anjo sanguinário

pela rua   tão branco   esperei-te num murmúrio

com foi que não vieste   ficaste tenebroso

– a torturar crianças   adolescentes belos

com gritos de martírio –

tornado informe   imenso (chamar-me nomes não!)

estilhaçado horrível com casaco e carteira

serpente muito lenta

odiar-me e dizer-te   com raiva e com razão

 

no meio destas mortes destas cabeças ocas

trago-te a uso aqui   levito-te no espelho

da terra que me atribuo e digo

e percorro o mistério   paixão e  morte

da palavra a transformar-se em homem

(esse astronauta louco a masturbar-se em espuma

semelhante e igual a mártires e exploradores e santos de cartola

mágicos expostos na solidão dos tempos)

 

jean nicolas rimbaud

trago-te a uso aqui   gasto-te no sono e na vigília

a falar de negócios   a tropeçar de bruços

na exactidão de crimes entorpecentes simples

pendurado dos ombros entre franjas e mambas

ofídios perigosíssimos como o perfume a lepra

das situações difíceis

imprevisível estou

e me consumo

e mato?

 

como sempre é penoso

preencher um buraco de horas tão fodidas e estreitas

nesta áfrica   empório

de gente tão igual

traficante rimbaud que fartaste jovem

do fastio de merda dos grandes personagens a conservar

direitos admiráveis e limpos

como foi que perdi o sinal de contacto?

e não fiquei na fuga   nem ficaste na fuga

repartido entre o mar e a densidade líquida de espaços vazios?

 

eras tão sóbrio... azul

o mais impressionante   o mais justo e claro

percurso para o barco flutuar despido

 

atento na razão

coisas imprescindíveis

onde nasceste morro   onde amas   não deitas essa cauda tão longa

ó fera cautelosa

porque te esconde agora a selva fraudulenta?

 

neste tráfico branco

de chicotes e balas

ah! este medo usado

este medo e suor diariamente posto

é a prova dos nove

ou a ferida passada a crivo pela pátria

 

ó heróis ó heróis

companheiros serenos acomodados   neutros

debruço-me outra vez na sala dos avós

emoldurados rígidos

reminiscências dúbias

de corsário e mitos

 

nós conquistámos áfrica

ó rimbaud ó poeta

pusemo-nos em cima

com calças e sapatos

nesta terra a crescer entre o terror as vísceras

restos de corpos de condição diferente

a ignorar punir

 

daí que não se infira outra culpa

outra dúvida

a esta geração que estuda a cibernética

entre a cama e o barbeiro e o contágio sereno da mão

na algibeira

 

no meio destas mortes   destas cabeças ocas

trago-te a uso aqui   levito-te no espelho

da terra que me atribuo 

e digo?

 

l. marques, 5 de janeiro de 1972"

 

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