20.10.25
Orlando Mendes - País Emerso (I)
blogdaruanove
Orlando Mendes (1916-1990), País Emerso (1975).
Acabado de imprimir em Maio de1975, na Empresa Moderna, de Lourenço Marques, este volume surgiu no mês anterior ao mês da declaração da independência de Moçambique, ocorrida a 25 de Junho daquele ano.
O próprio título traduz já os sentimentos políticos e sociais, decorrentes da revolução de 25 de Abril de 1974, em Portugal, associados às colónias portuguesas desde o ano anterior.
A obra literária de Orlando Mendes nunca havia sido explicitamente política, mas em alguns dos poemas, num conto e na peça de teatro que reuniu neste primeiro caderno (País Emerso II viria a ser publicado no ano seguinte), o autor assume-se como arauto das mudanças sócio-políticas, procurando descrever e promover a consciência do que está a acontecer em Moçambique.
Uma vez que já anteriormente se referiram alguns dados biobliográficos do autor, o presente artigo registará apenas que este volume apresenta quinze poemas – De ontem para hoje, Deserção do infante, Meditação, E nunca mais serei eu, País emerso, Revolução, A caminho, Menino agora, Libertação do poeta, Um fósforo na noite, Invenção na voz, Escola Nova, Chuva, Carta para, Bilhete de filho, dois contos – O Segredo e A Reunião, e a peça de teatro Na Machamba de Maria – Sábado às 3 horas da tarde.
Transcreve-se de seguida, integralmente, o poema A Caminho.
A CAMINHO
Quando as luzes acendem na cidade
salpica-se de casas escuras por abandono.
Lá, nas machambas com cantina, o motor
funciona toda a noite para iluminar o centro
patronal, matilhas de cães ladram ao mínimo
lume de pirilampos e voo de insectos.
Acorda-se quase sem se saber porquê, instinto
a louvar o faro-zelo dos mastins, necessidade
de sono rebentando pragascontra os ladridos.
Nas povoações só (se acontecem) estrelas e lua
iluminam os caminhos de passagem comunal
que ninguém devassa pela noite adiante
porque os cães mansamente dormem as horas
que faltam para despertarem a madrugada.
E um novo dia amanhece na cidade
e nas dispersas machambas com cantina
e nas povoações que simples contaram histórias
e entoaram uma canção da luta em paz
e foram deitar-se sobre as esteiras rugosas
para dormir fadiga sem sonhos ou pesadelos.
Dia que um forasteiro poderia dizer que
não alterou a cara das coisas que havia já
dia que muitos de aqui pensam que não
traz mudança, além da cor que mais sobressai.
A manhã dura o mesmo tempo, o sol queima
como ontem, a chuva é de mais ou de menos
como nos ciclos passados. Mas o povo, esse
vai a caminho com o início da Revolução
tem outro rosto, outras palavras, outro andar
para um cântico-música que sabe improvisar
o que por este poema talvez insólito se noticia
para conhecimento daqueles que nos seus lares
de chinelos e tomando bebidas reconfortantes
apenas ouvem a rádio e lêem os jornais
pois ver multidões os arrepia debaixo da pele.
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