Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

12.01.26

Mário António - 100 Poemas


blogdaruanove

 

Mário António (Mário António Fernandes de Oliveira, 1934-1989), 100 Poemas (1963).

Capa de Eduardo Pires Júnior (datas desconhecidas).

 

Muitos dos aspectos bio-bibliográficos de Mário António (1934-1989) já foram anteriormente aqui referidos (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/tag/m%C3%A1rio+ant%C3%B3nio), pelo que este artigo se limitará a transcrever excertos das duas notas críticas patentes na adenda e três dos poemas apresentados nesta obra.

 

O volume consultado, para esta transcrição, ostenta a dedicatória manuscrita "Para / Maria Manuela Couto Viana / Poetisa da minha admiração / desde há muitos anos, / com a simpatia / do / M. Antonio / Lisboa, Fev. 66" e reproduz 102 dois poemas do autor, datados de 1950 a 1962, entre os quais um poema intitulado Sobre Quadros de Eduardo Pires Júnior (1961).

 

Apresenta ainda uma marginália crítica, com textos de Amândio César (1921-1987), O poeta angolano Mário António, publicado no jornal Diário de Notícias, de Lisboa, em 25 de Abril de 1961, e de Alfredo Margarido (1928-2010), A poesia de Mário António, publicado no jornal Diário de Lisboa, em 10 e 7 de Outubro de 1960.

 

Do texto de Alfredo Margarido, destacam-se dois parágrafos – " (...) Bem certo é que esta poesia oscila ainda entre uma memória da saudade de uma cidade da infância – de certo que, em grande parte, uma cidade da idade de ouro, do paraíso perdido – que neste caso devemos compreender como aquela que coincidia com a existência viva do pai que, nos movimentos posteriores, se transforma na fixação fotográfica. Eis o profundo desfazamento do domínio poético: a um pai vivo e que fala, isto é, que vive ainda dentro da palavra viva, da palavra actuante, substitui-se um pai que é apenas a estratificação fotográfica  de um instante, logo transformado em não-instante. E se atendermos a que o pai branco enuncia o trânsito para uma sociedade mestiça bem tipicizada, melhor poderemos compreender o traumatismo profundo sofrido pelo poeta. / Para compreender inteiramente a poesia de Mário António é necessário penetrar no cerne da problemática do quê da experiência. Em boa verdadade é o feixe dos sentidos vividos pelas subjectividades, cuja permanente e válida intercomunicação garante a ampla estruturação do poema, que nos permite perceber os graus das mudanças fundamentais do ângulo de visão do poeta. De um ponto extremamente particularizado, e preenchido ainda por recalques que não eram ainda os movimentos da alienação, passa-se para uma validade por assim dizer universal dos movimentos de formação cultural em que o poeta está incluído, não já como um ego absoluto, mas antes como um dos elos que levarão às normas ideais capazes de permitir a revelação de uma verdade incondicionada. A verdade objectiva sobrepõe-se, de imediato, aos quadros estreitos da vida quotidiana, ou antes, apresenta-nos uma vida quotidiana concebida como transcendência. (...)"

 

Do texto de Amândio César destaca-se este parágrafo, a propósito do livro Poemas & Canto Miúdo (1960) – " (...) De resto há sempre um forte poder evocativo, como sucede em apontamentos sobre o mar em apontamentos como o que sobra da Cidade de S. Filipe de Benguela, ou como, ainda, o das «Donas de outro tempo». Por vezes ressalta na poesia de Mário António uma atitude semelhante à do romântico Amiel, aquele Amiel que um dia disse que «chaque jour nous laissons en chemin une partie de nous mêmes». Esses bocados de si próprio, que Mário António vai deixando ficar pelo caminho aparecem depois recriados pelo poder mágico da poesia, pelo poder evocativo da sua memória sentimental, pela necessidade de evasão ou de regresso aos jogos paradisíacos da infância, essa infância que o entristece por a ter perdido e por cuja consciência memorativa vai reconstruindo os retábulos mais íntimos e mais seus. Isto pode lembrar Alain Fournier, pode lembrar Drasillach, pode lembrar grande número de escritores e de poesia cuja obra surgiu entre duas grandes guerras. Mas Mário António possui um alto grau de individualização. A sua poesia é só dele: os sentimentos é que são universais. Daí que a sua poesia comungue com uma temática universal, sem deixar de ser profundamente enraizada em África. E, aqui está um exemplar típico de um escritor que é, simultâneamente, cidadão do seu País, sem deixar de possuir uma voz de tonalidades universalistas. Universalistas e não internacionalistas... para que não haja confusões de interpretação. (...) "

 

Deste volume trancrevem-se, assim, três poemas – Poema para Benguela (1951), Noite de Natal (1962) e o famoso Canto de Farra (1952), posteriormente musicado, cantado e gravado (1975) por Ruy Mingas (1939-2024), sob o título Poema da Farra.

 

POEMA PARA BENGUELA

 

Cidade de S. Filipe, cheiro de mar e peixe.

Praia Morena, gente morena

sabendo a mar.

 

Cidade de S. Filipe, essa mulata.

Mulata, essa cidade?

Não, cabrita:

Tem cabelos de cabrita.

A cor?

A cor é negra.

 

Cidade de S. Filipe, eu voltarei.

Vitória é de Benguela: Eu voltarei.

Vencido, ficarei preso ao teu corpo,

Cidade de S. Filipe de Benguela!

 

 

NOITE DE NATAL

 

Era noite de rixas a noite de Natal,

No Morro desamparado ante a vinda do Homem:

As mesmas bebedeitras e o batuque

De um Sábado maior.

 

Na cubata de adobe,

Sob o imbondeiro tutelar,

Sem a ficção da chaminé

Para o Menino entrar,

Era aí que esperávamos

Em esteiras sob o céu,

A Hora sem brinquedo algum...

 

E o tempo apenas se contava

Pelo pulsar

De pequeninos corações ansiosos,

Té o sinal

Que era

Irrompendo na Noite

O canto dos alunos

Da Escola Missionária

Atravessando o Morro...

 

( – «Canários da Maianga» de Mestre Coelho,

       Meninos sofridos de vozes límpidas,

       Quantos silêncios vos esperariam?... )

 

Dormíamos então

Sob a impressão

De uma chuva de estrelas

– Presente de Natal.

 

 

CANTO DE FARRA

 

Quando li Jubiabá

Me cri António Balduíno.

Meu primo, que nunca o leu,

Ficou Zeca Camarão. 

                                       Eh, Zeca!

 

Vamos os dois numa chunga

Vamos farrar toda a noite

Vamos levar duas moças

Para a praia da Rotunda!

Zeca, me ensina o caminho:

Sou António Balduíno!

 

E fomos farrar por aí,

Camarão na minha frente.

Nem verdiano se mete:

Na frente Zé Camarão,

Balduíno vai no trás.

 

Que moça levou meu primo!

Vai remexendo no Samba

Que nem a negra Rosenda:

Eu praqui olhando só!

 

Que moça ele levou!

Cabrita que vira os olhos.

Meu primo, rei do musseque:

Eu praqui olhando só!

 

Meu primo tá segredando:

Nossa Senhora da Ilha

ou que outra feiticeira?

A moça o acompanhando.

 

Zé Camarão a levou:

E eu para aqui a secar

e eu para aqui a secar.

 

© Blog da Rua Nove

07.01.26

Antologia da Ficção Cabo-Verdiana Contemporânea (IV)


blogdaruanove

 

 

Virgílio ("Djila") Avelino Pires (1935-1985) está representado nesta antologia com quatro contos breves – A Herança, Peregrina, Órfão, todos publicados na revista Claridade, número 8, de Maio de 1958, e Lulucha, inédito.

 

Virgílio Pires nasceu na ilha de Santiago e concluíu o liceu no Mindelo, passando depois a ser funcionário administrativo. A partir de 1964 tornou-se chefe de posto no Huambo, em Angola.

 

Publicou, ainda, no número 9 da revista Claridade, os contos Titina e Noite e colaborou também com o boletim Cabo Verde. Os seus contos completos foram reunidos no volume Herança (datas desconhecidas), cujo título remete para o conto homónimo, que consagrou esse breve, mas intenso, paradigma da sobrevivência trágica que é a personagem Puxim. Virgílio Pires, que também cultivou o género lírico, é patrono de uma das 40 cátedras da Academia Cabo-verdiana de Letras.

 

Do conto Lulucha, o mais longo destes quatro, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Quando Lulucha partiu, Pelada já tinha voltado com a ninhada. Pelada chocava os ovos sempre fora. Desaparecia e só voltava no prazo próprio, carejando gravemente, com a ninhada. Então, o galo preto avançava, altaneiro, como que a verificar se havia algum pinto preto.

O Pedrinho e o Chico tentavam adivinhar o número de pintos da Pelada. E apostavam.

– Desta vez são doze.

– Não, senhor são dez.

– Se forem doze o que é que me dás?

– Dou-te a minha bola de borracha. E se forem dez?

– Dou-te a minha lata de botões... com metade dos botões.

Daquela vez, quando Pelada voltou, vinda do monte de bredos que ficava atrás da casa, Pedrinhoo gritou: «São treze. Lulucha é que acertou». Lulucha tinha partido. O pequeno calou-se e ficou a pensar na camioneta verde que se sumiu lá longe, na recta de Bolanha, e levou Lulucha para a Praia.

Lulucha era contente. Estava sempre a sorrir. Tinha a boca grande, e quando ria os dentes muito brancos apareciam. Era boa para os meninos. É certo que às vezes aplicava ao Chico algumas sonoras palmadas. Mas eram merecidas. Chico era irrequieto e ela não lhe perdoava. Pedrinho era diferente. Pedrinho, sim. Pedrinho era o seu menino.

Lulucha gostava de arreliar nhâ Simoa. Nhâ Simoa era velha e feia. Diziam que era bruxa. Os meninos faziam figas e a mão na algibeira para ela não ver. Acocorava-se a um canto do quintal, e se Lulucha cantava aquela cantiga:

                    «Nhô S. Pedro câ nhô mata'm Caela

                    Pamô Caelaê badjadêra fox...»,

ela dizia: «Menina, abranda o brio do corpo... Rapariga nova pensa que o mundo lhe pertence...» Lulucha então, respondia: «Figas, nhâ Simoa. A mimm feiticeira não come. Tenho sangue amargo, fique sabendo». Nhâ Simoa levantava-se e saía, zangada. Lulucha chamava-a. Para não se zangar, era brincadeira... Qualquer dia iria para Praia, e ficaria com saudades dela. «Vais para a Praia? É melhor sentares-te num sítio! Rapariga nova...» – E ia-se embora a resmungar.

Às vezes, Lulucha fazia doces. E, então, era uma festa. El agostava de fazer beijos. Batia a clara do ovo até ficar branquinha comoa espuma de sabão, ajuntava açúcar e levava ao forno. Muitas vezes, Pedrinho pedinchava: «Lulucha, dá-me um beijo». Ela sorria e aguçava os lábios. Então Pedrinho dizia, amuado: «Estes, não quero, vai dá-los ao John de Tita». Ah, malandro, espera que eu te apanho» – dizia ela. E o pequeno fugia, rindo.

Lulucha nunca tinha ido à Praia, mas contava coisas maravilhosas da cidade. Havia um sítio chamado Montagarro. Ali havia uma enorme casa-de-água. À frente, um jardim com a estátua de uma menina que tinha caído no tanque. Na praça tocava-se música com cornetas e instrumentos melodiosos. Uma música maravilhosa, diferente da música de gaitas e de ferrinhos. As lojas eram deslumbrantes. Tinham toda a espécie de brinquedos. Carrinhos de corda, gaitas, bolas, tambores, bicicletas, triciclos, balões. E tudo muito barato. Quase de graça. Lulucha dizia que, quando fosse à Praia, havia de trazer aos meninos muitas coisas. Chico pedia uma bola de couro, como aquela que o John da Tita chutava no campo. Pedrinho pedia uma «biscleta».

Lulucha dizia sempre que iria à Praia. E acabou por ir mesmo.

Muito tempo depois, os pequenos perguntavam:

– Mambia, Lulucha volta?

– Volta, sim.

Mas os pintos da Pelada já eram frangos e Lulucha não voltava."

 

© Blog da Rua Nove