17.02.10
Gabriel Mariano - O Rapaz Doente
blogdaruanove

Gabriel Mariano (pseudónimo de José Gabriel Lopes da Silva, 1928-2002), O Rapaz Doente (1963).
As publicações Imbondeiro, com sede em Sá da Bandeira (actual Lubango), Angola, constituíram um marco particularmente importante na edição da literatura colonial – revelaram uma diversidade espantosa de novos autores e publicaram as suas obras independentemente de serem, ou não, afectas ao regime. A 1.ª Canção do Mar e Duas Histórias de Pequenos Burgueses, de Luandino Vieira (pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), foram publicadas na colecção Imbondeiro, dirigida por Garibaldino de Andrade (1914-1970; será referido em breve na secção autógrafos) e Leonel Cosme (n. 1934).
Esta colecção com mais de seis dezenas de títulos, apesar de coordenada a partir de Angola, divulgava autores de todas as colónias portuguesas em África e também do Brasil. A mesma editora publicava ainda as colecções Dendela (contos para crianças), Imbondeiro Gigante (contos de autores africanos, brasileiros e portugueses da metrópole), Livro de Bolso Imbondeiro, Mákua (poesia) e Primavera (cadernos didácticos).
Gabriel Mariano, um autor de Cabo Verde formado em Direito na Universidade de Lisboa, já tinha publicado na revista Claridade e na colecção de poesia Mákua quando este conto foi lançado. Posteriormente, surgiram 12 Poemas de Circunstância (1965), Louvação da Claridade (1986) e Ladeira Grande – Antologia Poética (1993). Na ficção, publicou Capitão Ambrósio (1975) e Vida e Morte de João Cabafume (1976).
O Rapaz Doente é um conto que relata um episódio na vida de Júlio, rapaz da Praia, que se desloca a S. Vicente a fim de obter cura para a sua doença. Abordando retrospectivamente as condições quase esclavagistas a que os trabalhadores de S. Tomé (onde a personagem diz ter começado a sua doença) eram submetidos, o conto evolui para a solidão e abandono a que os doentes pobres acabavam por ser entregues.
Uma narrativa centrada na tristeza, na impotência e na aceitação resignada e fatalista do destino. Um destino que parecia emsombrar toda a vida dos pobres em Cabo Verde.
Transcrevem-se os primeiros parágrafos deste conto:
"D. Maninha leu por duas vezes a carta do marido. Uma hora antes tinha chegado da Igreja, onde fora dar uma olhadela no altar de Nossa Senhora da Conceição, de cujo arranjo era encarregada, e combinar com o sr. Padre uma comida-de-anjo aos meninos de S. Vicente. D. Maninha tinha os seus pobres escolhidos a quem dava esmola todos os sábados, das duas às quatro da tarde.
De pé o rapaz segurava, com os dedos secos e descorados, a boina vermelha. Tinha um ar apatetado e, quando falava, a sua voz era muito branda e muito tímida. Os olhos sobressaltados corriam a sala toda, como se um acontecimento imprevisto os tivesse de súbito surpreendido e, sempre que se dirigia a D. Maninha, sentia-se-lhe nos gestos o jeito humilde de qquem se habituara a pedir desculpas. D. Maninha ergueu a cabeça:
– Como foi a viagem?
– Assim-assim...
Era visível que D. Maninha perguntava uma coisa e pensava outra. O rapaz, enfraquecido e amarelo, impressionava qualquer um... E o medo transpareceu no olhar inquieto de D. Maninha. Bem que ela se esforçou por não o dar a perceber, mas a sensação de repulsa colou-se-lhe ao espírito. Era evidente o seu esforço em falar com o rapaz.
Dobrou a carta e meteu-a na algibeira do vestido. Os seus olhos caíram sobre o envelope amarrotado e sujo de gordura. Fora o próprio rapaz o portador da carta. E afastou o envelope com a ponta do dedo mindinho.
– Senta-te...
O rapaz sentou-se. A boina caiu-lhe das mãos. Apanhou-a e tormou a sentar-se.
– Enjoaste?
– Sim, senhora...
– Quantos dias?
– Todos os dias...
– Não... de viagem...
– Ah... gente demorou três dias...
– Viagem comprida, não é?
D. Maninha abanou a cabeça com pesar. Depois sorriu-lhe, procurando ser agradável. No que ela queria falar era no assunto da carta, mas fria sensação de receio retinha-lhe as palavras na boca. O ar sobressaltado do rapaz desaparecera, só ficando seu jeito de menino."
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