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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

13.06.16

Eugénio Ferreira da Silva - Trovas Malditas


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   Capa de Montoya (datas desconhecidas).

 

 

Eugénio Ferreira da Silva (1917-), Trovas Malditas (1971).

 

Volume que não surge devidamente catalogado em alguns dos registos bibliográficos do autor, Trovas Malditas segue-se ao seu primeiro livro de poemas, Arco-Íris (1962), obra publicada por uma das instituições oficiais do regime – a Agência-Geral do Ultramar (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/tag/ag%C3%AAncia-geral+do+ultramar).

 

Este novo livro, aparentemente em edição de autor, transcreve algumas das apreciações que haviam sido feitas a Arco-Íris, onde se pode ficar a saber que o autor havia nascido no Lobito e que era professor de desenho em Vila Franca de Xira.

 

Aqui se transcreve também uma crítica publicada no Jornal de Notícias, onde se declarava – "Eugénio Ferreira da Silva foi amigo de António Ferro. Neste seu livro [Arco-Íris] mostra-se incomodado com os acontecimentos na sua terra e toma partido por uma solução «lusíada» do conflito, para empregar a sua própria expressão." Apesar do que ali se afirma, uma leitura daquele volume de 1962 não permite uma conclusão inequívoca sobre o partido que o autor toma perante o conflito.

 

De facto, estas Trovas Malditas apresentam determinadas características que agitam essa problemática, nomeadamente através de algumas das dedicatórias que antecedem os poemas, como as dedicatórias a Jorge de Sena – "A Jorge de Sena / com admiração pelo homem esclarecido / e de profundas convicções literárias" e a Bento de Jesus Caraça – "Ao saudoso Prof. Dr. Bento de Jesus Caraça. / Ao homem extraordinário que muito contri- / buiu para a formação moral do jovem que o / admirava."

 

Este último poema e a sua dedicatória, aliás, motivaram uma nota do autor, que veio sublinhar tal ambiguidade – "Este soneto [o derradeiro da colectânea, intitulado... Revolta] foi escrito numa atmosfera de lutas político-sociais por volta dos anos 30 e nada tem que ver com o actual Governo o qual seja justo proclamar, se movimenta numa dinâmica segura a que estávamos pouco habituados."

 

Como acontecera no anterior volume, também este Trovas Malditas apresenta poucos poemas directamente relacionáveis com África. Apenas dois – Inconsciência e Tarde de Bruma, num total de noventa e quatro.

 

Transcrevem-se de seguida Psicose, o soneto dedicado a Jorge de Sena, e Inconsciência, que surge antecedido da dedicatória "Ao poeta Mário António / – meu patrício":

 

 

"Psicose

 

Músculo e cérebro – pólos antagónicos

Deste chiqueiro que me torna inerme...

Que grande é ver na época do verme

O fruto dos eflúvios histriónicos!...

 

Ver na gama profusa da paisagem

Confundirem-se uns outros novos seres!...

Ver um «Mercúrio» em conjunção com «Ceres»

Confundir-se no falso duma imagem!...

 

Mas que agradável esta barafunda,

Esta incoerência doida que me inunda

A própria alma de revolta e grito!...

 

Sinto os nervos a arderem-se partidos!

Sobre a paleta destes meus sentidos...

Tangendo ainda mais alto o meu conflito!..."

 

 

"Inconsciência

 

Agora,

Agora que tudo são balizas

Postas perigosamente nos direitos do homem...

Agora que no horizonte a curva continua frustrada...

E permanece o nojo às coisas rectilíneas...

Ódios e fumos de metralha!

Feitiçaria na arqui-volta do tempo...

E em torno da fogueira,

Chamam-se os espíritos maus e os lobisomens...

Sabém [sic] lá os negros o que é desumanidade!

Sabem lá os negros o que é ignomínia...

Sabem lá eles o que é ser canalha,

Sem que alguém lhes leve a provisão dum dicionário...

O Céu ao longe, meu Deus! Traz um arco-Íris [sic] sem motivo

E, aqui no terreiro, crianças brancas e negras

Brincam com um disco de Newton..."

 

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02.05.16

Ferrão Cardoso - Terra, Sol e Aventura


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Ferrão Cardoso (Jorge Ferrão Cardoso, datas desconhecidas), Terra, Sol e Aventura (1956).

 

Antes desta obra, Ferrão Cardoso havia publicado, em 1948, numa edição de autor, o volume de contos intitulado Caravana, anunciando-se aqui em Terra, Sol e Aventura a futura publicação de crónicas de viagem, sob o título Aguarela Africana, e um romance intitulado A Grande Metrópole, títulos sobre os quais não foi encontada notícia ulterior. 

 

Posteriormente, publicou ainda um conjunto de crónicas sob o título Gesta das Terras Distantes (1962), O Aprendiz de Poeta (2002), um livro de poesia, e um novo livro de crónicas, que eventualmente será uma versão revista e aumentada de Aguarela Africana, intitulado Aguarela Nómada (2010).

 

De ascendência transmontana, Ferrão Cardoso nasceu no Porto e viveu parte da sua infância em Angola, no Huambo, passando depois a viver em Lisboa. Fez os seus estudos universitários em Coimbra, onde se licenciou em Medicina, regressando posteriormente a Lisboa, onde exerceu a especialidade de otorrinolaringologia no Hospital de Santa Maria.

 

Este volume reúne 14 contos, entre os quais o último, As Digestões Calmas, evoca as suas memórias e origens transmontanas, através da acção localizada em Vidago e na serra da Padrela. De todas estas narrativas, apenas Estrada de Damasco, Rotina, "Amuna" e Caboclo apresentam claramente localizações espaciais exteriores a Portugal continental.

 

Do conto Rotina transcrevem-se os primeiros parágrafos:

 

"Separadas meia milha, as duas margens do rio eram fechadas, densas de vegetação. Havia algumas boias balizando o trajecto navegável e pontões espalhados dos dois lados, rio fora.

 

Entre eles, num vaivém constante, o vaporzinho "Flor do Minho" com uma reduzida tripulação de negros e o capitão João de Deus conhecido em todo o mato.

 

Quando havia paquete, o vaporzinho descia o rio até ao litoral e voltava mais garrido, carregado de notícias frescas da metrópole e novos colonos. Até ao entreposto funante, quatro dias de viagem rio acima, o capitão João de Deus tinha tempo de cumular os recém-chegados de todas as atenções possíveis, e, ao mesmo tempo, conhecê-los e aconselhá-los. Pelos conselhos não levava nada, e a conversa era um entretenimento.

 

A coisa era sempre igual. E quando, no regresso, o vaporzinho chegava ao povoado do interior, lá estava a voz roufenha do velho Dôres perguntando «Como está o litoral?», e ele sempre respondendo «Salgado, salgado...», antes de começar a contar as novidades.

 

Viera para África ganhar dinheiro, magoado e insatisfeito como pouco que a vida lhe dera até então, mas depois, com o tempo, toda essa excitção passou. O dinheiro deixou de interessá-lo duma maneira absorvente, e ficou fazendo parte da paisagem, vendo chegar os outros, à cata do velo de oiro, inquietos e aventureiros como ele outrora.

 

Ia buscá-los ao paquete, assustados com o mundo estranho com que sùbitamente deparavam, e subia com eles o rio até ao entreposto. Aí, as casas aviadoras espalhavam-nos pelo interior. Eram duras provações. Mas depois, se havia sorte, lá estava o regresso, o capitão e o seu «Flor do Minho» para os trazer ao mar, a apanhar o navio que vinha da costa oriental rumo à metrópole."  

 

Hoje, o cais do litoral já não era mais um paredão tosco, com madeira meio apodrecida, enterrada na água. Tudo agora era uma sólida estrutura de concreto e grandes imóveis com ruidos de máquinas de escrever, e camaradas de óculos e caneta na mão davam àquilo um aspecto de confusão e dificuldade. João de Deus e o seu vaporzinho tinham que satisfazer uma data de papelada cada vez que lá iam, mas havia ainda os bons amigalhaços, a cerveja no Coelho, linguareiro como dantes, e sempre se conseguiam uns momentos bem passados. Quando zarpava rio acima, o capitão nunca ia desiludido.

 

João de Deus envelheceu e engordou, os pais morreram, a Gracinda já não está solteira, nem nova, nem o espera, e a aldeia, o regresso e as terras do Floripes pegadas com o seu Ribeiral não têm mais o interesse de antigamente.

 

Dantes, quando o navio partia, doía-lhe vê-lo ir-se. Quando o seu vulto acabava por desaparecer lá longe, no horizonte, tudo lhe parecia mais solitário ainda, e sentia uma grande tristeza. Era quando mais recordava todas as coisas deixadas.

 

Mas agora, quando isso acontecia, estava normalmente a beber cerveja no Coelho ou ainda às voltas com a papelada nalgum daqueles gabinetes difíceis, e os apitos do barco, ao partir, nem sequer o distraíam. Desaparecido no mar, a paisagem ficava igual.

 

E quando, depois, à noite, subia o rio, entre as duas margens negras, com o céu tranquilo no alto, João de Deus sentia que tudo aquilo era o seu lar, o único lar que viria a ter na vida. Não havia mais dúvidas."

 

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04.04.16

Vitor Silva Tavares - Hot e Etc.


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Vitor Silva Tavares (1937-2015), Hot e Etc. (1964).

 

Até à data de publicação desta obra, Vitor Silva Tavares havia desenvolvido, na metrópole, obra como pintor, repórter, colaborador literário de jornais e revistas, colaborador da RTP, onde também surgiu como actor, e cenógrafo. Já em Angola, foi jornalista em Benguela, onde colaborou com O Intransigente, e dirigente cine-clubista, tendo realizado, em 8mm., o filme Uma História do Mar.

 

Ecoando o título do opúsculo aqui apresentado, e transpondo homonimamente o título do magazine cultural do Jornal do Fundão, criado por si em 1967, e da revista que lhe sucedeu, entre 1973 e 1974, Vitor Silva Tavares fundou em 1974 uma pequena editora, denominada &etc, que durante mais de quarenta anos haveria de se tornar numa editora de culto e referência entre autores e leitores. 

 

Posteriormente, publicou 2 Textos à Pressão (sem data), prefaciou Como Quem Não Quer a Coisa (1978), de Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004), bem como obras de diversos outros autores, particularmente nas edições &etc. A par da sua actividade editorial, que inclui ainda a direcção da Ulisseia na década de 1960, desenvolveu também extensa actividade como tradutor.

 

Foi ainda co-autor de Ara (1984), com Paulo da Costa Domingos (n. 1953) e Rui Baião (n. 1953), e Poesia em Verso (2007), com Afonso Cautela (n. 1933) e Rui Caeiro (n. 1943), colaborando também no Manifesto contra o desastroso encerramento das livrarias da Cidade de Lisboa no centenário da Livraria Sá da Costa (2013). Em 2015 publicou um conjunto de poemas intitulado Púsias.

 

O presente volume, que, numa nota introdutória, anunciava ter Vitor Silva Tavares em vias de publicação o livro Exposições de Poemas (de que não foi encontrada notícia posterior), reune três textos em prosa – Nada de Importância, Hot e Bop, por onde perpassam, até na sua estrutura narrativa, nítidas influências musicais, particularmente do jazz, e referências a figuras como Frank Sinatra, Miles Davis, Mozart, The Jazz Messengers e Vivaldi.

 

Do conto/crónica Bop transcreve-se a parte final do seu único parágrafo:

 

" (...) O largo despovoa-se, estamos sós, a cidade foi dormir, amanhã há negócios a tratar. Falemos. O cronista não consegue registar o que quer que seja. Também ele está gasto de tanta palavra gasta. Gozemos com Pimpão. Jaimito desforra-se e zurze o orgão cardíaco do bom gigante. Mais cerveja e a festa anima. Decidimos visitar a boite do Hotel. Jaimito, que tal um show? Cá vamos, cantando e rindo. A boite exibe um ar diabólico, pintalga de labaredas toda a fauna. Conferimos as finanças e pedimos um só uísque. Vão roubar gatunos! Encostamo-nos ao balcão do bar. O pianista tecla uma melodia a carácter. Há três pares de atrasados mentais a deslizar na pista. Tudo muito chato. Às tantas, empurramos Jaimito para a bateria. Os românticos vão apanhar ar (que está húmido e fedorento) e começa a função. Jaimito mostra-se um tanto contraído, inclina-se para os tambores, busca a intimidade. Agora vê-se que descobriu qualquer coisa, os músculos distendem, já sorri para a malta. Vamos, seu Jaime, isso mesmo, está bem, está bom, YES SIR! Vem o gerente e recomenda compostura, muito gerentemente. Compostura, o raio que o parta! Saímos. Pimpão, não se arranja um carro? Só se for o da professora, mas já é tão tarde... Que se lixe! Vamos bater à porta da professora, uma cinquentona camarada. Ainda não se deitou, manda-nos entrar, oferece-nos ginguba e cerveja. Quanto ao carrinho, sim senhor, está muito bem, mas cuidado, an? É escusado recomendar, beijinhos à professora, by by. Voamos para o Benfica. Há festa cabo-verdiana, o petromax desenha um rectângulo de luz na escuridão da rua. Marchinhas brasileiras, em 78: a inconcebível geringonça sonora berra o ritmo popular e há camaradas autóctones a dar à perna. E pó e suor e olhos doces e dentes a luzir. Vamos a isto! Encontro-me enfaixado num corpo sinuoso e deixo-me abandonar. Cresce o frenesim, duas tipinhas imitam a dança do ventre e eu já não sei de que terra sou, no literal sentido da expressão. Há alguém que paga uns copos e todos bebemos a mistela, que é de estalo, pois então!... Um cara promete valente churrascada para o almoço de amanhã, mata porco, recebeu verde do Puto e quer reunir tropa à sua mesa. OK, português! A fraternidade escorre dos poros com o suor. A minha parceira chama-se Rosa e eu tenho pena dela e amo-a, amo-te Rosa, sabes?, a sério mesmo, e ela olha-me com aqueles seus olhos africanos e eu fico perplexo, à porta de um segredo, é só entrar e criar raízes. Ouço agora um escarcéu dos demónios e vamos ver o que é. Dois cow-boys resolveram armar sururu e o mais rabioso puxa do revólver e há gritos e fugas histéricas. Devo estar a sonhar. Um tiro rebenta com o petromax e a Rosa pisga-se-me dos braços. Amalgamado de corpos delirantes, deixo-me desaguar na rua. Que festa mais formidável!... A companhia já está no carrro e pomo-nos na alheta, num explosão de pó. Rumo: Lobito. Há um bar que fecha lá para as quatro da manhã, bar de marítimos. Pimpão, tens massas? E tu, Jaimito? Eu tenho 12 angolares e o Mário 7. Dá para umas Cucas. Aterramos no bar, há um alemão muito grosso, muito deutsch, a rosnar por mais bier e o empregado diz-nos ao ouvido que aquele tipo tem já a sua conta, de modo que vá beber a «birra» para a terra dele. O problema é do alemão, claro, também os alemães têm direito a problemas, razão por que nos sentamos pacatamente e bebemos Cucas, enquanto o louro germano dá murros no tampo da mesa. O ambiente está miserável e o melhor que temos a fazer é regressar a Benguela, home sweet home. Entramos na cidade a 120, contornamos a Praça da Câmara e, num banzé apreciável, travamos junto à cancela da nossa casa. Pimpão quer ouvir o Frank Sinatra naquela da solidão, mas mandamo-lo lixar e salta o Jazz Massengers [sic] para o prato. Mário vai buscar o que resta do VAT, Jaimito estira-se no divã e eu estou a coçar o joanete, que me doi como o raio! Ora bem: a África crepita e nós respiramos o ar da maldição. Já nascemos nesta atmosfera, atrofiados de imbecilidade histórica. O reino do silêncio e da vergonha. Quem ouvirá os nossos gritos? E quando? E onde? A conversa está melodramática, pelo que, com vossa licença, vamos despir as farpelas (excepto o Jaimito, por óbvias razões), enfiar os slips e mergulhar no Atlântico. Mergulhar mesmo. Mergulhar. Mergulhar."

 

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22.03.16

Ruy Burity da Silva - Cantiga de Mama Zefa


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Ruy Burity da Silva (n. 1940), Cantiga de Mama Zefa (1969).

 

Nascido no Lobito, o autor estudou no Ambriz e posteriormente em Nova Lisboa (actual Huambo). Nesta cidade frequentou a Escola Industrial e Comercial de Sarmento Rodrigues, onde foi galardoado por um poemeto intitulado Natal, que ali foi depois declamado precisamente num recital natalício.

 

Em 1963 passou a integrar o Centro Juvenil de Estudos do Huambo, departamento dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Nova Lisboa, que veio a promover a publicação de uma página quinzenal no jornal O Planalto, um programa semanal no Rádio Clube do Huambo e a criação de boletim interno destes serviços.

 

Em 1964 ganhou os Jogos Florais de Nova Lisboa, com o poema Marimba, tendo-se mudado para Lisboa em Dezembro, onde passou a trabalhar nos Serviços Culturais da Companhia de Diamantes de Angola. No ano seguinte reuniu a sua poesia, escrita entre 1955 e 1960, no livro Ochandala, assinado Ruy Silva e publicado em Nova Lisboa.

 

Posteriormente, veio a  integrar a equipa que promoveu a exposição A Arte de um Povo de Angola – Quiocos da Lunda, que decorreu em 1966 na Casa do Infante, no Porto.

 

Para além de artigos dispersos nos jornais O Planalto, de Nova Lisboa, A Província de Angola, de Luanda, Jornal do Comércio, de Lisboa, e Alvorada, da Lourinhã, colaborou também no Boletim da Agência-Geral do Ultramar.

 

Em 1969 anunciava-se a publicação do seu volume de poemas Foi Assim..., que acabou por sair em 1971 com chancela da Sociedade de Expansão Cultural, e a preparação do volume ...Também Já Fomos Um, de que não foi possível encontrar qualquer registo. 

 

É provável que a eventual fixação de residência do autor em França, ocorrida ainda antes do 25 de Abril de 1974, tenha motivado a não publicação deste último livro. Há notícia, que não foi possível confirmar, de que o autor terá regressado a Angola depois de 1974.

 

Do presente volume transcrevem-se dois poemas, Ndongo e Cantiga de Mama Zefa:

 

NDONGO

 

Dos vales e das montanhas. Dos mares e dos rios. Das florestas e savanas...

Lembranças de saudade.

Onde chingufos mil se elevam em uníssono com 

o matraquear estonteante dos carros que passam.

Lavas de pranto incandescente se erguem das sonatas doloridas dos quissanges.

O silêncio.

O universo aberto em espaços infinitos onde saltam ridentes cores em simbiose.

Um dongo sulcando águas revoltas de rio escuro de cantares sombrios.

Música.

Caravanas cruzando estradas em passos arrastados de fadiga.

Música.

Até no choro profundo dos vivos em homenagem

derradeira aos mortos que partem há música.

Letras de alegria.

Letras de lágrimas ardentes.

 

Poesia estranha de estranho poeta que ninguém 

conhece. Para lá dos seus poemas que existem, tudo é silêncio.

E indago:

Quem és tu estranho poeta que cantas os vales,

As montanhas, os mares, os rios, as florestas e savanas?...

Silêncio!

Cantas e  teu povo canta também.

Vibras e vibram contigo almas estranhas

que guardam segredos fecundos de vidas passadas.

No anonimato em que persistes vives constante.

Pertenças ao presente, ou ao passado.

Morto, ou vivo.

Existes sempre presente no eco repetido dos teus

cantares e na sonata triste dos tocadores de quissanje.

 

 

 

CANTIGA DE MAMA ZEFA

 

Ainda me lembro dela

matrona forte desengonçada

tinha sempre uma oração nos olhos

uma canção nos lábios grossos

 

dorme menino dorme

oh! oh! oh! oh! oh!

cazumbi não está vir

mama Zefa tá lh'olhar

 

tinha ciúme do menino

de quem mama Zefa falava com paixão

um dia perguntei com ansiedade

se o menino seria assim como eu

 

mama Zefa olhou-me tristemente

e com lágrimas na voz cantou

– não fala assim meu menino

Deus não faz filho mulato

 

Veja-se um comentário a este livro, destinado a ser gravado em 12 de Novembro de 1969, para o programa literário da Emissora Nacional intitulado Horizonte, da responsabilidade de Amândio César e Mário António, e a transcrição de um outro poema do autor, aqui: http://museu.rtp.pt/app/uploads/dbEmissoraNacional/Lote%2041/00014007.pdf.

 

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11.03.16

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (I)


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Capa de Gracinda Candeias (n. 1947).

 

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (1970).

 

Antologia organizada por Ivone Maria Gabriel Pinheiro da Silva (datas desconhecidas) e publicada em Luanda, no ano de 1970 (embora o cólofon registe Julho de 1971), pelo Comissariado Provincial da Mocidade Portuguesa Feminina.

 

Com 816 páginas, este volume apresenta um conjunto de prosa e poesia de inúmeros autores de língua portuguesa, incluindo escritores de Angola, Cabo Verde, Índia (Goa), Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Timor.

 

Apresenta ainda dezenas de ilustrações, gravuras e fotografias, entre as quais surgem reproduzidas pinturas de diversos artistas europeus, bem como obras dos pintores angolanos Gracinda Candeias e Neves e Sousa (1921-1995).

 

Transcrevem-se hoje dois poemas desta colectânea, um de Alda do Espírito Santo (1926-2010), de São Tomé, intitulado Lá no Água Grande, outro de Mário de Oliveira (1934-1989), de Angola, intitulado "Água Grande".

 

 

LÁ NO ÁGUA GRANDE

 

Lá no "Água Grande" a caminho da roça

Negritas batem que batem co'a roupa na pedra.

Batem e cantam modinhas da terra.

 

Cantam e riem em riso de mofa

Histórias contadas, arrastadas pelo vento.

 

Riem alto de rijo, com a roupa na pedra

E põem de branco a roupa lavada.

 

As crianças brincam e a água canta.

Brincam na água felizes...

Velam no capim um negrito pequenito.

 

E os gemidos cantados das negritas lá do rio

Ficam mudos lá na hora do regresso...

Jazem quedos no regresso para a roça.

 

Óleo de Neves e Sousa.

 

 

"ÁGUA GRANDE"

 

Nas águas do "água-grande",

Onde coqueiros balanceiam,

Lavam as lavadeiras

Que contam tristes histórias

do vento e da "gravana"

Enquanto seus filhos brincam

Nas águas do "água-grande"

Que passam e limpam tudo,

Até confissões de dor...

 

E as lavadeiras lavam sempre,

Cantando no "água-grande",

Suas ilusões de amor.

 

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31.05.15

Cândido da Velha - Equador


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Cândido da Velha (Cândido Manuel de Oliveira da Velha, n. 1933), Equador (1961).

 

Tendo nascido em Ílhavo, Cândido da Velha rumou a Luanda em 1957, data a partir da qual colaborou em diversos jornais angolanos, como A Província de Angola, ABC, Jornal de Angola, Notícias de Angola, e revistas, como Cultura. Colaborou ainda na revista brasileira Brasília do Sul. Anteriormente, impulsionara já, em Lisboa, a publicação dos cadernos culturais Atitude. 

 

Na Colecção Imbondeiro havia sido co-autor, com Luís Ataíde da Silva Banazol (n. 1919), do volume número 8, publicado em 1960, onde surgiu o seu poema Quero-te Intangível, África. No presente volume, que ostenta no interior uma ilustração de Hipólito Andrade (1933-2015), anuncia-se a existência de dois livros inéditos de Cândido da Velha – O Menino de Mãos Brancas e Poemas da Hora Diferente, de que não foi possível encontrar qualquer registo ulterior com estes títulos.

 

Posteriormente, o autor publicou As Idades de Pedra (poemas, 1969), Corporália (1972), Signo do Caranguejo (1972), Memória Breve de uma Cidade (1988), Navio Dentro do Mapa (1994) e Lugares do Vento Suão – Baixo Alentejo, 1976-1986 (1998), tendo também organizado uma Antologia de Contos - 31 Autores (1997).

 

Do conto O Homem e a Paisagem transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Tudo se fora do lugar maldito. Só a terra é que ficara. Ele também. Como abandoná-la se fazia parte integrante de si  mesmo? Vira-a ficar verde  e amarela, ora alagada, intransitável, ou mudada em cratera perdida do olhar de Deus. Mas afeiçoara-se «àquilo», à medida que os anos iam pesando na balança do séculos. Sofria tão desesperadamente como o plaino abandonado, estéril. Também ele se sentia «improdutivo». Jerónimo e os Gambos tinham feito família. Por isso não debandara com os outros. E também por uma voz íntima que, pela primeira vez, vinha à superfície como um ser, tangível, clara, perturbadora...

 

Num acto instintivo cuspiu nas mãos, esfregou-as depois uma na outra. Forcejou por desencravar a enxada. Deitou-a ao ombro e prosseguiu trôpego dos anos e das derrocadas. As árvores suplicavam clemência, contraídas para cima.

 

A porta chiou. Deixou-se cair pesadamente no banco; fincou os cotovelos nos joelhos e apoiou a fronte nas mãos. Um insecto entrou pela janela, zumbiu e abateu-se a pouca distância. Distraído, absorveu-se na contemplação do bicho que rodopiava aflitivamente, na semi-obscuridade do aposento, tentando recomeçar o voo. Em verdade não era o moscardo agonizante que ele via. Era a sua própria existência que se escoava como um frémito de asas quebradas.

 

A seca tornara-se num incidente banal. Também a vida e a morte deixaram de ter significado. Tinha fechado os olhos ao velho Tomaz, sem «pensar» nele, tal como fizera ao cachorro buliçoso que se disparava direito ao infinito para regressar daí a pouco, a excitação gasta, feliz da corrida e da liberdade. Não os depusera longe. Semeara-os perto da cubata, ali no quintal, debaixo dos magros ramos da acácia.

 

Havia ainda um problema: «não ter um vizinho a talhar-lhe a cova».

 

Bem pressentia que a estiagem seria a derradeira para ele. «Desapareces aos poucos, sabes? Este cangalho de ossos já não te deve preocupar» – monologava –. «Viste como a terra morre? É mesmo! Depois as chuvas fartam tudo e as plantas encolhidas nas raízes estremecem, constipadas, e espirram para fora. É o que farás, velho.» Ergueu-se para desentorpecer as pernas. O corpo do insecto era já um ponto negro familiar. Empurrou-o ao de leve com o pé e voltou a sentar-se. Reatou o fio dos sentimentos. – «É isso.... Hás-de dar um espirro monstro até a lama cobrir-se de montões exuberantes de capim.»

 

Pensava assim, pois recordava-se da vegetação, a crescer com mais furor, nos locais onde escondera das aves Tomaz e o cão.

 

Levantou-se e explorou o armário. À parte umas teias de aranha, duas moscas aprisionadas nos fios traiçoeiros, poderia  considerar-se «devoluto». De costas para o móvel, fixou os olhos na porta numa «esperança» antecipadamente malograda.

 

Nenhum auxílio humano à sua espera. Nenhuma voz de gente para a sua solidão.

 

Contrariara o destino, vendo todo o mundo desaparecer, assistindo àquele êxodo quase irreal que parecia desintegrar-se na luz excessiva do meio-dia. E o destino era partir com eles; aspirar o pó das picadas, tombar, por vezes, e para sempre, nas margens dos rios, depois de muitas léguas arrastadas em desespero e renúncia..."

 

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30.04.15

Reis Ventura - Cidade e Muceque


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  Capa de Haydée Moniz (datas desconhecidas).

 

 

Reis Ventura (1910-1988), Cidade e Muceque (1970).

 

Apresentando sete contos – O Homem das Sete Caras, Um Negócio bem Montado, Gente do Subúrbio, A Estalagem do Leão, O Cadillac, O Velho Bernardo, Tschimolonga, Carabina de Precisão e Olhos Assustados, este volume retoma ficcionalmente a temática dos trágicos acontecimentos de 1961 que o autor já havia tratado em Sangue no Capim (1962).

 

Esta abordagem é, aliás, explicitada nos textos que compõem as badanas, onde fica também evidente o compromisso ideológico do autor, a sua defesa do regime, e o orgulho perante a dinâmica civilizacional portuguesa implementada em Angola, como se constata nas seguintes passagens:

 

"A Luanda destes contos é a da década de sessenta, que já vai no meio milhão de habitantes, e já ergue prédios com mais de vinte andares, e já nos mostra um tráfego automóvel semelhante ao de Lisboa ou Porto, e já por vezes reune, na placa de estacionamento do seu aeroporto, quatro ou cinco grandes jactos intercontinentais. Esta é a Luanda de hoje, toda ela uma orgulhosa resposta ao desafio do terrorismo.

 

Por isso mesmo, insensìvelmente, sem um plano preconcebido nem uma prévia selecção de assuntos, todos os contos deste livro, menos um, são directa ou indirectamente relacionados com os acontecimentos e consequências da agressão cometida contra Angola."

 

Apesar de tudo, Reis Ventura não deixa de manifestar ainda uma certa preocupação humanitária e de preconizar uma particular ideia de convívio e irmandade anti-racista, particularmente no conto Olhos Assustados, onde se evocam alguns contornos das chacinas de 1961 e a variante de um episódio já narrado em Sangue no Capim.

 

Já nos contos O Velho Bernardo e Tschimolonga surgem retratos da aculturação dos autóctones de raça negra, que se assumem como contraponto aos denominados matumbos, por um lado, e, por outro, aos terroristas.

 

Mas é no conto Carabina de Precisão, de que se transcrevem abaixo alguns parágrafos, que se desenvolve a mais complexa e expressiva tensão interior em uma única personagem, através da narrativa de uma situação de combate, contexto que até então apenas tinha tido equivalente, na literatura colonial portuguesa deste período, em Aquelas Longas Horas (1968), de Manuel Barão da Cunha. 

 

"Assim se agitava na teia complicada dos seus amargos pensamentos, quando reparou que o combate já durava tempo demais. Normalmente ele dava o primeiro tiro, sempre que a patrulha portuguesa vinha ao nível de pelotão. O bando disparava então todas as suas armas e fugia logo, pois todos sabiam que os soldados portugueses eram rápidos e implacáveis na resposta.

 

Mas, agora, o combate ainda durava. E ao crepitar das metralhadoras, juntava-se, de vez em quando, o sopro ardente das bazucadas.

 

Com o seu instinto de bom soldado, o homem da carabina de precisão regressou de repente à consciência do perigo circundante. Apurou o olhar em redondo e apercebeu-se de que algo de especial estava a acontecer. O seu bando não fugira porque estava cercado. Os emboscados afinal eram eles.

 

Com infinita cautela, passando de ramo em ramo com a silenciosa agilidade dum gato selvagem, espreitou para todos os lados, com aquela agudeza visual que era uma das suas melhores qualidades de combatente. E teve um sobressalto ao concluir que havia, no cerco aos terroristas, mais de um pelotão. Sentiu na água dos olhos e no tutano dos ossos o álgido frio do medo à morte. Porque ele também estava dentro do cerco e sabia que os portugueses o procuravam há longos meses, para lhe cobrar o preço dos alferes abatidos. E verificava que ele e o seu bando, cujo comando aliaz lhe não pertencia, (os grandes cabecilhas do terrorismo não estavam bem seguros dele, porque ninguém confia muito num desertor, não é?...) – verificava agora que ele e o seu bando tinham de se haver com dois pelotões, talvez com uma companhia inteira.

 

Então havia, pelo menos, mais dois alferes.

 

Retezou os músculos, como a hiena que prepara o salto, e pôs-se à procura dos oficiais. Da sua posição elevada pode confirmar que um segundo pelotão avançava do lado contrário à picada, vindo do interior da mata. E pronto! – lá começava o fogo de morteiro...

 

Compreendeu que o seu bando estava fechado num círculo de fogo. E não se esquecia de que a tropa portuguesa sabia fazer as coisas... Se fosse o comandante do bando, teria ordenado o «salve-se quem puder!» Mas não era o comandante do bando. Nunca lhe tinham confiado o comando dum grupo de combate. Era apenas um atirador de pontaria infalível, com uma carabina de precisão..."

 

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22.03.15

Madi - Missangas de Cor


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Cristiano Valcorba (n. 1937), Vicente (1963); Madi (n. 1940; pseudónimo), O Livro da Primeira Classe, Missangas de Cor (1963).

 

Cristiano Valcorba, que havia nascido em Ponta Delgada, Açores, exercia a profissão de empregado de comércio. De acordo com a nota bibliográfica apresentada neste opúculo, até então havia publicado poesias e estudos ensaísticos na imprensa local, não havendo notícia de que tenha publicado posteriormente qualquer outra obra.

 

Por sua vez, Madi (obviamente um pseudónimo ou diminutivo) havia nascido em Elvas, Alentejo, tendo-se radicado em Luanda no início da década de 1950. A exemplo do que acontece com Valcorba, não há qualquer outro registo de publicações posteriores, apenas se sabendo, pela nota bibliográfica, que tinha particular interesse por literatura infantil e colaborava no jornal a província de Angola.

 

O conto Vicente narra-nos o episódio de um vagabundo, Vicente, que, num domingo e numa cidade quase deserta, após dezoito horas sem comer, recusa a oferta de pão com doce porque lhe apetecia pão com queijo. Reflexão sobre algumas causas da mendicidade e da caridade, esta é também uma reflexão sobre a dignidade e a liberdade individual.

 

Os dois contos de Madi colocam-nos perante inesperados e peculiares actos de maldade. No primeiro, encontramos dois ardinas que procuram poupar o suficiente, 17$50, para comprar um livro através do qual possam aprender a ler. Quando o conseguem, o tio de um deles descobre o livro, espezinha-o e agride o sobrinho por este não lhe ter entregue as suas economias. No segundo conto encontramos a ingénua Macuto, que acaba por ser despedida devido a um maquiavélico mal-entendido provocado pelo ciumento Sucuri.

 

Como nota curiosa, refira-se que a ausência de concordância no género e número das palavras, ou as incorrectas conjugações verbais, recurso estilístico utilizada por Madi nos seus dois contos para acentuar o discurso das personagens nativas, muitas vezes ridicularizado e apontado pelos europeus como exemplo da sua ignorância, tem uma irónica contrapartida na palavra utilizada para o título de um dos seus contos, pois o vocábulo missangas, muito compenetrada e superiormente utilizada pelos falantes de Português, encerra em si um duplo plural – em Quimbundo, missanga é, de facto, o plural da palavra (u)sanga.

 

Do conto Missangas de Cor transcrevem-se de seguida alguns parágrafos:

 

"A mulher tirou as mãos das ancas e refilou, ameaçadora, cuspindo o chão.

 

– Teu pai é que ter razão, você só gosta brincar. Quando você aprende falar como pissoa?

 

– Mamã não zanga – pediu – mas eu sabe que faz.

 

Mamã gritou-lhe mais zangada ainda.

 

– Não sabe! Por isso eu vai dizer.

 

Macuto tornou a encolher os ombros, olhando-a resignada.

 

– Fala.

 

– Sinhor António gosta pretas, você vai ter cuidado, eu está te avisar. Minino não, esse anda namorar com minina branca, bonita mesmo, não vai ligar no preta, anda no liceu, é educando [sic].

 

Macuto, enrolando os panos melhor a si, contou o que a senhora lhe prometera.

 

– Dona Mariquinhas disse dispôs mi vai dar vistidos.

 

A mulher voltou a cuspir o chão, incrédula.

 

– E você acreditou?

 

– Sim. E sandaletes com correias. Sinhora diz não quer preta de panos no seu casa.

 

– Mas você não vai ficar vaidosa? Rapariga vaidosa fica vadia dipressa.

 

– Haka, mamã!

 

– Você não seja mal inducanda [sic], seu pai no quiria deixar ir no você porque o seu cabeça ainda não presta e disse se você vier vadia não recebe no seu casa.

 

Quando esfregava a roupa, debruçada no tanque grande ao fundo do quintal, Macuto pensava sempre naquelas palavras. – «É priciso não dar confiança nos brancos nem nos pretos.» – «Sinhor António gosta di pretas, minino não, é educando [sic].»

 

Sucuri, o cozinheiro, no primeiro dia, enquanto lhe ensinava onde estava o sabão, onde devia ir buscar a roupa suja, o carvão para passar, também lhe dissera:

 

– Minina, eu já conhece você muito tempo; por isso eu lhe vai dizer qui pricisa ter muito juízo.

 

Macuto rira-se dele.

 

– Você não tem medo, eu sabe lavar bem e engomar, mamã me ensinou, eu já lavar roupa muito tempo no meu casa.

 

Sucuri ficara desarmado; aquela rapariga era mesmo parva, parva sim, estúpida, não fora isso que ele quisera dizer.

 

Pegou-lhe num braço para a chamar à atenção por outras palavras.

 

– Minina...

 

– Haka! Tira à mão, rapaz – disse, dando-lhe uma palmada e recuando – mamã disse para eu não dar confiança nos brancos nem nos pretos.

 

– Sua mãe disse isso?

 

– Disse, por isso você vai pôr pata noutro sítio, Macuto não é preta vadia com quem você costuma andar."

 

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27.02.15

Castro Soromenho - Nhári (I)


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Castro Soromenho (1910-1968), Nhári: O Drama da Gente Negra (1938).

 

Nhári, primeiro livro publicado por Castro Soromenho após a sua saída de Angola, onde nunca mais voltou, havia sido antecedido por duas outras curtas publicações do autor – Aves do Além (1934?) e Lendas Negras (Cadernos Coloniais, 20. Lisboa: Editorial Cosmos, 1936?), que vieram a ser integradas neste volume.

 

Galardoado em 1939 com o 2.º prémio da Agência Geral das Colónias, e, por sua expressa vontade, nunca mais publicado em vida do autor, este livro apresenta, numa primeira parte, cinco narrativas, intituladas O Último Batuque, Gando – O Feiticeiro!, Angústia, O Milagre do Ganga, e Nhári, e numa segunda parte, que ostenta o subtítulo Lendas Negras, cinco outras narrativas – Os Embaixadores à Côrte do Além, Terra da Amizade, Para Além da Vida, Aves do Além, e A Lagoa Maldita.

 

Em O Último Batuque narra-se o declínio do poder e da autoridade de um soba bângala, Xá-Congo, que veio a ser escravizado como capinge pela soba Mona-Capenda. Posteriormente libertado, apesar de voltar a reunir a sua antiga gente nunca mais recuperou a anterior dignidade, o que fora pressagiado pelas melembas que plantara na delimitação da sua nova senzala e que jamais folharam, acabando por se enforcar.

 

Gando – O Feiticeiro! enfatiza a impassibilidade de um velho que, perante o prenúncio de uma desgraça, posteriormente materializada na morte da sua filha, devorada por um jacaré, se refugia na liamba como único meio de suportar as fatalidades da vida. Contracenando com este "fumador de quimeras" encontramos um escravo luena que simbolicamente se liberta tocando no seu quissange uma "canção saüdosa e fatalista" que traduzia "o chôro eternamente dolente desta raça triste."

 

A fatalidade é novamente focada no conto Angústia, que nos apresenta uma variante do complexo de Édipo. A reescrita da tragédia grega, que deu origem a este conceito de psicanálise, surge aqui como forma de sublinhar que um escravo lunda, apesar de ter direito a um nome – Candala, não tem direito ao amor ou à família.

 

O Milagre do Ganga descreve a influência de um feiticeiro, Ganga, que ardilosamente sabe aproveitar-se das superstições de um soba, Quissueia, e do seu povo para consolidar o seu estatuto e receber a dádiva sacrificial da sobrinha do soba. Tal oferenda permitiu-lhe, assim, falar com os mortos e acalmar o espírito do falecido soba Muenha-Quinguri, que assombrava o seu sobeta Quissueia por este o haver enganado com uma das suas mulheres.

 

O quinto conto relata o trágico destino de uma menina de dez anos – Nhári, que é dada por seu tio maternal a um velho fumador de liamba. No entanto, o irmão de Nhári, um caçador quioco chamado Murique, tencionava dá-la a um ganguela. Perpetrando o assassinato do velho, com a ajuda do caçador Xassuana, inicia depois uma jornada, com este e com sua irmã, através de uma planície que parecia não ter fim. Ao longo da simbólica jornada – "Esta planície é imensa, dolorosamente imensa, e aquela árvore está só. (...) Ergue-se sôbre a sua própria dor, amarrada a silêncio profundo. Silêncio, silêncio, só silêncio. Antes gritasse!", Nhári é também entregue por seu irmão a Xassuana, o qual surge como alternativa para se tornar seu senhor caso o ganguela a venha a recusar.

 

O valor simbólico, ritual e erótico do batuque, aqui destacado em dois contos – O Último Batuque e O Milagre do Ganga, havia também sido particularmente tratado por António Botto (1897-1959), num poema, o segundo do Livro Terceiro – Piquenas Esculturas, das suas famosas Canções (http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/5377.html).

 

Num posterior artigo abordar-se-ão as cinco narrativas de Lendas Negras, transcrevendo-se agora os últimos parágrafos de Nhári:

 

"Nhári, débil criança de lindos olhos negros, cheios de dolência, sempre a olhar, perdidamente, para o infinito, pequenina escrava, talvez inconsciente da sua própria escravidão, – tu és o símbolo das mulheres da tua raça.

 

Sôbre a terra escaldante tombou a sombra da noite.

 

E ainda paira no ar e na vacuidade da vida da escrava aquela pregunta [sic] inútil e afrontosa:

 

– Queres, Nhári, ser mulher do Xassuana?

 

A criança, sempre com os olhos esquecidos em tristeza, que mais parecia boneca de ébano do que mulher para o trabalho rude da terra e fêmea obrigada a dar-se ao prazer sensual do seu senhor, marchava atrás dos homens que a iam mercadejar.

 

As três silhuetas desapareceram na noite."

 

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31.01.15

Maria Perpétua Candeias da Silva - O Homem Enfeitiçado


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Maria Perpétua Candeias da Silva (datas desconhecidas), O Homem Enfeitiçado (1961).

 

Nascida na região de Caconda, Angola, Maria Perpétua Candeias da Silva, recebeu em 1949 uma distinção pelo seu conto Nihova, num concurso organizado pela Câmara Municipal de Nova Lisboa (actual Huambo).

 

Posteriormente escreveu os contos A Mulher de Duas Cores e Falsos Trilhos, que haveriam de vir a ser publicados em 1959, num só volume que conjuga esses dois títulos e foi agraciado com o prémio Fialho de Almeida da Câmara Municipal de Sá da Bandeira (actual Lubango). Publicou ainda o conto Escrava, na antologia Novos Contos d'África (1962), o volume Navionga: Filha de Branco (1966) e o conto Ka-tenda, Morto-vivo, na antologia Contos Portugueses do Ultramar (1969).

 

Acerca de Navionga, um parecer da censura prévia para o programa Horizonte: Semanário de Letras e Artes, da Emissora Nacional, de 17 de Agosto de 1967, programa que era coordenado por Amândio César (1921-1987), refere: "O livro apresentado para ilustrar a rubrica da pag. 5 [O Livro da Semana], cheio de crendices, será de divulgar?"

 

A exemplo do que acontecia com outras publicações de literatura colonial, também o conto O Homem Enfeitiçado é complementado com um glossário de 12 vocábulos – êpuita, kefècô, lombi, lonamba, ngôma, ossolo, tchimbari, tchimbombô, tchissanga, vigundo, virombô, vitambero, que antecedem a seguinte consideração: "Aos diálogos travados em umbundo «língua que conheço bastante bem», interpretando-os para português, procuro sempre dar-lhes sentido exacto nunca fugindo à pitoresca fraseologia da língua. O mesmo acontece com os monólogos."

 

Já neste conto a autora abordava temas que haveriam de levar à questão colocada pelo censor de Navionga, encerrando o glossário e o volume com a seguinte observação: "O feitiço da cabaça, segundo os nativos, é a mais terrível magia que a raça umbundo conhece. O Tchimbundo (feiticeiro), coloca água límpida numa grande cabaça e nela deita uns pós. Espera, e momentos depois faz umas orações e vai evocando a imagem de qualquer pessoa a quem deseja fazer mal. Esta acaba por se reflectir na água e é espetada com uma agulha ou qualquer instrumento de ponta fina em qualquer dos sítios onde se alojam os órgãos. Se for no coração, a pessoa tem morte repentina. Se for no estômago, fígado, etc., terá doença incurável em qualquer daqueles órfãos [sic] e desse mal virá a falecer."

 

O enredo deste conto desenvolve-se em torno do drama interior que Salupassa alimenta a partir da sua condição de tchimbari – um negro educado nos costumes dos brancos. Um negro que não passara pelo ritual do ekuendgê (circuncisão) e que perante homens e mulheres da sua raça nunca seria um verdadeiro homem. Antes seria sempre um homem enfeitiçado, e um marginal, pois não tinha sido purificado nem fortalecido pelo ritual.

 

Transcrevem-se de seguida alguns parágrafos de O Homem Enfeitiçado:

 

"Acontecia-lhe, já, passar noites seguidas sem dormir e, sem ânimo, faltava ao serviço e faltava a Navita! O diabo era o que vinha depois: ralhos da patroa por julgar que ele faltava por motivo de bebedeira, e ralhos de Navita que o julgava de diversas maneiras, conforme lhe dava na cabeça. Até adquirira o costume de, por desconfiança, quando ele lhe faltava, sair de casa dela, que ainda ficava longe, e aparecer-lhe na cubata. E, se o encontrava estendido na esteira, logo se aconchegava ao lado dele, pondo-se a acariciá-lo e a apalpá-lo. E se ele, esquecido da sua desgraça de homem, acabasse por lhe retribuir ardorosamente aqueles afagos... logo Navita, embriagada de desejo, se principiava a despir, ficando-lhe nua nos braços.

 

Então é que eram elas: havia-se sentido na terra do mel para de lá sair cheio de dor e vergonha e dar entrada numa outra terra amarga de sal e gindungo! Pobre dele! No momento mais apetecido, largava brutalmente Navita e deitava a fugir como «bambi» à frente do caçador negro e enfiava pela floresta, escondendo-se onde a sua rapariga o não pudesse ver! Ali, dava largas à sua dor: mordia-se raivosamente, chorando como qualquer mulher. Como desejava sinceramente a morte naqueles momentos! E como amaldiçoava a hora em que nascera!

 

E quando voltava a ver Navita, seguia-se uma cena tremenda: se ele ia vê-la à casa onde ela habitava com a irmã e o cunhado, uma casa de adobe coberta de capim, a rapariga, se o bispava, corria a fechar-se dentro de casa e só saía depois de muito rogada a sua presença. Mas quantas vezes não aparecia como um redemoinho de vento?: pondo-se a andar de roda dele como uma doida e a largar da boca grandes palavrões:

 

– Que vens cá fazer, homem capado? Se não consegues fazer nada a uma mulher, por que não me deixas em paz?

 

Depois parava, começava a olhá-lo fixamente. Deitava-lhe a língua de fora e, tornando a caminhar de roda dele, Salupassa, e fazendo gestos obscenos com as mãos, voltava a falar:

 

– Por que não me deixas só? Deixa-me e nunca mais cá venhas! Eu quero um homem que seja homem de verdade! Todo aquele que nasce tem direito ao mel que a vida dá. E eu quero desse mel e tu não prestas para o dar. Vai-te embora daqui, anda, sai, estás à espera de quê? – e cada vez mais zangada, enfurecida, já, continuava: – Vai-te embora e que eu nunca mais te veja. Ânus podre da tua mãe, ânus podre do teu pai, estúpida toupeira. Vai-te embora – e empurrando-o com força: – Vai-te que cheiras mesmo a carne podre e a tua roupa cheira a mijo de rato...

 

Ele nada dizia, não tinha mesmo forças para dizer nada. Olhava-a e parecia-lhe ver na sua frente uma Navita diferente, uma peste em vez de uma mulher, em vez da jovem mulher a quem tanto queria. Navita ficava com as feições decompostas, dos lábios principiava a sair-lhe uma espuma esbranquiçada e os olhos pareciam inchar dentro das órbitos [sic]. Ficava quase como os diabos que os livros das igrejas dos brancos mostravam. E ele, cheio de nojo daquela rapariga e cheio de raiva contra si próprio, virava costas e, de cabeça baixa, ia direito à sua cubata."

 

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