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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

07.06.16

Miguel de Noronha de Paiva Couceiro - Diu e Eu


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Miguel António do Carmo de Noronha de Paiva Couceiro (1909-1979), Diu e Eu (1969).

 

O autor, que também criou a ilustração para a capa e os 21 desenhos a preto e branco que surgem extra-texto, exerceu as funções de governador de Diu entre Agosto de 1948 e Julho de 1950.

 

Do capítulo Hospitalidade Indiana transcrevem-se alguns parágrafos:

 

     "Em Goa, grandes povoações que nós chamaríamos vilas, designam-se por aldeias e, coaldeanos se consideram os que lá nasceram. Boa metade dos Goeses luta pela vida longe do berço em que se criou e só, de longe em longe, as grandes festividades familiares os reunem no seu ninho paterno: os casamentos, os baptizados – também os funerais, pois, como se diz em Espanha, «el muerto al hoyo y el vivo al bollo». À roda da mesa sólida, a família se congrega, na casa de jantar imensa. E lá correm os sarapateis, os xacutis, a bebinca, etc. – eu tive a ocasião de seguir este ritual fagueiro em Chandor, em casa do meu amigo Francisco Egídio Fernandes e apetecia-me lá voltar enquanto as enzimas trabalharem a preceito!

 

Nas grandes mansões, àparte, está a casa de hóspedes, aonde as suas comodidades são atendidas, respeitando escrupulosamente os hábitos peculiares de cada um. No «Manaranjan», em Junagadh, mantinham-se a posto três cozinheiros, um Hindu, outro Muçulmano e o terceiro Cristão, e nunca chouriço, nem orelheira, iriam macular a mesa do leitor do Corão!

 

Fui, com o Comandante Luís Cardoso, visitar o Visconde de Pernem, aos seus domínios lá para os confins nortenhos de Goa. Recebeu-nos fidalgamente, envergando o seu «pudvem», e mostrou-nos a vasta residência, os longos aposentos, deslumbrando-nos com os arreios do seu elefante de cerimónia, tauxiados de prata. Ainda que na cavalariça – aliás elefantariça – faltasse o paquiderme, sacrificado a algum motor de explosão.

 

E apareceu-nos outro palácio: «a casa de hóspedes», explicou o Visconde. «Quantos pode alojar?» – perguntei. «Quatro», foi a resposta sucinta e insisti: «quatro pessoas?!» – «Não, quatro famílias». E, para quem conheça a extensão das famílias indianas, a resposta é elucidativa.

 

Mostrava-nos os seus jardins e, de súbito, aponta para o que me parecia qualquer roseira mal cuidada, dizendo, perentório: «hortaliça – quiabos». Eu tinha chegado na véspera do Chiado e não vinha disposto a engolir a primeira história de cobras que me quiséssem impingir. Já andava desconfiado com a do visconde que, ao meio-dia, me aparecia embrulhado no que, a mim, me parecia um lençol de cama... De modo que aceitei polidamente mais esta da hortaliça, sem a tomar demasiadamente a sério.

 

Mas vim a verificar, mais tarde, que os tais quiabos, bem refogados, são o melhor acompanhamento dum caril e o Visconde de Pernem pagara os direitos de mercê e, de turbante e jóias, tinha um dia esmagado os mirones de Lisboa!"

 

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19.05.16

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (II)


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Capa de Gracinda Candeias (n. 1947).

 

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (1970).

 

Antologia organizada por Ivone Maria Gabriel Pinheiro da Silva (datas desconhecidas) e publicada em Luanda, no ano de 1970 (embora o cólofon registe Julho de 1971), pelo Comissariado Provincial da Mocidade Portuguesa Feminina. Apresenta excertos de obras, ou transcrições integrais de poemas, dos seguintes autores:

 

Angola – Alda Lara, Amélia Veiga, Dala (Maria José Duarte Martins), Ernesto Lara Filho, Fausto José, Gracinda Candeias, Guilhermina de Azeredo, Jorge Macedo, José Candeias, Lena Alves do Carmo Castelo, Manuela Cerqueira, Maria Beatriz da Fonseca, Maria Teresa Andrade Santos, Mário António, Mário de Oliveira (surge também associado a São Tomé e Príncipe), Tomás Jorge, Tomás Vieira da Cruz.

 

Cabo Verde – António Aurélio Gonçalves, António Mendes Cardoso, Jorge Barbosa, Onésimo Silveira, Yolanda Morazzo.

 

Índia (Goa) – Vimala Devi.

 

Moçambique – Alberto de Lacerda, Cartaxo e Trindade, Merícia de Lemos, Papiniano Carlos, Salette Tavares.

 

São Tomé e Príncipe – Alda do Espírito Santo, Costa Alegre, Maria Manuela Margarido, Mário de Oliveira (surge também associado a Angola), Viana Almeida.

 

Timor – Fernando Sylvan.

 

Embora seja feita referência às suas províncias de origem na metrópole e não às províncias ultramarinas a que estavam ligados, ou onde se encontravam, surgem ainda nesta colectânea textos de outros autores associados à temática colonial, tais como Amândio César (Minho), António de Penacova (Beira Litoral), Augusto Casimiro (Minho), Cândido da Velha (Beira Litoral), Clementina Relvas (Trás-os-Montes e Alto Douro), Estela Brum (Açores), Hugo Rocha (Entre-Douro-e-Minho), J. Galvão Balsa (Ribatejo), Maria José Guerreiro Duarte (Estremadura), Maria de Lourdes Amorim (Estremadura), Maria Ondina [Braga] (Minho), Maria Teresa Galveias (Estremadura), Neves e Sousa (Douro Litoral), Reis Ventura (Trás-os-Montes), e Ruy Belo (Estremadura).

 

De Hugo Rocha (1907-1993), transcreve-se o poema Tonga:

 

Rapariga bronzeada

Moça formosa e núbil do Equador

Quem te deu, quem te deu tão linda cor,

Rapariga bronzeada?

 

"Tonga" de corpo airoso

Ninfa dos coqueirais de S. Tomé

Tanagra negra; baila o "socopé",

"Tonga" de corpo airoso!

 

Porque fitas o mar,

Nostálgica, ao sol-pôr, no "Espalmadouro"?

Quando o horizonte é pedraria e ouro,

Porque fitas o mar?

 

Nos teus olhos saudosos

Passam visões do negro continente...

De lá vieram teus pais. Há um brilho ardente

Nos teus olhos saudosos...

 

"Tonga" de S. Tomé,

Negra vestal entre o verdor do "Obó":

Se te vê triste, o coqueiral tem dó,

"Tonga" de S. Tomé...

 

O teu lenço de cor

Envolve-te a cabeça, qual turbante,

Dá-te um ar de mistério perturbante

o teu lenço de cor.

 

Quais bagos de café

São teus beiços vermelhos a sangrar.

Quem os há-de colher e há-de provar,

Quais bagos de café?

 

Rapariga bronzeada:

No verde paraíso da Ilha

Tu és a mais estranha maravilha

rapariga bronzeada...

 

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02.05.16

Ferrão Cardoso - Terra, Sol e Aventura


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Ferrão Cardoso (Jorge Ferrão Cardoso, datas desconhecidas), Terra, Sol e Aventura (1956).

 

Antes desta obra, Ferrão Cardoso havia publicado, em 1948, numa edição de autor, o volume de contos intitulado Caravana, anunciando-se aqui em Terra, Sol e Aventura a futura publicação de crónicas de viagem, sob o título Aguarela Africana, e um romance intitulado A Grande Metrópole, títulos sobre os quais não foi encontada notícia ulterior. 

 

Posteriormente, publicou ainda um conjunto de crónicas sob o título Gesta das Terras Distantes (1962), O Aprendiz de Poeta (2002), um livro de poesia, e um novo livro de crónicas, que eventualmente será uma versão revista e aumentada de Aguarela Africana, intitulado Aguarela Nómada (2010).

 

De ascendência transmontana, Ferrão Cardoso nasceu no Porto e viveu parte da sua infância em Angola, no Huambo, passando depois a viver em Lisboa. Fez os seus estudos universitários em Coimbra, onde se licenciou em Medicina, regressando posteriormente a Lisboa, onde exerceu a especialidade de otorrinolaringologia no Hospital de Santa Maria.

 

Este volume reúne 14 contos, entre os quais o último, As Digestões Calmas, evoca as suas memórias e origens transmontanas, através da acção localizada em Vidago e na serra da Padrela. De todas estas narrativas, apenas Estrada de Damasco, Rotina, "Amuna" e Caboclo apresentam claramente localizações espaciais exteriores a Portugal continental.

 

Do conto Rotina transcrevem-se os primeiros parágrafos:

 

"Separadas meia milha, as duas margens do rio eram fechadas, densas de vegetação. Havia algumas boias balizando o trajecto navegável e pontões espalhados dos dois lados, rio fora.

 

Entre eles, num vaivém constante, o vaporzinho "Flor do Minho" com uma reduzida tripulação de negros e o capitão João de Deus conhecido em todo o mato.

 

Quando havia paquete, o vaporzinho descia o rio até ao litoral e voltava mais garrido, carregado de notícias frescas da metrópole e novos colonos. Até ao entreposto funante, quatro dias de viagem rio acima, o capitão João de Deus tinha tempo de cumular os recém-chegados de todas as atenções possíveis, e, ao mesmo tempo, conhecê-los e aconselhá-los. Pelos conselhos não levava nada, e a conversa era um entretenimento.

 

A coisa era sempre igual. E quando, no regresso, o vaporzinho chegava ao povoado do interior, lá estava a voz roufenha do velho Dôres perguntando «Como está o litoral?», e ele sempre respondendo «Salgado, salgado...», antes de começar a contar as novidades.

 

Viera para África ganhar dinheiro, magoado e insatisfeito como pouco que a vida lhe dera até então, mas depois, com o tempo, toda essa excitção passou. O dinheiro deixou de interessá-lo duma maneira absorvente, e ficou fazendo parte da paisagem, vendo chegar os outros, à cata do velo de oiro, inquietos e aventureiros como ele outrora.

 

Ia buscá-los ao paquete, assustados com o mundo estranho com que sùbitamente deparavam, e subia com eles o rio até ao entreposto. Aí, as casas aviadoras espalhavam-nos pelo interior. Eram duras provações. Mas depois, se havia sorte, lá estava o regresso, o capitão e o seu «Flor do Minho» para os trazer ao mar, a apanhar o navio que vinha da costa oriental rumo à metrópole."  

 

Hoje, o cais do litoral já não era mais um paredão tosco, com madeira meio apodrecida, enterrada na água. Tudo agora era uma sólida estrutura de concreto e grandes imóveis com ruidos de máquinas de escrever, e camaradas de óculos e caneta na mão davam àquilo um aspecto de confusão e dificuldade. João de Deus e o seu vaporzinho tinham que satisfazer uma data de papelada cada vez que lá iam, mas havia ainda os bons amigalhaços, a cerveja no Coelho, linguareiro como dantes, e sempre se conseguiam uns momentos bem passados. Quando zarpava rio acima, o capitão nunca ia desiludido.

 

João de Deus envelheceu e engordou, os pais morreram, a Gracinda já não está solteira, nem nova, nem o espera, e a aldeia, o regresso e as terras do Floripes pegadas com o seu Ribeiral não têm mais o interesse de antigamente.

 

Dantes, quando o navio partia, doía-lhe vê-lo ir-se. Quando o seu vulto acabava por desaparecer lá longe, no horizonte, tudo lhe parecia mais solitário ainda, e sentia uma grande tristeza. Era quando mais recordava todas as coisas deixadas.

 

Mas agora, quando isso acontecia, estava normalmente a beber cerveja no Coelho ou ainda às voltas com a papelada nalgum daqueles gabinetes difíceis, e os apitos do barco, ao partir, nem sequer o distraíam. Desaparecido no mar, a paisagem ficava igual.

 

E quando, depois, à noite, subia o rio, entre as duas margens negras, com o céu tranquilo no alto, João de Deus sentia que tudo aquilo era o seu lar, o único lar que viria a ter na vida. Não havia mais dúvidas."

 

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10.04.16

Joaquim Paço d'Arcos - O Samovar e Outras Páginas Africanas


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Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), O Samovar e Outras Páginas Africanas (1972).

 

Publicam-se neste volume excertos em prosa dos livros Herói Derradeiro (1933), Amores e Viagens de Pedro Manuel (1935), O Navio dos Mortos e Outras Novelas (1952), volume de onde se extraíu o conto O Samovar, que já havia sido publicado autonomamente em 1957 (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/13468.html) e Carnaval e Outros Contos (1958), bem como três poemas do livro Poemas Imperfeitos (1952; volume publicado três anos depois em francês: http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/222251.html).

 

Transcreve-se integralmente um desses poemas:

 

"NEGRA QUE VIESTE DA SANZALA...

 

Negra que vieste da sanzala

E na esteira, sobre o soalho, te estendeste,

Recusando o leito branco e macio;

Negra que trazias no corpo o cheiro do capim

E da terra molhada,

E o travo das queimadas;

Negra que trazias nos olhos castanhos

Sede de submissão,

Que tudo aceitaste em silêncio

E lentamente desnudaste o teu corpo...

 

Estátua de ébano,

Animada pelo sopro da lascívia

e pela febre do desejo;

Negra vinda das terras altas de Chimoio

À cidade que o branco plantou à beira-mar.

Vinda para te venderes...

Comprada a uma preta velha e desdentada,

A troco dum gramofone;

Vendida e trespassada de mão em mão.

 

Que é do pano branco de chita

Em que envolvias teu corpo

E escondias tua carne tremente

De tanta volúpia que guardava?

Que é da esteira gasta em que repousou teu corpo

E vibrou tua carne?

Onde vão as noites de África,

Encharcadas de cacimba,

Impregnadas de álcool do hálito e dos beijos?

Luminosas, serenas...

 

Vinham do pátio as vozes em surdina

Dos teus irmãos em cor...

Vinham do mato os gritos roucos das hienas

E o seu choro lamentoso,

De acentos prolongados,

Tal o de meninos magoados...

 

Tu prendias-te a mim.

Abandonava-te na esteira

E, quando o dia surgia,

No soalho nu havia a esteira nua

E nada mais.

Tinhas partido para a sanzala,

Envolta no pano de chita branca

E no silêncio molhado da cacimba

Da noite transluzente e profunda.

Eu esquecia, saciado, o segredo do teu corpo.

Fazia por te odiar...

Mas, ao sol escaldante do dia,

Queimava-me de novo,

Em ardência e secura,

A sede do teu corpo,

Até que a noite voltava,

Tudo aguando de cacimba...

E na esteira gasta

O teu corpo nu

Voltava a ser

Uma serpe negra...

 

Negra que vieste da sanzala..."

 

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04.04.16

Vitor Silva Tavares - Hot e Etc.


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Vitor Silva Tavares (1937-2015), Hot e Etc. (1964).

 

Até à data de publicação desta obra, Vitor Silva Tavares havia desenvolvido, na metrópole, obra como pintor, repórter, colaborador literário de jornais e revistas, colaborador da RTP, onde também surgiu como actor, e cenógrafo. Já em Angola, foi jornalista em Benguela, onde colaborou com O Intransigente, e dirigente cine-clubista, tendo realizado, em 8mm., o filme Uma História do Mar.

 

Ecoando o título do opúsculo aqui apresentado, e transpondo homonimamente o título do magazine cultural do Jornal do Fundão, criado por si em 1967, e da revista que lhe sucedeu, entre 1973 e 1974, Vitor Silva Tavares fundou em 1974 uma pequena editora, denominada &etc, que durante mais de quarenta anos haveria de se tornar numa editora de culto e referência entre autores e leitores. 

 

Posteriormente, publicou 2 Textos à Pressão (sem data), prefaciou Como Quem Não Quer a Coisa (1978), de Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004), bem como obras de diversos outros autores, particularmente nas edições &etc. A par da sua actividade editorial, que inclui ainda a direcção da Ulisseia na década de 1960, desenvolveu também extensa actividade como tradutor.

 

Foi ainda co-autor de Ara (1984), com Paulo da Costa Domingos (n. 1953) e Rui Baião (n. 1953), e Poesia em Verso (2007), com Afonso Cautela (n. 1933) e Rui Caeiro (n. 1943), colaborando também no Manifesto contra o desastroso encerramento das livrarias da Cidade de Lisboa no centenário da Livraria Sá da Costa (2013). Em 2015 publicou um conjunto de poemas intitulado Púsias.

 

O presente volume, que, numa nota introdutória, anunciava ter Vitor Silva Tavares em vias de publicação o livro Exposições de Poemas (de que não foi encontrada notícia posterior), reune três textos em prosa – Nada de Importância, Hot e Bop, por onde perpassam, até na sua estrutura narrativa, nítidas influências musicais, particularmente do jazz, e referências a figuras como Frank Sinatra, Miles Davis, Mozart, The Jazz Messengers e Vivaldi.

 

Do conto/crónica Bop transcreve-se a parte final do seu único parágrafo:

 

" (...) O largo despovoa-se, estamos sós, a cidade foi dormir, amanhã há negócios a tratar. Falemos. O cronista não consegue registar o que quer que seja. Também ele está gasto de tanta palavra gasta. Gozemos com Pimpão. Jaimito desforra-se e zurze o orgão cardíaco do bom gigante. Mais cerveja e a festa anima. Decidimos visitar a boite do Hotel. Jaimito, que tal um show? Cá vamos, cantando e rindo. A boite exibe um ar diabólico, pintalga de labaredas toda a fauna. Conferimos as finanças e pedimos um só uísque. Vão roubar gatunos! Encostamo-nos ao balcão do bar. O pianista tecla uma melodia a carácter. Há três pares de atrasados mentais a deslizar na pista. Tudo muito chato. Às tantas, empurramos Jaimito para a bateria. Os românticos vão apanhar ar (que está húmido e fedorento) e começa a função. Jaimito mostra-se um tanto contraído, inclina-se para os tambores, busca a intimidade. Agora vê-se que descobriu qualquer coisa, os músculos distendem, já sorri para a malta. Vamos, seu Jaime, isso mesmo, está bem, está bom, YES SIR! Vem o gerente e recomenda compostura, muito gerentemente. Compostura, o raio que o parta! Saímos. Pimpão, não se arranja um carro? Só se for o da professora, mas já é tão tarde... Que se lixe! Vamos bater à porta da professora, uma cinquentona camarada. Ainda não se deitou, manda-nos entrar, oferece-nos ginguba e cerveja. Quanto ao carrinho, sim senhor, está muito bem, mas cuidado, an? É escusado recomendar, beijinhos à professora, by by. Voamos para o Benfica. Há festa cabo-verdiana, o petromax desenha um rectângulo de luz na escuridão da rua. Marchinhas brasileiras, em 78: a inconcebível geringonça sonora berra o ritmo popular e há camaradas autóctones a dar à perna. E pó e suor e olhos doces e dentes a luzir. Vamos a isto! Encontro-me enfaixado num corpo sinuoso e deixo-me abandonar. Cresce o frenesim, duas tipinhas imitam a dança do ventre e eu já não sei de que terra sou, no literal sentido da expressão. Há alguém que paga uns copos e todos bebemos a mistela, que é de estalo, pois então!... Um cara promete valente churrascada para o almoço de amanhã, mata porco, recebeu verde do Puto e quer reunir tropa à sua mesa. OK, português! A fraternidade escorre dos poros com o suor. A minha parceira chama-se Rosa e eu tenho pena dela e amo-a, amo-te Rosa, sabes?, a sério mesmo, e ela olha-me com aqueles seus olhos africanos e eu fico perplexo, à porta de um segredo, é só entrar e criar raízes. Ouço agora um escarcéu dos demónios e vamos ver o que é. Dois cow-boys resolveram armar sururu e o mais rabioso puxa do revólver e há gritos e fugas histéricas. Devo estar a sonhar. Um tiro rebenta com o petromax e a Rosa pisga-se-me dos braços. Amalgamado de corpos delirantes, deixo-me desaguar na rua. Que festa mais formidável!... A companhia já está no carrro e pomo-nos na alheta, num explosão de pó. Rumo: Lobito. Há um bar que fecha lá para as quatro da manhã, bar de marítimos. Pimpão, tens massas? E tu, Jaimito? Eu tenho 12 angolares e o Mário 7. Dá para umas Cucas. Aterramos no bar, há um alemão muito grosso, muito deutsch, a rosnar por mais bier e o empregado diz-nos ao ouvido que aquele tipo tem já a sua conta, de modo que vá beber a «birra» para a terra dele. O problema é do alemão, claro, também os alemães têm direito a problemas, razão por que nos sentamos pacatamente e bebemos Cucas, enquanto o louro germano dá murros no tampo da mesa. O ambiente está miserável e o melhor que temos a fazer é regressar a Benguela, home sweet home. Entramos na cidade a 120, contornamos a Praça da Câmara e, num banzé apreciável, travamos junto à cancela da nossa casa. Pimpão quer ouvir o Frank Sinatra naquela da solidão, mas mandamo-lo lixar e salta o Jazz Massengers [sic] para o prato. Mário vai buscar o que resta do VAT, Jaimito estira-se no divã e eu estou a coçar o joanete, que me doi como o raio! Ora bem: a África crepita e nós respiramos o ar da maldição. Já nascemos nesta atmosfera, atrofiados de imbecilidade histórica. O reino do silêncio e da vergonha. Quem ouvirá os nossos gritos? E quando? E onde? A conversa está melodramática, pelo que, com vossa licença, vamos despir as farpelas (excepto o Jaimito, por óbvias razões), enfiar os slips e mergulhar no Atlântico. Mergulhar mesmo. Mergulhar. Mergulhar."

 

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11.03.16

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (I)


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Capa de Gracinda Candeias (n. 1947).

 

A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa (1970).

 

Antologia organizada por Ivone Maria Gabriel Pinheiro da Silva (datas desconhecidas) e publicada em Luanda, no ano de 1970 (embora o cólofon registe Julho de 1971), pelo Comissariado Provincial da Mocidade Portuguesa Feminina.

 

Com 816 páginas, este volume apresenta um conjunto de prosa e poesia de inúmeros autores de língua portuguesa, incluindo escritores de Angola, Cabo Verde, Índia (Goa), Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Timor.

 

Apresenta ainda dezenas de ilustrações, gravuras e fotografias, entre as quais surgem reproduzidas pinturas de diversos artistas europeus, bem como obras dos pintores angolanos Gracinda Candeias e Neves e Sousa (1921-1995).

 

Transcrevem-se hoje dois poemas desta colectânea, um de Alda do Espírito Santo (1926-2010), de São Tomé, intitulado Lá no Água Grande, outro de Mário de Oliveira (1934-1989), de Angola, intitulado "Água Grande".

 

 

LÁ NO ÁGUA GRANDE

 

Lá no "Água Grande" a caminho da roça

Negritas batem que batem co'a roupa na pedra.

Batem e cantam modinhas da terra.

 

Cantam e riem em riso de mofa

Histórias contadas, arrastadas pelo vento.

 

Riem alto de rijo, com a roupa na pedra

E põem de branco a roupa lavada.

 

As crianças brincam e a água canta.

Brincam na água felizes...

Velam no capim um negrito pequenito.

 

E os gemidos cantados das negritas lá do rio

Ficam mudos lá na hora do regresso...

Jazem quedos no regresso para a roça.

 

Óleo de Neves e Sousa.

 

 

"ÁGUA GRANDE"

 

Nas águas do "água-grande",

Onde coqueiros balanceiam,

Lavam as lavadeiras

Que contam tristes histórias

do vento e da "gravana"

Enquanto seus filhos brincam

Nas águas do "água-grande"

Que passam e limpam tudo,

Até confissões de dor...

 

E as lavadeiras lavam sempre,

Cantando no "água-grande",

Suas ilusões de amor.

 

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17.07.15

Carlos Selvagem - Tropa d'Africa


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Carlos Selvagem (pseudónimo de Carlos Tavares de Andrade Afonso dos Santos, 1890-1973), Tropa d'Africa (1919).

 

Do capítulo IX, Fatima M'namuka, transcrevem-se os parágrafos iniciais:

 

"Entretanto, vai-se fazendo pela vida...

 

E a primeira palavra suahely que o portuguesinho valente, apenas desembarcado, se apressa a reter e manejar com uso imoderado, é m'namuka, rapariga.

 

São os moleques quem no-las revelam, com suas graças e encantos bárbaros, estas flexuosas e altas raparigas duma elegância de linhas, de fórmas e de gestos que fariam esverdear de inveja e desespêro muita vaidosa patrícia minha dos chãos elegantes do «Bénard» e da Equipagem do Santo Humberto.

 

Péles de ébano macias e tenras, a linha delgada da cintura descaindo graciosamente sôbre o polido contôrno dos quadris, muito esbeltas, bem lançadas, a garganta delgada, o colo alto, há nestas escuras Vénus calipígias uma graça languida de sulâmitas, que só a odiosa carapinha e o focinho hediondo talhado grosseiramente a enxó, nos fazem considerar como animais inferiores, criados brutamente pela Natureza para o comércio bruto dos sentidos.

 

Como se lhes não bastasse ao monstruoso focinho a grossura inquietante da beiçarra e o esmagamento prognático das ventas, usam ainda, por acréscimo de beleza, por bizarria casquilha, uma rodela de marfim, de prata ou de madeira clara, encastoada na beiçana superior, em sinal de suprêma distinção. De perfil, a beiçola assim dilatada avança bestialmente em bico de pato, duma rijeza córnea, dando-lhes a conformação repelente dum focinho de pássaro absurdo – avestruz ou côrvo – num colo de escrava egípcia.

 

Conformámo-nos então com as figurações mitológicas da esfinge e da quiméra; – e de nenhum modo nos admiraria que, das profundezas do mato, nos começassem surdindo, para nosso pasmo, entes híbridos com troncos de leão ou touro, colos de avestruz, cabeças de hipopótamo, caudas de serpente."

 

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31.05.15

Cândido da Velha - Equador


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Cândido da Velha (Cândido Manuel de Oliveira da Velha, n. 1933), Equador (1961).

 

Tendo nascido em Ílhavo, Cândido da Velha rumou a Luanda em 1957, data a partir da qual colaborou em diversos jornais angolanos, como A Província de Angola, ABC, Jornal de Angola, Notícias de Angola, e revistas, como Cultura. Colaborou ainda na revista brasileira Brasília do Sul. Anteriormente, impulsionara já, em Lisboa, a publicação dos cadernos culturais Atitude. 

 

Na Colecção Imbondeiro havia sido co-autor, com Luís Ataíde da Silva Banazol (n. 1919), do volume número 8, publicado em 1960, onde surgiu o seu poema Quero-te Intangível, África. No presente volume, que ostenta no interior uma ilustração de Hipólito Andrade (1933-2015), anuncia-se a existência de dois livros inéditos de Cândido da Velha – O Menino de Mãos Brancas e Poemas da Hora Diferente, de que não foi possível encontrar qualquer registo ulterior com estes títulos.

 

Posteriormente, o autor publicou As Idades de Pedra (poemas, 1969), Corporália (1972), Signo do Caranguejo (1972), Memória Breve de uma Cidade (1988), Navio Dentro do Mapa (1994) e Lugares do Vento Suão – Baixo Alentejo, 1976-1986 (1998), tendo também organizado uma Antologia de Contos - 31 Autores (1997).

 

Do conto O Homem e a Paisagem transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Tudo se fora do lugar maldito. Só a terra é que ficara. Ele também. Como abandoná-la se fazia parte integrante de si  mesmo? Vira-a ficar verde  e amarela, ora alagada, intransitável, ou mudada em cratera perdida do olhar de Deus. Mas afeiçoara-se «àquilo», à medida que os anos iam pesando na balança do séculos. Sofria tão desesperadamente como o plaino abandonado, estéril. Também ele se sentia «improdutivo». Jerónimo e os Gambos tinham feito família. Por isso não debandara com os outros. E também por uma voz íntima que, pela primeira vez, vinha à superfície como um ser, tangível, clara, perturbadora...

 

Num acto instintivo cuspiu nas mãos, esfregou-as depois uma na outra. Forcejou por desencravar a enxada. Deitou-a ao ombro e prosseguiu trôpego dos anos e das derrocadas. As árvores suplicavam clemência, contraídas para cima.

 

A porta chiou. Deixou-se cair pesadamente no banco; fincou os cotovelos nos joelhos e apoiou a fronte nas mãos. Um insecto entrou pela janela, zumbiu e abateu-se a pouca distância. Distraído, absorveu-se na contemplação do bicho que rodopiava aflitivamente, na semi-obscuridade do aposento, tentando recomeçar o voo. Em verdade não era o moscardo agonizante que ele via. Era a sua própria existência que se escoava como um frémito de asas quebradas.

 

A seca tornara-se num incidente banal. Também a vida e a morte deixaram de ter significado. Tinha fechado os olhos ao velho Tomaz, sem «pensar» nele, tal como fizera ao cachorro buliçoso que se disparava direito ao infinito para regressar daí a pouco, a excitação gasta, feliz da corrida e da liberdade. Não os depusera longe. Semeara-os perto da cubata, ali no quintal, debaixo dos magros ramos da acácia.

 

Havia ainda um problema: «não ter um vizinho a talhar-lhe a cova».

 

Bem pressentia que a estiagem seria a derradeira para ele. «Desapareces aos poucos, sabes? Este cangalho de ossos já não te deve preocupar» – monologava –. «Viste como a terra morre? É mesmo! Depois as chuvas fartam tudo e as plantas encolhidas nas raízes estremecem, constipadas, e espirram para fora. É o que farás, velho.» Ergueu-se para desentorpecer as pernas. O corpo do insecto era já um ponto negro familiar. Empurrou-o ao de leve com o pé e voltou a sentar-se. Reatou o fio dos sentimentos. – «É isso.... Hás-de dar um espirro monstro até a lama cobrir-se de montões exuberantes de capim.»

 

Pensava assim, pois recordava-se da vegetação, a crescer com mais furor, nos locais onde escondera das aves Tomaz e o cão.

 

Levantou-se e explorou o armário. À parte umas teias de aranha, duas moscas aprisionadas nos fios traiçoeiros, poderia  considerar-se «devoluto». De costas para o móvel, fixou os olhos na porta numa «esperança» antecipadamente malograda.

 

Nenhum auxílio humano à sua espera. Nenhuma voz de gente para a sua solidão.

 

Contrariara o destino, vendo todo o mundo desaparecer, assistindo àquele êxodo quase irreal que parecia desintegrar-se na luz excessiva do meio-dia. E o destino era partir com eles; aspirar o pó das picadas, tombar, por vezes, e para sempre, nas margens dos rios, depois de muitas léguas arrastadas em desespero e renúncia..."

 

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30.04.15

Reis Ventura - Cidade e Muceque


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  Capa de Haydée Moniz (datas desconhecidas).

 

 

Reis Ventura (1910-1988), Cidade e Muceque (1970).

 

Apresentando sete contos – O Homem das Sete Caras, Um Negócio bem Montado, Gente do Subúrbio, A Estalagem do Leão, O Cadillac, O Velho Bernardo, Tschimolonga, Carabina de Precisão e Olhos Assustados, este volume retoma ficcionalmente a temática dos trágicos acontecimentos de 1961 que o autor já havia tratado em Sangue no Capim (1962).

 

Esta abordagem é, aliás, explicitada nos textos que compõem as badanas, onde fica também evidente o compromisso ideológico do autor, a sua defesa do regime, e o orgulho perante a dinâmica civilizacional portuguesa implementada em Angola, como se constata nas seguintes passagens:

 

"A Luanda destes contos é a da década de sessenta, que já vai no meio milhão de habitantes, e já ergue prédios com mais de vinte andares, e já nos mostra um tráfego automóvel semelhante ao de Lisboa ou Porto, e já por vezes reune, na placa de estacionamento do seu aeroporto, quatro ou cinco grandes jactos intercontinentais. Esta é a Luanda de hoje, toda ela uma orgulhosa resposta ao desafio do terrorismo.

 

Por isso mesmo, insensìvelmente, sem um plano preconcebido nem uma prévia selecção de assuntos, todos os contos deste livro, menos um, são directa ou indirectamente relacionados com os acontecimentos e consequências da agressão cometida contra Angola."

 

Apesar de tudo, Reis Ventura não deixa de manifestar ainda uma certa preocupação humanitária e de preconizar uma particular ideia de convívio e irmandade anti-racista, particularmente no conto Olhos Assustados, onde se evocam alguns contornos das chacinas de 1961 e a variante de um episódio já narrado em Sangue no Capim.

 

Já nos contos O Velho Bernardo e Tschimolonga surgem retratos da aculturação dos autóctones de raça negra, que se assumem como contraponto aos denominados matumbos, por um lado, e, por outro, aos terroristas.

 

Mas é no conto Carabina de Precisão, de que se transcrevem abaixo alguns parágrafos, que se desenvolve a mais complexa e expressiva tensão interior em uma única personagem, através da narrativa de uma situação de combate, contexto que até então apenas tinha tido equivalente, na literatura colonial portuguesa deste período, em Aquelas Longas Horas (1968), de Manuel Barão da Cunha. 

 

"Assim se agitava na teia complicada dos seus amargos pensamentos, quando reparou que o combate já durava tempo demais. Normalmente ele dava o primeiro tiro, sempre que a patrulha portuguesa vinha ao nível de pelotão. O bando disparava então todas as suas armas e fugia logo, pois todos sabiam que os soldados portugueses eram rápidos e implacáveis na resposta.

 

Mas, agora, o combate ainda durava. E ao crepitar das metralhadoras, juntava-se, de vez em quando, o sopro ardente das bazucadas.

 

Com o seu instinto de bom soldado, o homem da carabina de precisão regressou de repente à consciência do perigo circundante. Apurou o olhar em redondo e apercebeu-se de que algo de especial estava a acontecer. O seu bando não fugira porque estava cercado. Os emboscados afinal eram eles.

 

Com infinita cautela, passando de ramo em ramo com a silenciosa agilidade dum gato selvagem, espreitou para todos os lados, com aquela agudeza visual que era uma das suas melhores qualidades de combatente. E teve um sobressalto ao concluir que havia, no cerco aos terroristas, mais de um pelotão. Sentiu na água dos olhos e no tutano dos ossos o álgido frio do medo à morte. Porque ele também estava dentro do cerco e sabia que os portugueses o procuravam há longos meses, para lhe cobrar o preço dos alferes abatidos. E verificava que ele e o seu bando, cujo comando aliaz lhe não pertencia, (os grandes cabecilhas do terrorismo não estavam bem seguros dele, porque ninguém confia muito num desertor, não é?...) – verificava agora que ele e o seu bando tinham de se haver com dois pelotões, talvez com uma companhia inteira.

 

Então havia, pelo menos, mais dois alferes.

 

Retezou os músculos, como a hiena que prepara o salto, e pôs-se à procura dos oficiais. Da sua posição elevada pode confirmar que um segundo pelotão avançava do lado contrário à picada, vindo do interior da mata. E pronto! – lá começava o fogo de morteiro...

 

Compreendeu que o seu bando estava fechado num círculo de fogo. E não se esquecia de que a tropa portuguesa sabia fazer as coisas... Se fosse o comandante do bando, teria ordenado o «salve-se quem puder!» Mas não era o comandante do bando. Nunca lhe tinham confiado o comando dum grupo de combate. Era apenas um atirador de pontaria infalível, com uma carabina de precisão..."

 

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22.03.15

Madi - Missangas de Cor


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Cristiano Valcorba (n. 1937), Vicente (1963); Madi (n. 1940; pseudónimo), O Livro da Primeira Classe, Missangas de Cor (1963).

 

Cristiano Valcorba, que havia nascido em Ponta Delgada, Açores, exercia a profissão de empregado de comércio. De acordo com a nota bibliográfica apresentada neste opúculo, até então havia publicado poesias e estudos ensaísticos na imprensa local, não havendo notícia de que tenha publicado posteriormente qualquer outra obra.

 

Por sua vez, Madi (obviamente um pseudónimo ou diminutivo) havia nascido em Elvas, Alentejo, tendo-se radicado em Luanda no início da década de 1950. A exemplo do que acontece com Valcorba, não há qualquer outro registo de publicações posteriores, apenas se sabendo, pela nota bibliográfica, que tinha particular interesse por literatura infantil e colaborava no jornal a província de Angola.

 

O conto Vicente narra-nos o episódio de um vagabundo, Vicente, que, num domingo e numa cidade quase deserta, após dezoito horas sem comer, recusa a oferta de pão com doce porque lhe apetecia pão com queijo. Reflexão sobre algumas causas da mendicidade e da caridade, esta é também uma reflexão sobre a dignidade e a liberdade individual.

 

Os dois contos de Madi colocam-nos perante inesperados e peculiares actos de maldade. No primeiro, encontramos dois ardinas que procuram poupar o suficiente, 17$50, para comprar um livro através do qual possam aprender a ler. Quando o conseguem, o tio de um deles descobre o livro, espezinha-o e agride o sobrinho por este não lhe ter entregue as suas economias. No segundo conto encontramos a ingénua Macuto, que acaba por ser despedida devido a um maquiavélico mal-entendido provocado pelo ciumento Sucuri.

 

Como nota curiosa, refira-se que a ausência de concordância no género e número das palavras, ou as incorrectas conjugações verbais, recurso estilístico utilizada por Madi nos seus dois contos para acentuar o discurso das personagens nativas, muitas vezes ridicularizado e apontado pelos europeus como exemplo da sua ignorância, tem uma irónica contrapartida na palavra utilizada para o título de um dos seus contos, pois o vocábulo missangas, muito compenetrada e superiormente utilizada pelos falantes de Português, encerra em si um duplo plural – em Quimbundo, missanga é, de facto, o plural da palavra (u)sanga.

 

Do conto Missangas de Cor transcrevem-se de seguida alguns parágrafos:

 

"A mulher tirou as mãos das ancas e refilou, ameaçadora, cuspindo o chão.

 

– Teu pai é que ter razão, você só gosta brincar. Quando você aprende falar como pissoa?

 

– Mamã não zanga – pediu – mas eu sabe que faz.

 

Mamã gritou-lhe mais zangada ainda.

 

– Não sabe! Por isso eu vai dizer.

 

Macuto tornou a encolher os ombros, olhando-a resignada.

 

– Fala.

 

– Sinhor António gosta pretas, você vai ter cuidado, eu está te avisar. Minino não, esse anda namorar com minina branca, bonita mesmo, não vai ligar no preta, anda no liceu, é educando [sic].

 

Macuto, enrolando os panos melhor a si, contou o que a senhora lhe prometera.

 

– Dona Mariquinhas disse dispôs mi vai dar vistidos.

 

A mulher voltou a cuspir o chão, incrédula.

 

– E você acreditou?

 

– Sim. E sandaletes com correias. Sinhora diz não quer preta de panos no seu casa.

 

– Mas você não vai ficar vaidosa? Rapariga vaidosa fica vadia dipressa.

 

– Haka, mamã!

 

– Você não seja mal inducanda [sic], seu pai no quiria deixar ir no você porque o seu cabeça ainda não presta e disse se você vier vadia não recebe no seu casa.

 

Quando esfregava a roupa, debruçada no tanque grande ao fundo do quintal, Macuto pensava sempre naquelas palavras. – «É priciso não dar confiança nos brancos nem nos pretos.» – «Sinhor António gosta di pretas, minino não, é educando [sic].»

 

Sucuri, o cozinheiro, no primeiro dia, enquanto lhe ensinava onde estava o sabão, onde devia ir buscar a roupa suja, o carvão para passar, também lhe dissera:

 

– Minina, eu já conhece você muito tempo; por isso eu lhe vai dizer qui pricisa ter muito juízo.

 

Macuto rira-se dele.

 

– Você não tem medo, eu sabe lavar bem e engomar, mamã me ensinou, eu já lavar roupa muito tempo no meu casa.

 

Sucuri ficara desarmado; aquela rapariga era mesmo parva, parva sim, estúpida, não fora isso que ele quisera dizer.

 

Pegou-lhe num braço para a chamar à atenção por outras palavras.

 

– Minina...

 

– Haka! Tira à mão, rapaz – disse, dando-lhe uma palmada e recuando – mamã disse para eu não dar confiança nos brancos nem nos pretos.

 

– Sua mãe disse isso?

 

– Disse, por isso você vai pôr pata noutro sítio, Macuto não é preta vadia com quem você costuma andar."

 

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