02
Fev 14

Henrique Lopes Guerra - A Cubata Solitária

Capa de Fernando Marques (datas desconhecidas), desenho de Henrique Abranches (1932-2004).

 

Henrique Lopes Guerra (n. 1937), A Cubata Solitária (1962).

 

Este volume em prosa de Henrique Guerra, o primeiro da sua bibliografia, foi publicado enquanto prestava serviço militar obrigatório como alferes miliciano.

 

No entanto, esse serviço prestado à nação não significava que não manifestasse a sua contestação à política do regime salazarista, razão pela qual veio a ser perseguido e encarcerado, intermitentemente, entre 1965 e 1973.

 

Antes de esta edição, Henrique Guerra havia já colaborado em publicações periódicas, como as revistas Cultura e Mensagem, e os jornais ABC - Diário de Angola e Jornal de Angola.

 

Posteriormente, já depois da independência de Angola, veio a publicar Quando Me Acontece Poesia (1976) e Alguns Poemas (1977), em verso, e, em prosa, Três Histórias Populares (1982) e a peça de teatro O Círculo de Giz de Bombô (1979). Publicou ainda o ensaio Angola - Estrutura Económica e Classes Sociais (1975).

 

Neste volume incluem-se três breves contos – O Regresso do Lunda, Mucanda, a Escola da Vida e A Cubata Solitária, onde o autor claramente enuncia o respeito pelas heranças e pelas tradições angolanas como motivo central das suas narrativas.

 

Em O Regresso do Lunda relata-se uma viagem do protagonista à descoberta de si próprio e do seu destino. Tal metáfora adquire nova leitura quando se fala de Ilunga, o soba que ficou à frente dos Lundas e pactua com os brancos, e de Quingúri, o rebelde que transformou os Lundas num novo povo nómada e insubmisso – os Quiocos.

 

Este motivo da independência e da insubmissão é retomado em A Cubata Solitária, onde se relata a vida independente e solitária de Calibo. Aqui, contudo, o desaparecimento de Calibo e a temerosa superstição que lhe sobrevem, associada pelo povo ao seu espírito e à sua cubata abandonada, denotam antes a perda desses valores.

 

No curtíssimo conto Mucanda, a Escola da Vida, perante o rito da circuncisão e a morte de Epaka, coloca-se-nos a questão da honra e responsabilidade que se apresenta a seu pai, Txipangue.

 

 

 

Do conto O Regresso do Lunda transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Uma noite, sentindo a alma revolta como a superfície de um lago onde lutam jacarés, o homem apartou-se  dos que se divertiam na dança. Cheio de desprezo e de ódio, o lunda abandonou a sanzala, ganhou as sombras da noite e o vazio da distância.

 

Resolvera seguir a pista dos seus irmãos, que haviam partido num dia de sol e de revolta, e àquela hora conquistavam o terror e o espanto de povos estranhos e o amor de lindas mulheres.

 

Mas ai dele, muitos anos haviam decorrido.

 

Os que tinham agido no momento preciso de há muito estavam de alongada e ninguém sabia dizer em que sítio preciso se encontravam naquele momento.

 

Haviam chegado ao mar, à famosa cidade de Luanda, atraídos pela fama do grande soba dos brancos, ao serviço do qual combateram. Anexaram os Bangalas, atravessaram o país dos Jingas, derramaram-se mais para o Sul, inquietando os Bienos e dividindo os agricultores Ganguelas, pacífico povo de poetas e cantares. E por toda a parte o cordão quioco ia engrossando como se engrossa um grande rio, anexando povos vários de costumes estranhos, graças ao seu extraordinário poder de assimilação.

 

O lunda errou luas e luas à procura de seus irmãos. Mas os guerreiros de Quingúri eram tão irrequietos como valentes, ninguém sabia indicar o término do seu rasto, as mulheres riam-se à passagem do lunda desgraçado e os homens sentiam um prazer maldoso em mandar os cães e as crianças enxotarem aquele representante da raça maldita."

 

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31
Jan 14

Reis Ventura - Caminhos

Capa de Raul Machado (datas desconhecidas).

 

Reis Ventura (1910-1988), Caminhos (1959).

 

Iniciando-se com um deslize de (ausência de) revisão que nos apresenta o protagonista como tendo nascido em 1893 e ficado órfão, aos 15 anos, após o falecimento do pai "numa das primeiras incursões monárquicas" [o regime republicano foi implantado em 1910, a primeira incursão ocorreu em 1911], este romance, com o subtítulo Vida e Paixão dum Motorista de Angola, acaba por fazer esquecer aos leitores tais deslizes através de uma narrativa ritmada e de um enredo atraente, se bem que facilmente antecipável na sua evolução e conclusão.

 

Recorrendo a uma estrutura folhetinesca de capítulos curtos, que já havia sido utilizada em Cidade Alta (1958), Reis Ventura cruza neste romance a descrição de vários locais de Angola, desde a Gabela a Benguela, ou de Cabinda, e da floresta do Maiombe, a Luanda, com uma problemática de fundo que assenta nos conceitos de crime e justiça, de consciência e culpa.

 

A esta problemática, recorrendo ao imaginário criado à volta da eventual descendência mestiça do Tenente Valadim (1856-1890), aqui ficticiamente evocado como Tenente Alpedrim e transposto da sua real intervenção em Moçambique para o cenário romanesco de Angola, um imaginário já anteriormente abordado pelo autor, Reis Ventura acrescenta a problemática da mestiçagem, personificada pela figura do Dr. Alpedrim, e de sua mãe, D. Beatriz, mulher do protagonista, João do Souto.

 

Deste romance transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Era pelas seis horas da tarde, quando os mirones do café «Polo Norte» despem, com os olhos, as raparigas que saem dos empregos e as senhoras perliquitetes que voltam das compras.

 

Fui encontrar o Teiga na praça de taxis fronteira à Livraria Lello, num grupo de chauffers que palestravam, aguardando freguês, à beira dos carros estacionados.

 

Esta gente constitui, em Luanda, uma classe bem definida. Homens sem papas na língua, falam, entre eles, uma linguagem ajindungada de pragas sonoras e de piadas brejeiras. Mas, pelas exigências da profissão, sabem ser delicados e corteses no serviço.

 

Pobres e laboriosos, ainda isentos da subserviência da gorjeta, não usam as vénias e rapapés dos seus colegas de Lisboa ou Porto. Conhecem os podres de muita gente e comentam-nos entre si, mas raramente assoalham perante elementos estranhos à classe.

 

Os que exploram carro próprio, conseguem algumas vezes amealhar economias, com a ajuda do trabalho da mulher e uma severa economia familiar. E há muito rico que lhes deve dinheiro...

  

Lamentam a quota que pagam ao seu Sindicato e odeiam o uso do boné que ele lhe impôs, vingando-se com a crítica mordaz de todas as direcções, passadas, presentes e futuras.

 

Correm atraz do freguês, como perdigueiros de bom faro. E ultrapassam os pechotes das cartas de turismo, em manobras atrevidas, sobressaltando os nervos frágeis das meninas bem, que rodam em carrinhos utilitários para os chás das amigas ou para coisas menos inocentes...

 

Transportando pobres e ricos, em corridas de urgência ao hospital, em passeatas de fim de semana, ou em excursões nocturnas pelas espeluncas mal afamadas dos muceques ou pelas «boites» caras da cidade, aprenderam a olhar a vida com uma filosofia própria. Sempre há muito burro nesta terra!» [sic] – pensam, ao deixar certos velhotes perfumados no «Mambo» ou no «Bambi-Bar». Mas tudo está bem, desde que lhe paguem a corrida. O resto já não é com eles. E, não obstante a concorrência a que obriga a luta pela vida, são dos que melhor sentem a solidariedade de classe. Até as pedrinhas da calçada se levantam, se algum colega lhes rouba deslealmente o freguês. Mas ajudam, de bom grado, aqueles que se encontram em transe de aflição."

 

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21
Dez 13

Nuno Bermudes - Uma Gota de Chuva

Capa de Fernando Marques (datas desconhecidas).

 

Nuno Bermudes (1924-1997), Uma Gota de Chuva (1964).

 

Funcionário, em Moçambique, do Banco Nacional Ultramarino, Nuno Bermudes foi redactor do jornal Notícias da Beira, desde o início da década de 1950, tendo ainda desempenhado as funções de chefe de redacção do jornal Notícias, de Lourenço Marques [actual Maputo], em 1958.

 

Para além das obras anteriormente referidas (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/3842.html), em 1964 tinha já obtido o primeiro prémio de reportagem de Moçambique com Gorongosa – No Reino dos Animais Bravios, e publicado Um Machangane Descobre o Rio – Crónicas de viagem ao Rio de Janeiro.

 

Neste volume reunem-se dois contos – Uma Gota de Chuva e A Visita, cujo enredo se baseia essencialmente numa recorrente analepse evocativa de violência e instinto face ao sentimento de desonra, que alterna com o presente de um caçador, Rodrigo, na primeira narrativa.

 

Na segunda narrativa, as desafiantes decisões do passado surgem como a origem de um caminho levando à presente desilusão e desalento de Isabel, mulher casada com um fazendeiro e afastada da sua origem urbana, que já não encontra qualquer razão para os sacrifícios a que se submeteu. 

 

Do conto A Visita transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Subiam agora as escadas de casa. Falcato abriu a porta de rede e empurrou a de madeira. Entraram e ele distribuiu-os pelas várias cadeiras da sala. Chamou a mulher e apresentou-a. Apesar da roupa mal feita, do cabelo descuidado, do abandono de todo o seu corpo prematuramente amolecido, os Serpas sentiram-na diferente.

 

Ela sorriu-lhes, Júlio reparou-lhe nos dentes alinhados e pequenos, Ramiro no seios que arredondavam a blusa.

 

Enquanto bebiam o uísque, Isabel Falcato, com um cigarro entre os dedos longos, amarelecidos pela nicotina, olhava-os de frente, observando-os, estudando cada um deles, com um desembaraço que os fazia desviar a vista. Dizia, aqui e ali, uma frase amável, marcando a presença, alisava a saia sem gosto, num gesto automático e vago. Andava pela casa dos trinta e cinco e na linha sinuosa da boca havia uma leve sombra de amargura que o sorriso, em vez de desanuviar, ainda carregava mais.

 

Falcato falava:

 

– Ora, sim senhor, meus amigos! Nem era preciso a carta! Aqui a nossa porta está sempre aberta para os vizinhos! Não é Isabel?

 

Ela encolheu o corpo. Sorriu.

 

– Os vizinhos são poucos... – articulou, e era o sorriso que falava. – Os mais próximos, até agora, que os senhores vieram, vivem a setenta quilómetros. A última vez que aqui estiveram foi há dois meses. Mas é, Alberto, a nossa porta está sempre aberta.

 

O marido alongou-se sobre a luta mantida durante quinze anos, antes de lograrem alcançar tudo aquilo, toda aquela reconfortante sensação de segurança e estabilidade. Anastácio e Ramiro bebiam-lhe as palavras, mentalmente tentavam identificar-se com ele, seguir-lhe os passos, conquistar a mesma vitória.

 

Júlio fumava em silêncio, distante das palavras que rodopiavam pela sala, os olhos perdidos na noite, que descera agora completamente, para lá da janela.

 

E, repentinamente, deu pelo olhar de Isabel fito em si, agarrado na sua carne como um ferrão persistente, doloroso. A princípio, aborreceu-o a insistência, imaginava-se, sabendo-se socialmente abaixo dela, sendo avaliado e depreciado pela interpretação patrícia da mulher citadina. Depois, duas ou três vezes, os seus olhos encontraram-se e nos dela Júlio viu, admirado, o apelo do náufrago que procura, nas ondas tumultuosas, uma ilha ou apenas um destroço. Viu, e nunca mais olhou. A impressão era agora outra, atingia-o de maneira diferente, não a conseguia explicar."

 

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25
Nov 13

Reis Ventura - Cidade Alta

Capa de Neves e Sousa (Albano Neves e Sousa, 1921-1995).

 

Reis Ventura (1910-1988), Cidade Alta (1958).

 

Segundo volume de uma trilogia romanesca que, na senda de modelos oitocentistas e queirosianos, se agrupava sob a designação "Cenas da Vida em Luanda", este romance havia sido publicado inicialmente sob o formato de folhetim no jornal diário "a província de Angola", estrutura que se reflecte na significativa quantidade de capítulos desta obra, trinta e seis, os quais apresentam ainda subtítulos, bem com na brevidade de cada um deles.

 

Seguindo uma habitual trama de intriga e maledicência, romance e crime, esta obra traça, apesar de tudo, um certo retrato optimista da sociedade luandense das décadas de 1940 e 1950.

 

Recorrendo frequentemente à citação de datas específicas, como 23 de Julho de 1954, dia da ocupação do enclave indiano de Dadrá (cf. http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/17627.html), ou 13 de Maio de 1955, dia do anúncio oficial da primeira descoberta rentável de petróleo em Angola, o autor parece procurar conferir à sua narrativa uma verosimilhança que a aproxime dos modelos realistas do século XIX.

 

Contudo, nesta obra em particular, tal aproximação traduz uma visão da sociedade angolana que se restringe quase exclusivamente à população branca, embora haja um breve formulação da problemática social e afectiva com que se defrontam mestiços e mulatos, na personagem do dr. Valadim, filho de pai incógnito e de uma "mulata-cabrita da Gabela", filha do Tenente Valadim.

 

Transcrevem-se abaixo alguns parágrafos deste romance:

 

"Na lenta evolução da cidade de Luanda, que só recentemente, com a euforia do café, ganhou um ritmo mais rápido que o da maior parte das cidades europeias, têm aparecido cenáculos, localmente celebrados e temidos.

 

Primeiro foi o «Clube dos Pés Frios», na Cervejaria «Biker», assim chamado porque dele participavam veneráveis senhores de idade, todos com uma língua de prata, mais corrosiva que o ácido prússico.

 

Depois nasceu o «Canal de Moçambique», à sombra alcoviteira dessa mulemba da «Portugália», tão robusta e respeitável que tem resistido à sanha arboricida de centenas de vereações municipais. Também ali se passou a pente fino a vida citadina. E até os governadores se interessavam em saber como se comentava, no «Canal de Moçambique», o último Diploma Legislativo ou a mais recente discussão no Conselho do Governo.

 

Últimamente surgiu o grupinho do «Polo Norte». Dom José de Monte-Santo chama-lhe a «esquina do pecado».

 

La se reunem, pela tardinha, uns moços das redacções dos jornais e das tertúlias artísticas, lançando olhares vorazes às mulheres que passam e comentando os acontecimentos locais, com uma irreverência só comparável ao escândalo do «rock and roll». E assim como nos saltos acrobáticos da dança endiabrada, as moças histéricas revelam as mais íntimas fímbrias das suas rendadas calcinhas, assim nesse grupo de candidatos a uma esquiva ironia, não há véus de conveniências nem preconceitos sociais que escapem ao rasgão repulsivo ou à tesourada vingativa.

 

São uns demolidores terríveis, quase todos com a desculpa da mocidade e alguns com a ressalva do talento. Dizem muitas asneiras e algumas verdades como punhos. Preferem aplaudir uma imbecilidade nova a perfilhar uma genialidade velha. Odeiam cordialmente o antigo. São a gente nova com todos os seus defeitos e com todas as suas qualidades. Dão-se generosamente ao paradoxo e ao sarcasmo, com abomináveis concessões à risota fácil e à chalaça grosseira.

 

Na sua adoração do moderno, acontece às vezes iludirem-se e reeditarem, como novas, velhas coisas do tempo dos faraós. Mas fazem-no com uma grande sinceridade e com uma inconsciência enternecedora."



"O Saraiva declarou que abundava nas mesmas ideias (de repetir o peru) e aproveitou para contar a sua conversa com o Fraga.


– Eu chuchei com o homem – mas, aqui para nós, dou-lhe razão. Três contos não é vencimento que se pague, nos tempos que correm...


– O funcionalismo ganha pouco, para o que precisa; mas ainda ganha demais, para o que faz – sintetizou o Pedralva, sarcástico.


E logo o eng. Soutello atalhou que nem era justo generalizar a apreciação merecida por alguns calaceiros, nem lhe parecia sensato fazer espírito com um problema sério.


– A insuficiência dos vencimentos dos funcionários – explicou – arrasta consigo o nível geral dos salários em Angola. Resultado: o aviltamento do valor do trabalho humano, com todo o seu cortejo de misérias materiais e morais. Porque é fundamentalmente injusto que o trabalho honesto de um homem não pague uma vida decente do agregado familiar...


– É essa a doutrina do grande Leão XIII! –ajudou o senhor cónego Salema.


– A política dos salários baixos não só é cruel e anti-cristã – ponderou o dr. Almada – é também prejudicial ao desenvolvimento económico, na medida em que entrava a movimentação da riqueza. E o pequeno movimento comercial conduz fatalmente aos preços altos...


– Altíssimos! – reforçou a D. Esmeralda. – O sr. dr. Valadim já provou os croquetes? Olhe que foram feitos pela Ri..."

 

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17
Dez 12

Rui Knopfli - A Ilha de Próspero

 

Rui Knopfli (1932-1997), A Ilha de Próspero (1972).

 

Até à saída desta obra, Rui Knopfli havia já publicado O País dos Outros (1959), Reino Submarino (1962), Máquina de Areia (1964) e Mangas Verdes com Sal (1972), todos eles volumes exclusivamente de poesia.

 

Este volume, um conjunto de textos e fotografias consagrado à Ilha de Moçambique, abre com dedicatórias a Jorge Sena (1919-1978) – "Português das Sete Partidas", que nesse ano visitou Moçambique, e a Alexandre Lobato (n. 1915), Amílcar Fernandes (datas desconhecidas) e Manuel Barreto (datas desconhecidas), – "Rivais directos nesta pretensão romântica e junto de quem aprendi a conhecer  e a amar a Ilha."

 

Transcreve-se de seguida o poema Muipíti:

 

"Ilha, velha ilha, metal remanchado,

minha paixão adolescente,

que doloridas lembranças do tempo

em que, do alto do minarete,

Alah  – o grande sacana! – sorria

aos tímidos versos bem comportados

que eu te fazia.

 

Eis-te, cartaz, convertida em puta histórica,

minha pachacha psedo-oriental

a rescender a canela e açafrão,

maquilhada de espesso m'siro

e a mimar, pró turismo labrego,

trejeitos torpes de cortesã decrépita.

 

Meu Sitting Bull de carapinha e cofió,

têm-te de cócoras na sopa melancólica

de uma arena limosa e marinha,

gaivota tonta a adejar inùtilmente

ao lume de água contra a amarra

que te cinge para sempre

ao bojo ventrudo do continente.

 

De teu, cultivam-te a vénia e a submissão

solícitas, trazidas nos pangaios

lá do distante Katiavar,

expondo-te apenas no que tens de vil,

razão talvez para que ao longe, de troça,

piquem mortiças as luzes do Mossuril

ou sangre no meu peito esta mágoa incurável.

 

Mas retomo devagarinho as tuas ruas vagarosas,

caminhos sempre abertos para o mar,

brancos e amarelos filigranados

de tempo e sal, uma lentura

brâmane (ou mussulmana?) durando no ar,

no sangue, ou no modo oblíquo como o sol

tomba sobre as coisas ferindo-as de mansinho

com a luz da eternidade.

 

Primeiro a ternura da mão que modelou 

esta parede emprestando-lhe a curva hesitante

de uma carícia tosca mas porfiada,

logo o cheiro a sândalo, o madeiramento

corroído da porta súbito entreaberta,

o refulgir da prata na sombra mais densa:

assim descubro, subtil e cúmplice,

que adura linha do teu perfil autêntico

te vai, aos poucos, fissurando a máscara."

 

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21
Fev 10

Alexandre Cabral - Histórias do Zaire

 

Alexandre Cabral (pseudónimo de José dos Santos Cabral, 1917-1996), Histórias do Zaire (1956).

 

Notável estudioso e especialista da obra camiliana, Alexandre Cabral publicou o imprescindível Dicionário de Camilo Castelo Branco (Editorial Caminho, 1988), entre dezenas de estudos, ensaios e obras de ficção. (No início da sua carreira, alguns dos seus trabalhos surgiram também sob o pseudónimo Z. Larbak.)

 

Alexandre Cabral produziu três interessantes volumes de ficção que reflectem a sua estadia em África – Contos da Europa e da África (1947), Terra Quente (novela, 1953) e Histórias do Zaire

 

Até à data de edição deste último livro, o autor havia também publicado já as seguintes obras – Cinzas da Nossa Alma (1937), Parque Mayer em Chamas (1937), Contos Sombrios (1938), Ferreira de Castro – O Seu Drama e a Sua Obra (ensaio, 1940), O Sol Nascerá um Dia (contos, 1942), Fonte da Telha (romance, 1949), Aspecto Literário da Obra do Prof. Egas Moniz (conferência, 1950) e Malta Brava (romance, 1955).

 

Histórias do Zaire, publicado novamente em 1982 (Livros Horizonte), é um volume característico da sua obra ligada a África – uma vivência centrada no antigo território do Congo  (particularmente nas antigas colónias da Bélgica e de França banhadas pelo rio Congo, ou Zaire) e um ponto de vista narrativo dedicado não apenas aos emigrantes portugueses mas também às populações naturais da região. O protagonismo destas constitui, aliás, o núcleo do livro. 'Daba-Goma', 'Kandot era o "boy" do Sr. Hiebler' e 'A "fula" Lubamba desapareceu' são narrativas que evidenciam ser a literatura colonial deste autor uma literatura que retrata a realidade, a magia e o inesperado das colónias africanas sem todavia ser, necessariamente, uma literatura apologista do colonialismo.

 

Embora por razões diversas, note-se que a violência e a tensão que pontuam o conto inicial, 'Gonçalves morreu numa noite de tempestade', surgem quase como premonição dos conflitos coloniais que irromperam em África nos anos subsequentes. Por esse facto, é surpreendente, mesmo, que este volume não tenha sido apreendido ou censurado pelo regime.

 

O único conto dedicado exclusivamente à presença portuguesa em África é a narrativa que encerra o volume – O "cacholas" [i.e., o clandestino]. Uma viagem de navio entre Angola e Portugal serve de pretexto para falar da vida a bordo, da diferença de classes, de viajantes clandestinos e de um tripulante cabo-verdiano, que acaba por falecer devido à indiferença dos serviços médicos de bordo. Um belíssimo conto que nos recorda a força dos contos de J. R. Miguéis (1901-1980) de temática semelhante, como 'Gente da Terceira Classe' e 'O Viajante Clandestino' (Gente da Terceira Classe, 1962).

 

A escrita de Alexandre Cabral, desenvolta e atraente, e o inusitado da ficção de muitos dos seus contos e novelas alertam-nos para a necessidade de redescobrir vários autores do século XX que têm vindo a cair no esquecimento.

 

  

 

Ilustração de Rogério Ribeiro (n. 1930).

 

 

Do conto O "cacholas" transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Durante as refeições, marcadas pela sineta do chefe, a despeito de se escoarem insípidas, com a galinha e a salada vulgaríssimas mascaradas de «churrasco bercy» e e «salada renascença», a intimidade era mais sentida.

 

Na 1.ª classe, os passageiros comiam vagarosamente e com o cerimonial exigido pela condição de tal clientela. Já o ambiente da sala de jantar da 2.ª era mais popular, ainda que, aqui e além, é verdade, como flor de estufa no meio de papoilas singelas do campo, um casal esforçava-se por puxar ao fino.

 

A mesa 9, então, era mesmo um disparate. Composta por empregados dos Caminhos de Ferro, de Moçambique, e outros que entraram no Cabo, representava um tufão vergastando a placidez estabelecida. Os criados receavam muitas vezes que a troca de opiniões, galhofeiras e mordentes, redundasse em disputa.

 

– O Porto, meu amigo, é uma cidade de trabalho, de gente honesta...

 

– Propaganda, cavalheiro. Propaganda. Toda a gente sabe que o Porto é a terra das tripas.

 

– Ah, sim! Então, oiça lá... mas oiça, canudo...

 

E por mais que gritasse ninguém o ouvia. Os parceiros riam da pilhéria. Tinha sido bem atirada, sim senhor.

 

Passando à 3.ª, transbordante como a pança de um glutão, verificava-se que a escala da decência tombara a zero. Quer dizer, aqui o pessoal não tinha a preocupação de se intrujar reciprocamente. Por isso mesmo, é de crer, as damas e cavalheiros da 1.ª nunca arriscaram o nariz naquela promiscuidade. Homens e mulheres dormiam pelos corredores, em cima das caixas de madeira, onde guardavam os seus haveres, ocupada como estava a própria sala de fumo. Um inferno! Havia uma expansão de sentimentos, uma confusão de malas e baús, e um odor de estrebaria, que só o campónio habituado aos apertos das carruagens da beira era capaz de tolerar.

 

O vinho soltava-lhes a língua, chegando um atrevido a proclamar, em altos berros, que estavam a receber um tratamento pior que num campo de concentração fascista. Os criados, gente da mesma laia, ouviram o descoco sem protestar.

 

Servida a refeição da noite, a orquestra de bordo preparava-se para a função, tocando tangos deliciosos e rumbas barulhentas com o propósito firme de limpar a atmosfera da 1.ª de qualquer mancha de tédio. A juventude divertia-se e até os senhores em idade madura sacrificavam os apertos dos pés a uma volta de dança.

 

Não sendo permitida a intromissão dos viajantes da 2.ª ou da 3.ª, toleravam-nos, conquanto que vestissem o seu casaquinho domingueiro e se portassem com decência. Ao começo principiaram por espreitar a medo a sala luxuosa e acabaram por tomar conta dos domínios, num abuso intolerável, pensavam as senhoras respeitáveis, que se regiam pelo severo código da melhor sociedade. E tinham razão. Mas também se não fosse o entusiasmo da rapaziada invasora as suas soirées redundavam num estrondoso fiasco.

 

Às tantas, os homens da orquestra e a menina do piano arrumavam as papeletas, guardavam os instrumentos e recolhiam aos camarotes. A pianista, certamente por espírito romântico, ficava vagueando pela solidão do navio, de braço dado com o terceiro maquinista, de quem, admitia-se, recebia lições de náutica..."

 

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08
Fev 10

Maria Ondina Braga - Eu Vim para Ver a Terra

 

Maria Ondina [Braga] (1932-2003), Eu Vim para Ver a Terra (1965).

 

Embora vários autores portugueses dos séculos XIX e XX tenham passado pelo Oriente e reflectido, de maneira directa ou indirecta, essa estadia na sua literatura – vejam-se os casos de Wenceslau de Moraes (1854-1929), Camilo Pessanha (1867-1926) e Joaquim Paço d'Arcos (1908-1979), entre outros, Maria Ondina Braga surge no século XX como a principal autora portuguesa de ficção ligada a Macau, em particular, e à China em geral.

 

Este seu livro de estreia, Eu Vim para Ver a Terra, apresenta-nos um conjunto de textos sobre Angola, Goa (precisamente em 1961) e Macau, mas são as crónicas de Angola – A Terra, De Luanda a Salazar, De Salazar a Malanje, A Chuva, Cacimbo, Flor da Terra, Mãe Preta, Mercado Indígena, Velho Roque, Nova Lisboa, A Missão do Lombe e as Castanholas da Irmã Manuela, Páscoa – 1961, mais do que as de Macau, que acabam por nos cativar na sua sensibilidade e nos deixam a promessa de toda a literatura notável que a autora haveria de produzir posteriormente.

 

Surgem nestas crónicas fragmentos particularmente belos. A Chuva, Cacimbo, Flor da Terra, Mãe Preta e Mercado Indígena oferecem-nos a expressão de um lirismo a que não podemos ficar insensíveis e deixam-nos impressões de mundos que a maioria de nós apenas pressente. Como se a empatia da autora tivesse absorvido a fugacidade de universos momentâneos e os tivesse cristalizado em toda a sua beleza – a frescura dos aromas e das cores, a humidade e o calor da terra, a alegria e o sofrimento das gentes, criando um políptico perene que retira do húmus dessa terra o seu carácter profundamente humano.

 

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