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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

07.11.23

Revista Cultura (II)


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O número 28 desta revista apresenta o conto Destino de Bia Rosa, de Onésimo Silveira (1935-2021).

 

Natural de S. Vicente, onde concluíu os estudos liceais, estudou depois em Portugal, onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império. Na última metade da década de 1950, após haver regressado temporariamente a Cabo Verde, passa a viver durante alguns anos em São Tomé e Príncipe, onde convive com Alda do Espírito Santo (1926-2010), fixando-se depois, a partir de 1959, em Angola.

 

Posteriormente passou algum tempo na China, estudando em seguida, ainda durante a década de 1960, na Universidade de Uppsala, na Suécia, instituição onde se veio a doutorar, em 1976.

 

Depois de, nessa década, trabalhar algum tempo na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, Onésimo Silveira tornou-se o primeiro presidente eleito da Câmara Municipal do Mindelo, vindo depois a ser embaixador de Cabo Verde em Portugal.

 

Nas áreas do conto e da poesia publicou Toda a gente fala: Sim, senhor (1960), Hora Grande; Poesia Caboverdiana (1962), A Saga das As-Secas e das Graças de Nossenhor (1991) e Poemas do Tempo de Trevas, Saga, Hora Grande (2008). Em 1960, o número 9 da Colecção Imbondeiro, que apresentou a primeira obra acima referida, anunciava ainda a futura publicação de uma colectânea de contos intitulada Maré Cheia, de que não foi possível encontrar registo de edição.

 

Do conto Destino de Bia Rosa transcreve-se um excerto, corrigindo já as diversas gralhas apresentadas na revista mas mantendo a grafia da época:

 

"O sol a pique tudo abrasava. O barulho ensurdecedor da fábrica de óleo de palma era uma nota fastidiosa no meio da calmaria.

 

Nas senzalas os que conseguiram findar a sua tarefa estendiam-se à sombra para se recomporem; outros limpavam e arrumavam os seus tarecos porque no dia seguinte – domingo – chegavam serviçais caboverdianos.

 

Chegou a tarde e, depois, a noite que envolveu em densa escuridão a roça inteira. Tão sòmente as lâmpadas espalhadas em redor da casa do patrão quebravam, com a sua luz amarelada, a monotonia que invadira as senzalas.

 

Domingo.

 

Nove horas e já todos os serviçais se acham em casa. Preparam com mais cuidado o almoço e as raparigas vestem os seus vestidinhos melhores.

 

O ronco de um motor alvoroçou os caboverdianos, após período de longo e desacostumado silêncio. Era a camioneta da roça que assomava lá ao cimo da encosta que dá para o terreiro. As pessoas que vinham nela, tontas de calor não davam sinal de vida...

 

Chegou enfim!

 

Mantenhas, encomendinhas, abraços, choros, novidades! De todos os lados chovem perguntas.

 

– Trouxemos dois violões, um cavaquinho e um banjo – respondeu Lela Canhota a pergunta de Pedrim.

 

– E grogue? – indagou Pedrim novamente.

 

– Grogue! O que os safados dos guardas não nos tomaram em Fernão Dias está connosco.

 

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

 

Nunca a roça vivera momentos de tanta euforia! Os serviçais pediam mornas. – «Mornas novas»! – gritavam – mornas de B. Léza!

 

À tristeza do anoitecer dos dias anteriores sucedeu uma série de canções dolentes que tanto diziam aos seus executantes – que lhes restituiam parte da alma deixada na terra natal!

 

Pedrim convidou a primeira dama a jeito e, com alguns cálices de grogue já enfiados, desatou a mornar, a mornar..."

 

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31.08.22

José Luandino Vieira - Luuanda


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José Luandino Vieira (pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), Luuanda (1963; presente edição, 1983).

 

A obra Luuanda foi galardoada em 1965 com o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE), embora o texto tenha sido entretanto revisto e surja, em edições posteriores, com uma datação delimitada pelo próprio autor, como acontece no presente volume, entre 1963 e 1972.

 

O facto de Luandino Vieira ter estado encarcerado entre 1961 e 1972, devido à sua actividade política de constestação ao regime salazarista e à política ultramarina deste, e ter sido galardoado com aquele prémio originou uma forte contestação e criou uma polémica que levou à extinção da SPE.

 

As capas da edição brasileira de 1965 e da primeira edição portuguesa lançada depois do 25 de Abril de 1974 podem ser vistas  num anterior artigo (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/14967.html).

 

Esta obra apresenta três contos – Vavó Xíxi e seu Neto Zeca Santos, Estória do Ladrão e do Papagaio, Estória da Galinha e do Ovo, que podem ser considerados, sob diversos aspectos, como visões alternativas à Luanda que Reis Ventura (1910-1988), escritor vinculado ao regime, havia descrito e narrado na sua trilogia (Cenas da Vida de Luanda) dedicada à cidade e iniciada na década anterior – Quatro Contos por Mês (1955), Cidade Alta (1958) e Filha de Branco (1960).

 

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21.06.22

M. António - Crónica da Cidade Estranha


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M. António (Mário António Fernandes de Oliveira, 1934-1989), Crónica da Cidade Estranha (1964).

 

Ensaísta, ficcionista e poeta, Mário António havia publicado até à data de edição desta obra os seguintes livros de poesia Poesias (1956), Amor (1960), Poemas & Canto Miúdo (1960), Chingufo - Poemas Angolanos (1962; prémio Camilo Pessanha), 100 Poemas (1963; prémio Ocidente) e o romance Gente para Romance: Álvaro, Lígia, António (1961), para além de ter colaborado em diversas revistas, como Mensagem (1952), e publicado alguns ensaios.

 

Posteriormente haveria de publicar Farra de Fim-de-Semana (1965), Mahezu (1966), Era Tempo de Poesia (1966), Luanda - Ilha Crioula (1968), Rosto da Europa (1968), Coração Transplantado (1970) e inúmeros ensaios que marcariam o seu percurso académico e de investigação, o qual culminaria num Doutoramento em Estudos Portugueses, com especialização em Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa (1987).

 

Depois de concluir o curso liceal, em Luanda, foi observador meteorológico de 1952 a 1963, ano em que passou a frequentar, em Lisboa, o curso de administração ultramarina no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina. Enquanto activista político, colaborou na fundação do Partido da Luta Unida dos Africanos de Angola (1953) e do Partido Comunista Angolano (1955), partidos que haveriam de estar na origem do Movimento Popular de Libertação de Angola, fundado em 1956.

 

É ainda autor da letra do conhecido Poema da Farra, musicado e cantado por Ruy Mingas (n. 1939).

 

A presente obra divide-se em duas secções – a primeira, com uma narrativa mais longa, datada de 1957-58, que se desenrola ao longo de 83 páginas e XV capítulos; a segunda, intitulada Apêndice, com um conjunto de dez textos mais curtos, ostentando títulos diferenciados cada um, apresentados ao longo de 32 páginas.

 

Do capítulo XIV transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Ele ama os cheiros da cidade como ninguém. ou talvez não seja bem assim. há os que os não sentem, mergulhado sempre neles; e há os acostumados aos ambientes esterilizados, inodoros (mas têm um cheiro, sim, que ele já sentiu!), que deitam a mão ao nariz quando o seu apurado olfacto acusa certas presenças incomodativas. Incomodativas e plebeias.

 

Mas ele acha que sim, que tudo tem um cheiro. E os únicos cheiros que não ama são precisamente aqueles que a patroa não sente na casa onde tem de limpar constantemente os móveis, o chão, tomar banho (a patroa sempre aflita com o seu cheiro de catinga), cheiros que não são da vida, mas só cheiros, isolados, incomodativos. Sim, esses realmente incomodativos: o «polish», a graxa, a cera e, agora se lembra, aquelas coisas que fazem da senhora uma pessoa diferente, depois que ela se fecha no quarto para se preparar.

 

Dos outros cheiros ele gosta, ou melhor: entrega-se-lhes. O cheiro a terra, material, entrando pelas narinas, da sua cubata. Cheiro variável com o tempo. Enorme, envolvente, colando-se ao corpo, quando o Sol do meio-dia reduz as sombras; repousante, sossegado, à noite, quando a paisagem dorme; inquietante, como uma mulher, quando a chuva se vai embora e pingos desgarrados tamborilam no zinco do telhado.

 

Há ainda os vários cheiros da vida, os cheiros das aglomerações humanas. De todos, o mais complexo, vário, colorido, gritante, é o do mercado, com as mulheres sentadas no chão, as quindas à volta, um abano a afugentar as moscas que querem pousar nos bagres secos, negros e submetálicos; no bombó assado; na batata-doce escondendo sob a pele queimada, baça, uma quentura amarela; nos dendéns vermelhos; nos limões de casca seca e ácida; nos cocos cor de capim da cubata... ou então em coisas que ele aprecia mais mas que são raras, misteriosas e estranhas, como o jinjimo ou o muxilo-xilo, cada um exalando o seu cheiro, numa longa gama, com gradações, correspondências e contrastes, dispersões e tempos mortos, pausas e sequências até ao infinito, numa composição avassalante. Diante do mercado – a mais complexa composição de cheiros que conhece –, ele não resiste: entrega-se. E fecha os olhos precisamente pela mesma razão por que o senhor doutor fecha os dele, ao pé da telefonia, a ouvir aqueles sons que ele também gostaria de entender, mas só lhe chegam de mistura com o tinir da louça que lava.

 

E os cheiros acres, poderosos, construtivos, dos homens no trabalho? Lembra-se de quando trabalhou na estrada, a picareta, na longa fila de homens vergados. Um cheiro que tinha modulações, ia a dizer, musculares, se retinha e expandia, e martelava com um som cavo e compassado nas suas narinas. Um cheiro poderoso, hipnotizante, que identificava os homens.

 

Também lhe agradavam os cheiros da praia, das formas coloidais que a maré vazante deixa sobre a areia, um cheiro que parece vir de baixo da terra e sobe, sobe, até afogar um homem. Ou o cheiro do fumo das fogueiras em que se assam mabangas, vivo, pontuado de renúncia e estranhamente apetitoso. Ou ainda o cheiro do peixe a secar ao sol, tão identificado com a luz que dir-se-ia vir do alto e ocupar todo o espaço."

 

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20.04.22

Jorge Ferrão Cardoso - Caravana


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Jorge Ferrão Cardoso (datas desconhecidas), Caravana (1948).

Desenho da capa de Raúl Coelho (datas desconhecidas).

 

Tal como haveria de vir a suceder com o seu segundo livro, já aqui referido (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/ferrao-cardoso-terra-sol-e-aventura-23828), Terra, Sol e Aventura (1956), igualmente uma colectânea de contos, o presente volume incorpora dois contos cuja acção decorre em Trás-os-Montes – Vida Silenciosa e Entardecer Tranquilo, este último espacialmente localizado entre Carrazedo de Montenegro e Santa Maria de Émeres, e dois outros com cenários e enredos exóticos – Trono de Marfim e Doze Horas em Honolulu, verificando-se que apenas três dos seus doze contos apresentam referências africanas ao longo da acção – Do Diário de António Firmino, Mocambos ao Luar e Angústia.

 

Do conto intitulado Do Diário de António Firmino transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Há festa na senzala do lado de lá do rio. Os tambores sôam sincopadamente. No silêncio que nos envolve, aquele ruído surdo trás até nós algo de misterioso e ardente.

De cá, vemos brilhar as labaredas da fogueira. É um clarão avermelhado onde, esfumadas e imprecisas pela distância, se recortam silhuetas negras, trementes de sensualidade na dança erótica.

Os meus ganguelas, anichados em redor do fôgo, fitam sonolentamente o clarão longínquo e quedam-se num  mutismo que tem algo de feroz e primevo.

Mais tarde, um deles fala. Murmura imperceptìvelmente. Conta a história de «Saleia, a pantera», a mesma lenda que escutei numa noite de sangue, no Baixo-Cuito.

«... Saleia veio, de noite, do alto da montanha e roçou a planície. Malala, o feiticeiro, deu a sua carne seca na penúltima hora escura e agora que Saleia tinha provado sangue humano, os seus rugidos eram mais fortes e mais próximos, e os seus olhos brilhavam contìnuamente por  entre os troncos da floresta.

Naquela noite Bangu teve festa. Pela anhara imensa veio gente dos outros povos, e a sagrada fogueira iluminou a senzala.

O batuque durou toda a noite. A capata toldou os espíritos, e o pirão com belos «condutos» alimentou os corpos negros, estuantes de sensualidade.

O som cavo dos tambores num ritmo bárbaro ecoava pela selva, e lá longe, nos outros povos, a gente velha escutava e dizia: «Ouvi! Há festa em Bangu!»

Na penúltima hora da noite, Malala tomou o fogo que havia de incendiar a anhara. Ele invocou Saleia, a deusa do Fogo, e correu para o mato. Quando na planície se começaram a erguer chamas rubras, Malala caiu morto. Todos tinham visto que a pantera enfrentara o fogo. Ela era a Deusa! Acaso teme o fogo o próprio fogo? Era Saleia! Saleia, a deusa! 

Saleia voltou depois, durante muitas noites. Ela gostava de Bangu, e da selva próxima os seus rugidos vibravam no ar e chegavam até à senzala. A Deusa queria carne! Desde que provara sangue humano, todas as noites os seus urros sequiosos acordavam Bangu...»

Não ouço o fim da história. é como se outro ser estivesse  dentro do meu, roubando-me o sossego. Aqueles ganguelas ingénuos contam sucessos raros, e eu, embora seja mais culto do que eles, não consigo apreender todo o sentido de tão estranhas narrações. Sinto-me como se não tivesse pátria!"

 

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26.01.22

Costa Andrade - Poesia com Armas


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Costa Andrade (n. 1936), Poesia com Armas (1975; presente edição, segunda, 1977).

Capa de Sebastião Rodrigues (1929-1997).

 

Depois de estudar no Huambo e no Lubango, Francisco Fernando da Costa Andrade viajou na década de 1950 para Portugal, onde cursou arquitectura e se envolveu na dinamização das actividades da Casa dos Estudantes do Império. Posteriormente seguiu para o exílio, passando pelo Brasil, por Itália e pela Jugoslávia, antes de se juntar à guerrilha angolana, já durante a década de 1960.

 

Na sua actividade literária, política e militar adoptou diversos pseudónimos, como Africano Paiva, Angolano de Andrade, Fernando Emílio, Flávio Silvestre, Nando Angola, Wayovoka André ou Ndunduma Wé Lépi enquanto guerrilheiro.

 

Antes de esta obra, Costa Andrade havia já publicado Terra de Acácias Rubras (1960) e Tempo Angolano em Itália  (1962), publicando posteriormente O Regresso e o Canto (1975), Caderno dos Heróis (1977), O País de Bissalanka (1980), O Cunene Corre para Sul (1981) e Luanda: Poema em Movimento Marítimo (1997), entre outras.

 

Neste volume, que apresenta um prefácio ensaístico de Mário de Andrade (Mário Pinto de Andrade, 1928-1990), reunem-se poesias de diferentes cadernos, todos datados de antes da independência de Angola – O Capim Nasceu Vermelho (Huambo, 1960 - Lisboa, 1961), Canto de Acusação (1961 a 1963), Cela 1 (São Paulo, Brasil - Abril de 1964), Flores Armadas (1970...), O Guerrilheiro (Moxico, 1969, 1970 e 1971), O Amor Distante (Angola, 1969), Requiem para um Homem (1973), O Povo Inteiro (1974), O Lundoji e o Eco (Setembro de 1974) e O Futuro Nasceu da Noite (25 de Outubro de 1974).

 

Poeta profundamente emocional, atitude a que se alia uma sólida formação intelectual, Costa Andrade deixa transparecer na estrutura e nos conceitos de alguns dos seus poemas, particularmente nos mais longos, uma certa influência da heteronímia pessoana e, consequentemente, uma certa ressonância whitmaniana.

 

No conjunto destes cadernos consegue também, habilmente, entrelaçar traços profundamente líricos e amorosos com registos característicos de manifesto político, revelando um notável equilíbrio entre a sensibilidade do poeta e a vivência do guerrilheiro.

 

Transcrevem-se de seguida três poemas, que integram respectivamente os cadernos Flores Armadas, O Guerrilheiro e O Amor Distante:

 

ENXERTIA

Teu corpo mulata

é o corpo da vida nova

é o corpo do futuro.

 

Olha para ti

descansa os olhos sobre as coisas

desenha com os dedos na areia

a nossa humana geografia

 

verás as rosas enxertadas nas acácias

darem flores mais belas que elas próprias.

 

EMBOSCADA

O dia estranhamente frio

o tempo estranhamente lento

a vegetação estranhamente lenta

a estrada estranhamente clara

todos estranhamente mudos

placados e estranhamente à espera.

 

                    Um tiro

                    e as rajadas uns segundos

 

até que estranhamente duro

o silêncio comandou de novo os movimentos.

 

Talvez fossem homens bons os que caíram

mas cumpriam estranhamente o crime

de assassinar a pátria alheia que pisavam.

 

 

A PARTIDA

As horas chamaram-me.

 

Porquê que o tempo tem medida

e abre com punhais o seu avanço?

 

Por medo

não olhámos os relógios

nem em torno

nem nos olhámos

não nos falámos

com medo que as palavras

                                      as luzes

                                             as coisas

nos prendessem com cadeias inquebráveis.

 

Eram retratos dos pais

               e dos amigos

                     as casas velhas

o nosso quinto aniversário

as praias e os navios grandiosos

o que víamos.

 

Os murmúrios desgarrados

das presenças

parecem lianas poderosas.

 

                Mas quem mede o tempo agora?

                Quem tem coragem de dizer-me

                        que o tempo é um comandante

                                com plumas nos dedos ansiosos?

 

Oh paisagem da minha infância!

Oh mulemba solitária!

 

              As praças estão mais iluminadas

              a gente fala mais

              as vozes mecanizadas

              anunciam a partida de aviões

              para Tóquio ou Buenos Aires

                            não importa.

 

Corpo presente eu sinto as tuas mãos

                                                                 humedecidas

como se os olhos se tivessem transplantado

para chorar escondidos do luar

              e da hora exacta.

 

Longe 

os homens morrem sob a fúria americana de matar

e nós aqui sem palavras

              sem gestos            sem silêncio

não sabemos se a partida se retarda

não sabemos nada

queremos nada saber como se pedras

como se asfalto que encurta os pólos

               dos dois mundos em rotura.

 

Mas quem é esta gente

              que nos recorda sermos dois

                            nos instantes que antecedem o vulcão?

 

Não quero ouvir ninguém!

Não quero ouvir ninguém

              que eu sou um homem transformado

                     em temporal.

Eu não inventei os aviões

nem construí os aeroportos

              apenas me senti discriminado

                     homem sem sombra

                             a quem roubaram a juventude

                                    e os ecos.

 

Eu vou partir

             pagar um preço

                     para ser homem igual

                             ao mundo

                                   e pelo mundo em frente.

 

Não afastes o teu rosto desse espelho

                quero olhar-te assim sem que me vejas

                quero descobrir-me um braço mais

                o que parte a empunhar metralhadoras

                e os que ficam para estreitar-te

                num abraço permanente.

 

                A morte pode talvez supreender-me,

                um guerrilheiro pisa caminhos

                               que ninguém traçou

                        e a moradia dos seus passos

                        é um medo feito de mil coragens

                        reunidas

                                       no dever

                                 e no amor de olhar a própria terra

                 como quem beija um botão de rosa.

 

Não alongues o olhar agora

              que te vejo mais serena

quero beijar-te como se beija uma laranja sequioso

 

um laranjal que nos perdesse

para sempre

               entre os seus perfumes acres

                                                                 e suaves.

 

Dêem-me laranjas

dêem-me laranjas tão doces

                                      que os meus lábios

saibam pronunciar apenas paz

e desconheçam lágrimas de sal

e corações que batam apressados.

 

Os canhões       as armas       esperem do futuro

               museus da bestialidade humana

                a liberdade seja o fruto do pomar inesgotável

                configurado nas mãos de todos os que amam.

 

Até que eu desapareça não te movas

dos vidros que dentro de momentos serão intransponíveis.

 

Deixa que te fixe um gesto que não mude

              e me acompanhe

              e me confunda

              entre o estar presente e a ausência.

 

Agora

agora meu Amor

que se iniciam os passos da distância

podes chorar

ficar tranquilamente

                                   olhando o mar

porque só partem

              os guerrilheiros

              que amam a terra

                                   totalmente

                      a possuem

                             e engravidam

                                     com o próprio sangue.

 

 

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12.11.21

Arlindo Barbeitos - Angola, Angolê, Angolema


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Arlindo Barbeitos (1940-2021), Angola, Angolê, Angolema (1976; presente edição, segunda, 1977).

Capa e ilustração de Sebastião Rodrigues (1929-1997).

 

Arlindo Barbeitos é o primeiro escritor com uma primeira obra publicada depois de 1974 que aqui se apresenta. Justifica-se tal opção por três razões – por um lado, muitos destes seus poemas foram escritos nas décadas de 1960 e 1970, antes do 25 de Abril, reflectindo um contexto anterior ao da independência de Angola; por outro lado, o seu primeiro livro, este, foi publicado ainda em Portugal, pela Sá da Costa; finalmente, a terceira razão prende-se com uma afirmação do próprio autor, registada na entrevista que introduz esta obra – " Transmito a minha poesia numa língua que não posso esquecer, é a língua colonial, mas que não deve ser a única língua a ser falada pelo povo angolano. Seria um massacre cultural horrível. Essa língua continua sendo ainda uma língua de estrangeiro em Angola. Então, já que aqui eu sou um ignorante, não conheço as línguas de Angola o suficiente, tento pelo menos, dando um conteúdo nosso, africanizar a língua colonial. Aliás, o próprio povo já o fez e o poeta, finalmente, segue-o. As línguas africanas foram capazes de uma poesia oral belíssima, porque não seriam elas capazes de uma poesia escrita belíssima também? Simplesmente os poetas é que não foram capazes, e o povo angolano não deve sequecer isso. "

 

De facto, não só a poesia do autor é belíssima como não poderia ser, no seu íntimo, mais africana. Militante da oposição política e armada ao regime colonial do Estado Novo, Arlindo Barbeitos não necessita de, a exemplo de outro militante da resistência armada, Costa Andrade (1936-2009), transformar a sua poesia num manifesto político explícito para lhe dar africanidade ou materializar a resistência ao colonialismo, que tanto coexiste subtilmente como explicitamente em alguns dos seus registos líricos.

 

Paradigma pleonástico da poesia enquanto poética, a sua obra ora assenta em modelos orientais, minimalistas e quase anafóricos, da poesia, ora em poemas onde a explícita crítica à realidade colonial se materializa na encadeada e desconcertante simplicidade do quotidiano.

 

Poeticamente, a sua resistência e sua angolanidade traduzem-se ainda, no título deste volume, na evocação da oralidade que a palavra "angolê" transmite e na inovação lexical do neologismo "angolema", que tanto sugere ser Angola um poema, como o poema, a sua poesia, ser Angola.

 

Deste volume transcrevem-se quatro poemas, com distintas características, pela sua ordem de publicação:

 

"amada

minha amada

a revolução

não é um conto

uma borboleta

não é um elefante

 

como agarrá-lo

 

devagarinho

o menino ia comendo o peixe frito

assim como quem toca gaita-de-beiço"

 

 

"à sombra da árvore velha de muitos sobas

só cresceram muxitos

 

o sussurrar encarcoleante dos surucucus d'areia

marcava dédalos efémeros

que os quissondes iam devorando

 

à sombra da árvore velha de muitos sobas

só cresceram muxitos"

 

 

"eu quero escrever coisas verdes

verdes

como as folhas desta floresta molhada

verdes

como teus olhos

que só a saudade deixa ver

verdes

como a menina duma trança só

que soletra em português sa-po sa-po

verdes

como a cobra esguia que me surpreendeu

naquela cubata sem outra história

verdes

como a manhã azul

que acaba de nascer

 

eu quero escrever coisas verdes"

 

 

"o Inácio cambuta

que vendia lotaria na Maianga

ficou assim

porque um dia quando a jogar à bilha

um rapaz de Maculusso

lhe passou a perna pela cabeça e fugiu

 

o camoquengue Camões 

que varria o chão na loja do Sidónio

ficou assim

porque um dia quando atrás das piteiras

um sapo preto

lhe mijou no olho direito

 

o André matumbo

que era contínuo na Fazenda

ficou assim

porque um dia quando na sanzala do Botomona

comeu laranja roubada com casca e tudo

 

o Luís molumba

que vadiava por todo o musseque

ficou assim

porque um dia não acreditou que o sipaio

seu primo

lhe ia dar uma bordoada com o pau do ofício"

 

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26.10.21

Castro Soromenho - A Chaga


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Castro Soromenho (1910-1968), A Chaga (1970 [1964]; presente edição, terceira, 1985).

 

Embora o manuscrito seja datado de 1964, esta obra de Castro Soromenho apenas foi publicada postumamente. A primeira edição surgiu no Brasil (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970), a segunda em Portugal (Lisboa: Sá da Costa, 1979) e esta, a terceira, em Angola (Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1985).

 

A curiosidade desta terceira edição é que, efectivamente, foi impressa na República de Cuba, pelas Ediciones Cubanas, para a União dos Escritores Angolanos, no período de intervenção cubana em Angola, de apoio ao Movimento Popular de Libertação de Angola, que decorreu entre 1975 e 1991.

 

Recorrendo sempre às memórias que guardou de África, de onde saíu com menos de trinta anos, à vivência governativa de seu pai e à sua própria experiência administrativa, e até como recrutador de mão de obra, Castro Soromenho evoca aqui a herança negreira, que se prolongou até ao século XIX e ainda ecoava nalgumas práticas do século XX, denunciando os abusos e desvios de certos funcionários coloniais perpetrados a coberto dos seus cargos administrativos.

 

Contudo, o autor não deixa de abordar o antagonismo e as divergências existentes entre várias etnias, apontando essa como uma das razões para a administração portuguesa colocar lundas nos cargos de  sipaios e capitas a controlar grupos de quiocos. Nesta sua habitual digressão pela caracterização étnica, coloca ainda os bangalas de permeio, como sendo aqueles que têm um certo sentido poético e ouvido musical.

 

Metaforicamente, as duas povoações com um só nome – Camaxilo, desdobram-se em muitas mais, pois, para além das povoações dos brancos e dos negros, existem dentro delas ainda outras "povoações", como a dos colonos e a da administração, a dos sipaios e capitas e a dos prisioneiros, a dos lundas e quiocos, ou a dos mestiços. A questão da mestiçagem, como decorrente de uma situação de facto mas não de jure, formalizada ou legalizada através do casamento entre brancos e negras, serve ainda para tratar frontalmente o racismo e o hipócrita relacionamento colonial entre raças.

 

Transcrevem-se de seguida os  primeiros parágrafos deste romance:

 

"As árvores estavam mergulhadas no nevoeiro e das frondes pesadas do orvalho da madrugada tombava uma chuva miudinha que fazia tiritar os homens que marchavam, em longa fila indiana, no vale de Camaxilo, para chegarem às suas terras altas antes de o cabo de sipaios apagar a fogueira do terreiro onde se apruma o pau da  bandeira.

A mão calosa de Gunga estendeu-se sobre o braseiro que restava da noite, os dedos megulharam rapidamente na cinza e como tenaz truxeram uma brasa, logo solta na palma da mão e rolada para a boca do cachimbo de água. Com sofreguidão puxou uma fumaça, uma nuvem de fumo envolveu-lhe a cara talhada de rugas, piscou os olhos raiados de sangue e atirou-se para a frente sacudido por forte ataque de tosse. Escarrou para o chão e quedou-se acocorado com a mutopa fumegante nas mãos a olhar para o vale ravinado a seus pés e esbeiçado no outro lado numa encosta suave a rasar-se à beira da povoação dos colonos. As cinco casas dos comerciantes, com grandes quintais defendidos dos matagais e da surtida da onça por fortes paliçadas, recortavam-se na luz do amanhecer na orla da planície de largos horizontes azuis para as bandas de Caungula.

Gunga acabava de enxergar o vulto, alto e esguio, do velho colono Lourenço, encostado a um pilar da varanda da sua casa de adobe, à beira da estrada que talha a planície, atravessa o povoado de colonos e, sombreada pela floresta de acácias vermelhas, desce numa curva à garganta do vale para através da ponte de madeira se prolongar em rampa até à povoação dos funcionários. Duas povoações e um só nome – Camaxilo.

Todas as manhãs, o velho Lourenço está ali na varanda a fumar o seu primeiro cachimbo, olhando para Camaxilo de cima onde, à volta do terreiro centrado pelo pau da bandeira e por uma mangueira de grande copa, branquejam os edifícios da Administração e residências dos funcionários. A gente do governo, civis fardados, alcandorara-se no alto do vale, com vista rasgada sobre a povoação de baixo, as lojas dos colonos a olho nu.

Entre o negro velho e o colono velho abre-se o vale, o rio Camaxilo ao fundo, o primeiro postado no alto das ravinas, o outro lá embaixo na lomba da encosta, à boca da planície. Ali estão há um ror de anos sob o mesmo céu ardente e sobre a terra perfumada de acácias."

 

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07.07.21

António Mendes Correia - Contos e Novelas Angolanos


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António Mendes Correia (1906-1982), Contos e Novelas Angolanos (1955).

 

Este livro apresenta sete contos e novelas – Um Caso de Consciência, A Nossa Terra é o «Huambo», Sonho Realizado, A Vingança da Morta, Um Fantástico Quissange, Condenados de Angola e Os Últimos Abencerragens.

 

Uma anotação à página de título de A Nossa Terra é o «Huambo» refere que este texto foi galardoado com o segundo prémio do Concurso Literário promovido pelo Município de Nova Lisboa, no ano de 1950, e uma anotação à página de título de Sonho Realizado refere que o texto foi galardoado com o primeiro prémio do Concurso Literário promovido pela Associação dos Naturais de Angola, no ano de 1951.

 

O volume abre com umas "Palavras Prévias" do autor que, ao longo de cinco páginas, discorre sobre a distinção entre conto, novela e romance, citando de permeio, e a esse propósito, a autoridade do escritor inglês E. M. Forster (1879-1970) e do crítico e teórico literário alemão Wolfgang Kayser [grafado Keyser, no texto) (1906-1960).

 

As sete narrativas, quiçá involuntariamente, não deixam de oscilar entre uma visão colonial etnocêntrica e uma visão paternalista ou crítica dos costumes gentílicos. Os conceitos subjacentes aos diversos enredos sofrem, por vezes, algum desequilíbrio na transposição para as formas narrativas adoptadas, dando talvez razão ao que o autor já anotara nas suas palavras prévias – "Mas... de almas cheias de boas intenções está o Inferno cheio. E será esse, certamente, o destino da do autor destes «Contos e Novelas», porque vai grande distância entre o saber, teòricamente [sic], como as coisas se fazem, e fazê-las, na realidade."

 

A Biblioteca Nacional de Portugal regista uma reedição desta obra, ocorrida no ano 2000, como sendo a primeira edição da mesma, não apresentando registo para este volume de 1955 da Coimbra Editora.

 

Do conto Os Últimos Abencerragens transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Perante este espectáculo inesperado, Cavango ficou paralizado. De pé, ao lado da velha escrava, observava-lhe o ritmo lento da respiração, ao mesmo tempo que cofiava, apreensivo, a barbicha já grisalha. Depois de uns momentos de hesitação, debruçou-se sobre ela, tirou da bainha de madeira um longo punhal que nunca o abandonava e cortou com ele uma tira de couro de gazela, com a qual lhe envolveu o braço e estancou o sangue. Agachando-se em seguida, transpôs a baixa e estreita porta da cubata e foi buscar à sua residência uma cabaça de «marufo». À força, introduziu, entre os dentes cerrados da velha escrava, o gargalo da cabaça, fazendo-lhe ingerir alguns goles da «marufo». Depois, acocorado ao lado dela aguardou a reacção provocada pelo líquido. Alguns minutos depois, a velha, virou lentamente a cabeça para a direita e descerrou um pouco as pálpebras. Os seus olhos mortiços de cão humilde, negros e liquefeitos, fitaram Cavango docemente, articulando num cicio, num sopro quase imperceptível:

 

– Num mata meu neta... o teu filho tá agora na barriga dela... porque nunca pôde estar no meu barriga...

 

Deixou cair de novo as pálpebras. E alguns minutos depois, pendeu-lhe a cabeça mais para a direita ainda, e numa inspiração profunda soltou o último suspiro.

 

Cavango manteve ainda, durante algum tempo a neta da escrava mucuísse. E quando, ao fim de nove meses, deu à luz um rapaz cheio de vida, a que Cavango  quis pôr o nome de Kilela, fez desaparecer a mãe.

 

Dizia-se na tribo, muito em segredo, que fora vendida aos mutchilengues; mas outros afirmavam convictos que tinha sido enterrada viva."

 

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30.04.21

Luandino Vieira - Nós, os do Makulusu


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Luandino Vieira (pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), Nós, os do Makulusu (1974).

Capa e ilustração de Sebastião Rodrigues (1929-1997).

 

Primeiro livro de Luandino Vieira publicado após o 25 de Abril de 1974, este volume integra uma nova colecção então lançada pela editora Sá da Costa, a colecção Vozes do Mundo, que apresentara no seu primeiro volume a obra Sagrada Esperança (1974), de Agostinho Neto (1922-1979) e anunciava como terceiro volume uma reedição de Terra Morta, de Castro Soromenho (1910-1968).

 

Até esta data, Luandino Vieira havia publicado A Cidade e a Infância (1959), A Vida Verdadeira de Domingos Xavier (1961), Luuanda (1964), Velhas Estórias (1964) e No Antigamente, na Vida (1969).

 

Embora Luuanda seja, talvez, a sua obra mais conhecida e discutida, certamente devido à atribuição do Grande Prémio de Novelística, que a Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE) lhe concedeu em 1965, numa altura em que o autor cumpria pena de prisão de 14 anos no Tarrafal, e à subsequente polémica que resultou na sua proibição e na extinção da SPE, Nós, os do Makulusu surge como uma notável obra literária.

 

Escrita também no Tarrafal, entre 16 e 23 de Abril de 1967, é uma narrativa que se assume apenas como tal no frontispício, não reclamando sequer a denominação de novela ou romance. A verdade é que tal estrutura tipológica e tal nomenclatura não seriam adequadas para uma narrativa com as características inovadoras desta obra.

 

Quebrando as regras sintáticas, as estritas concordâncias gramaticais e as habituais delimitações e formatações de parágrafos, algo que ocorre, aliás, na sequência do que já acontecera em Luuanda, esta narrativa, que se inicia e conclui com a evocação da morte e, paradoxalmente, com a omnipresença de ausentes, desenvolve-se através de um discurso que encerra em si uma metafórica mestiçagem da língua portuguesa.

 

A subversão do discurso directo ou indirecto, a informal polifonia da memória narrativa e a aproximação à oralidade, constroem uma complexidade argumentativa e conceptual que desencadeia o fulgurante entretecer das múltiplas linhas da memória e do pensamento crítico apresentadas nesta obra excepcional.

 

Transcrevem-se, de seguida, alguns dos seus parágrafos:

 

"Estás a olhar a farda? Pensas que não tenho coragem de a despir e de me recusar como papagueámos todos a propósito dos tipos da Argélia? Mas eu sei o que tu nem sabes: isso é fácil, de certo modo é uma abstracção, ideias, etecétera. O mais difícil, Mais-Velho, acredita é vestir-lhe assim, um camuflado e ir ainda hoje à noite deitar com a Maricota ao Bê-Ó, não com Rute, estará fria de morte, as mulheres que amam conhecem a morte no amor, e ela generosa se entregar como sempre, sabendo que vou lhe matar no irmão em cada irmão que matar e vai chorar porque vou, não é porque vou lhe matar no irmão. Porque ela também sabe: as mulheres que amam, sabem que o amor e a vida são dois jogos de morte; que, se o irmão me vir – oh! Kibiaka da infância, salta e vamos sondar os gunguastros nas gaiolas! – de cima da sua árvore, que a sua mão não vai tremer quando me apontar a carabina do roceiro que decapitou e não tremerá e eu não tremerei se o vir primeiro e aponto a minha metralhadora e vou ficar com o coração leve a ver-lhe cair lá de cima do pau no capim alto e fofo da nossa infância. Que não é ele que revistarei; não é ele que vou procurar salvar para depois lhe matarem com torturas para lhe fazer falar o que ele não vai falar. Ele ficará, ficou, fica nos capins soterrados do Makulusu quando a gente pelejávamos até no cansaço e no sangue derramado porque vamos já, lavados de sujos, receber quicuerra e micondos de mamã Ngongo. isto, Mais-Velho, é que é difícil e tenho de o fazer: o capim do Makulusu secou em baixo do alcatrão e nós crescemos. E enquanto não podemos nos entender porque só um lado de nós cresceu, temos de nos matar uns aos outros: é a razão da nossa vida, a única forma que lhe posso dar, fraternalmente, de assumir a sua dignidade, a razão de viver – matar ou ser morto, de pé.

Mas eu sei que tu compreendes, mas não aceitas, tu não sabes o que é dormir tranquilo com Maricota no lado e saber que ela sabe e aceita o eu ir e matar ou morrer. Tu achas que isso é uma injustiça e tens razão, Mais-Velho. Mas me diz só: que posso eu fazer que não seja uma injustiça? Ou então prova que sim, que  o caminho é o que constantemente discutimos nestas tantas semanas, pega numa espingarda e vai para o lado do irmão da Maricota e mata-me. E então, Mais-Velho? Lês Marx e comes bacalhau assado, não é? Não te deitas com negras nem mulatas – a tua cunhada é mulata, fico descansado... – por respeito. Vê bem, Mais-Velho! Como tu és um baralhado: por respeito lhe recusas a humanidade dessa coisa simples, onde que só o humano se revela, onde só se pode aí comunicar, saber, aprender... Rio, sabes, mas me dói muito no coração, fico pesado de amargura. Espalha os teus panfletos, que eu vou matar negros, Mais-Velho! E sei que eles te dirão o  mesmo: «espalha os teus panfletos, vou matar nos brancos.»

Olha, Mais-Velho: não a odeias mais do que eu. E só há uma maneira de a acabar, esta guerra que não queres e eu não quero: é fazer-lhe depressa, com depressa, até no fim, gastá-la toda, matar-lhe.

Só porque tens razão, também tenho.

Desembeco na Travessa da Sé e é o cheiro a mar que me rusga. Mas quero sentir-lhe todo, não posso, não aceita, não lhe deixa o ramo branco das flores que estou levar, o fato escuro que pedi emprestado e a gravata disfarça. Não pode: mar mesmo só cheira a mar num corpo todo nu.

– Xalados, vocês!..."

 

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08.02.21

Revista Atlântico (II)


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Revista número 5, 1944.

Capa de Manuel Lapa (pseudónimo de Manuel Francisco de Almeida e Vasconcellos, 1914-1974).

 

Esta revista do S.P.N. foi lançada em 1941 e teve duas séries, conforme já foi referido, cada uma delas com diferentes dimensões e diferentes opções gráficas. Esta primeira série, com direcção artística de Manuel Lapa, teve maiores dimensões (cerca de 28,2 x 21,2 cm.), um grafismo muito mais interessante do que a série seguinte, como se pode verificar numa anterior publicação deste blog (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/revista-atlantico-i-19333), e uma maior diversidade de artistas colaboradores.

 

Tal diversidade encontra-se exemplificada no presente número, com ilustrações e vinhetas, ou estampas extra-texto, de Bernardo Marques (1898-1962), Cícero Dias (1907-2003), Eduardo Viana (1891-1967), Frederico George (1915-1994), Ofélia Marques (1902-1952), José de Almada Negreiros (1893-1970), José de Lemos (1910-1995), Magalhães Filho (Manuel Maria de Sousa Calvet de Magalhães, 1913-1975), Manuel Lapa, Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), Maria Franco (datas desconhecidas), Miguel Barrias (1904-1952), Neves e Sousa (1921-1995), Noémia (datas desconhecidas), Rachel Bastos (1903-1984), Roberto de Araújo (1908.1969) e Sarah Affonso (1899-1983).

 

É precisamente um texto intitulado Païsagens [sic] de Angola, publicado neste número e da autoria de Neves e Sousa, essencialmente pintor e ilustrador, onde se combinam notas autobiográficas com notáveis descrições literárias de tom etnográfico e paisagístico, a razão que motiva este artigo.

 

Transcrevem-se de seguida alguns parágrafos, os últimos do texto, que se ocupam daquelas descrições:

 

"Na Quissama, tive o que se pode chamar a sensação de estar em África. Não tinha ainda visto lugares tão selváticos. A païsagem [sic], tôda [sic] em ocra e cinzento, grandiosamente nua, esmaga. O céu parece uma bacia de cobre aquecida ao rubro; não há palmo de terra ou fio de capim que não esteja estorricado pelo calor. Desesperados como leprosos, os imbondeiros, enormes e cinzentos, erguem aos céus os braços torturados, retorcidos em contorsões de dor, como que implorando clemência ao sol implacável. Nas senzalas, não há a alacridade do cantar de um galo ou do ladrar de um cão. Apenas o silêncio, um silêncio opaco, que se ouve, pesado como o ar antes das trovoadas.

 

Ouvi, na Quissama, os mais harmoniosos cantares indígenas. Vi raparigas dançando, vestidas de panos azuis; vi outras dançando  pintadas com a tinta encarnada da «tacula», os seios desnudos, as ancas ondeando em movimentos felinos, numa evocação vaga de danças de outras eras. oi então que pintei os primeiros batuques e o rio Cuanza, que se deixa escorrer, manso e manso, pelo meio da païsagem [sic], como fita de chumbo derretido brilhando ao sol.

 

Ao acabarmos a nossa volta pela Quissama, dirigimo-nos para o sul: Vila Luso, no planalto de Benguela... Havia, por lá, uma païsagem [sic] frouxa de savana arborizada, areia, um sol pálido como o daqui, e frio, muito frio. Pelas anharas verde sujo, há paus mortos, tortuosos, vestidos de negro pelo fogo das queimadas, e morros de salalé recortando, no ar, as suas avermelhadas e imprevistas silhuetas. Os paúis têm limos acinzentados, e à tona da água, nenúfares abrem corolas branco e ouro, espreitando, como a mêdo [sic], por entre os canaviais de um verde deslavado.

 

As senzalas são mal feitas, e paira, em tôdas [sic] elas, um cheiro enjoativo – misto de fuba azêda [sic], óleo e suor. Há sempre um «brouhaha» confuso de batucadas, de negrinhos piolhosos gritando, de mulheres cantando aos filhos rabugentos, de «caniques» em loucas corridas atrás de bacorinhos atrevidos, de cães e galinhas misturados a granel. Existem, lá, «muxiques» – feiticeiros bailarinos, com máscaras de pesadelo, ìntimamente [sic] ligados às cerimónias rituais e misteriosas da «mucanda». Pintei alguns quadros tendo como motivo queimadas e inúmeros estudos sôbre [sic] as danças dos muquixes «tchókué».

 

O último lugar que percorri foi a circunscrição dos Dembos – lugar de encanto, nevoeiro e café. Floresta! Árvores crescem desmedidamente da umidade [sic] sombria, roubando o sol à terra côr [sic] de sangue. Lianas sôfregas de luz lutam, buscando estrangular-se recìprocamente [sic]. Os Dembos, reis negros, outrora poderosos senhores de «guerras» do gentio, conservam, ainda hoje, a sua velha e pitoresca indumentária: boina de ráfia bordada, capa vermelha e azul, a arrastar, e um alarde de velhas espadas ferrugentas, espantando os ecos, telintando [sic] pelas pedras do caminho.

 

Há, também, nevoeiros viscosos, esverdeados, que se agarram à terra, envolvendo tudo como gigantescas medusas gelatinosas. Pintei, lá, montes semi-ocultos por véus de nevoeiro, e alguns Dembos arrastando, arrogantes, suas velhas capas..."

 

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