29.11.25
Felipe Nery - Rumores da Lunda
blogdaruanove
Felipe Nery (datas desconhecidas), Rumores da Lunda (s. d. [D. L. 1961]).
Quase nada se sabe sobre o autor, excepto que viveu e trabalhou na Lunda, Angola, entre as décadas de 1930 e 1950. Sabe-se ainda que foi amigo de José Redinha (1905-1983), estudioso da etnologia da província da Lunda Norte, célebre pela sua produção diamantífera, e promotor do seu museu, que assina o prefácio desta edição.
Embora esta edição não esteja datada, podemos constatar que o prelúdio de Redinha está datado de 1950 e a introdução, de Nery, de Julho de 1960, sendo que o depósito legal é do ano seguinte.
Felipe Nery reúne, neste livro, trinta e um poemas e sete crónicas, onde se registam olhares diversificados sobre a vivência e o sentir que experimentou durante a estadia na região. Poder-se-á argumentar que a sua poesia é superficial e está repleta de lugares comuns, mas a verdade é que traduz um profundo fascínio pela região e pelos seus povos, roçando ainda o neo-realismo na sua abordagem das injustiças a que estão sujeitos os trabalhadores e os desfavorecidos.
Transcrevem-se, de seguida, quatro poemas deste volume.
"ESCORÇO
Selva brava, terra de gentios,
de capins agrestes e rasteiros escalrachos,
onde serpenteiam caudalosos rios
e é múmura e fresca a água dos riachos
Nos moxitos, verdecidos e velados,
campeiam feras, cruas e arteiras:
ruflam asas - que são bandos alados
sobrevoando as cristas das palmeiras.
O sol doira a chã em cores ardentes
de planície fulva e infecunda...
À tarde, descem breves os poentes
a incendiar a misteriosa Lunda!
NÁCONDE - PRINCESA LUNDA
Bailarina negra, genial escultura,
que a voz do vento faz rodopiar.
Ó feiticeira, cor de noite escura!
Corpo de ébano feito para dançar!
Como ave sacudindo as penas,
fremes as ancas fartas, sensuais.
Ó princesa das lúbricas luenas!
Ó rainha de negras bacanais!
«Tchisanjes» gemem, vazam melodias,
que modulam o teu passo ritmado
pontificando nas pagãs orgias.
O «tchingufo» ressoa em vibrações,
que agitam o teu corpo requebrado
em frémitos de desejos e paixões.
O RIO LUACHIMO
Em seu leito coleante,
caprichoso,
entre margens frescas,
verdejantes,
nimbadas de mistério,
desliza triunfante e rumoroso
seu caudal maravilhoso
de águas mansas,
claras,
azuladas,
que turvam, avolumam,
e embravecem, assustadas,
ao sabor do vento,
e no momento
culminante das trovoadas.
O MINEIRO NEGRO
Lá muito longe, na sanzala tosca,
feita de madeiros, coberta de capim,
decorria a sua vida inerte,
vegetativa e rotineira.
Bastavam-lhe frutos, raízes,
e o sumo da palmeira.
A carne ele a caçava:
tinha sempre, alià mão,
a zagaia, e a velha lazarina,
de pederneira...
Ia contando, erradamente, os anos
pelas chuvas e os meses pelas luas.
Estendido sobre a terra deixava,
deleitado, os raiso do sol
penetrar-lhe as carnes
negras, nuas!
E em noites de batuque,
lascivo e estonteado,
ele cantava e dançava,
dançava toda a noite
até ficar cansado.
Mas tinha por pagar o justo imposto
à grei, ao Estado,
e numa manhã viscosa e fria
resolveu ser contratado.
Lá vai calcorreando trilhos.
Leva sobre a cabeça todos os seus haveres
e canta, canta sempre:
«Mãma iá mim. Mãma iá mim».
seguem-no a mulher e os filhos.
Rodam máquinas e vagonetas.
Flectem os corpos e as alavancas.
Erguem-se as pás e as picaretas
fendendo a terra e o cascalho!
Tanto trabalho!
Tosta-lhe a pele o sol impiedoso,
ferem-se-lhe as mãos a manejar o aço,
a revolver-lhe a terra nas suas entranhas.
Há manchas negras, movediças,
desafiando o espaço,
a derribar barreiras e montanhas!
Tressuam os corpos.
Estátuas de bronze em movimento
erguem os braços.
E as picaretas, marcando o tempo,
fendem a terra.
As pás de ferro descrevem arcos
no seu vaivém e a terra voa
brilhando ao sol que cai a pique.
As alavancas, cavando fundo,
ferem a rocha que se desfaz!
E o mineiro negro, pigmentado,
de dorso nu, duro e face prognata,
volta à libata,
obreiro obscuro
e ignorado.
O DRAMA DOS DIAMANTES
Os morros de Maludi são vermelhos,
são parábolas de Averno.
Os negros que os derribam são negros.
São negros mas são homens.
Os morros se esboroam sangrando
e a terra vermelha rola até ao canal
impelida pela água jorrante
e pelas bagas de suor dos negros.
Por vezes, os negros rolam também
e a mesma terra vermelha os sepulta.
Em baixo, no sopé do monte que parece inferno,
a faixa irregular e sinuosa do cascalho
esconde, ávida, as pedras lucilantes.
Mas, nas Metrópoles «snobes» e distantes,
Maludi é conhecido apenas pelos letreiros
colocados sobre gemas
nas montras faustosas de ricos joalheiros!"
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