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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

17.07.25

Orlando de Albuquerque - Sôbre o Vento Noroeste


blogdaruanove

 

 

Orlando de Albuquerque (1925-1997), Sôbre o Vento Noroeste (1964).

 

Orlando de Albuquerque, médico moçambicano radicado em Angola e marido da médica e poetisa Alda Lara (1930-1962), havia publicado, até este ano, quatro obras, entre as quais Batuque Negro (1947), que se indica neste volume estar proibida.

 

Para além das três obras que já se indicaram anteriormente (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/4664.html), publicara também um livro de crónicas, intitulado A Casa do Tempo (1964).

 

O presente volume encontra-se subdividido em três secções, Cantares, Consolança e Asfalto, apresentando trinta e sete poemas datados de anos que decorrem entre 1960 e 1963.

 

De todos estes poemas, apenas um, Chove Insistentemente, se relaciona explicitamente com África, pelo que se transcreve aqui, em conjunto com dois outros de registo bem distinto, sendo que o último até poderá sugerir uma certa ironia premonitória:

 

CHOVE INSISTENTEMENTE   [1960]

 

Chove insistentemente

com a persistência bruta

das coisas tropicais...

 

Jamais

consigo identificar-me com a chuva

nesta minha África abandonada.

 

Todo o instante é fugaz, é nada

perdido no oceano dos desejos

e ansiedades.

 

Possa a verdade

ainda um dia vir à tona da água

e sejamos nós, então, realidade

mesmo à custa da nossa mágoa.

 

ESPANHA   [1961]

 

Junto à trincheira

duma qualquer praça de touros

– ai Espanha! –

a angústia é companheira...

 

Trinta e sete carabineiros

trinta e sete balas dispararam

e trinta e sete corpos vararam...

 

Naquela manhã de Outono

o sangue tingiu a arena

de vermelho,

sem leões nem gladiadores...

 

Numa qualquer praça de Espanha

trinta e sete tiros soaram...

 

A IRONIA DOS CRAVOS VERMELHOS   [1963]

 

Mãos colheram para um outro destino

já adivinhado nos olhos fundos

cheios de mágoa e pressentimento.

Mãos que souberam afagar e se traíram

no destino inconfessado das carícias,

que não podem ser negadas.

Mãos pendentes em desengano

e desalento arrependido

mas sem coragem,

a coragem do vermelho das vossas pétalas,

que hoje restam em ironia

de ser...

 

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