Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

06.03.21

Rui Knopfli - Mangas Verdes com Sal


blogdaruanove

 

Rui Knopfli (1932-1997), Mangas Verdes com Sal (1969).

Capa e ilustração de António Quadros (1933-1994).

 

Este quarto livro de Rui Knopfli representará, porventura, a sua obra mais consistente e convincente, reunindo um conjunto de poemas escritos entre 1963 e 1969. Tal cronologia reflecte-se na organização do volume, que se encontra dividido em quatro livros – Nunca Mais é Sábado, com poemas de 1963, Maxila Triste, com poemas de 1964 e 1965, O Dente do Siso, com poemas de 1966, e O Passo Trocado, com poemas de 1967, 1968 e 1969.

 

Para além do intrínseco valor da poesia em plena maturidade de Rui Knopfli, este livro apresenta ainda um interesse acrescido, consubstanciado no prefácio crítico de Eugénio Lisboa (n. 1930), do qual se efectua abaixo uma longa transcrição de alguns parágrafos, em duas passagens distintas:

 

"Pediu-me Rui Knopfli este disparate: que juntasse, à guisa de prefácio, ao seu livro que agora se publica, duas linhas sobre a tão falada quão antologiada (cá dentro e lá fora) Poesia de Moçambique. O disparate é juntar ao livro de um poeta conhecido, três linhas de um prefaciador desconhecido. Mas o Rui lá sabe as linhas com que se cose e eu suponho que também começo a saber.

Houve da sua parte três partes de generosidade e uma parte de maldade. A generosidade, sabe-se porquê; a maldade, digo eu porquê. O Rui sabe há muito o que penso deste tão falado (quão embrionário) fenómeno, que é ainda a Poesia em Moçambique: o que tenho dito e escrito das antologias dos Srs. Alfredo Margarido e Luiz Forjaz Trigueiros e também das prosas altamente adjectivantes do Sr. Amândio César. Creio que umas valem mais ou menos bem as outras. E ao convidar-me para vir aqui, livremente, debitar o meu vinagre milenário, delega, desta vez, noutro, o impopular de que já ocasionalmente se tem desempenhado: dizer aos nossos divulgadores metropolitanos que a Poesia em Moçambique é outra coisa, que a Poesia, mais simplesmente, é outra coisa; que se deixem disso, se o fenómeno literário os não interessa sèriamente [sic] como literatura (ainda que possa também, sem inconveniente de maior, interessá-los como outras coisas): dizer ao Alfredo Margarido que se lembre do Alain que afirmava ser a Poesia «uma forma de fazer e não uma forma de pensar; [sic] que «a literatura social é apenas uma espécie de literatura e não é o núcleo da literatura»; que a representatividade social de um poeta não é medida da sua grandeza poética visto que, se o fosse, era o Joaquim Namorado, por representar «mais gente» do que o Antero ou o Pessoa, por certo maior poeta que o Antero ou o Pessoa; que é por isso escandaloso num prefácio de vinte e duas páginas, que antecede uma antologia de «Poetas de Moçambique», dedicar a Reinaldo Ferreira uma fracção de um parêntesis de uma linha, a pretexto de que este Poeta (juntamente com Glória de Sant'Anna) «se divorcia dos problemas imediatos», quando, no mesmíssimo prefácio arrasta um Fernando Ganhão, de cuja existência poética ninguém se apercebe, ao longo de quatro suculentas páginas onde de tudo se fala menos de Poesia; que a Noémia de Sousa é um mito que não vale a pena manter de pé, por mais simpatias que possam merecer as boas intenções dos seus poemas tão prolixos como balbuciantes. E dizer, por outro lado, aos Srs. Amândio César e Luiz Forjaz Trigueiros – e saindo um pouco da Poesia para o da Literatura, em geral – que nenhum intelectual sério, em Moçambique, pensou jamais em atribuir a mais pequena importância a nomes como os dos Srs. Rodrigues Júnior (prosador carregado de prémios, viagens, congressos e comendas) ou Guilherme de Melo (poeta e prosador, com edições na Metrópole, prémios de literatura e de popularidade e publicidade gratuita na TV). Que, do ponto de vista da literatura e da inteligência, tão estúpido é promover o Malangatana Valente a poeta (e traduzi-lo e antologiá-lo em inglês), como pretender-se que o Sr. Rodrigo Emílio (o da «Confluência») seja, para além de poeta, um «duro». E que tão mau é o Guilherme de Melo, reaccionário e delicodoce, como o fulano de tal, viril e auroral. Tudo diferentes maneiras de estar fora da literatura que não sabem o que seja e que não sabe quem eles são. Tudo maneiras de errar o alvo que não está nunca, por acaso, no sítio que eles visam.

Creio que foi um pouco para dizer as sábias gentilezas que acima se registam, que o Rui Knopfli me pediu, mefistofèlicamente [sic], para juntar ao seu nome de criador, o meu de arranhador. Sem vantagem visível para nenhum de nós: ele porque só tem a perder com a vizinhança, eu, porque nem o reflexo do seu nome servirá nunca para apagar a impopularidade compacta do monólogo teimoso e malcriado que é meu hábito debitar..."

 

 

Como se depreende, este excerto ajudará também a compreender alguma da marginalização editorial e crítica a que esta obra de Rui Knopfli foi sujeita, particularmente se atendermos à subtil alfinetada que Eugénio Lisboa endereçou a Luís Amaro (1923-2018), e à editora com a qual este colaborava, a Portugália, na dedicatória de um exemplar que lhe ofereceu: "Ao Luis Amaro / este livro que a Portugália / não chegou a editar... / Abraço amigo do / camarada / Eugénio Lisboa / L. M., 1969".

 

Mas Eugénio Lisboa continuou ainda, neste prefácio, a sua exegese crítica, promovendo o elogio e o destaque de poetas e da produção literária que considerava corresponder àquilo que entendia ser Poesia:

 

" (...) Eis precisamente o que proponho em relação à arte: que se esqueçam as «escrituras» (do Margarido e de outros), que se deixe a arte livre de ser aquilo que puder ser, se contemple o universo das imagens sem preconceitos de qualquer espécie – só assim mereceremos saber o que ele nos sugere, só assim ele nos revelará a pluralidade infinita de manifestações que integra e de que, em relação à Poesia (um dos subconjuntos desse universo), colhemos um eloquente inventário neste belo texto de Octávio Paz: «A poesia», diz-nos o grande poeta e ensaista mexicano, «é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a actividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos nossos eleitos; alimento maldito. Isola; Une. (...)»

Eis um belo inventário, provàvelmente [sic] incompleto ainda, mas, em qualquer caso, capaz de abarcar, sem esquecimentos escandalosos, as direcções mais diversas. «Voz do povo», «voz colectiva» – e caberão aqui alguns belos poemas de um Craveirinha, caberiam também (se a língua lhe chegasse) alguns poemas da Noémia de Sousa, caberá ainda o pouco, pouquíssimo, que até agora fez um Rui Nougar, como caberá – já um pouco na transição – essa «voz colectiva (e mais vigiada) [sic] desse poeta cheio de dignidade recolhida que é Orlando Mendes (tão pouco citado, tão imerecidamente preterido por outros de interesse poético infinitamente menor...); mas também «língua dos eleitos» – e aqui vemos incluirem-se um Reinaldo Ferreira, uma Glória de Sant'Anna, um Rui Knopfli, um Sebastião Alba, um Fernando Couto, um Jorge Vila, um Nuno Bermudes, um Fonseca Amaral, um Ilídio Rocha, um Lourenço de Carvalho, uma Ana Maria Barradas, uma Maria Rosa Colaço e, se quisermos (porque não?), um Alberto de Lacerda ou um Vítor Matos e Sá... (...)"

 

 

A consistência desta obra reside no facto de Rui Knopfli prosseguir e aprofundar aqui uma abordagem poética e literária que se «divorcia dos problemas imediatos», uma abordagem que, apesar do que o tropical e exótico título poderia prenunciar, evita cair no estéril e inconsequente exotismo da temática ultramarina ou mesmo na etnografia disfarçada de irreverente ou contestatário registo poético.

 

Do mesmo modo que Knopfli reafirma aqui a universalidade da sua poética e a consistência de uma gramática poética personalizada, envereda também, surpreendentemente, pelo ensaio de novos paradigmas, particularmente no que diz respeito ao Concretismo.

 

No entanto, torna-se óbvio que, subjacente a estes novos ensaios poéticos, se encontra um olhar irónico e algo mordaz sobre o Concretismo, como no caso de Poemazinho concretista inspirado em João de Deus, / primeiro poeta dito, com vista aos leitores / (adultos) das primeiras letras, inserido no livro primeiro, ou de Concretista, inserido no livro terceiro.

 

Transcrevem-se de seguida dois poemas inseridos no livro quarto, O Passo Trocado, que inclui textos escritos entre 1967 e 1969:

 

O PRETO NO BRANCO

 

Da granada deflagrada no meio

de nós, do fosso aberto, da vala

intransponível, não nos cabe

a culpa, embora a tua mão,

armada pelo meu silêncio,

lhe tenha retirado a espoleta.

De um lado o teu indicador,

de outro a minha assumidade neutralidade.

Entre os dois, ocupando o espaço

que vai do teu dedo acusador

à minha mudez feita de medo e simpatia,

tudo quanto não quisemos, nem urdimos,

tudo quanto a medonha zombaria

de ódios estranhos escreve a sangue

e, irredutìvelmente, nos separa e distancia.

Tudo quanto há-de gravar o meu nome

numa das balas da tua cartucheira.

Nessa bala hipotética, nessa bala possível

que se vier, quando vier (ela há-de vir)

 

melhor dirá o que aqui fica por dizer.

 

 

DISPARATES SEUS NO ÍNDICO

 

Depois de tão longo silêncio pedes-me notícias.

Que dizer, conjecturo, por notícias, 

a quem os anos separaram irreparàvelmente?

Que, adiposo e surdo, o verão é como

os da nossa infância, mas que o suportamos

pior, agora que se acentuam as rugas da testa,

embora o aligeirar das roupas nas raparigas

ainda acorde em nós o mesmo latejar de virilhas.

Que, pelos arrastados e emolientes fins de tarde,

sob o que sobra do hálito infernal,

ainda emparceiro com o Zé Craveirinha,

o branco e o mulato, verso e anverso

do mesmo quotidiano – diria o Carlos

– na ronda crepuscular do cio, falando eu,

irrequieto e gauche, pelos cotovelos, enquanto

ele, calado, roda na paisagem o olhar

sorna de crocodilo agachado no canavial.

Que, na argamassa complicada da cidade,

redobram os esculcas para as nossas cautelas

redobradas. Que o tempo se demora

em nossos gestos e nas palavras ciciadas.

E que o redimem as pernas altas e morenas

das adolescentes nos passeios e esplanadas.

Que, para além disto, se faz, intermitente

e sem convicção, a mesma política rarefeita de afogados,

se urdem programas e papéis esperançosos,

que os mais válidos têm sempre a coragem

de nunca assinar, pois nunca se lhes afiguram

bastante progressivos (e está salva a honra do convento!).

E que assim se desencadeia, de ordinário, 

o ordeiro desagravo de muçulmanas comunidades,

asiáticas associações de benemerência

e de outras congéneres e afins. Que este

prolongamento doirado e nebuloso que excede

o extinto fulgor das caravelas é um muro

de silêncio e torna nossos gritos em grotescas

caricaturas de som. Que um cancro de areia

e letargo nos corrói, implacável, músculos e tendões

e uma paralisia sufocante se nos instila

pelo tenso cordame dos nervos em vibração.

Que se luta e morre à margem da nossa renúncia

e que a paixão é inescrutável na aparente serenidade dos rostos.

Que, todavia, há sempre bobos e piruetas à mesa do rei,

sobre que tombam o cristal das gargalhadas e mots d'esprit.

Que a minha solidão e a de meus amigos

(a parte negativa e incorrupta deste mundo),

incómoda como dor de dentes, é um bem inestimável.

Que, preservando a ardência árabe dos olhos,

já conservo a fralda da camisa dentro das calças

e tornei-me esquisito nas gravatas, nos sapatos,

nos botões de punho, nas marcas de uísque e de conhaque.

Que mantenho imperecível a fidelidade ao Amor

escamoteando-a, contudo, à cousa amada.

Que, a propósito, o racismo é agora encapotado

e confortável, residindo nos sorrisos múrmuros

e nos olhares cúmplices que se trocam em público.

Que, enfim, sob a máscara do sono e da hipocrisia,

a natureza se refaz no ciclo indiferente das estações

e que, sobre nós, fina, grave e imperceptível,

cai uma poeira antiga de esquecimento.

 

© Blog da Rua Nove

07.06.16

Miguel de Noronha de Paiva Couceiro - Diu e Eu


blogdaruanove

 

Miguel António do Carmo de Noronha de Paiva Couceiro (1909-1979), Diu e Eu (1969).

 

O autor, que também criou a ilustração para a capa e os 21 desenhos a preto e branco que surgem extra-texto, exerceu as funções de governador de Diu entre Agosto de 1948 e Julho de 1950.

 

Do capítulo Hospitalidade Indiana transcrevem-se alguns parágrafos:

 

     "Em Goa, grandes povoações que nós chamaríamos vilas, designam-se por aldeias e, coaldeanos se consideram os que lá nasceram. Boa metade dos Goeses luta pela vida longe do berço em que se criou e só, de longe em longe, as grandes festividades familiares os reunem no seu ninho paterno: os casamentos, os baptizados – também os funerais, pois, como se diz em Espanha, «el muerto al hoyo y el vivo al bollo». À roda da mesa sólida, a família se congrega, na casa de jantar imensa. E lá correm os sarapateis, os xacutis, a bebinca, etc. – eu tive a ocasião de seguir este ritual fagueiro em Chandor, em casa do meu amigo Francisco Egídio Fernandes e apetecia-me lá voltar enquanto as enzimas trabalharem a preceito!

 

Nas grandes mansões, àparte, está a casa de hóspedes, aonde as suas comodidades são atendidas, respeitando escrupulosamente os hábitos peculiares de cada um. No «Manaranjan», em Junagadh, mantinham-se a posto três cozinheiros, um Hindu, outro Muçulmano e o terceiro Cristão, e nunca chouriço, nem orelheira, iriam macular a mesa do leitor do Corão!

 

Fui, com o Comandante Luís Cardoso, visitar o Visconde de Pernem, aos seus domínios lá para os confins nortenhos de Goa. Recebeu-nos fidalgamente, envergando o seu «pudvem», e mostrou-nos a vasta residência, os longos aposentos, deslumbrando-nos com os arreios do seu elefante de cerimónia, tauxiados de prata. Ainda que na cavalariça – aliás elefantariça – faltasse o paquiderme, sacrificado a algum motor de explosão.

 

E apareceu-nos outro palácio: «a casa de hóspedes», explicou o Visconde. «Quantos pode alojar?» – perguntei. «Quatro», foi a resposta sucinta e insisti: «quatro pessoas?!» – «Não, quatro famílias». E, para quem conheça a extensão das famílias indianas, a resposta é elucidativa.

 

Mostrava-nos os seus jardins e, de súbito, aponta para o que me parecia qualquer roseira mal cuidada, dizendo, perentório: «hortaliça – quiabos». Eu tinha chegado na véspera do Chiado e não vinha disposto a engolir a primeira história de cobras que me quiséssem impingir. Já andava desconfiado com a do visconde que, ao meio-dia, me aparecia embrulhado no que, a mim, me parecia um lençol de cama... De modo que aceitei polidamente mais esta da hortaliça, sem a tomar demasiadamente a sério.

 

Mas vim a verificar, mais tarde, que os tais quiabos, bem refogados, são o melhor acompanhamento dum caril e o Visconde de Pernem pagara os direitos de mercê e, de turbante e jóias, tinha um dia esmagado os mirones de Lisboa!"

 

© Blog da Rua Nove

22.03.16

Ruy Burity da Silva - Cantiga de Mama Zefa


blogdaruanove

 

Ruy Burity da Silva (n. 1940), Cantiga de Mama Zefa (1969).

 

Nascido no Lobito, o autor estudou no Ambriz e posteriormente em Nova Lisboa (actual Huambo). Nesta cidade frequentou a Escola Industrial e Comercial de Sarmento Rodrigues, onde foi galardoado por um poemeto intitulado Natal, que ali foi depois declamado precisamente num recital natalício.

 

Em 1963 passou a integrar o Centro Juvenil de Estudos do Huambo, departamento dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Nova Lisboa, que veio a promover a publicação de uma página quinzenal no jornal O Planalto, um programa semanal no Rádio Clube do Huambo e a criação de boletim interno destes serviços.

 

Em 1964 ganhou os Jogos Florais de Nova Lisboa, com o poema Marimba, tendo-se mudado para Lisboa em Dezembro, onde passou a trabalhar nos Serviços Culturais da Companhia de Diamantes de Angola. No ano seguinte reuniu a sua poesia, escrita entre 1955 e 1960, no livro Ochandala, assinado Ruy Silva e publicado em Nova Lisboa.

 

Posteriormente, veio a  integrar a equipa que promoveu a exposição A Arte de um Povo de Angola – Quiocos da Lunda, que decorreu em 1966 na Casa do Infante, no Porto.

 

Para além de artigos dispersos nos jornais O Planalto, de Nova Lisboa, A Província de Angola, de Luanda, Jornal do Comércio, de Lisboa, e Alvorada, da Lourinhã, colaborou também no Boletim da Agência-Geral do Ultramar.

 

Em 1969 anunciava-se a publicação do seu volume de poemas Foi Assim..., que acabou por sair em 1971 com chancela da Sociedade de Expansão Cultural, e a preparação do volume ...Também Já Fomos Um, de que não foi possível encontrar qualquer registo. 

 

É provável que a eventual fixação de residência do autor em França, ocorrida ainda antes do 25 de Abril de 1974, tenha motivado a não publicação deste último livro. Há notícia, que não foi possível confirmar, de que o autor terá regressado a Angola depois de 1974.

 

Do presente volume transcrevem-se dois poemas, Ndongo e Cantiga de Mama Zefa:

 

NDONGO

 

Dos vales e das montanhas. Dos mares e dos rios. Das florestas e savanas...

Lembranças de saudade.

Onde chingufos mil se elevam em uníssono com 

o matraquear estonteante dos carros que passam.

Lavas de pranto incandescente se erguem das sonatas doloridas dos quissanges.

O silêncio.

O universo aberto em espaços infinitos onde saltam ridentes cores em simbiose.

Um dongo sulcando águas revoltas de rio escuro de cantares sombrios.

Música.

Caravanas cruzando estradas em passos arrastados de fadiga.

Música.

Até no choro profundo dos vivos em homenagem

derradeira aos mortos que partem há música.

Letras de alegria.

Letras de lágrimas ardentes.

 

Poesia estranha de estranho poeta que ninguém 

conhece. Para lá dos seus poemas que existem, tudo é silêncio.

E indago:

Quem és tu estranho poeta que cantas os vales,

As montanhas, os mares, os rios, as florestas e savanas?...

Silêncio!

Cantas e  teu povo canta também.

Vibras e vibram contigo almas estranhas

que guardam segredos fecundos de vidas passadas.

No anonimato em que persistes vives constante.

Pertenças ao presente, ou ao passado.

Morto, ou vivo.

Existes sempre presente no eco repetido dos teus

cantares e na sonata triste dos tocadores de quissanje.

 

 

 

CANTIGA DE MAMA ZEFA

 

Ainda me lembro dela

matrona forte desengonçada

tinha sempre uma oração nos olhos

uma canção nos lábios grossos

 

dorme menino dorme

oh! oh! oh! oh! oh!

cazumbi não está vir

mama Zefa tá lh'olhar

 

tinha ciúme do menino

de quem mama Zefa falava com paixão

um dia perguntei com ansiedade

se o menino seria assim como eu

 

mama Zefa olhou-me tristemente

e com lágrimas na voz cantou

– não fala assim meu menino

Deus não faz filho mulato

 

Veja-se um comentário a este livro, destinado a ser gravado em 12 de Novembro de 1969, para o programa literário da Emissora Nacional intitulado Horizonte, da responsabilidade de Amândio César e Mário António, e a transcrição de um outro poema do autor, aqui: http://museu.rtp.pt/app/uploads/dbEmissoraNacional/Lote%2041/00014007.pdf.

 

© Blog da Rua Nove

27.02.10

Costa Alegre


blogdaruanove

 

Lopes Rodrigues (n. 1928), O Livro de Costa Alegre: O Poeta de São Tomé e Príncipe (1969).

 

A obra poética de Caetano da Costa Alegre (1864-1890) foi compilada postumamente no livro Versos (1916), cuja edição foi promovida pelo seu antigo companheiro e amigo Artur da Cruz Magalhães (1864-1928). À edição original seguiram-se três edições, em 1950, 1951 e 1994, sendo esta última publicada pela IN-CM.

 

Conjuntamente com as temáticas do amor e da morte, características de alguma poesia da época, Costa Alegre desenvolveu ainda uma temática associada à sua negritude e também a São Tomé.

 

Aluno da escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, Costa Alegre acabou por falecer em Alcobaça, vítima de tuberculose. O futuro presidente da República, Bernardino Machado (1851-1944) encontrava-se entre as pessoas que transportaram o féretro, sendo o funeral uma grandiosa manifestação de pesar, conforme relatou o jornal Commercio de Portugal, de 21 de Abril de 1890:

 

"Atraz da carreta seguia se uma grande deputação da escola naval, levando um dos seus alumnos, sobre uma almofada coberta de crepe, a espada e o bonet do desditoso poeta. Immediatamente depois incorporaram-se todos os seus collegas e amigos, sendo o prestito formado por mais de mil pessoas!"

 

Os restos mortais de Costa Alegre foram depositados no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, onde já tinham sido depositados os restos de Gonçalves Crespo (1846-1883), poeta e negro como ele, e foram depois depositados os restos mortais da esposa deste último, Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921).

 

No entanto, apenas os restos mortais dos dois últimos foram posteriormente trasladados para o Jazigo dos Escritores.

 

 

Da obra de Costa Alegre transcrevem-se uma quadra e o poema Visão:

 

  "Se os escravos são comprados ,

   Ó branca de além do mar,

   Homem livre, eu sou escravo,

   Comprado por teu olhar."

 

   VISÃO

 

  "Vi-te passar, longe de mim, distante,

   Como uma estatua de ebano ambulante;

   Ias de luto, doce tutinegra,

   E o teu aspéto pesaroso e triste

   Prendeu minha alma, sedutora negra;

   Depois, cativa de invisível laço,

   (O teu encanto, a que ninguem resiste)

   Foi-te seguindo o pequenino passo

   Até que o vulto gracioso e lindo

   Desapareceu longe de mim, distante,

   Como uma estatua de ebano ambulante."

 

© Blog da Rua Nove

12.02.10

Cartaxo e Trindade - Chinanga


blogdaruanove

 

Cartaxo e Trindade (1945-?), Chinanga (1969).

 

Autor que, com a sua obra e com as suas opções de vida, radicalmente concitou ora concordância ou discordância, ora acaloradas amizades ou inimizades, Cartaxo e Trindade  viveu vários anos em Moçambique, tendo vindo a exercer o cargo de assistente universitário de Filologia Românica em Lisboa, durante o início da década de 1970. Sendo no final dessa década um militante da amizade e do intercâmbio com o mundo árabe (era entusiasta defensor da singularidade da via política e cultural então iniciada pela Líbia) veio a falecer vítima de SIDA, em data que não foi possível precisar. 

 

Antes deste volume, tinha Cartaxo e Trindade publicado os livros de poesia Leve Aragem das Noites (1966), Treze Poemas Medievos (c. 1967) e 3.º Sexo Seixo (1968), anunciando-se em Chinanga o aparecimento para breve da Antologia da Novíssima Poesia de Moçambique e de Saudade Ronga (poesia), obras que, contudo, não se encontram referenciadas na B.N.L.

 

O seu livro Chinanga é dedicado a doze poetas e poetisas de Moçambique, que o autor classifica como os "novos das letras de Moçambique". Entre eles, encontra-se Luís Bernardo [Honwana (n. 1942)], a quem dedicou o poema Mamana, M'Chovane e Eu, cuja primeira estrofe é a seguinte:

 

   "aperto em meus braços de solidão

   a velha aldeia no monte de micaias

   m'chovane de algumas cantinas

   ermo cerrado flores negras

   estrada de terra batida

   onde o sol doura o doirado do orvalho santo

   as palhotas ficam metidas entre os arbustos

   e o capim cresce entre a terra e a lua(...)"

 

Este discurso escrito, isento de maiúsculas e de qualquer pontuação e por isso próximo da oralidade, já tinha sido levada a outros extremos, conjugados com um aparente caos discursivo, no seu anterior livro, 3.º Sexo Seixo, o qual atingiu uma segunda edição ainda em 1968 e veio a ser compulsoriamente retirado do mercado pouco depois.

 

A produção literária de Cartaxo e Trindade, assumidamente diferente e conscientemente candidata à marginalização na época em que foi publicada (note-se a dedicatória a Honwana, activista da Frelimo que havia estado encarcerado entre 1964 e 1967), surge como uma tentativa clara de dar voz à vivência negra na temática africana, insistindo no uso de léxico particular das várias etnias moçambicanas.  Mas esta característica, que não era exclusiva da literatura deste autor, surge acompanhada de uma proposta de inovação discursiva que remete claramente para um ensaio de modernidade literária na literatura colonial portuguesa. Este aspecto, que já tinha sido ensaiado na prosa durante essa década, particularmente em Angola, não tinha ainda sido consistentemente aplicado na poesia e surge como singular contributo do autor para a literatura colonial portuguesa de Moçambique. 

 

© Blog da Rua Nove

10.02.10

Maria Teresa Galveias - Ivuenu!


blogdaruanove

 

Maria Teresa Galveias (n. 1933), Ivuenu (1969).

 

Tendo publicado em 1959 o seu primeiro livro, Fronteira, Maria Teresa Galveias veio a ganhar com Ivuenu o prémio literário Camilo Pessanha 1967, da Agência Geral do Ultramar.

 

Um conjunto de poemas que evoca claramente alguma influência do volume Mensagem (1934), de Fernando Pessoa (1888-1935), (vejam-se os poemas D. Dinis, Chaimite, Colono, Padrão e Monumento dos Descobrimentos) Ivuenu veicula uma ideologia que se encontra em perfeita sintonia com a política e o discurso do Estado Novo, particularmente nos poemas Irmão Negro (Vem, meu irmão, / De olhar submisso e calmo, / Com primitiva e sã ingenuidade, / Vem, meu irmão, / Que em Deus e Portugal / É que hás-de ser homem de verdade!) e Raça (Irmãos somos nós todos, / Os descendentes de santos e heróis, / Negros ou brancos, brancos ou mestiços, / Se somos portugueses / Que importa, pois?) e também no poema Eva-Mulata, um hino à mestiçagem.

 

Apesar de esta consonância geral, Ivuenu surge pontuado por poemas que podem permitir leituras dissonantes, como Poema a um Poeta Negro, que se transcreve na íntegra:

 

   Não deixes de cantar,

   Que a tua voz

   Há-de ficar no coração dos homens,

   Há-de abafar os tiros dos canhões,

   Há-de soar na vástica distância!

   Não deixes de cantar.

   Que o teu apelo

   Há-de cruzar o mundo, lés a lés,

   Há-de ampliar-se em ecos repetidos,

   Enchendo o próprio céu de ressonância.

 

Uma leitura geral do volume permite-nos, ainda, encontrar nos títulos dos poemas uma clara homenagem aos povos africanos, suas tradições e culturas (Calema, Kandumbo, Batuque, Ivuenu, Embondeiro), mas também referências a um eventual conceito político de especificidade e unidade atlântica da África Ocidental (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Poema de Angola).  

 

 

© Blog da Rua Nove