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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

08.02.21

Revista Atlântico (II)


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Revista número 5, 1944.

Capa de Manuel Lapa (pseudónimo de Manuel Francisco de Almeida e Vasconcellos, 1914-1974).

 

Esta revista do S.P.N. foi lançada em 1941 e teve duas séries, conforme já foi referido, cada uma delas com diferentes dimensões e diferentes opções gráficas. Esta primeira série, com direcção artística de Manuel Lapa, teve maiores dimensões (cerca de 28,2 x 21,2 cm.), um grafismo muito mais interessante do que a série seguinte, como se pode verificar numa anterior publicação deste blog (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/revista-atlantico-i-19333), e uma maior diversidade de artistas colaboradores.

 

Tal diversidade encontra-se exemplificada no presente número, com ilustrações e vinhetas, ou estampas extra-texto, de Bernardo Marques (1898-1962), Cícero Dias (1907-2003), Eduardo Viana (1891-1967), Frederico George (1915-1994), Ofélia Marques (1902-1952), José de Almada Negreiros (1893-1970), José de Lemos (1910-1995), Magalhães Filho (Manuel Maria de Sousa Calvet de Magalhães, 1913-1975), Manuel Lapa, Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), Maria Franco (datas desconhecidas), Miguel Barrias (1904-1952), Neves e Sousa (1921-1995), Noémia (datas desconhecidas), Rachel Bastos (1903-1984), Roberto de Araújo (1908.1969) e Sarah Affonso (1899-1983).

 

É precisamente um texto intitulado Païsagens [sic] de Angola, publicado neste número e da autoria de Neves e Sousa, essencialmente pintor e ilustrador, onde se combinam notas autobiográficas com notáveis descrições literárias de tom etnográfico e paisagístico, a razão que motiva este artigo.

 

Transcrevem-se de seguida alguns parágrafos, os últimos do texto, que se ocupam daquelas descrições:

 

"Na Quissama, tive o que se pode chamar a sensação de estar em África. Não tinha ainda visto lugares tão selváticos. A païsagem [sic], tôda [sic] em ocra e cinzento, grandiosamente nua, esmaga. O céu parece uma bacia de cobre aquecida ao rubro; não há palmo de terra ou fio de capim que não esteja estorricado pelo calor. Desesperados como leprosos, os imbondeiros, enormes e cinzentos, erguem aos céus os braços torturados, retorcidos em contorsões de dor, como que implorando clemência ao sol implacável. Nas senzalas, não há a alacridade do cantar de um galo ou do ladrar de um cão. Apenas o silêncio, um silêncio opaco, que se ouve, pesado como o ar antes das trovoadas.

 

Ouvi, na Quissama, os mais harmoniosos cantares indígenas. Vi raparigas dançando, vestidas de panos azuis; vi outras dançando  pintadas com a tinta encarnada da «tacula», os seios desnudos, as ancas ondeando em movimentos felinos, numa evocação vaga de danças de outras eras. oi então que pintei os primeiros batuques e o rio Cuanza, que se deixa escorrer, manso e manso, pelo meio da païsagem [sic], como fita de chumbo derretido brilhando ao sol.

 

Ao acabarmos a nossa volta pela Quissama, dirigimo-nos para o sul: Vila Luso, no planalto de Benguela... Havia, por lá, uma païsagem [sic] frouxa de savana arborizada, areia, um sol pálido como o daqui, e frio, muito frio. Pelas anharas verde sujo, há paus mortos, tortuosos, vestidos de negro pelo fogo das queimadas, e morros de salalé recortando, no ar, as suas avermelhadas e imprevistas silhuetas. Os paúis têm limos acinzentados, e à tona da água, nenúfares abrem corolas branco e ouro, espreitando, como a mêdo [sic], por entre os canaviais de um verde deslavado.

 

As senzalas são mal feitas, e paira, em tôdas [sic] elas, umm cheiro enjoativo – misto de fuba azêda [sic], óleo e suor. Há sempre um «brouhaha» confuso de batucadas, de negrinhos piolhosos gritando, de mulheres cantando aos filhos rabugentos, de «caniques» em loucas corridas atrás de bacorinhos atrevidos, de cães e galinhas misturados a granel. Existem, lá, «muxiques» – feiticeiros bailarinos, com máscaras de pesadelo, ìntimamente [sic] ligados às cerimónias rituais e misteriosas da «mucanda». Pintei alguns quadros tendo como motivo queimadas e inúmeros estudos sôbre [sic] as danças dos muquixes «tchókué».

 

O último lugar que percorri foi a circunscrição dos Dembos – lugar de encanto, nevoeiro e café. Floresta! Árvores crescem desmedidamente da umidade [sic] sombria, roubando o sol à terra côr [sic] de sangue. Lianas sôfregas de luz lutam, buscando estrangular-se recìprocamente [sic]. Os Dembos, reis negros, outrora poderosos senhores de «guerras» do gentio, conservam, ainda hoje, a sua velha e pitoresca indumentária: boina de ráfia bordada, capa vermelha e azul, a arrastar, e um alarde de velhas espadas ferrugentas, espantando os ecos, telintando [sic] pelas pedras do caminho.

 

Há, também, nevoeiros viscosos, esverdeados, que se agarram à terra, envolvendo tudo como gigantescas medusas gelatinosas. Pintei, lá, montes semi-ocultos por véus de nevoeiro, e alguns Dembos arrastando, arrogantes, suas velhas capas..."

 

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31.01.21

Castro Soromenho - Histórias da Terra Negra (I)


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Castro Soromenho (1910-1968), Histórias da Terra Negra [volume I] (1960).

 

Estas Histórias da Terra Negra reunem em dois volumes, com extra-textos de Alice Jorge (1924-2008) e Júlio Pomar (1926-2018) e vinhetas de Salgado Dias (datas desconhecidas), todas as obras de Castro Soromenho publicadas até então.

 

No primeiro volume, o prefácio do consagrado sociólogo francês Roger Bastide (1898-1974), datado de 1959 e simultaneamente publicado no original francês e na tradução de Mário de Andrade (1928-1990),  desenvolve-se num ensaio crítico de catorze páginas, intitulado L' Afrique dans l'oeuvre de Castro Soromenho, que destaca Castro Soromenho como autor cimeiro da literatura portuguesa em geral e enquadra a sua obra no neo-realismo, em particular.

 

Este prefácio é seguido, neste volume, de dois livros, um dedicado aos Contos e Novelas, onde surgem os textos Samba, Calenga, Os Escravos dos Deuses, Rajada, A Morte da "Chota", A Árvore Sagrada, A Voz da Estepe, Perdeu-se no Caminho e O Lago Enfeitiçado, outro dedicado à Narrativa, onde surge o texto Lueji e Ilunga na Terra da Amizade.

 

Do prefácio de Bastide será talvez interessante destacar duas passagens, uma dedicada à literatura portuguesa, outra à obra de Soromenho.

 

Diz a primeira – "La littérature portugaise a toujours hesité entre deux tendances, une tendence centripète qui la lie à l'Espagne et à l'Europe, lui fait prendre le sentiment de sa responsabilité dans le concert des grands nations du continent, et l'autre, la contre-balançant, une tendance atlantique, qui la jette aux quatre vents de l'aventure et qui aujourd'hui la lie charnellement à l'Afrique. De là l'importance du «roman colonial»".

 

E a segunda – "Mais avec Castro Soromenho, le roman colonial cesse d'être le roman portugais du voyageur, séduit par l'appel de l'océan, l'exotisme des contrées lontaines, envoyant à la métropole une simple série de cartes postales illustrées et pittoresques. Il est celui de l'homme qui s'est enraciné en Angola; qui est y est né une seconde fois; s'est laissé refaçonner par la steppe, la solitude, le soleil et par les deux batouques, celui des hommes noirs dans le village, celui des dieux noirs dans le déchaînement des éclairs et de la pluie."

 

É possível que Bastide não tivesse um conhecimento alargado de diversos outros importantes autores da literatura colonial portuguesa, como Ferreira da Costa (1907-1974) e Henrique Galvão (1895-1970), enquanto paradigmas de narrativas enraizadas na essência africana, ou Manuel Ferreira (1917-1992) e Manuel Lopes (1907-2005), enquanto paradigmas maiores de narrativas neo-realistas, mas o destaque concedido à obra de Castro Soromenho é inteiramente merecido, não só como um dos pioneiros da literatura colonial portuguesa do século XX mas também como um dos mais notáveis escritores da prosa portuguesa de meados desse século.

 

 

Do conto Perdeu-se no Caminho transcrevem-se agora os primeiros parágrafos:

 

"Os homens caminhavam de costas voltadas para o sol, de regresso à aldeia, que a lonjura da estepe não deixara enxergar, mas que eles sabiam alcandorada além à beira de um abismo.

À frente marchavam os caçadores, azagaia ao ombro, passo largo, medindo pela jornada do Sol [sic] o caminho a vencer. À distância de um grito troteavam os carregadores, em longa fila indiana, paus lançados de ombro a ombro, vergados ao peso dos antílopes a escorrerem sangue. Pisavam-lhes as pegadas garotos com balaios à cabeça.

No carreiro, a serpentear pelo capinzal, alongava-se o rastro de sangue da carne morta.

Para além dos passos perdidos, nos caminhos transviados na linha azul da terra longe, o sol [sic] abriu-se em labaredas que, logo, incendiaram o céu para um crepúsculo rápido. No trilho das miradas a galgarem lonjuras caía uma penumbra macia e langue sobre a planície quente.

A voz do caçador que abria o caminho quebou [sic] o silêncio profundo da savana. Todos os olhares bateram o horizonte. Longe, uma coluna de fumo aprumava-se no caminho do céu a ensombrar-se. E os homens estugaram o passo. Queriam chegar à aldeia antes da noite. Ninguém desejava partilhar com leões e hienas, em pleno descampado, o festim da caçada.

Aqueles homens vinham de longe, da terra ensombrada pelo muxito do rio Xicapa. Foi ali, na clareira da pequena floresta aberta pelo rio, que eles surpreenderam a caça. As lanças afocinharam os bichos no seu bebedoiro. Aos gemidos dos animais em agonia os homens juntaram os seus gritos de triunfo.

Depois acenderam fogueiras e acocoraram-se à sua volta. Comeram, mãos e bocas cheias de sangue, nacos de carne mal passada por labaredas. Enconcharam as mãos e beberam água do rio. E fumaram pelo mesmo cachimbo. E falaram em caçadas e mulheres – e riram, riram as suas grandes gargalhadas. Horas depois, a cantarem, dizendo aos quatro ventos que eram quiocos, guerreiros valentes que não temem a morte, embenharam-se na pequena floresta para ganharem de nova a planície de capim amarelo, batida de lés a lés pelo sol chamejante.

E agora estão chegados à aldeia, na boca da noite, anunciando com cantigas bárbaras os feitos da caçada. Com gritos e palmas ritmadas, o povo saúda os seus caçadores, que trazem carne para a grande festa das sementeiras.

Gulo, o mais novo dos caçadores, que há  pouco deixara de ser escravo do soba, é apontado pelos companheiros como o mais valente e esperto na luta com a caça. Com gritos festivos, todas admiradoras se voltaram para ele. E Gulo sorriu aos companheiros.

As mulheres fizeram roda e puseram-se a cantar em louvor de Gulo, o macho valente e belo, que nem do leopardo ou leão tinha medo.

Entre as mulheres que o festejavam o caçador viu Samba, a jovem que lhe fora prometida, sorrir-lhe com a boca carnuda e os olhos húmidos cheios de desejos. E mal o povo se dispersou, sempre ruidosa a sua alegria, ele abeirou-se da rapariga e convidou-a a acompanhá-lo à festa das sementeiras."

 

 

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18.10.20

Amadeu Ferreira - Um Dia de 12 Horas


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Amadeu Ferreira (1925-2002), Um Dia de 12 Horas (1966).

Ilustração da capa de José Garcês (1928-2020).

 

A presente obra foi galardoada com o prémio de novelística Fernão Mendes Pinto. No âmbito da ficção, Amadeu Ferreira já havia publicado o volume de contos Catana, Canhangulo e Arma Fina (1964) e viria a publicar depois o romance As Árvores Reverentes do Congo (1967).

 

Militar de carreira, o piloto-aviador Amadeu José Ferreira, já como coronel, foi comandante da base aérea de Sintra (1968-1969) e secretário-geral da Comissão Portuguesa de História Militar (1990-1993), entre vários outros cargos que desempenhou.

 

A narrativa deste romance evoca os trágicos acontecimentos ocorridos em Angola a 15 de Março de 1961, embora a chacina dos colonos portugueses e daqueles que lhes eram fiéis não surja como vector único ou central, sequer, da obra. Obviamente, sendo esta uma obra visada pela censura, nada refere sobre as subsequentes acções militares de retaliação, como a de 27 de Abril do mesmo ano.

 

Recorrendo a um processo parcial e verosimilmente autobiográfico, o enredo desenvolve-se ao longo de quatro partes e dezoito capítulos, apresentando um protagonista oriundo de Trás-os-Montes e aviador, como o autor, que, já em Angola, recorda a sua infância e adolescência no ambiente transmontano. 

 

A primeira parte da obra, onde se inscrevem estas rememorações, apresenta ainda um conjunto de várias reflexões sobre o indivíduo, a ética e as questões políticas, administrativas e sociais de Angola, bem como sobre o papel dos americanos na política mundial e na acção colonial.

 

A segunda parte, de uma forma surpreendente, apresenta uma narrativa na segunda pessoa para traduzir a familiaridade do protagonista com um colono branco chacinado e relatar aspectos da própria chacina.

 

De uma forma mais breve, a terceira parte apresenta algumas das consequências dos massacres daquele dia para a vida dos colonos brancos, mas também para os negros que inocentemente são perseguidos e acusados.

 

A quarta parte relata o regresso do protagonista à sua terra natal, de uma forma que deixa em aberto um possível regresso a Angola.

 

Da segunda parte desta obra transcrevem-se os últimos parágrafos do capítulo 10:

 

"  «Não te admires pois do modo como te falo, mas devia-te esta explicação. A despeito da distância toda na vertical que me separa de ti, deste isolamento que me rodeia enquanto distingo a fazenda traçada com trabalho e amor, compreendo bem os conflitos humanos do teu mundo de ontem e de hoje.

 

«Sabes?!... Estas coisas refinam quando se meditam; mais quando se apalpam e observam de perto. E este púlpito é particularmente propício à meditação. Ninguém nos estorva, ninguém nos distrai, pode dedicar-se todo o coração e parte do cérebro aos problemas do mundo. Os conflitos do homem, que aqui não chegam em ruído, surgem-me com mais clareza e despidos da ganga que lhes pode desvirtuar a verdadeira essência e natureza.

 

«Com estes créditos positivos, não posso louvar-te por tudo que fazias na fazenda. Mas antes de atirar-te a primeira pedra procurei entender que dentro da tua realidade não foste pior que todos os outros de todas as épocas, mas apenas igual e, em muitos sentidos, melhor. E numa sociedade não se condena um homem igual a todos os outros.

 

«Foste um pioneiro e um embaixador; à tua maneira, como já disse. Mas quem te censura pensa também que quando se querem embaixadores por conta alheia, se lhes paga e se lhes ensina o como, o quando e o porquê do que se lhes exige? Não pensam nisso, mas estranham agora não lhes teres defendido o nome, o não inculcares nos trabalhadores a noção que eles próprios têm de Pátria e convivência social, o não teres elevado como eles desejariam o nível dos homens que te eram confiados para os trabalhos agrícolas ou domésticos. A verdade justa e real só pode pôr-se assim: que crédito tínhamos nós, Emílio, que tu, apesar de tudo, dos teus defeitos ou prepotências, não retribuísses com juros também acima dos legalmente estabelecidos? Que nos devias tu, Emílio?...

 

«Por isso digo para não te mortificares. De resto, não sabes mas vou esclarecer-te: todos os vizinhos em redor, espalhados por esta área imensa que posso enxergar da vertical da tua fazenda, estão como tu, amarrados como porcos no banco da matança. Aos bons e compassivos de nada lhes valeu o coração, e aos maus e refinados o fel não agravou os sofrimentos. O cataclismo foi gadanha que cortou cerce o trigo todo, granado ou chocho, e também o joio que na época própria escapou às mondadeiras. E isto pelo facto simples e verificado de que nenhum João do Congo procurou motivos e invocou razões válidas para o que foi feito.

 

«Tu não sabes, mas o que está a dar-se contigo passa-se à mesma hora por léguas e léguas. Não te mortifiques, Emílio, tu não eras santo, eras apenas homem.

 

«Eu digo eras, porque quase o não és. Se tirarmos esse sopro, teòricamente [sic] a animar-te ainda, sabes o que me pareces? A imagem, dura, choca e arrepia, mas a ti pouco impressiona já e eu tenho-te falado com franqueza que quero levar até ao fim. No mundo material, Emílio, a figura justa, fiel, da coisa a que te reduziram é o bucho. Lembras-te?... aquele enchido de carne e ossos a esmo, ensacados num estômago de porco?... És um bucho de ossos esmigalhados, carne picada, vísceras moídas, no saco que é a tua pele cheia de laivos de sangue pisado.

 

«À medida que as chufas, as troças e as pauladas cresceram, a dor física foi-se esbatendo na sucessividade dos golpes, e o tormento de alma, dos gritos abafados da tua mulher, foi-se embotando na semi-inconsciência que te ia invadindo. Começaste a ter uma boa desculpa para largar a vida e já não compreendias porque adiavam o golpe final. Não há centímetro quadrado que esteja sem mossa. Todos quiseram vingar a sua afronta, limpar a sua ofensa, desforçar o seu despeito recalcado, ou pelo menos afirmar uma posição com crédito a haver, agora que te viam vencido e amarrotado. Mas eles nem essa esperança última dum fim próximo te deixaram, quando a vida passou a fardo mais pesado que a morte. Foi a um bucho vivo que eles conscientemente te quiseram reduzir, e conseguiram-no. 

 

«Já não vês, Emílio, mas isso agora é um bem. Se visses, custava-te mais. A casa está esventrada, os trastes estraçalhados, o gerador, na barragem que era o teu orgulho, está desfeito. Os corpos de alguns que mais fielmente te serviram estão aqui e ali, no sítio onde foram acabando. Mas o corpo de Emília não está. A tua criada, escolhida por simpatia onomástica, tal como o João também sabia. Emília, sereia negra de mil fascinações, sabia que este teu dia não chegaria ao fim. Lembras-te que só ficou descansada quando se assegurou do teu regresso à fazenda na tarde seguinte, quando viu que a tua ausência não ia além de algumas horas?

 

«Os seus receios, Emílio, nada tinham com os azares de ante-ontem [sic] como julgaste por ser um dia 13, mas com a possibilidade de escapares ao que sabia esperar-te hoje, um dia 15, número sem história nas tradições do bruxedo e da superstição.

 

«E tenho outra prova, tenho outra prova de que ela sabia, Emílio, e se valeu da sua habilidade maior para te arranjar um parceiro de açougue, mas não vale a pena mostrar-ta.

 

«Quanto à tua mulher, aguentou uns tantos, mas depois... Não, neste assunto não quero falar; sei que não vês, mas ainda ouves; pouco, mas ouves, e se não te tenho poupado a desgostos, na franqueza que venho usando, neste ponto quero fazê-lo.

 

«Emílio, volto a falar-te com o à-vontade [sic] que apenas pus de lado ao referir-me à tua mulher. À medida que te foste tornando nessa miséria chagada que repugna e revolta os sentidos, estás a sublimar-te, e chega cá acima, a este ambiente asséptico onde o bafo dos ódios não persiste, a verdade justa daquilo que estás quase a ser. De nada te servirá essa lágrima grossa que soltou agora e pouco valerá o que vou dizer, até porque já não ouves talvez, mas eu entendo-te, Emílio, como irmão e como homem. Não por compaixão, não por lisonja, nem sequer por acordo total como viste, mas porque essa ausência de esperança que te deixaram neste segundo dia de menos de vinte e quatro horas foi penitência a absolver-te de todas as culpas que porventura possam assacar-te.

 

«Emílio?... Emílio?... Já não ouves?... Não, já não ouves, nem sentes.

 

«No meu mundo, Emílio, no meu mundo desta hora, com o Sol por testemunha e as nuvens por vizinhas, és agora o símbolo grande e trágico de todo o ser racional que neste dia e nesta terra, ensopada de ti, esvaziaram de esperança. Mas no mundo da matéria és finalmente um bucho sem alma, como eles queriam, ensacado na pele avergoada e repelente, a que as cordas, tensas, mantêm ainda a forma e seguram de encontro ao tronco grande da mulemba frondosa que domina o terreiro.» "

 

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21.06.19

Augusto Casimiro - Portugal Atlântico


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Augusto Casimiro (1889-1967), Portugal Atlântico (1955).

 

Compilação de vários poemas datados de diferentes anos – 1914 (Acampamento – Noite, O Zambeze e um Mapa, Fogueira de África), 1924 (Horas Africanas, Oração da Noite Africana), 1944 (Colono), este volume foi distinguido com o Prémio Camilo Pessanha em 1954.

 

Inspirados por todos os territórios coloniais banhados pelo Atlântico, como o nome sugere, predominam, contudo, nestes poemas, referências a Cabo Verde, particularmente às ilhas Brava e Santo Antão, e a Angola.

 

Não deixa de ser interessante o facto de parecerem perpassar, em algumas destas composições poéticas, conceitos também presentes na Mensagem (1934), de Fernando Pessoa (1888-1935), impressão que, do mesmo modo e do ponto de vista estrutural, tende a ser suscitada no início do volume.

 

Com efeito, as primeiras poesias integradas na secção Pela Batalha ao Restelo apresentam títulos sugestivos dessas evocações – Portugal, A Canção do Novo Restelo, Sinfonia do Mar Alto, Hora do Ponto.

 

Curiosamente, para sublinhar toda estas ténues evocações, até a própria expressão "É a hora!", patente no poema Nevoeiro (1928), de Pessoa, surge no poema Oração da Noite Africana, alegadamente datado de 1924, embora num contexto completamente diferente.

 

Um ponto distinto nesta estruturação, no entanto, é a secção intitulada Canto ao Brasil no Mar, que apresenta três poemas dedicados a esta temática.

 

Desta obra, transcrevem-se, de seguida, o poema Fala Crioula e o soneto Prece, inspirados, respectivamente, por Cabo Verde e Angola:

 

 

FALA CRIOULA

 

"Esta fala é sempre nossa.

Fala crioula?... Afinal,

Para alma que bem a ouça,

É fala de Portugal!

 

É uma fala de menina,

Andou ao colo, amimou-se,

Ficou sempre pequenina,

E, de preguiça, mais doce.

 

Ouço-a agora, embala, arrola...

Sabe a amor, sabe a tristeza...

Na voz da gente crioula

Oiço a alma portuguesa...

 

E, às vezes, com mais doçura...

Algumas palavras têm

Mais humildade e altura,

Mais gosto da terra e além...

 

Morabêsa... amor e beijo

Que se não dá, que se fala,

Em que há gosto de desejo

E o aroma que o cravo exala...

 

O que é doce à alma e ao gosto

É sabi... sabe a carinho...

Saber não contém desgosto...

O que é mais sabi... é sabinho.

 

Grandeza... Entre nós humilha

Se não é Deus. Grandeza

Aqui, nas almas da Ilha,

É alegria, é morabeza...

 

Contente... quem diz contente

Entre nós diz alegria,

Mas na boca desta gente

Só quer dizer: simpatia...

 

A fala crioula é nossa

Trouxe-a ao colo Portugal..."

 

 

PRECE

 

"Terra de Angola, Mãe da Primavera:

– Só de te descobrir logo o tocou,

Ao primeiro que veio e te encontrou,

Do teu bárbaro encanto a lei severa.

 

Estás, sempre e sem fim, à nossa espera.

Por ti sofremos. Contra ti pecou

A nossa Alma e a tua nos perdoou.

– Quem amar-te não soubesse te perdera...

 

Desejada e rendida te violámos

E ficamos escravos, de ti... Esta hora

É a doutro encontro, como dois irmãos,

 

Na terra em que sonhamos e lavramos,

À luz igual duma fraterna aurora, 

Um destino mais alto, dando as mãos."

 

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17.01.19

José de Almeida Santos - Longe, Lá Longe...


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José de Almeida Santos (1922-1997), Longe, Lá Longe... (1962).

 

José de Almeida Santos publicou mais de duas dezenas de obras, destacando-se na sua bibliografia um conjunto de estudos sobre a história social de Luanda no século XIX.

 

Para além do volume agora apresentado, no âmbito da poesia e da ficção, publicou Seis Histórias Quiocas (1965) e Tábua de Esmeralda (1966), tendo ainda publicado, em co-autoria com Maria Lígia de Almeida Santos, o volume Aquele Velho Chapéu... ; Traição (1964), na colecção de livros de bolso da Imbondeiro.

 

Os poemas que nesta obra estão intimamente ligados à temática africana são, por ordem de publicação, Canção da Muana-Maria, História do branco Cauache e André Luembe está preso, os quais são acompanhados no final de cada um por uma lista de vocabulário que totaliza dezanove palavras.

 

Surge ainda o manifesto-poema Os tais «ventos da história», que se transcreve integralmente abaixo não só como um documento literário sobre a actualidade da sublevação nas colónias e a sua contextualização, mas também pelo seu anti-americanismo, pelo seu conceito de comunidade lusófona e miscigenização e por um certo paralelismo com as patrióticas manifestações literárias anti-Ultimatum de 1890.

 

Refira-se, como curiosidade, o último poema deste volume, intitulado O Mundo em que vivemos (Poema radiofónico - ruídos bélicos), pela evocação que, na quase totalidade do seus versos, faz das onomatopaicas obras futuristas e dadaístas.

 

Finalmente, note-se que não se deve confundir o poema que dá título a este volume com o poema Lá Longe, de Florêncio Neto de Carvalho (1924-1985), o qual está na origem do conhecido fado de Coimbra interpretado, entre outros, por António Almeida Santos (1926-2016).

 

"Os tais «ventos da história»

 

Os tais «ventos da História»

Não são uma invenção americana

Nada disso!

São sim a resultante

Da evolução natural da mente humana,

Verdadeiros,

Reais,

Soprando no sentido

Da Paz e da Concórdia universais.

 

Que o rico tio Sam,

Desbaratando os dólares às mãos cheias

Co'a sua bem montada propaganda,

Queira modificar o curso dos elementos

Para poder tirar

Mais chorudos proventos,

É uma coisa perfeitamente natural.

Mas tal não implica

Que os racismos, ódios e crueldades,

Fomentados p'los nórdicos dinheiros,

Não sejam episódios passageiros,

E que a fusão dos povos em blocos

(No sentido dos quais sopram os ventos)

Se não verifique, mais ano menos ano,

Mau grado o esforço

E os montes de armamentos

Do Estado americano.

 

Um dos futuros blocos naturais

(Bloco varonil

Firmado no interesse

E na cultura e entendimento humanos)

É o que ligará os povos do Brasil

Aos povos Lusitanos.

 

Da terra do chewing-gum, o mercador

Por certo, lutará, com todo o seu vigor

Contra a constituição dessa comunidade,

Pois teme do Brasil

A grande actividade fabril

Que o fará derrubar da forte posição

(Conquistada à custa de milhões

E falsa ajuda ao preto independente)

Donde enche de bugigangas e sabões

O negro continente.

 

E ele,

O inventor do Ku-Klux-Klan,

Da Lei de Lynch, da Reserva Pagã

(Onde, como animais encurralados

Vivem uma existência deletérica

Os nativos de côr da própria América)

Tem agora o afã,

Que é pura e mentirosa propaganda,

De mostrar ao negro primitivo

Ser muito seu amigo.

 

Mas, isso, irmão de côr, é tudo fantasia.

 

Irmão de côr :

 

Tu e eu que, juntos, fizemos o Brasil

(Esse Brasil moreno

Caldeado do teu sangue de negro

e do meu sangue de luso e agareno),

Tu e eu que, há muitos anos já,

Vamos juntos à escola

E juntos trabalhamos e jogamos a bola,

Tu negro português e eu branco português

Não vamos deixar que o terrorismo,

Descendo da fronteira

E pago com dinheiro americano,

Instile em nós o ódio racial.

Não!

Pensando em Portugal

E pensando no Brasil, ali em frente,

Tu negro português e eu branco português

Apertemos as mãos

Solenemente."

 

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30.01.17

Capelo e Ivens - De Angola á Contra-Costa (I)


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Hermenegildo Capelo (Hermenegildo Carlos de Brito Capelo, 1841-1917) e Roberto Ivens (1850-1898) - De Angola á Contra-Costa: Descripção de uma Viagem Atravez do Continente Africano, volumes I e II (1886).

 

Tal como a anterior obra destes autores, De Benguella ás Terras de Iácca (1881), também estes dois volumes poderão ser incluídos na literatura de viagens, quando se confere a esta expressão um sentido lato.

 

Do capítulo V – Na Huilla, do primeiro tomo, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Logo que por qualquer circumstancia, como roubo, assassinio ou doença, o adivinhador é chamado por uma tribu, tudo ali se prepara para a ceremonia, que quasi sempre é depois do accaso do sol, escolhendo-se noites escuras, e parece que ás vezes na lua nova, a fim do feiticeiro poder tirar maior vantagem, impressionando a imaginação do publico com o contraste das trevas e do fogo, que para esse effeito ateiam em diversos pontos.

 

Reunidos todos os individuos da terra em vasto circulo, dentro do qual crepitam, como dissemos, fogueiras que pela sua luz tremulante dão á scena phantastico aspecto, colloca-se a meio o n'ganga, prompto e paramentado, a face riscada com traços de cores, um enorme pennacho, a cabeça ornada de chifres de antilope, um bilboquet na mão e ás vezes caudas de animaes á cinta. Junto a elle, em pequena esteira, vê-se uma panella de barro contendo certo liquido especial, pequenos paus dispersos, e uma cabaça cortada em fórma de bacia, com varios objectos, cuja vista causa espanto, e que seria difficil descrever.

 

Bagos de missanga, buzios, pequenas imagens de pau, arremedando um homem ou uma mulher, pedras, bicos de aves, garras, pés ressequidos de corujas, etc., que ahi o visitante póde notar boquiaberto.

 

De subito o adivinho solta um silvo, e agitando o bilboquet enceta uma dança grotesca.

 

As mulheres cantam em côro ao compasso das palmas, emquanto elle, aos saltos, percorre os grupos e observa attentamente os circumstantes.

 

Aqui pergunta, acolá responde; finge afastar-se, de subito volve, mira, affirma-se, e como esperto e observador, espera a todo o momento ver transparecer no rosto ou nos movimentos inquietos de alguemm a provas do crime.

 

Por vezes sáe do circulo, acocora-se, confunde-se com a multidão, e raro será que, no caso de roubo, o supersticioso auctor, estando presente, não se tráhia por algum signal.

 

Apenas iniciado volve, e, em pulos estranhos, approxima-se da esteira.

 

Acocorou-se. Eil-o de joelho em terra, cabaça de feitiços na destra, a mão esquerda estendida horisontalmente, a cabeça curvada, acenando a compasso.

 

Ligeiros impulsos dados no sentido vertical deixam ver os objectos contidos no interior, até que, repetindo o movimento com mais energia, um d'elles cáe no terreno.

 

Largando a cabaça apodera-se d'elle, mira com ar bestial por momentos, firme, emmudecido; depois começa com esgares e momices, que pouco a pouco exagera, escancára a bôca, e arregalando os olhos injectados de sangue, eil-o que se levanta, e em saltos vertiginosos percorre a arena como um louco!

 

Á luz pallida dos madeiros que ardem, esse homem sarapintado, agitando-se no meio das mais estranhas convulsões, narinas entreabertas, labios espumantes, parece um verdadeiro demonio, revestido de todos os attributos com que a imaginação adorna esta casta de creações!

 

Apoz a estranha lucta, cáe emfim extenuado e, estrebuxando, profere o nome da victima, que, cheia de espanto, pretende fugir, mas é acto contínuo agarrada."

 

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08.12.16

Castro Soromenho - A Voz da Estepe


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Castro Soromenho (1910-1968), A Voz da Estepe (s.d. [c. 1956]).

 

Este opúsculo de 48 páginas republica dois contos do autor – A Voz da Estepe e Samba, que anteriormente haviam sido incluídos na sua obra Rajada e Outras Histórias (1943). 

 

Do conto que dá o título a este volume transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Um som vibrante de tambor quebrou o ar e foi levado pelo eco que o atirou planície fora. Matembele ainda tinha punhos fortes, mas ele próprio se surpreendeu com a violência com que tocara o atabaque.

 

– Velho, tu ainda estás novo! – disse-lhe um dos caçadores, o Capua, que desde rapaz só o tratava por velho.

 

Matembele riu e, entusiasmado como uma criança, recomeçou a martelar o tambor, para que todos ouvissem bem que começara a caçada a fogo de Dumba-iá-Cuito.

 

– O vento está bom – disse o velho, com a boca e os olhos a rirem.

 

E, entregando o tambor a um moço, empunhou o fuzil e dirigiu-se para o rio, abrigando-se à sombra da árvore, junto ao ancoradoiro.

 

Na linha azul do horizonte, começou a desdobrar-se uma serpentina de luz alaranjada, que em breve se transmudou numa faixa vermelha, como uma estrada de fogo entre o céu e a terra. De repente, rolou sobre essa faixa uma onda rubra que incendiou o céu, como um pôr de sol, e um rumor de mar encapelado correu sobre a planície, e com ele o vento trouxe uma onda de ar quente. E, de pronto, a voz da estepe acordou em todos os recantos.

 

Do capinzal largaram bandos de borboletas, de lindas e variegadas cores, em demanda da frescura rio, inquietadas com os rumores da planície. Matembele ficou-se a olhá-las com olhos de criança. Um grande pássaro negro riscou o espaço, batendo ruidosamente as asas sobre a cabeça do velho, e lançou um grito agoirento; e como se esse grito fosse aviso de desgraça a todos os pássaros da planície, logo o céu se encheu de asas das mais variadas cores, que se perderam para além do Cuilo.

 

Agora já não se enxerga a linha azul do horizonte. No céu que tomba sobre a terra reflectem-se as vagas de chamas que o vento ondula na planície. Ouve-se, num rumor distante, a respiração ardente da estepe. Os caçadores estão excitados com os rumores que vêm da planície e com a espera da caça. Para as bandas do rio, cruzam-se gritos de alegria selvagem, comentando a marcha do fogo e a violência do vento. Mas ainda não há sinal de caça, nas terras ribeirinhas e nas faixas que de um lado e do outro dividem a planície e são barreiras para o fogo e pontos de apoio de caçadores, porque, se o vento mudar de direcção, atirando com o fogo para ali, toda a caça que foge, em tropel, à frente do fogo, irá ao seu encontro.

 

Uma corpulenta pacaça e três tímidas gazelas, deitaram a cabeça para fora fora do capinzal, mas, logo que viram um dos caçadores, retrocederam precipitadamente. Ninguém deu um passo em sua perseguição, esperando pelo momento em que elas se viessem entregar à morte, quando já não pudessem suportar o calor ou açodadas pelo fogo. De repente, nas terras nuas da margem do rio surgiram, fugidos do capinzal, centenas de ratos, soltando guinchos e correndo como loucos, o que causou grande alegria aos caçadores que, por divertimento, os perseguiam com gritos e os chibatavam."

 

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21.10.16

Castro Soromenho - A Maravilhosa Viagem


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Castro Soromenho (1910-1968), A Maravilhosa Viagem (1961).

 

 

Da Primeira Parte, Capítulo Quarto, transcrevem-se três parágrafos:

 

"Vieram do Bailundo distante os primeiros homens que viveram nestas terras com o nome tribal de Sambos. Mas há mais de dois séculos que aqui vieram parar os Nhembas. O seu chefe edificou cubatas no alto de um outeiro, no meio de vasta planície cruzada por rios e riachos. Eram oleiros e viviam da sua indústria, mas também criavam gado e lavravam terras ribeirinhas. Um dia, guerreiros Bailundos, fugidos à ira do seu soba que, mesmo depois de lhes ter morto o chefe, não cessava de os perseguir, pararam no sopé do outeiro e intimaram os Nhembas a abandonarem a aldeia, porque esse lugar só podia ser morada de fidalgos, deles que eram filhos do chefe Sambo, morto na guerra. Medrosos, os pacíficos Nhembas desceram o monte e nesse dia os atabaques dos filhos do Sambo tocaram aos ventos altos da aldeia abandonada, e o povo fugitivo dançou o batuque dos mortos, para que a alma de sambo descansasse em paz.

 

Eram seis os filhos do soba Sambo, cinco rapazes, caçadores de elefantes e hipopótamos, e a moça Alemba, que os irmãos escolheram para rainha. Ali, ela fundou a libata e deu ao país conquistado sem sangue o nome de seu pai Sambo. Tempos depois, Alemba casou com um caçador Ganguela que ousara levantar o fogo das caçadas na planície do Sambos e depois agasalhara na aldeia do outeiro para nunca mais de lá sair, preso nos braços da dona da terra. Seguindo os passos desse jovem caçador, muitos Ganguelas seus amigos vieram morar no país do Sambo e nunca mais regressaram à terra de além Cubango. De outra banda, vieram guerreiros Galangues que trouxeram de presente a Alemba punhados de terra branca, que «é o símbolo da vida e preserva da morte». Ganguelas, Galangues e Sambos cruzaram-se entre si.

 

Alemba morreu de velha, mas ficou viva para sempre na memória e na saudade do seu povo. E treze sobas reinaram no país que ela fundou. Os filhos do último chefe foram educados numa missão católica e ganharam como baptismo nomes europeus. Mas não esqueceram os velhos deuses africanos. E nos momentos de desgraça, é para eles que se voltam, implorando aos «espíritos bons» que intercedam em seu favor junto desses deuses. E sempre que o soba encontra na libata uma serpente, o povo dá-se em sacrifício aos deuses, porque é a alma de Alemba que voltou à terra no corpo da serpente para exigir sacrifícios humanos. Então, os Sambos adoram a serpente. Corre o sangue do sacrificado e a serpente desaparece – e a alma de Alemba regressa ao seu mundo misterioso... O povo baila doidamente nos fadáros dos batuques e cantam-se velhas canções em louvor de Alemba, que é a alma do próprio povo... E a paz desce de novo sobre a terra que recebeu o sacrifício de sangue."

 

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04.10.16

Geraldo Bessa Victor - Sanzala Sem Batuque


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Geraldo Bessa Victor (1917-1985), Sanzala Sem Batuque (1967).

 

Essencialmente poeta, o autor havia publicado antes deste livro, o seu primeiro de "prosa de ficção", diversos ensaios e volumes de poesia. A sua primeira obra poética - Ecos Dispersos, foi publicada em 1941. Ainda na poesia, seguiram-se Ao Som das Marimbas (1943), Debaixo do Céu (1949), Cubata Abandonada (1958), obra que recebera o prémio Camilo Pessanha no ano anterior, e Mucanda (1964).

 

Neste volume reunem-se oito contos - A Filha de Ngana Chica, Duelo de Gigantes, O Pecúlio, É Proibido Brincar, O Comboio e o Navio, Domingas ou as Duas Faces da Alma, Chiula Chitacumba, Estudante e Carnaval. Embora alguns registos narrativos rocem superficialmente o anedotário, como em Chiula Chitacumba, Estudante, alguns outros traduzem inopinados dramas sobre a natureza humana, como em O Pecúlio.

 

Formado em Direito e exercendo em Lisboa, depois de ter sido bancário em Luanda, Geraldo Bessa Victor não esqueceu, contudo, algumas das problemáticas e das tensões sociais que se sentiam em Angola, dedicando particular atenção às que poderiam advir da mestiçagem, tema central em A Filha de Ngana Chica e É Proibido Brincar.

 

Deste último conto transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Lembrava-se bem de certos factos que lhe não deixavam dúvidas sobre a índole maléfica da comadre. Esta orgulhava-se ostensivamente de ter um «marido» mulato e de ser mãe de um filho mulato («O meu marido é mulato». «Sim, como sabes querida Hortense, o meu Julião é mulato». «Existe muita diferença entre um garoto preto-fulo, que pode considerar-se mulato porque é filho de mulato, e outro preto retinto, filho de pai e mãe pretos, não é verdade?». «Bem, minha querida, mulato não é o mesmo que negro, não achas?». «Ah, filha, não tenhas a menor dúvida, o branco não fala para o mulato como fala para o preto!»).

 

Tantas vezes Hortense sentiu vontade de lhe dizer cara a cara: «O teu marido, não; o teu amante, o homem com quem vives. O Bernardo, meu marido, é terceiro oficial da fazenda, ao passo que o teu amante, o Julião, é simples amanuense, inferior hierárquico do meu Bernardo». Susteve-se, porém, dada a disciplina da sua educação. tinha medo da linguagem biliosa e desenfreada que a comadre desalojasse das vísceras.

 

Certa vez, desabafou, sorridente, dissimulando em palavras serenas a fúria que lhe crescia no íntimo:

 

– Se eu quisesse ter um amante mulato ou mesmo branco, tê-lo-ia com facilidade; mas quis casar-me, e porque gostei do meu Bernardo, que calhou ser negro como poderia doutra raça ou cor, casei com ele. É um homem de valor.

 

A outra contestou, também com sorriso simpático, mas venenoso, e com frases também vestidas de aparente serenidade, mas achincalhantes:

 

– Não te iludas, querida! Um mulato é sempre olhado indubitàvelmente como pessoa civilizada, quer pelos brancos quer pelos próprios negros; mas um preto, ainda que muito educado e instruído, tem de provar primeiro que é efectivamente civilizado, senão olham-no e tratam-no como um indígena qualquer.

 

Hortense percebeu onde a outra queria chegar.

 

Um domingo, de manhã, Bernardo e Julião passeavam juntos por altura do Maculusso, nessa Luanda dos anos 30, quando um sipaio, aparecendo-lhes de chofre, berrou:

 

– Xê! A tua cabeça?

 

Foi Bernardo, o negro, e não Julião, o mestiço, quem sentiu uma voz muito funda a segredar-lhe dos recessos da alma violentada: «aquilo é contigo». Altivo, redarguiu, com rebuscada firmeza:

 

– Eu não pago cabeça, sou civilizado.

 

O sipaio escarneceu-o, com uma gargalhada gutural de rancorosa bestialidade, ao mesmo tempo que lhe assentava no dorso duas rijas chibatadas para o amainar:

 

– Civrizado, hem? Civrizado, negro de merda! Ó seu cabrão, você se atreve, seu negro, intrujar  a mim? Você és preto como eu, onde é que és civrizado? Você ainda és pior que a mim, seu monangamba!

 

Depois de lhe descarregar como remate uma formidável bofetada («leva já nesse mazumbo de mabeco!»), o sipaio agarrou-o e foi incorporá-lo, à esquina da rua, na muxinda de negros, alguns descalços e esfarrapados, que a rusga já caçara na sua ronda para seguir a caminho da esquadra. Aí apareceu meia hora depois o compadre Julião, que prudentemente não quisera interferir na operação policial e preferiu dirigir-se ao chefe, seu conhecido, para quem uma noite arranjara uma mulata boa em baile de rebita e de quem obteve a ordem de libertação de Bernardo.

 

Hortense sabia, desgostosa, que Genoveva narrava este incidente às amigas comuns, comentando-o e pondo nos olhos, como artista de comédia, uma expressão mista de magnanimidade e indignação:

 

– Não está certo! Até me revolto toda! O Bernardo, o meu compadre... Ele não é um preto qualquer, mas, sim, terceiro oficial da Fazenda! Mas, creiam, quando o meu marido falou como chefe da esquadra, seu amigo, este desfez-se em mil desculpas."

 

Este volume apresenta ainda, no final, uma lista de "vocabulário", com cinco páginas, onde se clarifica o significado de muitas expressões ou palavras de quimbundo empregadas ao longo das narrativas.

 

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