07.01.26
Antologia da Ficção Cabo-Verdiana Contemporânea (IV)
blogdaruanove
Virgílio ("Djila") Avelino Pires (1935-1985) está representado nesta antologia com quatro contos breves – A Herança, Peregrina, Órfão, todos publicados na revista Claridade, número 8, de Maio de 1958, e Lulucha, inédito.
Virgílio Pires nasceu na ilha de Santiago e concluíu o liceu no Mindelo, passando depois a ser funcionário administrativo. A partir de 1964 tornou-se chefe de posto no Huambo, em Angola.
Publicou, ainda, no número 9 da revista Claridade, os contos Titina e Noite e colaborou também com o boletim Cabo Verde. Os seus contos completos foram reunidos no volume Herança (datas desconhecidas), cujo título remete para o conto homónimo, que consagrou esse breve, mas intenso, paradigma da sobrevivência trágica que é a personagem Puxim. Virgílio Pires, que também cultivou o género lírico, é patrono de uma das 40 cátedras da Academia Cabo-verdiana de Letras.
Do conto Lulucha, o mais longo destes quatro, transcrevem-se alguns parágrafos:
"Quando Lulucha partiu, Pelada já tinha voltado com a ninhada. Pelada chocava os ovos sempre fora. Desaparecia e só voltava no prazo próprio, carejando gravemente, com a ninhada. Então, o galo preto avançava, altaneiro, como que a verificar se havia algum pinto preto.
O Pedrinho e o Chico tentavam adivinhar o número de pintos da Pelada. E apostavam.
– Desta vez são doze.
– Não, senhor são dez.
– Se forem doze o que é que me dás?
– Dou-te a minha bola de borracha. E se forem dez?
– Dou-te a minha lata de botões... com metade dos botões.
Daquela vez, quando Pelada voltou, vinda do monte de bredos que ficava atrás da casa, Pedrinhoo gritou: «São treze. Lulucha é que acertou». Lulucha tinha partido. O pequeno calou-se e ficou a pensar na camioneta verde que se sumiu lá longe, na recta de Bolanha, e levou Lulucha para a Praia.
Lulucha era contente. Estava sempre a sorrir. Tinha a boca grande, e quando ria os dentes muito brancos apareciam. Era boa para os meninos. É certo que às vezes aplicava ao Chico algumas sonoras palmadas. Mas eram merecidas. Chico era irrequieto e ela não lhe perdoava. Pedrinho era diferente. Pedrinho, sim. Pedrinho era o seu menino.
Lulucha gostava de arreliar nhâ Simoa. Nhâ Simoa era velha e feia. Diziam que era bruxa. Os meninos faziam figas e a mão na algibeira para ela não ver. Acocorava-se a um canto do quintal, e se Lulucha cantava aquela cantiga:
«Nhô S. Pedro câ nhô mata'm Caela
Pamô Caelaê badjadêra fox...»,
ela dizia: «Menina, abranda o brio do corpo... Rapariga nova pensa que o mundo lhe pertence...» Lulucha então, respondia: «Figas, nhâ Simoa. A mimm feiticeira não come. Tenho sangue amargo, fique sabendo». Nhâ Simoa levantava-se e saía, zangada. Lulucha chamava-a. Para não se zangar, era brincadeira... Qualquer dia iria para Praia, e ficaria com saudades dela. «Vais para a Praia? É melhor sentares-te num sítio! Rapariga nova...» – E ia-se embora a resmungar.
Às vezes, Lulucha fazia doces. E, então, era uma festa. El agostava de fazer beijos. Batia a clara do ovo até ficar branquinha comoa espuma de sabão, ajuntava açúcar e levava ao forno. Muitas vezes, Pedrinho pedinchava: «Lulucha, dá-me um beijo». Ela sorria e aguçava os lábios. Então Pedrinho dizia, amuado: «Estes, não quero, vai dá-los ao John de Tita». Ah, malandro, espera que eu te apanho» – dizia ela. E o pequeno fugia, rindo.
Lulucha nunca tinha ido à Praia, mas contava coisas maravilhosas da cidade. Havia um sítio chamado Montagarro. Ali havia uma enorme casa-de-água. À frente, um jardim com a estátua de uma menina que tinha caído no tanque. Na praça tocava-se música com cornetas e instrumentos melodiosos. Uma música maravilhosa, diferente da música de gaitas e de ferrinhos. As lojas eram deslumbrantes. Tinham toda a espécie de brinquedos. Carrinhos de corda, gaitas, bolas, tambores, bicicletas, triciclos, balões. E tudo muito barato. Quase de graça. Lulucha dizia que, quando fosse à Praia, havia de trazer aos meninos muitas coisas. Chico pedia uma bola de couro, como aquela que o John da Tita chutava no campo. Pedrinho pedia uma «biscleta».
Lulucha dizia sempre que iria à Praia. E acabou por ir mesmo.
Muito tempo depois, os pequenos perguntavam:
– Mambia, Lulucha volta?
– Volta, sim.
Mas os pintos da Pelada já eram frangos e Lulucha não voltava."
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