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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

07.01.26

Antologia da Ficção Cabo-Verdiana Contemporânea (IV)


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Virgílio ("Djila") Avelino Pires (1935-1985) está representado nesta antologia com quatro contos breves – A Herança, Peregrina, Órfão, todos publicados na revista Claridade, número 8, de Maio de 1958, e Lulucha, inédito.

 

Virgílio Pires nasceu na ilha de Santiago e concluíu o liceu no Mindelo, passando depois a ser funcionário administrativo. A partir de 1964 tornou-se chefe de posto no Huambo, em Angola.

 

Publicou, ainda, no número 9 da revista Claridade, os contos Titina e Noite e colaborou também com o boletim Cabo Verde. Os seus contos completos foram reunidos no volume Herança (datas desconhecidas), cujo título remete para o conto homónimo, que consagrou esse breve, mas intenso, paradigma da sobrevivência trágica que é a personagem Puxim. Virgílio Pires, que também cultivou o género lírico, é patrono de uma das 40 cátedras da Academia Cabo-verdiana de Letras.

 

Do conto Lulucha, o mais longo destes quatro, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Quando Lulucha partiu, Pelada já tinha voltado com a ninhada. Pelada chocava os ovos sempre fora. Desaparecia e só voltava no prazo próprio, carejando gravemente, com a ninhada. Então, o galo preto avançava, altaneiro, como que a verificar se havia algum pinto preto.

O Pedrinho e o Chico tentavam adivinhar o número de pintos da Pelada. E apostavam.

– Desta vez são doze.

– Não, senhor são dez.

– Se forem doze o que é que me dás?

– Dou-te a minha bola de borracha. E se forem dez?

– Dou-te a minha lata de botões... com metade dos botões.

Daquela vez, quando Pelada voltou, vinda do monte de bredos que ficava atrás da casa, Pedrinhoo gritou: «São treze. Lulucha é que acertou». Lulucha tinha partido. O pequeno calou-se e ficou a pensar na camioneta verde que se sumiu lá longe, na recta de Bolanha, e levou Lulucha para a Praia.

Lulucha era contente. Estava sempre a sorrir. Tinha a boca grande, e quando ria os dentes muito brancos apareciam. Era boa para os meninos. É certo que às vezes aplicava ao Chico algumas sonoras palmadas. Mas eram merecidas. Chico era irrequieto e ela não lhe perdoava. Pedrinho era diferente. Pedrinho, sim. Pedrinho era o seu menino.

Lulucha gostava de arreliar nhâ Simoa. Nhâ Simoa era velha e feia. Diziam que era bruxa. Os meninos faziam figas e a mão na algibeira para ela não ver. Acocorava-se a um canto do quintal, e se Lulucha cantava aquela cantiga:

                    «Nhô S. Pedro câ nhô mata'm Caela

                    Pamô Caelaê badjadêra fox...»,

ela dizia: «Menina, abranda o brio do corpo... Rapariga nova pensa que o mundo lhe pertence...» Lulucha então, respondia: «Figas, nhâ Simoa. A mimm feiticeira não come. Tenho sangue amargo, fique sabendo». Nhâ Simoa levantava-se e saía, zangada. Lulucha chamava-a. Para não se zangar, era brincadeira... Qualquer dia iria para Praia, e ficaria com saudades dela. «Vais para a Praia? É melhor sentares-te num sítio! Rapariga nova...» – E ia-se embora a resmungar.

Às vezes, Lulucha fazia doces. E, então, era uma festa. El agostava de fazer beijos. Batia a clara do ovo até ficar branquinha comoa espuma de sabão, ajuntava açúcar e levava ao forno. Muitas vezes, Pedrinho pedinchava: «Lulucha, dá-me um beijo». Ela sorria e aguçava os lábios. Então Pedrinho dizia, amuado: «Estes, não quero, vai dá-los ao John de Tita». Ah, malandro, espera que eu te apanho» – dizia ela. E o pequeno fugia, rindo.

Lulucha nunca tinha ido à Praia, mas contava coisas maravilhosas da cidade. Havia um sítio chamado Montagarro. Ali havia uma enorme casa-de-água. À frente, um jardim com a estátua de uma menina que tinha caído no tanque. Na praça tocava-se música com cornetas e instrumentos melodiosos. Uma música maravilhosa, diferente da música de gaitas e de ferrinhos. As lojas eram deslumbrantes. Tinham toda a espécie de brinquedos. Carrinhos de corda, gaitas, bolas, tambores, bicicletas, triciclos, balões. E tudo muito barato. Quase de graça. Lulucha dizia que, quando fosse à Praia, havia de trazer aos meninos muitas coisas. Chico pedia uma bola de couro, como aquela que o John da Tita chutava no campo. Pedrinho pedia uma «biscleta».

Lulucha dizia sempre que iria à Praia. E acabou por ir mesmo.

Muito tempo depois, os pequenos perguntavam:

– Mambia, Lulucha volta?

– Volta, sim.

Mas os pintos da Pelada já eram frangos e Lulucha não voltava."

 

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17.09.25

Revista Cultura (VIII)


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Com já foi referido, este número da revista apresenta um conto de Onésimo Silveira (1935-2021), intitulado Superstição, e um poema de Ovídio Martins (1928-1999), que se transcreveu anteriormente.

 

Alguns dados bio-bibliográficos relativos a Onésimo Silveira também já foram mencionados, pelo que aqui se transcrevem, apenas, os primeiros parágrafos do conto Superstição. 

 

"A princípio, nhâ Livramento desconfiou ser pirraça dos filhos de nhô Giraldo; mas, por fim veio a ter a certeza de que era «medo», que era obra das almas desaparecidas. Por isso foi ela quem disse ao neto que se tratava de coisa malignas, porque «Planeta» estava mau.

 

– Impossível! – disse ela. Filhos de nhô Giraldo a tirar pedras todos os dias no Fundo de Nhô 'Velino, não pode ser... Não! há qualquer mistério nesta historiada...

 

– Sempre, sempre, mamã – observou Julim. Primeiro pensei que fossem as cabras que rolavam as pedras da ladeira; mas hoje, de-vontade, não deixei sair nenhumas da ribeira. E... pronto. Um bocadinho depois lá vinham novamente as pedradas... Parece até, que depois de bocê ter esconjurado... as coisas têm andado pior. Da primeira vez foi só uma pedrada... Meninos de nhô Giraldo, não pode ser, tanto mais que Toi e Esteve foram dar comida às cabras na Chã de Nhô Henrique Batista.

 

Nhâ Livramento passou as mãos descarnadas pelos cabelos brancos, que lhe tomavam a cabeça de ponta à ponta. Levou depois a direita à testa e benzeu-se: – «... Pai... Filho... Espírito Santo, Amen».

 

O clarão avermelhado do sol tombava sobre a linha do horizonte, para trás do Monte da Cara. Mal acabou de se benzer, nhâ Livramento deixou-se ficar parada a olhar vagamente em direcção à rocha da Craquinha, em cuja base fica o Fundo de Nhô 'Velino. Quando pressentiu que Julim acabara de amarrar as cabras no curral de pedra solta ligado à cozinha, deslizou religiosamente até à porta do seu quarto de dormir, estendeu o braço e puxou um mocho de tábuas de caixote e assentou-se; em seguida, com a voz denunciadora dos seus bons setenta e tantos anos, gritou: – «Julim! Ó Julim!».

 

Ligeiro que nem um cabrito Julim logo a encostar-se junto à avó, a quem tratava por mãe. Instintivamente acocorou-se, e a sua cara espantada tomou ares de alegria, assim que sentiu os dedos doces de nhâ Livramento roçar-lhe a carapinha. Como esta se demorasse sem dizer alguma coisa, Julim quebrou o silêncio:

 

– Mamã, e se uma pedra acertar em mim?!

 

– Credo, menino. Credo, Deus te salve? [sic] – berrou nhâ Livramento soerguendo-se do mocho.

 

Após breve pausa, continuou:

 

– ... E amanhã levas os bichinhos para Chã de Mesa, que esta trapalhada das pedras já não me está caindo nada bem!

 

– Mas, mamã, só no Fundo de Nhô Velino é que tem um ou outro pé de palha. Nos outros lugares, é pedra de cima de pedra...

 

– Fundo de nhô 'Velino, não! – retorquiu a velha, um tanto irritada. Tu não sabes a fama desse lugar, menino de Nossenhor. Eu é que sei o que se fazia por lá outrora... Mesmo que nha mãe que Deus haja dizia que lugar de pomba e vaidade é lugar sujo. Quando corria dinheiro, era uma vida de pândegas dia e noite... Agora, os espíritos daninhos que morreram naquela casa grande, que está a dois passos da estrada que dá para o Mato Inglês, têm de cangar nos coitadinhos...

 

– Mas meninos de nhô Giraldo nunca sentiram nada... Só eu, porquê?

 

– Menino, menino! Esta casa parece-me que não anda resguardada: ùltimamente tem havido aqui muita contrariedade... Se o leite não coalha antes de chegar à cidade, é o peixe que vem a cheirar mal; e, quando não é nem o leite ou o peixe, és tu que vens com a história das pedradas! Minha casa nunca foi sítio endemoninhado! Casa de oração é casa de boas sombras, é casa de  Deus Nossenhor 'Sus Cristo. Se há alguma coisa, que vá para os Paços Superiores!...

 

Assim que ouviu dizera nhâ Livramento que casa de oração é casa de boas sombras, Julim lembrou-se de acender a lamparina, não porque se fazia muito tarde, mas sim porque a velha lhe ralhava quando abandonava os santos às escuras. Dirigiu-se à cozinha e, de baixo de uma lata de manteiga «margarine», assente em três pedras negras, em que fervia barulhenta a cachupa, retirou um tição e com ele acendeu a lamparina a gasóleo."

 

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12.06.25

Revista Cultura (VII)


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Este número 9, publicado em 1957, apresenta poemas de autores associados a Angola, Emílio [Machado] da Costa Rosa (1932-1998), Cabo Verde, Manuel Lopes (1907-2005) e Moçambique, F. A. Barradas (datas desconhecidas), que haviam sido anteriormente publicados no Boletim Cabo Verde e na revista ELO (Moçambique).

 

Curiosamente, embora Emílio da Costa Rosa, que assina o poema Para uma tarde de neve, tenha nascido em Angola, foi em Moçambique que desenvolveu parte da sua carreira profissional, quer como magistrado quer como advogado, depois de ter passado pelo Colégio de S. Luiz, em Espinho, onde completou a Instrução Primária e fez o curso do Liceu, e pela Faculdade de Direito, em Lisboa.

 

F. A. Barradas, que assina Meus tristes poemas, não aparece mencionado em muitas fontes, embora o seu nome surja na revista Pela Patria, publicação mensal da comunidade portuguesa de Xangai, também relacionada com Macau, que foi editada nos anos de 1940 e 1941.

 

Embora já se tenham apresentado aqui passagens de outros trabalhos do consagrado Manuel Lopes, quer em verso quer em prosa, transcreve-se agora mais um poema do autor, um olhar claridoso sobre a emigração que ainda hoje caracteriza a realidade de Cabo Verde:

 

Poema de quem ficou

 

Eu não te quero mal

por este orgulho que tu trazes,

por este ar de triunfo iluminado

com que voltas...

 

... O mundo não é maior

que uma pupila dos teus olhos:

tem a grandeza

das tuas inquietações e das tuas revoltas.

 

...Que teu irmão que ficou

sonhou coisas maiores ainda,

mais belas que aquelas que conheceste...

Crispou as mãos à beira-mar

e teve saudades estranhas, de terras estranhas,

com bosques, com rios, com outras montanhas,

– bosques de névoa, rios de prata, montanhas de ouro –

que nunca viram teus olhos

no mundo que percorreste...

 

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29.04.25

Antologia da Ficção Cabo-Verdiana Contemporânea (III)


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Pedro Duarte (Pedro Gabriel Monteiro Duarte, 1924-2016) frequentou os estudos secundários no Liceu Gil Eanes, na cidade do Mindelo. Funcionário administrativo desde 1945, foi administrador concelhio na Guiné, entre cerca de 1950 e 1970, ano em que, por questões políticas, foi transferido de Bolama para o concelho de Chibia, em Angola, onde se manteve até 1975. Neste ano mudou-se para Portugal, vivendo no país até se reformar.

 

Depois de aposentado regressou a Cabo Verde, sendo delegado do governo em S. Vicente e secretário-geral da Assembleia Nacional Popular, presidida por seu irmão Abílio Augusto Monteiro Duarte (1931-1996), um dos fundadores do PAIGC. Durante a década de 1990, devido a questões de saúde, regressou novamente a Portugal, ali permanecendo até 2014.

 

Colaborou nas revistas Claridade, Cabo Verde, Presença Crioula (Lisboa), Morabeza (Rio de Janeiro) e Raízes, entre outras, tendo publicado em 1999 o primeiro e único volume, Manduna de João Tienne, de uma planeada e anunciada trilogia, de características quase auto-biográficas, que acabou por ficar incompleta e inédita.

 

Sobre Pedro Duarte, refere a nota introdutória a este autor – "Um dos mais «bissextos» escritores cabo-verdianos, que, todos, poderiam aproveitar o adjectivo aprendiz de Carlos Drummond de Andrade, grande poeta da língua portuguesa, para exprimirem o peso da pedra tumular da vida de todos os dias que vai calcando lentamente, mas com uma paciência de formiga, a outra face da vida mais liberada e mais ampla. Nasceu na ilha de Santiago e é funcionário administrativo na Guiné Portuguesa. Como Virgílio Avelino Pires, como Manuel Lopes, como Jorge Barbosa, como todos nós, é um aproveitador de clareiras – quando elas se dignam aparecer.

É colaborador ocasional da revista mensal «Cabo Verde»."

 

O conto Migração, de que se transcrevem abaixo os primeiros parágrafos, havia sido anteriormente publicado no Boletim Cabo Verde, ano IV, n.º 39, de Dezembro de 1952, tendo sido galardoado com o 1.º prémio de "O Melhor Contista de 1952", instituído pela mesma publicação.

 

"A terra ressequida do fundo do vale levantou-se em nuvens de pó que o vento atirou para o céu mentiroso. Havia sete anos, sete dias, sete repartições do mundo que a chuva não caía. Os homens estavam desvairados e as plantas loucas cravando no seio da terra as raízes sequiosas.

Do céu pedrento de há pouco restam nuvens esfarrapadas. Agora o mar rebate-se com menos fúria de encontro à penedia da encosta.

Um dos homens do sítio retirou a cabeça da pequena janela donde estivera a observar a tarde que prometera a chuva esperada. Coxeou sustendo-se num caixote vazio a servir de assento e depois numa arca velha até junto da única cadeira sem respaldo a um canto do aposento desolado.

No quarto adjacente o sol brando da tarde voltou a entrar confiante pela armação do telhado, desenhando no chão o rectângulo das bitolas.

A porta interior de ligação fora arrancada e substituída por um tapado em serapilheira. Um aparte do muro do quintal desmoronou abrindo caprichosamente uma segunda entrada. Os dois anexos que em tempos serviram para arrecadação de produtos da lavoura ficaram também sem a cobertura e as portas. No quarto devassado da pequena moradia ervas bravas cresceram no alto dos muros e ali estiolam tostadas peloSol.

As telhas foram vendidas. A porta de comunicação entre os dois aposentos do casinhoto servira para o fundo do esquife de nhâ Bajim."

 

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02.03.25

Revista Cultura (VI)


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O número 21 desta revista apresenta o poema Pressentimentos, de Maria Madalena, que havia sido já publicado na revista Cabo Verde.

 

Este pseudónimo, de minimalista inspiração bíblica, corresponderá a Maria Madalena Valdez Trigueiros de Martel Patrício (1884-1947), a primeira escritora portuguesa nomeada, por Bento Carqueja (1860-1935), para o Nobel da Literatura, nomeação que ocorreu em 1934 e se repetiu em anos subsequentes.

 

Curiosamente, a escritora ter-se-á estreado com a publicação de uma obra em língua francesa, Le Livre du Passé Mort (1915), a que se seguiram Impressões de Arte e de Tristeza (1915), Sombras na Estrada (1920), Poemas da Côr e do Silêncio (1922), Os Sete Demónios (1926), Sagradas Pedras (1930) e Rosário da Vida (1935), entre vários outros títulos.

 

Embora não se conheça qualquer registo que associe a autora a África ou a Cabo Verde, e justifique a sua publicação na citada revista, transcreve-se o referido poema, considerando eventuais referências, ambíguas e equívocas, à insularidade e os valores metafóricos que estas podem traduzir:

 

"Terei de aqui ficar a vida toda

À espera de partir?...

Olhando o mar,

Esperando o navio que há-de chegar.

A carta que há-vir?

Terei de aqui ficar ouvindo

O lento caminhar das horas?

Ouvi-las soluçar

A minha vida inútil e vazia

E bater devagar,

Os silêncios e espantos que ela cria?

Terei de aqui ficar a vida toda

Ouvindo as horas lentas repetir

O oco, da minha pobre vida

Falhada?

Terei de aqui ficar à espera da chegada

Daquele barco que nunca há-de chegar

E que há-de encaminhar

A minha vida a rumos ideais?

Terei de esperar essa carta

Que não chegará mais?

Terei de esperar que se abra essa porta

Que teima em não se abrir?

Já sinto no meu sangue

As horas lentas caminhar,

O mar rugir,

A carta que não tarda,

A hora que se apressa,

A vida que começa,

E o barco, que enfim! se fez ao mar!...

E hei-de partir!

E hei-de viver!

E hei-de aqui ficar a vida toda

à espera de morrer..."

 

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16.01.25

Revista Cultura (V)


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O número 39 desta revista apresenta o conto Titia, de Gabriel Mariano (José Gabriel Lopes da Silva, 1928-2002). Num registo coloquial próximo da oralidade, esta narrativa apresenta-nos o retrato de uma viúva que abandonou Cabo Verde, onde apenas um dos três filhos permaneceu, para viver sozinha em Lisboa, sem quaisquer amigos ou confidentes a não ser José, o narrador.

 

Embora ainda não tenha sido reproduzido o conto deste autor, intitulado Resignação, publicado em 1958 no número 14 desta mesma revista, número já aqui abordado, transcrevem-se de seguida os primeiros parágrafos de Titia, sem mais informações adicionais, uma vez que já foram anteriormente referidos alguns dados bio-bibliográficos sobre o escritor (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/3552.html):

 

"Titia nem teve paciência... Recado num dia, bilhete no outro... Caramba! Nem que fosse sangria desatada! É preciso compreenderem que eu nem sequer sou parente dela. Sim senhores... Nem filho, nem sobrinho, nem primo, nem nada. Chamo-lhe Titia por amizade.

 

Titia não é má pessoa, não. Só que de vez em quando tem suas rabujas... Hoje os seus filhos estão longe. Ela vive cá em Lisboa. Viver «cheio de buracos vazios» porque «dinheiro é pouco e velhice ingrata»... Veio para aqui com destino à Argentina. Zulmira, a filha mais velha, vive lá. Mas depois levantaram-se impedimentos, «assoprou aquele ventinho que tem de pegar toda a criatura sem sorte» e ela não seguiu. Foi resolvido que ela ficasse. Voltar para Cabo Verde era asneira... Nhônhô, o que está em Moçambique, foi de opinião que mais vale viver mal em Lisboa do que viver bem em S. Vicente. Sim, porque Titia já viveu bem... «Quem a visse hoje em dia com o seu balaio de compras debaixo do braço não dizia que estava ali uma quintanista, e das antigas...» Titia viveu bem enquanto o marido foi vivo. Negociante de baia. Ela mesma fazia os bolos para vender na Pracinha do Liceu. Foi assim que compraram a sua casinha no Lombo-de-Trás e puderam educar os filhos. Nhônhô tirou o sétimo ano e concorreu para Moçambique. Zulmira também estudou. Essa é que embarcou para a Argentina. Lela não quis estudar. Fez o terceiro ano e empregou-se na companhia Madeira. Parodista e mulherengo dos bons... Titia às vezes lastimava-se de Lela não ter o 7.º como Nhônhô.

 

– O que tu queres é esta vidinha de cachorro vadio...

 

Lela ria, ria e não dizia nada. O riso de Lela é sonoro e sacudido.

 

Pois, para Titia o bom tempo durou enquanto durou o marido. Homem é que é tecto de uma casa, já se vê. Depois começou a dispersão. Nhônhô casou, Zulmira foi para a Argentina e Lela tirou uma rapariga de casa. Que é que Titia ia fazer sòzinha na casa vazia? Sim. Que é? Foi então que ela resolveu embarcar também. Aqui em Lisboa aguentava-se com o dinheirinho que os filhos lhe mandavam. Filhos... vírgula... Só Nhônhô lá de Moçambique achava jazigo de lhe mandar qualquer coisa. Não era muito, já se sabe, pois, como vocês calculam, um homem casado tem de olhar para o futuro da mulher e dos filhos. Quanto aos outros Zulmira de vez em quando mandava roupas usadas e Lela só escrevia para dizer: «Mamãi do meu coração quando aprecer portador de confiança mando você uma boa encomenda. Seu filhinho que lhe estima do fundo da alma e que lhe pede a bênção Manuel». Titia ben se amofinava com o que ela chama «ingratidão familiar».

 

– Este moço não me escreve uma cartinha com tripa.

 

Tripa na linguagem de Titia é dinheiro."

 

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10.08.24

Revista Cultura (IV)


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O número 41 desta revista apresenta um conto de Onésimo Silveira (1935-2021), Superstição, e um poema de Ovídio Martins (1928-1999).

 

Uma vez que o conto Destino de Bia Rosa, de Onésimo Silveira, publicado no número 28 da revista Cultura, já foi aqui mencionado, reproduz-se hoje o poema de Ovídio Martins, cuja nota biográfica ficou registada em artigo anterior.

 

Intitulado Os Homens e a Montanha, o poema traduz todo o sofrimento e desespero dos trabalhadores rurais de Cabo Verde num registo de insistente monotonia, claramente associável ao movimento neorealista.

 

OS HOMENS E A MONTANHA

 

Os homens

cavaram sulcos na montanha

olharam o céu sem esperança

e esperaram o dia de amanhã.

 

Mas o dia de amanhã não trouxe novidade.

 

Então os homens

foram à montanha

e cavaram mais sulcos

e esperaram o outro dia de amanhã.

 

Mas o outro dia de amanhã não trouxe novidade.

 

E os homens cavaram

cavaram com raiva

sem dizer palavra

até as mãos sangrarem

mas todos sabiam que esperavam o terceiro dia de amanhã.

 

Mas o terceiro dia de amanhã não trouxe novidade.

 

Já os homens

não esperavam o quarto dia de amanhã?

Sim!

Curvados sobre a terra

cavam, cavam sempre

e continuarão a cavar

até que o seu dia de amanhã

chegue de certeza

num dia preparado

ao cimo da montanha.

 

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01.07.24

Antologia da Ficção Cabo-Verdiana Contemporânea (II)


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Destaca-se neste artigo a produção literária de Henrique Teixeira de Sousa (1919-2006), que na presente colectânea apenas tem reproduzida a narrativa Dragão e Eu, conto que entretanto já havia sido publicado na revista Vértice, números 4 a 7, de Fevereiro de 1945.

 

Médico, natural da ilha do Fogo, Teixeira de Sousa foi presidente da Câmara Municipal de S. Vicente durante mais de cinco anos.

 

Pode dizer-se que as suas publicações se dividem em dois grandes períodos – um, onde surgem essencialmente narrativas curtas, que decorreu antes da sua aposentação clínica; outro, onde surgem maioritariamente romances, que decorreu depois dessa aposentação.

 

De facto, até meados da década de 1980, a sua produção literária editada resumiu-se praticamente a contos, dispersos por revistas e antologias, a um conto – Na corte d'El-Rei D. Pedro, publicado no volume Natal, editado pela Lusofármaco em 1970, de que foi co-autor com Orlando de Abuquerque (1925-1997) e Pedro Mayer Garção (1905-?), e à colectânea Contra Mar e Vento (1972).

 

A maior parte da sua obra ficcional surge a partir da década de 1980, num conjunto onde, para além de Capitão-de-mar-e-terra (1984), Djunga (1990) e Ó Mar de Túrbidas Vagas (2005), sobressaem os títulos de uma trilogia romanesca – Ilhéu de Contenda (1983), Xaguate (1987) e Na Ribeira de Deus (1992).

 

Transcrevem-se abaixo alguns parágrafos do conto que surge nesta antologia:

 

"Eu e o Dragão fomos companheiros inseparáveis nas jornadas para o interior. A princípio caminhou tudo muito bem, mas depois comecei a notar o ambiente hostil que me rodeava. Duma ocasião, apedrejaram-me na estrada e por acaso Dragão correu atrás do homem que se agachou por trás de um tamarindeiro. Em parte dava razão àquela gente. esperavam ansiosos pela chuva, que  não vinha.

Mesmo que chovesse, era já tarde. Compreendia que a situação se tornava cada dia mais difícil e eu tinha que trabalhar de qualquer forma. Dragão de vez em quando espetava as orelhas e punha-se a farejar por todos os lados. Eu sacava da pistola e parava a cavalgadura. Depois continuava, estrada fora, sempre atento às pessoas que passavam.

De regresso tinha o amor gostoso da Guida. Minha tia soube que eu andava ligado a uma rapariga de Fonte-Lexo. Falou comigo quase em segredo e com muito receio que disparatasse. Se a minha mãe soubesse, teria grande desgosto. Que atentasse nos homens que se amigavam com mulheres dessa laia e que nunca mais se libertavam dos seus braços. Não fizesse uma coisa daquelas porque mais tarde havia de me arrepender. Não me lembro do que lhe respondi mas o que é certo é ela nunca mais me ter tornado a falar no assunto.

As avaliações acabaram e tudo depois seguiu o caminho que já se esperava.

A vila enchia-se de gente que abandonava os campos sem água. Vinham esfarrapados, magros, com chagas enormes fedendo a podridão. As mães traziam os filhos pequenos à cabeça, em grandes balaios. Paravam à porta dos sobrados e mostravam os cestos de carriço onde se viam olhos gulosos emergindo de carinhas murchas de fraqueza. Deambulavam pelas ruas num cortejo de tristeza e desespero.

Pinoti-Capador morreu inchado, a brincar com uma pedra. Perdiam o juízo e ficavam que nem umas crianças. Os meninos ganhavam rugas e pareciam uns anões velhos. De noite recolhiam-se no casarão da Escola e no outro dia, ia-se ver, eram vivos e mortos estendidos a esmo pelo chão.

Recomeçava a peregrinação pelas portas das casas e repetima-se as cenas que então se viam. Meninos chupavam tetas vazias, mães que recusavam o comer aos filhos, velhos que morriam nos largos públicos, na presença de toda a gente.

Quando lhes dava para emagrecer, iam a ponto de pouco faltar para uns esqueletos perfeitos. Mas depois inchavam e ficavam luzidios como a pele de um tambor. A seguir estiravam-se de comprido, os olhos escancarados para o céu aberto, sem nuvens, donde não caía a chuva.

Foi um tempo terrível aquele, para as gentes da ilha."

 

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04.05.24

José Manuel Pauliac de Meneses Alves - Julinha Castanha de Cajú


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José Manuel Pauliac de Meneses Alves (datas desconhecidas), Julinha Castanha de Cajú (1973).

 

Apesar de existirem algumas referências a um José Manuel Pauliac Matos Chaves de Menezes Alves enquanto membro do Partido Socialista e candidato à Presidência da República, não se encontra grande informação sobre este autor.

 

Sabe-se, contudo, que ingressou no Colégio Militar em 1955 e frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa entre 1963 e 1968. Não há qualquer registo bibliográfico sobre o autor na PORBASE, nem este volume se encontra catalogado nessa fonte.

 

O exemplar que aqui se reproduz tem uma dedicatória autógrafa ao Comandante Silva Horta, datada de 2 de Agosto de 1973, na cidade do Mindelo. A dedicatória impressa na epígrafe do volume, que foi integralmente produzido nas Oficinas da Gráfica do Mindelo, apresenta o seguinte texto: "AO PROFESSOR MARCELLO CAETANO / Esperança de melhores dias para Cabo Verde. / Certeza de que o seu esforço de Político e de / Homem é o único que serve Portugal. / O único digno. / Dum Homem digno para um povo digno."

 

Entre os trinta e três poemas que compõem este volume surgem vários onde se abordam memórias e descrições de Cabo Verde, como Cabo Verde, Céu de Cabo Verde, Almoço no Mindelo em Casa da Aninhas, Evocação do Mindelo para Manuel Bandeira, Amanhecer de Domingo ou Pescador de Barlavento.

 

Outros há que apresentam retratos e ambientes de personagens ou espaços mais íntimos, como Menina Crioula, Menina Pobre do Bairro de Chãm de Alecrim, Filha de Rosa, desculpa-me, Julinha Castanha Cajú, Minha Nana de trazer por casa, Fraldas de Chiquinho em dó maior, Papanuene era seu nome, Botequim de Aguinaldo Pires, Relance da minha casa de telha de pau na rua Vasco da Gama ou Clarinha filha de Zézé Tavares, e Toco.

 

Um outro conjunto apresenta poemas abertamente constestários, onde a subtileza da crítica que perpassa por alguns dos anteriores aflora corajosa e amargamente, como em Revolucionário de pastilha elástica, Alucinogéneo para um borocrata [sic] às 6 da tarde, Acuso, Arejar esta terra ou Ainda é tempo.

 

Da leitura de todos eles, independentemente da sua poética mais ou menos conseguida, evola-se um sentimento de surpresa, pela fuga à lírica comum, à linguagem conservadora e às imagens e (pre)conceitos previsíveis, o que gera uma certa surpresa sobre o silêncio e o esquecimento que envolve esta obra.

 

Transcreve-se, de seguida, um poema que muito diz através do seu inesperado Portinglês:

 

"Black is na verdade beautiful

 

Quero um deus negro, a black church i'll need a black god.

com black hair, nos modos, cruz de pau negro,

com black dreams e misturá-lo na multidão.

Black ir de black à primeira comunhão.

 

Black is right, is reason to fight and forgive, nossos pecados,

encardidas nossas mãos.

Black is beautiful, como na canção,

é Brasil, é Angola, C. Verde, qualquer land onde esteja um irmão,

is my way to you, a kind of poem, a kind of blue.

 

É modo de ser, voz, negro é cor, happening, rua negra, casas também.

Harlem de revista, num mundo tecnicolor, cor de terra rica,

ouro, açúcar de cana, Morabeza, black is great, man...

O man black is great, o man black is great, yes man, black is great.

Let's help the world to become black.

Cor de caixão, de fumo, de algumas poeiras,

black is tomorrow and today,

i'll buy a black horse with wings, to teach me how to fly,

é tristeza, é trompete de New Orleans,

o man i love this colour, yes man is really great, yes man

just great.

 

Black é 500 anos de História.

Not stories man, no man.

Black is my colour, great colour man,

beautiful colour,

just beautiful colour, yes man, a kind of love a kind of blue,

a poem a true poem, para homens bons like you..."

 

© Blog da Rua Nove

06.01.24

Revista Cultura (III)


blogdaruanove

 

O número 15 desta revista apresenta um conto de Francisco Mascarenhas (Francisco Xavier St. Aubyn Mascarenhas, 1928-2016), intitulado Arrependimento, que, tal como a maioria da literatura cabo-verdiana ali divulgada, já havia sido publicado anteriormente na revista Cabo Verde, um "Boletim de Propaganda e Informação" do regime, editado entre 1949 e 1964.

 

Francisco Mascarenhas nasceu no Mindelo, onde frequentou e concluíu os estudos liceais. Licenciou-se depois no Instituto Superior dos Estudos Ultramarinos, em Lisboa, começando a trabalhar como funcionário aduaneiro a partir de 1951.

 

Embora seja autor de obra literária pouco extensa, escreveu ainda para a revista Claridade e para o jornal O Arquipélago, colaborando também com a Rádio Barlavento, do Mindelo, a partir de 1955. Neste mesmo ano surgiu colaboração sua nos números 71 e 72, de Agosto e Setembro, do boletim Cabo Verde, com os textos intitulados Contrabando e As Nossas Ilhas: Uma Aguarela.

 

Do conto Arrependimento transcreve-se um parágrafo:

 

"A culpada de tudo tinha sido a Nuninha. Sim, só ela e mais ninguém. Por causa das suas coisas é que ele estava naquela situação, triste e abandonado. Nha Guida dizia-lhe sempre que deixasse aquela tentação da Nuninha, que apenas queria explorá-lo. Todos diziam à boca cheia, que aquela menina não gostava nem dele nem de ninguém neste mundo. Ela o que procurava era a satisfação dos seus caprichos. Com efeito, nha Guida via as coisas de longe. Tinha sempre pressentimentos. Ela tinha razão. Nuninha nunca se preocupou com emprego. Desprezava lugares de servir. De resto, não sabia fazer nada. Nem cozinhar, nem lavar, nem engomar. Viveu sempre «em pé». Mas andava sempre perfumada, pintada, de nylon e de crepe, de sapatos de camurça, jóias nas orelhas, no pescoço e no pulso. Ela já tinha namorado meio mundo e desgraçado muitos rapazes novos. O seu amor era egoísta, frívolo, passageiro.  Dava a vida para a folia, para bailes, cinema e fumo. Chalino sentia-se infantilmente embeiçado por ela. Todos o aconselharam repetidas vezes a pô-la de parte. Por isso zangou-se com os melhores amigos e esteve indiferente com a própria nha Guida e gente de família, que diàriamente lhe pediam que deixasse aquela menina que só servia para o arreliar, tirar-lhe todo o dinheirinho e sossego. Quase tudo quanto ganhava na baía, debaixo de sol, de suor e descomposturas, ia parar às mãos vesperinhas de Nuninha, que, nem por isso, lha agradecia e deixava de dar as suas voltas duvidosas."

 

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