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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

30.04.21

Luandino Vieira - Nós, os do Makulusu


blogdaruanove

 

Luandino Vieira (pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), Nós, os do Makulusu (1974).

Capa e ilustração de Sebastião Rodrigues (1929-1997).

 

Primeiro livro de Luandino Vieira publicado após o 25 de Abril de 1974, este volume integra uma nova colecção então lançada pela editora Sá da Costa, a colecção Vozes do Mundo, que apresentara no seu primeiro volume a obra Sagrada Esperança (1974), de Agostinho Neto (1922-1979) e anunciava como terceiro volume uma reedição de Terra Morta, de Castro Soromenho (1910-1968).

 

Até esta data, Luandino Vieira havia publicado A Cidade e a Infância (1959), A Vida Verdadeira de Domingos Xavier (1961), Luuanda (1964), Velhas Estórias (1964) e No Antigamente, na Vida (1969).

 

Embora Luuanda seja, talvez, a sua obra mais conhecida e discutida, certamente devido à atribuição do Grande Prémio de Novelística, que a Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE) lhe concedeu em 1965, numa altura em que o autor cumpria pena de prisão de 14 anos no Tarrafal, e à subsequente polémica que resultou na sua proibição e na extinção da SPE, Nós, os do Makulusu surge como uma notável obra literária.

 

Escrita também no Tarrafal, entre 16 e 23 de Abril de 1967, é uma narrativa que se assume apenas como tal no frontispício, não reclamando sequer a denominação de novela ou romance. A verdade é que tal estrutura tipológica e tal nomenclatura não seriam adequadas para uma narrativa com as características inovadoras desta obra.

 

Quebrando as regras sintáticas, as estritas concordâncias gramaticais e as habituais delimitações e formatações de parágrafos, algo que ocorre, aliás, na sequência do que já acontecera em Luuanda, esta narrativa, que se inicia e conclui com a evocação da morte e, paradoxalmente, com a omnipresença de ausentes, desenvolve-se através de um discurso que encerra em si uma metafórica mestiçagem da língua portuguesa.

 

A subversão do discurso directo ou indirecto, a informal polifonia da memória narrativa e a aproximação à oralidade, constroem uma complexidade argumentativa e conceptual que desencadeia o fulgurante entretecer das múltiplas linhas da memória e do pensamento crítico apresentadas nesta obra excepcional.

 

Transcrevem-se, de seguida, alguns dos seus parágrafos:

 

"Estás a olhar a farda? Pensas que não tenho coragem de a despir e de me recusar como papagueámos todos a propósito dos tipos da Argélia? Mas eu sei o que tu nem sabes: isso é fácil, de certo modo é uma abstracção, ideias, etecétera. O mais difícil, Mais-Velho, acredita é vestir-lhe assim, um camuflado e ir ainda hoje à noite deitar com a Maricota ao Bê-Ó, não com Rute, estará fria de morte, as mulheres que amam conhecem a morte no amor, e ela generosa se entregar como sempre, sabendo que vou lhe matar no irmão em cada irmão que matar e vai chorar porque vou, não é porque vou lhe matar no irmão. Porque ela também sabe: as mulheres que amam, sabem que o amor e a vida são dois jogos de morte; que, se o irmão me vir – oh! Kibiaka da infância, salta e vamos sondar os gunguastros nas gaiolas! – de cima da sua árvore, que a sua mão não vai tremer quando me apontar a carabina do roceiro que decapitou e não tremerá e eu não tremerei se o vir primeiro e aponto a minha metralhadora e vou ficar com o coração leve a ver-lhe cair lá de cima do pau no capim alto e fofo da nossa infância. Que não é ele que revistarei; não é ele que vou procurar salvar para depois lhe matarem com torturas para lhe fazer falar o que ele não vai falar. Ele ficará, ficou, fica nos capins soterrados do Makulusu quando a gente pelejávamos até no cansaço e no sangue derramado porque vamos já, lavados de sujos, receber quicuerra e micondos de mamã Ngongo. isto, Mais-Velho, é que é difícil e tenho de o fazer: o capim do Makulusu secou em baixo do alcatrão e nós crescemos. E enquanto não podemos nos entender porque só um lado de nós cresceu, temos de nos matar uns aos outros: é a razão da nossa vida, a única forma que lhe posso dar, fraternalmente, de assumir a sua dignidade, a razão de viver – matar ou ser morto, de pé.

Mas eu sei que tu compreendes, mas não aceitas, tu não sabes o que é dormir tranquilo com Maricota no lado e saber que ela sabe e aceita o eu ir e matar ou morrer. Tu achas que isso é uma injustiça e tens razão, Mais-Velho. Mas me diz só: que posso eu fazer que não seja uma injustiça? Ou então prova que sim, que  o caminho é o que constantemente discutimos nestas tantas semanas, pega numa espingarda e vai para o lado do irmão da Maricota e mata-me. E então, Mais-Velho? Lês Marx e comes bacalhau assado, não é? Não te deitas com negras nem mulatas – a tua cunhada é mulata, fico descansado... – por respeito. Vê bem, Mais-Velho! Como tu és um baralhado: por respeito lhe recusas a humanidade dessa coisa simples, onde que só o humano se revela, onde só se pode aí comunicar, saber, aprender... Rio, sabes, mas me dói muito no coração, fico pesado de amargura. Espalha os teus panfletos, que eu vou matar negros, Mais-Velho! E sei que eles te dirão o  mesmo: «espalha os teus panfletos, vou matar nos brancos.»

Olha, Mais-Velho: não a odeias mais do que eu. E só há uma maneira de a acabar, esta guerra que não queres e eu não quero: é fazer-lhe depressa, com depressa, até no fim, gastá-la toda, matar-lhe.

Só porque tens razão, também tenho.

Desembeco na Travessa da Sé e é o cheiro a mar que me rusga. Mas quero sentir-lhe todo, não posso, não aceita, não lhe deixa o ramo branco das flores que estou levar, o fato escuro que pedi emprestado e a gravata disfarça. Não pode: mar mesmo só cheira a mar num corpo todo nu.

– Xalados, vocês!..."

 

© Blog da Rua Nove

30.08.13

Luandino Vieira - Duas Histórias de Pequenos Burgueses


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Capa de Fernando Marques (datas desconhecidas).

Linóleo de Luandino Vieira (n. 1935).


Luandino Vieira (pseudónimo de  José Vieira Mateus da Graça, n. 1935), Duas Histórias de Pequenos Burgueses (1961).

 

Este conjunto de textos, publicado na Colecção Imbondeiro com um título sem qualquer relação com os dois contos apresentados – Inglês à Hora e O Sábado, As Raparigas e o Gato, apresenta duas narrativas datadas por Luandino Vieira de 2 de Julho de 1954 e 20 de Abril de 1955, respectivamente.

 

Segundo o autor, o título escolhido indiciaria "os momentos que atravessei e atravessaram os adolescentes da minha geração – melhor, da minha idade – perdidos nos quadros duma classe social cujas perspectivas já pressentiam ou sentiam ultrapassadas." Concluindo a sua introdução a este volume, Luandino Vieira declara – "O pequeno-burguês será, em breve, um animal pré-histórico."

 

Embora tal conceito remeta já para as posições que o autor haveria de desenvolver na sua obra mais célebre, Luuanda (1963), na continuidade de uma consciência idiossincrática de África com eventuais raízes num certo ideal social preconizado pelo grupo da Seara Nova e, posteriormente, pelo neo-realismo, estes contos abordam efectivamente a problemática da adolescência e da insegurança adolescente no seu relacionamento com o sexo oposto, evocando muita da temática que havia sido abordada por autores presencistas.

 

Luandino Vieira publicara até àquela data alguns dos seus textos em duas colectâneas – Contistas Angolanos (1960) e Poemas Angolanos (1961), havendo publicado anteriormente, também, o volume de contos A Cidade e a Infância (1954).

 

Residindo actualmente em Portugal, Luandino Vieira recusou em 2006 o prémio Camões, ano em que publicou o primeiro romance da anunciada trilogia De Rios Velhos e Guerrilheiros – O Livro dos Rios.

 

 

Do conto Inglês à Hora transcrevem-se os últimos parágrafos:

 

"Olhou-o. Notou um leve desprezo nos lábios dela. Mas porquê aquilo do marido? Estaria ela a fazer jogo claro, ou seria outra inconsciência?...

 

– Leia mais um bocadinho.

 

Ele recomeçou:

 

"I'm going to get out of this town" Nick said

 

"Yes" said George "That's a good thing to do"

 

Sim, o melhor é ir-me embora, senão perco a cabeça. Que quererá ela dizer com aquela conversa de marido? O meu marido... Era isso, oferecia e negava. Negava e oferecia. Era o seu jogo. Jogo um pouco perigoso porque oferecia tanto como negava.

 

– No próximo dia você tem outro conto: "The Devil and Daniel Webster".

 

Portanto, no próximo seria o Diabo... Ela olhava-o com o mesmo sorriso luminoso, trocista, cheio de sensualidade. Entreabriu os lábios, uns lábios grossos, sensuais. Fechou os olhos. Depois, abriu-os e sorriu. Ele não teve coragem... Mas talvez no próximo dia...

 

– ... "O Diabo e Daniel Webster" – disse ela.

 

Sim, o Diabo... Talvez o Diabo e Sr. Lima!

 

– Boa noite, Sr. Lima!

 

– Boa noite...

 

Os seus olhos ficaram espiando-se. Ela sorriu-lhe. Como ele ia ser feliz no estrangeiro!

 

Cá fora um negro bateu com o portão. Perto, na casa ao lado, o rádio atirava para o ar Al Martino e a sua voz de ouro...

 

"Here in my heart..."

 

Ele sumiu-se na sombra e ela ficou olhando a escuridão dos passos dele."

 

© Blog da Rua Nove

05.02.10

Reis Ventura e a Literatura Colonial Portuguesa


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Fotografia da década de 1920 com a seguinte legenda, manuscrita por Reis Ventura, no verso: "Creio que já lhe falei no passeio que demos todos os do curso superior a Caminha, de barco. Foi muito interessante. Como vê estamos todos à secular porque a Portugal não podemos ir de hábito. Este retrato foi-nos tirado pelos padres Jesuitas da Guardia no claustro do seu convento. Eu sou esse trampolineiro marcado com uma cruz. Reis". Na frente, no canto superior esquerdo, uma dedicatória parcialmente ilegível: "A meu irmão (...) do Vasco (...)".

 

 

Manuel Reis Ventura (1910-1988) foi um dos escritores que integrou aquela que se pode classificar como a segunda fase da literatura colonial portuguesa de inspiração africana, no século XX. A primeira fase, representada por escritores como Henrique Galvão (1895-1970), Julião Quintinha (1885-1968) e Castro Soromenho (1910-1968), desenvolveu-se entre as décadas de 20 e 40 coincidindo predominantemente com a recuperação do conceito de império colonial, preconizado pelo Estado Novo. A segunda fase veio a coincidir com o início da autodeterminação dos países francófonos de África, já na década de 50, e com a sublevação nas colónias portuguesas, na década seguinte. Em Angola, esta fase cristalizou-se à volta do Grupo da Província, um conjunto de artistas e escritores que contribuíram para o Suplemento Literário do jornal "a província de Angola" [sic], logo a partir da década de 40.

 

 

  

Luuanda, 1.ª edição brasileira (1965), à esquerda, e 3.ª edição portuguesa (1974).

 

 

Durante a década de 60, este grupo, apoiado tacitamente pelo governo e pela Agência Geral do Ultramar, veio a ser contestado, na sua literatura comprometida com  o regime, por escritores de oposição ao colonialismo e ao Salazarismo, como José Luandino Vieira (pseudónimo de  José Vieira Mateus da Graça, n. 1935). Um autor que já se notabilizara na década de 50 através da sua colaboração nas revistas Mensagem e Cultura, veio a ser galardoado em 1965 com o prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores pelo seu livro Luuanda (1963). Um prémio que se revelou controverso pela oposição que mereceu das instituições governamentais da época e pela evidente contestação ao regime que tal atribuição representava, visto Luandino Vieira ser então um preso político.

 

 

Cafuso (1956), capa de Neves e Sousa.

 

 

Em plena década de 60, devido à guerra, o compromisso ideológico de Reis Ventura para com o regime acentuou-se, vindo a sua literatura a ser fortemente condicionada por esse facto. A sua prosa passou a reflectir aspectos panfletários e dogmáticos, características já anteriormente sugeridas na personagem Bolchevique de A Romaria, congregando o reconhecimento do regime e dos defensores do sistema colonial. Nesta transição perdeu-se, contudo, a simplicidade, a clareza e a atracção de uma prosa corrida que o autor desenvolvera nos anos 50. Assim, talvez as suas obras literariamente mais conseguidas tenham sido precisamente as dessa década, merecendo particular destaque os romances que constituem a trilogia Cenas da vida em Luanda – Quatro Contos por Mês (1955), Cidade Alta (1958), Filha de Branco (1960), bem como o romance parcialmente autobiográfico Cafuso (1956). Nesta última obra, o narrador intradiegético relata a sua passagem por Tuy, a sua preparação sacerdotal e o abandono da vocação. Reis Ventura efectuara esse mesmo percurso, tendo embarcado para Moçambique em 1934, de onde transitou para Angola, três anos depois. Deste último romance, transcrevem-se algumas passagens que retratam de um modo divertido a vocação sacerdotal da personagem adolescente:

 

"O meu nome é José da Silva Taveira e tenho alguns estudos. Cheguei mesmo a cursar Filosofia com os Padres Franciscanos do Colégio de Santo António, na cidade fronteiriça de Tuy. Eu já lhes conto como isso aconteceu."

 

(...)

 

"Entrei, muito acanhado, na pobre saleta, famosa em toda a aldeia pela sua mesa de centro e alguns móveis desirmanados que meu pai trouxera do Brasil. O sr. Padre Inocêncio lá estava, alto e encorpado, com a testa rompendo até à coroa por entre duas farripas altas de cabelos, a fitar-me com os olhos bondosos, por baixo das sobrancelhas espessas. Naquela sua voz sonora de prègador de nomeada, perguntou-me logo, sem rodeios:

– O menino quer ir para o colégio?

Colhido de surpresa, derivei para minha mãe um olhar indeciso.

– Vá, responde! – encorajou ela.

Na minha consciência infantil, entendi que me destinavam para padre. Ràpidamente, corri os olhos cobiçosos pela grande fila de botões que o austero franciscano ostentava na batina. Lembrei-me dos puxões de orelhas que tinha apanhado pela mania de tirar à braguilha das calças o material para o jogo do botão. E, no meu íntimo, concluí:

– "É furo!"

O sr. Padre Inocêncio, bem longe dos meus silenciosos cálculos, ergueu-me o queixo com dois dedos amáveis e, olhando-me com bondade, proferiu:

– É um colégio muito grande, numa cidade muito bonita. Queres ir?

Mirei-lhe novamente os botões da batina. Caramba! Eram mais de vinte, alinhados, pretos, luzidios... E, resolutamente, respondi:

– Eu quero, sim senhor."

 

 

Engrenagens Malditas (1964), capa de António Lino (1914-1996).

 

 

A propósito da controvérsia que envolveu a atribuição do prémio do SPN em 1934, transcreve-se um excerto da entrevista que Reis Ventura concedeu ao jornal "a província de Angola" em 10 de Junho de 1970:

 

"– Sabemos que ganhou o Prémio Antero de Quental em concorrência com Fernando Pessoa...

– Não é verdade! E sinto-me envergonhado sempre que se fala nisso. Aconteceu apenas que a "Mensagem" de Fernando Pessoa, apresentada como "a Romaria", ao primeiro concurso literário do Secretariado da Propaganda Nacional, em 1934, não tinha o mínimo de cem páginas, exigido pelo Regulamento para as obras concorrentes ao Prémio Antero de Quental. Mas, ao atribuir-lhe o Segundo Prémio (apenas para respeitar a letra do Regulamento), o Júri proclamou o valor excepcional da "Mensagem" e declarou equiparados  os dois prémios da Poesia. Perante tão clara atitude, até eu, que era então ainda um garoto cheio de pequenas vaidades, compreendi que o Primeiro Prémio de Poesia, em 1934, estava conferido, de direito e de facto, a uma obra de génio, perante a qual os meus versinhos de rapaz nem sequer existem."

 

Estas considerações tinham sido já consubstanciadas estrutural e conceptualmente em A Grei (1941), obra que em plena guerra colonial ressurgiu com o título Soldado Que Vais À Guerra (1964). Nesta reedição ligeiramente modificada, Reis Ventura passou a apresentar como composições introdutórias quatro poemas que anteriormente surgiam no final do livro e cujos títulos e conceitos são obviamente evocativos da Mensagem – Viriato, Aljubarrota, O Sonho do Infante, 1640.

 

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