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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

20.10.25

Orlando Mendes - País Emerso (I)


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Orlando Mendes (1916-1990), País Emerso (1975).

 

Acabado de imprimir em Maio de1975, na Empresa Moderna, de Lourenço Marques, este volume surgiu no mês anterior ao mês da declaração da independência de Moçambique, ocorrida a 25 de Junho daquele ano.

 

O próprio título traduz já os sentimentos políticos e sociais, decorrentes da revolução de 25 de Abril de 1974, em Portugal, associados às colónias portuguesas desde o ano anterior.

 

A obra literária de Orlando Mendes nunca havia sido explicitamente política, mas em alguns dos poemas, num conto e na peça de teatro que reuniu neste primeiro caderno (País Emerso II viria a ser publicado no ano seguinte), o autor assume-se como arauto das mudanças sócio-políticas, procurando descrever e promover a consciência do que está a acontecer em Moçambique.

 

Uma vez que já anteriormente se referiram alguns dados biobliográficos do autor, o presente artigo registará apenas que este volume apresenta quinze poemas – De ontem para hoje, Deserção do infante, Meditação, E nunca mais serei eu, País emerso, Revolução, A caminho, Menino agora, Libertação do poeta, Um fósforo na noite, Invenção na voz, Escola Nova, Chuva, Carta para, Bilhete de filho, dois contos  O Segredo e A Reunião, e a peça de teatro Na Machamba de Maria – Sábado às 3 horas da tarde.

 

Transcreve-se de seguida, integralmente, o poema A Caminho.

 

A CAMINHO

 

Quando as luzes acendem na cidade

salpica-se de casas escuras por abandono.

Lá, nas machambas com cantina, o motor

funciona toda a noite para iluminar o centro

patronal, matilhas de cães ladram ao mínimo

lume de pirilampos e voo de insectos.

Acorda-se quase sem se saber porquê, instinto

a louvar o faro-zelo dos mastins, necessidade

de sono rebentando pragascontra os ladridos.

Nas povoações só (se acontecem) estrelas e lua

iluminam os caminhos de passagem comunal

que ninguém devassa pela noite adiante

porque os cães mansamente dormem as horas

que faltam para despertarem a madrugada.

E um novo dia amanhece na cidade

e nas dispersas machambas com cantina

e nas povoações que simples contaram histórias

e entoaram uma canção da luta em paz

e foram deitar-se sobre as esteiras rugosas

para dormir fadiga sem sonhos ou pesadelos.

Dia que um forasteiro poderia dizer que

não alterou a cara das coisas que havia já

dia que muitos de aqui pensam que não

traz mudança, além da cor que mais sobressai.

A manhã dura o mesmo tempo, o sol queima

como ontem, a chuva é de mais ou de menos

como nos ciclos passados. Mas o povo, esse

vai a caminho com o início da Revolução

tem outro rosto, outras palavras, outro andar

para um cântico-música que sabe improvisar

o que por este poema talvez insólito se noticia

para conhecimento daqueles que nos seus lares

de chinelos e tomando bebidas reconfortantes

apenas ouvem a rádio e lêem os jornais

pois ver multidões os arrepia debaixo da pele.

 

© Blog da Rua Nove

30.08.25

Lourenço de Carvalho - O Bípede sem Plumas


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Lourenço de Carvalho (datas desconhecidas), O Bípede sem Plumas (1974).

 

Não existem grandes registos biográficos ou bibliográficos sobre Lourenço de Carvalho, sabendo-se que, para além deste volume de poesia, publicou ainda um outro volume, intitulado Minha Ave Africana, em data desconhecida, mas provavelmente na década de 1970.

 

Esta última obra apresenta extenso prefácio de Eugénio Lisboa (1930-2024), sabendo-se ainda que existia um exemplar deste volume, com dedicatória do autor, na biblioteca de Jorge de Sena (1919-1978), exemplar que hoje integra o acervo da Biblioteca Nacional, em Lisboa.

 

Será muito provável, portanto, que Lourenço de Carvalho orbitasse à volta do grupo constituído por António Quadros (1933-1994), Eugénio Lisboa, José Craveirinha (1922-2003) e Rui Knopfli (1932-1997), o qual havia estado na génese da revista Caliban e manteve estreito contacto com Sena, que visitou Moçambique em 1972.

 

Esta ideia é reforçada ainda pelo facto de Eugénio Lisboa, Lourenço de Carvalho e Rui Knopfli terem colaborado com o jornal A Voz de Moçambique (1959-1975).

 

O volume O Bípede sem Penas, tem uma pequena introdução, numa badana, do poeta Sebastião Alba (Dinis Albano Carneiro Gonçalves, 1940-2000), uma citação de Natália Correia (1923-1993) – "As coisas que tocámos cobrimos de raízes / com a estranha violência / de as amarmos demais", uma dedicatória – "À Resi, ao Miguel / à Bárbara" e apresenta três longos poemas, intitulados ODE viagem celular ou o bípede sem plumas incómodo e suspeito (datado de 15 de abril de 1970), PERCURSO INTERIOR entre o silêncio e a luta (datado de 10 de novembro de 1972) e POR ANDASTE JEAN NICOLAS RIMBAUD (datado de 5 de janeiro de 1972), que se reproduz, na íntegra, abaixo.

 

Para além da modernidade que ignora pontuação, maiúsculas e estabelece longos espaços entre algumas palavras, esta poesia denota influência não apenas de Arthur Rimbaud (1854-1891), mas também de Walt Whitman (1819-1892) e Álvaro de Campos (pseudónimo de Fernando Pessoa, 1888-1935), apresentando uma visão crítica e subversiva das heróicas epopeias do mundo ocidental, da sociedade no mundo contemporâneo e da própria existência.

 

"POR ONDE ANDASTE JEAN NICOLAS RIMBAUD?

 

por onde andaste jean nicolas rimbaud

arremessando o barco por montanhas e mares?

 

em estradas solitárias    cobertas por restolhos de guerras

e castástrofes   venenos e demónio submersos na pele   odor a sonho

esplêndido e vibrátil

labirintos iguais a ossaturas de tigre e de veado

manhãs escritas com assombro   temor

e porventura arrancadas à vertigem de nunca acontecer

aquilo que tomamos por infinita alegria

e que nos mata

 

ancoraste em cidades povoadas   de gestos importantes

sensações tão sombrias   cautelosas

como gatos de gravata e luto

praças de tédio om o sabor febril de angústias milenares

paraste em cemitérios   olhado com rancor por gente

muito digna   armadade espingarda para te amar   diziam

 

abandonado e limpo   ó traficante azul

que atravessavas áfrica entre putas e escombros

flutuando o navio carregado esquecido

anterior à própria floração da bruma

secreção de alguma ideia muito nova e vasta à flor da boca

no começo do mal

no cume do  meu dia

 

fabricante de anjos   de papel com silêncio e espada

monstros teleguiados por tuas mãos argutas entre o demónio

ae a luta abandonando flores e apodrecendo gritos

destruidor disseste de homens bons e simples trasnformados

em bichos de olhos enormes   vivos

pelos sinais dos tempos do fogo e dos videntes

essas cartas deixadas em lugares ignorados

quartos setentrionais nas vertentes dos sol

foi aí que te vi

 

vi-te a chorar no chão meu anjo sanguinário

pela rua   tão branco   esperei-te num murmúrio

com foi que não vieste   ficaste tenebroso

– a torturar crianças   adolescentes belos

com gritos de martírio –

tornado informe   imenso (chamar-me nomes não!)

estilhaçado horrível com casaco e carteira

serpente muito lenta

odiar-me e dizer-te   com raiva e com razão

 

no meio destas mortes destas cabeças ocas

trago-te a uso aqui   levito-te no espelho

da terra que me atribuo e digo

e percorro o mistério   paixão e  morte

da palavra a transformar-se em homem

(esse astronauta louco a masturbar-se em espuma

semelhante e igual a mártires e exploradores e santos de cartola

mágicos expostos na solidão dos tempos)

 

jean nicolas rimbaud

trago-te a uso aqui   gasto-te no sono e na vigília

a falar de negócios   a tropeçar de bruços

na exactidão de crimes entorpecentes simples

pendurado dos ombros entre franjas e mambas

ofídios perigosíssimos como o perfume a lepra

das situações difíceis

imprevisível estou

e me consumo

e mato?

 

como sempre é penoso

preencher um buraco de horas tão fodidas e estreitas

nesta áfrica   empório

de gente tão igual

traficante rimbaud que fartaste jovem

do fastio de merda dos grandes personagens a conservar

direitos admiráveis e limpos

como foi que perdi o sinal de contacto?

e não fiquei na fuga   nem ficaste na fuga

repartido entre o mar e a densidade líquida de espaços vazios?

 

eras tão sóbrio... azul

o mais impressionante   o mais justo e claro

percurso para o barco flutuar despido

 

atento na razão

coisas imprescindíveis

onde nasceste morro   onde amas   não deitas essa cauda tão longa

ó fera cautelosa

porque te esconde agora a selva fraudulenta?

 

neste tráfico branco

de chicotes e balas

ah! este medo usado

este medo e suor diariamente posto

é a prova dos nove

ou a ferida passada a crivo pela pátria

 

ó heróis ó heróis

companheiros serenos acomodados   neutros

debruço-me outra vez na sala dos avós

emoldurados rígidos

reminiscências dúbias

de corsário e mitos

 

nós conquistámos áfrica

ó rimbaud ó poeta

pusemo-nos em cima

com calças e sapatos

nesta terra a crescer entre o terror as vísceras

restos de corpos de condição diferente

a ignorar punir

 

daí que não se infira outra culpa

outra dúvida

a esta geração que estuda a cibernética

entre a cama e o barbeiro e o contágio sereno da mão

na algibeira

 

no meio destas mortes   destas cabeças ocas

trago-te a uso aqui   levito-te no espelho

da terra que me atribuo 

e digo?

 

l. marques, 5 de janeiro de 1972"

 

© Blog da Rua Nove

17.07.25

Orlando de Albuquerque - Sôbre o Vento Noroeste


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Orlando de Albuquerque (1925-1997), Sôbre o Vento Noroeste (1964).

 

Orlando de Albuquerque, médico moçambicano radicado em Angola e marido da médica e poetisa Alda Lara (1930-1962), havia publicado, até este ano, quatro obras, entre as quais Batuque Negro (1947), que se indica neste volume estar proibida.

 

Para além das três obras que já se indicaram anteriormente (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/4664.html), publicara também um livro de crónicas, intitulado A Casa do Tempo (1964).

 

O presente volume encontra-se subdividido em três secções, Cantares, Consolança e Asfalto, apresentando trinta e sete poemas datados de anos que decorrem entre 1960 e 1963.

 

De todos estes poemas, apenas um, Chove Insistentemente, se relaciona explicitamente com África, pelo que se transcreve aqui, em conjunto com dois outros de registo bem distinto, sendo que o último até poderá sugerir uma certa ironia premonitória:

 

CHOVE INSISTENTEMENTE   [1960]

 

Chove insistentemente

com a persistência bruta

das coisas tropicais...

 

Jamais

consigo identificar-me com a chuva

nesta minha África abandonada.

 

Todo o instante é fugaz, é nada

perdido no oceano dos desejos

e ansiedades.

 

Possa a verdade

ainda um dia vir à tona da água

e sejamos nós, então, realidade

mesmo à custa da nossa mágoa.

 

ESPANHA   [1961]

 

Junto à trincheira

duma qualquer praça de touros

– ai Espanha! –

a angústia é companheira...

 

Trinta e sete carabineiros

trinta e sete balas dispararam

e trinta e sete corpos vararam...

 

Naquela manhã de Outono

o sangue tingiu a arena

de vermelho,

sem leões nem gladiadores...

 

Numa qualquer praça de Espanha

trinta e sete tiros soaram...

 

A IRONIA DOS CRAVOS VERMELHOS   [1963]

 

Mãos colheram para um outro destino

já adivinhado nos olhos fundos

cheios de mágoa e pressentimento.

Mãos que souberam afagar e se traíram

no destino inconfessado das carícias,

que não podem ser negadas.

Mãos pendentes em desengano

e desalento arrependido

mas sem coragem,

a coragem do vermelho das vossas pétalas,

que hoje restam em ironia

de ser...

 

© Blog da Rua Nove

12.06.25

Revista Cultura (VII)


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Este número 9, publicado em 1957, apresenta poemas de autores associados a Angola, Emílio [Machado] da Costa Rosa (1932-1998), Cabo Verde, Manuel Lopes (1907-2005) e Moçambique, F. A. Barradas (datas desconhecidas), que haviam sido anteriormente publicados no Boletim Cabo Verde e na revista ELO (Moçambique).

 

Curiosamente, embora Emílio da Costa Rosa, que assina o poema Para uma tarde de neve, tenha nascido em Angola, foi em Moçambique que desenvolveu parte da sua carreira profissional, quer como magistrado quer como advogado, depois de ter passado pelo Colégio de S. Luiz, em Espinho, onde completou a Instrução Primária e fez o curso do Liceu, e pela Faculdade de Direito, em Lisboa.

 

F. A. Barradas, que assina Meus tristes poemas, não aparece mencionado em muitas fontes, embora o seu nome surja na revista Pela Patria, publicação mensal da comunidade portuguesa de Xangai, também relacionada com Macau, que foi editada nos anos de 1940 e 1941.

 

Embora já se tenham apresentado aqui passagens de outros trabalhos do consagrado Manuel Lopes, quer em verso quer em prosa, transcreve-se agora mais um poema do autor, um olhar claridoso sobre a emigração que ainda hoje caracteriza a realidade de Cabo Verde:

 

Poema de quem ficou

 

Eu não te quero mal

por este orgulho que tu trazes,

por este ar de triunfo iluminado

com que voltas...

 

... O mundo não é maior

que uma pupila dos teus olhos:

tem a grandeza

das tuas inquietações e das tuas revoltas.

 

...Que teu irmão que ficou

sonhou coisas maiores ainda,

mais belas que aquelas que conheceste...

Crispou as mãos à beira-mar

e teve saudades estranhas, de terras estranhas,

com bosques, com rios, com outras montanhas,

– bosques de névoa, rios de prata, montanhas de ouro –

que nunca viram teus olhos

no mundo que percorreste...

 

© Blog da Rua Nove

16.05.25

Poesia de Moçambique (III)


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Capa de Vitor Evaristo (datas desconhecidas).

 

Rui Knopfli (1932-1997) já foi aqui referido múltiplas vezes, pelo que este artigo apenas reproduzirá um dos quatro poemas apresentados no volume.

 

Dois deles, Outubro 1969 e Disparates seus no Índico, constam do livro Mangas Verdes com Sal (1969), anteriormente mencionado (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/rui-knopfli-mangas-verdes-com-sal-31290), um outro, Normas para a Regulamentação do Discurso Próprio, surgiu na revista Caliban, números 3/4, sendo o excerto de O Escriba Acocorado um inédito.

 

No ensaio introdutório a esta selecção de Knopfli, declara Eugénio Lisboa (1930-2024), a propósito de anteriores obras do autor – "A poesia de Rui Knopfli, chegada depois das vozes declamatórias (indignadas ou simplesmente queixosas) de José Craveirinha ou de um Orlando Mendes, vinha dizer-nos, com modo dorido, que lhe não era possível outro discurso que não fosse o mais adequado a uma visão «um tanto crepuscular», segredando «palavras encardidas e magoadas», por certo as mais estrategicamente adequadas a convirem «este tédio profundo do tempo e da vida / mal vivida»."

 

Tendo Disparates seus no Índico sido já reproduzido, e não estando nenhum dos seus três outros poemas directamente relacionado com África, a opção é transcrever um poema explicitamente relacionado com os acontecimentos da crise académica de 1969, cujas manifestações e contestações ao regime decorreram entre Abril e Setembro daquele ano.

 

"OUTUBRO 1969

Súbito sobressalta a cidade

um pavor atónito. Existia

antes, latente, mas agora

vemo-lo, cefalópode

emergindo da sua tinta,

hélices sinuosas cortando

lentas o cansado óleo.

Mergulharemos na noite,

mergulharemos numa noite

inóspita e pejada de gemidos;

só terá coordenadas, características

e cheiro, o nosso medo.

O nosso medo ondulando

no óleo percutido pelas braçadas

tentaculares, o nosso medo

convergindo no feixe dos sentidos.

Não há tomates, não há tomates

para ele, quanto mais

para o pito da menina.

O nosso medo, membrana

impenetrável, saco sem fundo,

trampolim imprevisível.

A paisagem é a mesma,

o monstro todavia desencadeia

já a sua ofensiva. Não o vêem,

não o vêem os demais,

só o nosso medo lhe conhece

o santo e a senha, o rosto sem nome,

os olhos sem cor, os dentes sem boca.

Como ratos lobotomizados

colamo-nos à humidade da parede.

Não há apelo, não há redenção,

não há uma saída, a não ser

a parede, como fim.

A cidade é a mesma,

não viremos no necrológio

pois estamos vivos posto

que mortos. Se murmurados,

nossos nomes, ninguém os ouvirá,

pois estamos mortos posto

que vivos. Seremos a lembrança

a evitar, o hiato no diálogo,

a ausência preenchida.

Por nós, seremos bem comportados

e, no fim de tudo isto,

agradeceremos aos polícias

a porrada e os conselhos."

 

© Blog da Rua Nove

09.11.24

Orlando Mendes - Véspera Confiada


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Orlando Mendes (1916-1990), Véspera Confiada (1968).

Capa de Alfredo da Conceição (1919-2011).

 

Orlando Mendes, de quem Eugénio Lisboa (1930-2024), logo em 1969, noutro contexto (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/rui-knopfli-mangas-verdes-com-sal-31290), viria a dizer  "(...) poeta cheio de dignidade recolhida que é Orlando Mendes (tão pouco citado, tão imerecidamente preterido por outros de interesse poético infinitamente menor...)", havia publicado até ao ano de 1968 os volumes de poesia Trajectórias (1940), Clima (1959), Depois do Sétimo Dia (1963), Portanto, eu vos escrevo (1964) e o romance Portagem (1966).

 

Posteriormente, em poesia, haveria de publicar Adeus de Gutucumbui (1974), A Fome das Larvas (1975), País Emerso I (1975) e II (1976), Produção com que Aprendo (1978), Lume Florindo na Forja (1980) e Faces Visitadas (1985).

 

Publicou ainda uma peça de teatro, Um Minuto de Silêncio (1970), e duas obras infantis Papá Operário Mais Seis Histórias (1980) e O Menino que não Crescia (1986).

 

Nascido na Ilha de Moçambique, veio a licenciar-se em Ciências Biológicas na Universidade Coimbra, especializando-se depois em botânica e fitosanidade, o que explicará a sua afinidade e proximidade com o autor do desenho da capa, Alfredo da Conceição, que se viria a consagrar como notável ilustrador naturalista de fauna e flora.

 

Nas badanas do presente volume, Eugénio Lisboa aprecia da seguinte forma o autor e a obra – "Numa terra em que quase tudo é ao nível do «pouco» e em que a seriedade literária, portanto, pouco se faz notar, Orlando Mendes consegue ser, ao mesmo tempo, o dono de uma Obra poética que se destaca junto ao nível das mais conseguidas, e o dono de um  rosto humano que quase ninguém conhece. Digamos que se trata de uma certa vitória."

 

E acrescenta – "É um homem simples, discreto, trabalhador, de pouco convívio. Nem sequer cultiva a convivência literária e, para o caso, tanto melhor! Não sei se lê muito, se pouco. Tem a sua vida à parte, às vezes difícil (supomos), e vai, em silêncio e sem escândalos (que ajudam), debitando, a espaços largos mas teimando, um discurso poético e uma conduta cada vez mais exemplares."

 

Para concluir – "Numa terra, numa época e numa sociedade em que o intelectual é òbviamente o homem a liquidar (já foi dito!), e o intelectual com dignidade o homem a liquidar duplamente, Orlando Mendes acrescenta ao peso substancial destes dois pecados, a chaga suplementar de uma exemplar modéstia. Confessemos que é demasiado!"

 

Para o autor, "a seiva elementar de África", que menciona no seu poema "história", parece ser intrínseca ao ritmo e ao sentido da poesia, não tendo de ser explícita nem tendo de afirmar continuamente a sua africanidade em referentes do real. Daí a quase ausência de menções explícitas a África, neste volume, ou de um léxico que, imediata e especificamente, para ela remeta.

 

Transcrevem-se, por isso, duas das poucas poesias que constituem excepções a essa prática:

 

chegada

 

Para o homem chegado de Lisboa

Trazendo mulher e filhos e calos

Nas mãos e gostos a vinho e broa

Nos lábios frios de madrugá-los,

 

Para o homem perplexo neste cais

De África, novos gostos terão

Entre lembranças e outros sinais

De estar, o vinho e também o pão.

 

Os pais sofram a crise intermitente

De viver ou morrer com a seara

E a saudade que os atormente.

 

Os filhos cresçam queimando a  cara

com o sol que o menino negro sente

às costas da Mãe que gera e ara.

 

manhã de junho

 

Ao longo do litoral avisado frequentemente,

Estão a decorrer exercícios de fogos reais

Para o mar calmo na minha infância insular.

E mufana cheira a pólvora e brinca na areia.

 

No campo, anda a máquina de colher o arroz

Alugada pela maquia e gastando combustível.

O homem semeou, porém, pardal-ladrão dispôs

Do grão maduro, apesar  de tambores de lata,

Petardos e tiros e de o avião ter destruído

Milhões de machos e fêmeas, com parathion.

 

Uma nuvem verdadeira ou de insectos subtis

Ou talvez de olhos apontados contra o sol,

Encobre o seco perfil de madala mais velho

Erecto sobre a savana que recebe os mortos,

O chikomu e o suor e as sementes guardadas.

 

A mil trezentos e tal metros distante dali,

A vaca pariu em boa hora, o leite escasseia.

Mas choveu há dias e rebentam capins tenros

E a lagarta invasora só aparece em Dezembro.

 

Uma palhota acabara de ser arranjada quando

Vibraram os dinas por toda a vasta planície

E não repicam os sinos e não tocam a rebate

E a dilacerante prenhez deita-se na esteira

Com os randes que vieram do Transvaal em nó

Junto ao seio, as mãos raspando o chão frio."

 

© Blog da Rua Nove

03.10.24

Poesia de Moçambique (II)


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Capa de Vitor Evaristo (datas desconhecidas).

 

Até à data desta colectânea, Grabato Dias (pseudónimo de António Quadros, 1933-1994) havia publicado 40 e tal Sonetos de Amor e Circunstância e uma Canção Desesperada (1970), O Morto. Ode Didáctica (1971), A Arca. Ode Didáctica na 1.ª Pessoa (1971), Uma Meditação / 2 Laurentinas e Dois Fabulírios Falhados (1971).

 

Por ocasião da efeméride comemorativa dos 400 anos de publicação de Os Lusíadas (1572), lançou ainda As Quybyrycas (1972), longa obra que poderá ser interpretada como uma irónica anti-epopeia travestida de paródia épica. Jorge de Sena (1919-1978), que na altura se encontrava em Moçambique para assinalar aquele evento camoniano e cuja estreita relação com o autor, e outros escritores moçambicanos, já se mencionou, foi o autor do prefácio a esta obra.

 

A sua poesia e os seus textos encontram-se também dispersos pela colaboração que manteve com Caliban (revista co-dirigida e co-editada com Rui Knopfli [1932-1997]), A Voz de Moçambique, Colóquio/ Letras e Notícias da Beira, entre outras publicações.

 

Sobre a obra de Grabato Dias, pronuncia-se assim Maria de Lourdes Cortez, no presente volume – "A ironia, o humor selvagem, o cunho da teatralidade, são, na obra de Grabato Dias, uma componente indispensável da sageza – e da saúde: é pelo riso – e por ter acedido a um terreno onde pode enfim respirar – que o poeta imerge em certos aspectos do mundo extremamente importantes e dolorosos. Face ao marasmo da vida, ao charco liso e morno da convenção, ao mecanismo sistemático do engano, a atitude desenvolta e o cinismo frívolo funcionam como privilégio defensivo, processo de distanciamento; e ganham, mesmo no seu desenrolar absurdo, uma lógica inquietante."

 

Nesta colectânea apresentam-se seis sonetos e uma longa poesia com estrutura de soneto, reproduzindo-se abaixo o poema Inhaminga, soneto que, à data deste volume, permanecia inédito, e do qual, parafraseando os trocadilhos tão caros ao autor, se poderá afirmar que, ao invés de uma conservadora e estagnada poesia de pousio, apresenta uma "ousada poesia de ousio":

 

POR INHAMINGA

 

Aqui me vi nascer nas gratas dobras

duma ternura em sândalo e pau rosa

com papaias do amor que ninguém usa

afora as mães, que usando embora as sobras

 

de um amor desusado, dão num sousa

um leite silva de amansar as cobras.

Aqui, sangue jocoso enviças as obras

do que deixei atrás votando à musa

 

esta grata malícia ou este ousio.

Nasço onde me prefiro. Aqui me adulo

onde acordado espero mais do frio

 

que da quente matriz onde me chulo.

Aqui nasço  e renasço sem fastio

do desfastio que é estar vivo e fulo!

 

Ainda num registo de anti-epopeia iconoclasta, onde uma orgia de neologismos, trocadilhos, insinuações e inovações lexicais se entrelaça num provocativo e quase pornográfico delírio cacofónico, transcreve-se também a apoteótica Apoetese de Plurais:

 

ARIA EM EL

APOETESE DE PLURAIS

 

Dilatação das coronárias

fumigação de coronéis

coroação de funcionárias

que a vinte e seis papam donzéis

corneações já partidárias

de cavalinhos de carrosséis

osgas-cabrões, ratas falsárias

martas zézinhos ritas manéis

trazem de luto as dores canárias

e no escorbuto ouro de anéis

o absoluto mudou as árias

das cifras várias e faz pastéis

com as razões mais extraordinárias

e comissões de veterinárias

apalpam pasmos espasmam corcéis

do amor recibo das semennárias

traças de arquivo que lambém méis

grossos, lascivos, das luminárias

abelhas sábias rés de bordéis

que voam sós nos céus das várias

autoridades de cascavéis

plenipo putenciárias

filhos de apuros bem o sabeis

a morte é lenta e as três marias

são quase virgens, rica vintage

de trinta e três, licor de leis

licor de lérias primor das tárdias

hemo petizes perdizes débeis

da caça fina grossa de asnárias

discursativas odes cruéis

descansativos gódes por árias

e ventos vários showsando seis

glândulas nulas lulas mamárias

com leite ralo de hall de hotéis

galeões canela e naus corsárias

porões à vela stripastíseis 

de membros mísseis desorbitais

falos passíveis de mil e seis

centos incríveis conventuais

maneiras cruas mas cozinháveis

de servir frios mas cozinháveis

a servir mortos mas comestíveis

a servir podres mas digeríveis

a servir chochos mas toleráveis

rebeldes sim mas algemáveis

no alguidar das leis agrárias

pataca a mim pataca às várias

patas e ratas patarratárias

zitas e parasitárias

parras com guitas nas nadegárias

autoridades alfandegárias

da raia aflita dos indizíveis

polvos gigantes indivizíveis

que irmãos nos cindem o bem possível

no cono inteiro da alimária."

 

© Blog da Rua Nove

07.12.23

Poesia de Moçambique (I)


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Capa de Vitor Evaristo (datas desconhecidas).

 

Colectânea de poesia que terá surgido na sequência da visita de Jorge (1919-1978) e Mécia de Sena (1920-2020) a Moçambique, no ano de 1972, a propósito da celebração do quarto centenário de publicação de Os Lusíadas (1572).

 

O presente volume não indica qualquer ano de publicação, mas apresenta estudos introdutórios datados de 25 de Outubro de 1972 (Jorge de Sena) e Novembro de 1972 (Maria de Lourdes Cortez), pelo que a sua edição terá ocorrido em 1973, ano que corresponde à data de depósito legal na Biblioteca Nacional, de Lisboa.

 

Este é o primeiro, e único, número de uma projectada série, sobre a poesia de Moçambique, que não chegou a ter continuidade.

 

A ligação entre Eugénio Lisboa (n. 1930), Grabato Dias (pseudónimo de António Quadros, 1933-1994), Jorge de Sena, José Craveirinha (1922-2003) e Rui Knopfli (1932-1997), está bem documentada (veja-se um exemplo de estreita colaboração, entre Craveirinha, Knopfli, Lisboa e Quadros, aqui: https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/rui-knopfli-mangas-verdes-com-sal-31290) e o seu relacionamento intelectual não é alheio à publicação da seminal revista Caliban, que surgiu no ano de 1972, como já foi referido (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/rui-knopfli-reino-submarino-28275).

 

Curiosamente, este volume, que pretende homenagear a obra poética dos três autores destacados na capa, apresenta uma maior extensão na análise crítica do que na reprodução de poemas – Sena analisa em seis páginas a obra de Craveirinha, que tem quatro poemas reproduzidos em quatro páginas; Cortez analisa em dezasseis páginas a obra de Grabato Dias, que tem sete poemas reproduzidos em oito páginas; e Lisboa analisa em vinte e duas páginas a obra de Knopfli, que tem quatro poemas reproduzidos em nove páginas.

 

Sobre a poesia de Craveirinha afirma Sena, no último parágrafo do seu estudo: "Poesia «negra»? Poesia «africana»? Por certo que sim a dele é. Mas tocada – ao revés do que pareça – de uma irónica e discreta melancolia, de uma sensualidade calma e distendida, de um contemplar de límpidos horizontes, de uma dorida tristeza de ser-se por destino voz, quando a vida poderia viver-se num amável e carinhoso silêncio de gestos e olhares. Talvez que, profundamente, e como contrapartida de uma primigénia e espontânea alegria de viver, isto seja a África, mais do que o imediato do aparente exótico ou da memória ou a experiência de séculos de terrores vividos. Mas, sem dúvida, é – acima de tudo – aquela nobreza da poesia ante que a crítica se envergonha dos seus juízos, como a humanidade deveria envergonhar-se de apenas sê-lo às horas em que não trafica consigo mesma."

 

De Craveirinha, que tem aqui apresentados os poemas Pureza, Nossa Cidade, Lustro à Cidade e 3 Refinamentos, reproduz-se o segundo poema, que já havia sido publicado na revista Caliban, números 3/4:

 

"Nossa cidade

esquisita na  bilharziose das compridas

noites amansadas como gatas de estimação ronronando

aos pés do dono e sobre as citadinas

coxas de pedra entreabertas no lençol como

uma  mulher saciada à segunda vez.

 

E nas ilhargas

da cidade os malditos meninos

de rostos tatuados de ranho seco

todos como pássaros fisgados no cajueiro dos malefícios

todos com os olhos amarelos de gemadas longínquas de sol africano

todos em carne viva sem sulfas de um naco de pão

todos a castanha de caju mastigada nos molares antropófagos da rua.

 

Nossa cidade

cemitério de mortos antes de o serem

e deserto povoado de um José-mulato jipe de carícias

nos joelhos nus das raparigas esfomeadas

também de angústias de cio

fêmeas e machos abotoados de ociosidade

devorando-se entre um boato e os relatos de futebol

ou enclausurando o universo no auomóvel a prestações

os dentes em riste de quem tange as violas

em ritmos a rebate nos pomos de alvenaria

mas quanto custa, afinal

quanto custa uma quinhenta de amendoins

do negrinho de faces tatuadas

de ranho seco?"

 

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30.09.21

Eduardo Paixão - Cacimbo


blogdaruanove

 

Eduardo Paixão (19??-1977), Cacimbo (1972; presente edição, segunda,1974)

Capa de Fernando Lopes Direito (datas desconhecidas).

 

No ano de 1972, Eduardo Paixão publicou Os Espinhos da Micaia (1972) e este romance, escrito ao longo de três meses durante o ano de 1971, cuja primeira edição apresentava uma capa de fundo amarelo, um distintivo recurso gráfico comum, aliás, a outras publicações de literatura africana da década de 1940, nomeadamente às obras de Ferreira da Costa (1907-1974).

 

Esta segunda edição do romance, publicada já depois de 25 de Abril de 1974, é particularmente interessante pelos "Apontamentos" que antecedem a introdução e veementemente reclamam um estatuto de contestatário do anterior regime para o autor, ao mesmo tempo que ameaçam denunciar os "homúnculos" que o antagonizaram durante esse período – "Oportunamente serão identificados em A Destruição de uma Quadrilha, não pelo mal que hoje me possam fazer, mas em obediência a um imperativo de consciência que me obriga a pôr de sobreaviso os homens verticais. Estes homúnculos não têm mais lugar num Moçambique novo, numa sociedade que será construída com base no respeito e na dignidade humana, em que todos fraternalmente terão que dar as mãos numa entreajuda leal e sincera empenhada na tarefa ingente da reconstrução do país. / Este  rebotalho humano, ainda vivendo impante de vaidade, terá que ser apontado, julgado pela consciência do povo. Não os podemos esquecer. (...)"

 

Antes destes dois romances, o autor apenas havia publicado A Árvore das Patacas (1953), uma revista em dois actos e 22 quadros, com arranjo musical de Artur Fonseca (datas desconhecidas), vindo posteriormente a publicar O Mulungo (1973) e Tchova, Tchova! (1975).

 

O romance Cacimbo parece querer evocar uma herança literária de influência queirosiana, particularmente derivada da crítica de costumes patente na trilogia O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e Os Maias, com um toque dos pretensos estudos sociais e de psicologia individual de Abel Botelho (1854-1917). A isto poderia somar-se ainda o aroma colonial da trilogia das cenas de Luanda, iniciadas na década de 1950 por Reis Ventura (1910-1988).

 

A opção por tentar gerir literariamente esta complexa combinação de heranças literárias parece coincidir com o curioso retrato que António Botelho de Melo (datas desconhecidas), recordando o cargo que Eduardo Paixão desempenhou como director do Desportivo de Lourenço Marques, traçou dele no presente ano de 2021 – " (...) presidida pelo sorumbático escritor Eduardo Paixão, que andava sempre de óculos escuros e de cachimbo na mão com um ar que estava a pensar no destino final da vida (...)". (https://bigslam.pt/historia/acontecimentos/100-anos-do-grupo-desportivo-lourenco-marques-1921-2021-por-antonio-botelho-de-melo/

 

 

A verdade é que tal complexidade resulta num romance certamente mais superficial do que o pretendido, com diálogos e momentos de reflexão demasiado longos e enfadonhos, onde os considerandos filosóficos e sócio-políticos do narrador participante  se entrelaçam com os discursos de alguns protagonistas.

 

A narrativa acaba, assim, por assentar muitas vezes em maçadores e inverosímeis diálogos artificiais, particularmente quando o mesmo registo discursivo é atribuído aos protagonistas adolescentes, contribuindo para que certas passagens possam causar nos leitores o mesmo efeito que causou em D. Emília o discurso de seu marido, como se pode constatar em alguns parágrafos, do final do capítulo XXIII, que abaixo se transcrevem:

 

"(...) Calou-se por uns momentos. A sua lúcida inteligência estava a fazer uma análise objectiva dos problemas de Moçambique. Bebeu um pequeno golo de licor, encheu uma chávena de café e continuou, concentrado, uma força interior dominando-o:

– A promoção social dum povo faz-se com base no seu desenvolvimento económico. O povo de Moçambique é pouco exigente, aspira, sim, por uma vida desafogada que lhe permita satisfazer as necessidades que a civilização lhe criou. Dormimos tranquilamente durante séculos, a herança é pesada, mas há que nos situarmos dentro das realidades, não podemos mais viver de improvisações, de indústrias caseiras. Fomos sempre mais um povo de aventureiros, nada ambiciosos, com pouco nos contentamos. Ligados, direi antes, amarrados a um atavismo das épocas recuadas em que as caravelas despejavam no reino carregamentos de especiarias vindas da costa do Malabar, continuamos até à presente época com o mesmo sistema, olhos fechados à realidade ultramarina. Hoje temos que revolucionar sistemas antiquados, não travar o progresso com peias bolorentas, com medo dos grandes empreendimentos que sempre mais nos assustaram que que as tormentas do Cabo, na rota de quinhentos. Tivemos sempre nos povos que civilizámos amigos fiéis que nada nos pediram, que defenderam as nossas fronteiras, que trabalharam resignadamente sem um queixume, sem um reparo. Somos um país multirracial, vivemos sempre em paz e concórdia, tivemos essa felicidade, não a deixemos hoje fugir com posições de intransigência, de incompreensão. A subversão acabará quando todos tenham pão, quando todos, independentemente de raças ou credos tenham na sociedade o lugar a que a sua inteligência, o seu valor lhes dão jus, quando todos brancos e negros, lado a lado, tirarem da terra tudo o que ela generosamente lhes oferece. Queria ver altas chaminés lançarem nos ares lavados de Moçambique o fumo negro dos grandes complexos industriais, desejava uma agricultura organizada, que Moçambique fosse um dos celeiros do mundo. Gostava de ver nas planícies imensas, fadadas para a pastorícia, grandes manadas de cabeças de gado, milhões de cabeças de gado, a industrialização das suas carnes, do leite e seus derivados. Por trás da subversão que hoje nos aflige existem Himalaias de interesses, de cobiças, de que o povo ingénuo e simples de Moçambique é um instrumento ao serviço de grandes «trusts» internacionais. Doutrinas ideológicas, sem dúvida aliciantes, mas a que se agarram como a ostra à rocha, a cupidez, a ganância, todo um cortejo de ideias inconfessáveis. Nós ainda estamos em África e, quando digo nós, refiro-me a brancos e negros, temos que aproveitar hoje esta consoladora realidade procurando estabelecer bases sólidas, baseadas no amor, na compreensão, no diálogo, deixar Moçambique galopar sem as peias que o paralizam, um galope dirigido para a meta do bem, da harmonia, da paz. Estamos numa época em que as fronteiras já perderam, em parte, o seu bolorento significado, já não são a eterna faúlha que, ateada, projecta labaredas avassaladoras, já não são as muralhas intransponíveis, invulneráveis à compreensão e amizade dos povos. Do espaço aéreo descem em todas as capitais, diariamente, milhares de indivíduos que quase se não sentem estrangeiros, as correntes migratórias fazem-se em todos os sentidos, aos milhares se não aos milhões. Todos  anseiam por viver em paz e só os grandes «trusts» internacionais se ocupam do fabrico de armas bélicas, procurando atear as labaredas da guerra, alimentando-a com a lenha dos engenhos de morte que lhe proporcionam prósperas situações económicas. Esta é a dura realidade e, cobrindo-a com «um manto diáfano», papagueiam-se sistemas ideológicos, ânsias de liberdade, ingredientes que no cadinho da política internacional se caldeiam extravasando em torrentes de ódio.

Carlos de Sucena falava, alheado do ambiente e nem mesmo a mulher, dormitando, lhe quebrava o entusiasmo.

– Temos a grande, a rara, a única felicidade de aqui em Moçambique podermos erguer uma barreira contra as nefastas influências de doutrinas ideológicas faladas ou escritas em «slogans» requentados. Temos tudo o que desejamos: a terra prenhe de riquezas, uma situação geográfica privilegiada. Resta-nos intensificar a a única doutrina por que todos os povos anseiam: o amor fraterno, a compreensão, o respeito pela dignidade da pessoa humana, independentemente da sua raça, a liberdade de cada um poder dar livre curso ao seu pensamento, sem arcas encoiradas, sem interesses inconfessáveis, antes com aquela fraternidade de criança ainda não contaminada pela epidemia do ódio e da traição. A todos podemos dar a suprema ambição duma vida digna sem preocupações pelo dia de amanhã, escolas espalhadas por todo o sertão, como estrelas brilhando no mato, fábricas transformando o subsolo em riquezas, grande splantações agrícolas, força e vitalidade. Para esta grandiosa obra há, como primeiro passo, que arejar os quadros de algumas repartições especializadas, onde alguns restos de velhos fósseis da época colonial teimam em continuar agarrados, sem nível, sem mentalidade, entretendo-se apenas a contar as notas do vencimento no fim de cada mês, emperrando todas as iniciativas pela nula actualização às exigências duma vida dinâmica e actual. Velhos chaços que na era espacial teimam em caminhar a passo. Quando tudo isto acontecer, então sim, Moçambique será eterno, seja qual for o seu estatuto.

Calou-se e por último, num desabafo:

– Como eu desejaria ter hoje vinte anos!

O ressonar da D. Emilia despertou-o dos seus pensamentos.

– Estás a dormir, Emília?

A esposa sobressaltada acabou por sorrir e disse:

– Não, filho, gostei muito de te ouvir. Já são horas de nos irmos deitar."

 

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18.05.21

Luís Bernardo Honwana - Nós Matámos o Cão Tinhoso!


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Luís Bernardo Honwana (Luís Augusto Bernardo Manuel, n. 1942), Nós Matámos o Cão Tinhoso! (1964; presente edição, segunda, revista, 1972).

Capa de João Machado (n. 1942).

 

Luís Bernardo Honwana constitui-se como um caso excepcional e singular entre os escritores africanos de língua portuguesa – com esta obra da sua juventude, o seu único livro de ficção publicado até hoje, atingiu uma consagração que lhe conferiu um estatuto de referência na literatura colonial portuguesa e na literatura moçambicana.

 

De facto, para além desta obra, Honwana, que regista numa nota à primeira edição – "Chamo-me Luís Augusto Bernardo Manuel. O apelido Honwana não vem nos meus documentos. Sou filho de Raul Bernardo Manuel (Honwana) e de Nally Jeremias Nhaca. Ele intérprete de administração da Moamba, ela doméstica. Tenho oito irmãos.", apenas publicou um outro livro de certa extensão, A Velha Casa de Madeira e Zinco (2017), obra que ele próprio refere ser um conjunto de "crónicas, depoimentos e testemunhos".

 

O presente volume inclui sete contos – Nós Matámos o Cão Tinhoso!, Inventário de Imóveis e Jacentes, Dina, A Velhota, Papá, Cobra e Eu, As Mãos dos Pretos e Nhinguitimo. O quinto destes contos, Papá, Cobra e Eu, viria a ser editado em separado, em 1975, nos Cadernos Capricórnio, que se publicavam na cidade angolana do Lobito. Honwana publicara ainda, em 1971, um outro conto inédito, Rosita até Morrer, na revista Vértice.

 

O aparecimento desta segunda edição na Afrontamento, uma editora do Porto, assume contornos peculiares, uma vez que Honwana já tinha estado preso durante três anos, precisamente a partir do ano em que publicara a primeira edição desta obra, devido às suas opções políticas – nesse ano tornara-se também membro da Frelimo.

 

Por isso, talvez não seja de estranhar que a quarta página desta edição apresente a seguinte indicação: "Edição de / Luís Bernardo Honwana / Lisboa 1972", um subterfúgio editoral que pretendia isentar a Afrontamento de represálias editoriais e políticas e evitar as consequências de eventuais apreensões, como se pode verificar na história da editora disponibilizada no seu site (www.edicoesafrontamento.pt).

 

Até então, a Afrontamento apenas havia publicado catorze obras, entre as quais O Homem Invisível (1954; edição Afrontamento, 1964), de Pablo Neruda (Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, 1904-1973), cuja contracapa apresenta o lema da editora – "Quando a desordem se torna ordem / uma atitude se impõe / AFRONTAMENTO", uma citação de Emmanuel Mounier (1905-1950).

 

A evidente opção ideológica e política desta editora explicará as razões pelas quais, em 1972, do seu heterogéneo e reduzido catálogo de quinze obras, quatro se encontravam esgotadas e sete estavam fora do mercado. Entre as obras esgotadas encontrava-se Vietnam, A Oposição à Guerra nos E.U.A. - Programa da Frente Nacional de Libertação do Vietname do Sul (1969) e entre as que estavam fora do mercado encontrava-se Em Defesa de Joaquim Pinto de Andrade (1971), que teve uma tiragem de 20 mil exemplares e se constituíu como o maior êxito de vendas da editora, até então.

 

Os sete contos de Nós Matámos o Cão Tinhoso! caracterizam-se por apresentarem narrativas desenvolvidas num tom aparentemente coloquial e despretensioso que, no entanto, é claramente subversivo e denuncia subtilmente a ideologia colonial, a injustiça social e as desigualdades raciais.

 

A tensão social e racial desenvolve-se de forma menos diáfana em contos como Nhinguitimo e Papá, Cobra e Eu, atingindo o seu culminar em Dina, narrativa que ilustra ainda, magistralmente, a vergonhosa impotência perante a indignidade e a desonra.

 

Apesar disto, Honwana fez questão de abrir a sua já referida nota à primeira edição com a seguinte declaração – "Não sei se realmente sou escritor. Acho que apenas escrevo sobre coisas que, acontecendo à minha volta, se relacionam intimamente comigo ou traduzem factos que me pareçam decentes. Este livro de histórias é o testemunho em que tento retratar uma série de situações e procedimentos que talvez interesse conhecer."

 

Este homem, que assim duvidava do seu estatuto como escritor, estudaria Direito, em Lisboa, a partir de 1970, tornando-se, depois de 1975, Secretário de Estado e Ministro da Cultura de Moçambique. Foi ainda presidente da Organização Nacional dos Jornalistas de Moçambique, presidente do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa e membro do Conselho Executivo da UNESCO, entre vários outros cargos exercidos em diversas instituições moçambicanas e internacionais.

 

Em 2014, esta obra, Nós Matámos o Cão Tinhoso!, foi agraciada com o Prémio José Craveirinha de Literatura, um prémio, instituído pela Associação de Escritores Moçambicanos, que pretende homenagear a memória e a obra do poeta José Craveirinha (1922-2003).

 

Transcrevem-se de seguida os primeiros oito parágrafos do conto As Mãos dos Pretos:

 

"Já não sei a que propósito é que isso vinha, mas o Senhor Professor disse um dia que as palmas das mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes ia escurecendo o resto do corpo. Lembrei-me disso quando o Senhor Padre, depois de dizer na catequese que nós não prestávamos mesmo para nada e que até os pretos eram melhores do que nós, voltou a falar nisso de as mãos deles serem mais claras, dizendo que isso era porque eles, às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar.

Eu achei um piadão tal a essa coisa de as mãos dos pretos serem mais claras que agora é ver-me a não largar seja quem for enquanto não me disser por que é que eles têm as palmas das mãos assim mais claras. A Dona Dores, por exemplo, disse-me que Deus fez-lhes as mãos assim mais claras para não sujarem a comida que fazem para os seus patrões ou qualquer outra coisa que lhes mandem fazer e que não deva ficar senão limpa.

O Senhor Antunes da Coca-Cola, que só aparece na vila de vez em quando, quando as coca-colas das cantinas já tenham sido todas vendidas, disse que tudo o que me tinham contado era aldrabice. Claro que não sei se realmente era, mas ele garantiu-me que era. Depois de eu lhe dizer que sim, que era aldrabice, ele contou então o que sabia desta coisa das mãos dos pretos. Assim:

«Antigamente, há muitos anos, Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, Virgem Maria, São Pedro, muitos outros santos, todos os anjos que nessa altura estavam no céu e algumas pessoas que tinham morrido e ido para o céu, fizeram uma reunião e resolveram fazer pretos. Sabes como? Pegaram em barro, enfiaram-no em moldes usados e para cozer o barro das criaturas levaram-nas para os fornos celestes; como tinham pressa e não houvesse lugar nenhum, ao pé do brasido, penduraram-nas nas chaminés. Fumo, fumo, fumo e aí os tens escurinhos como carvões. E tu agora queres saber porque é que as mãos deles ficaram brancas? Pois então se eles tiveram de se agarrar enquanto o barro deles cozia?!»

Depois de contar isto o Senhor Antunes e os outros Senhores que estavam à minha volta desataram a rir, todos satisfeitos.

Nesse mesmo dia, o Senhor Frias chamou-me, depois de o Senhor Antunes se ter ido embora, e disse-me que tudo o que tinha estado para ali a ouvir de boca aberta era uma grandessíssima pêta. Coisa certa e certinha sobre isso das mãos dos pretos era o que ele sabia: que Deus acabava de fazer os homens e mandava-os tomar banho num lago do céu. Depois do banho as pessoas estavam branquinhas. Os pretos, como foram feitos de madrugada e a essa hora a água do lago estivesse muito fria, só tinham molhado as palmas das mãos e as plantas dos pés, antes de se vestirem e virem para o mundo.

Mas eu li num livro que por acaso falava nisso, que os pretos têm as mãos assim mais claras por viverem encurvados, sempre a apanhar o algodão branco de Virgínia e de mais não sei onde. Já se vê que a Dona Estefânia não concordou quando eu lhe disse isso. Para ela é só por as mãos deles desbotarem à força de tão lavadas.

Bem, eu não sei o que vá pensar disso tudo, mas a verdade é que ainda que calosas e gretadas, as mão dum preto são sempre mais claras que todo o resto dele. Essa é que é essa!"

 

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