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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

06.03.21

Rui Knopfli - Mangas Verdes com Sal


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Rui Knopfli (1932-1997), Mangas Verdes com Sal (1969).

Capa e ilustração de António Quadros (1933-1994).

 

Este quarto livro de Rui Knopfli representará, porventura, a sua obra mais consistente e convincente, reunindo um conjunto de poemas escritos entre 1963 e 1969. Tal cronologia reflecte-se na organização do volume, que se encontra dividido em quatro livros – Nunca Mais é Sábado, com poemas de 1963, Maxila Triste, com poemas de 1964 e 1965, O Dente do Siso, com poemas de 1966, e O Passo Trocado, com poemas de 1967, 1968 e 1969.

 

Para além do intrínseco valor da poesia em plena maturidade de Rui Knopfli, este livro apresenta ainda um interesse acrescido, consubstanciado no prefácio crítico de Eugénio Lisboa (n. 1930), do qual se efectua abaixo uma longa transcrição de alguns parágrafos, em duas passagens distintas:

 

"Pediu-me Rui Knopfli este disparate: que juntasse, à guisa de prefácio, ao seu livro que agora se publica, duas linhas sobre a tão falada quão antologiada (cá dentro e lá fora) Poesia de Moçambique. O disparate é juntar ao livro de um poeta conhecido, três linhas de um prefaciador desconhecido. Mas o Rui lá sabe as linhas com que se cose e eu suponho que também começo a saber.

Houve da sua parte três partes de generosidade e uma parte de maldade. A generosidade, sabe-se porquê; a maldade, digo eu porquê. O Rui sabe há muito o que penso deste tão falado (quão embrionário) fenómeno, que é ainda a Poesia em Moçambique: o que tenho dito e escrito das antologias dos Srs. Alfredo Margarido e Luiz Forjaz Trigueiros e também das prosas altamente adjectivantes do Sr. Amândio César. Creio que umas valem mais ou menos bem as outras. E ao convidar-me para vir aqui, livremente, debitar o meu vinagre milenário, delega, desta vez, noutro, o impopular de que já ocasionalmente se tem desempenhado: dizer aos nossos divulgadores metropolitanos que a Poesia em Moçambique é outra coisa, que a Poesia, mais simplesmente, é outra coisa; que se deixem disso, se o fenómeno literário os não interessa sèriamente [sic] como literatura (ainda que possa também, sem inconveniente de maior, interessá-los como outras coisas): dizer ao Alfredo Margarido que se lembre do Alain que afirmava ser a Poesia «uma forma de fazer e não uma forma de pensar; [sic] que «a literatura social é apenas uma espécie de literatura e não é o núcleo da literatura»; que a representatividade social de um poeta não é medida da sua grandeza poética visto que, se o fosse, era o Joaquim Namorado, por representar «mais gente» do que o Antero ou o Pessoa, por certo maior poeta que o Antero ou o Pessoa; que é por isso escandaloso num prefácio de vinte e duas páginas, que antecede uma antologia de «Poetas de Moçambique», dedicar a Reinaldo Ferreira uma fracção de um parêntesis de uma linha, a pretexto de que este Poeta (juntamente com Glória de Sant'Anna) «se divorcia dos problemas imediatos», quando, no mesmíssimo prefácio arrasta um Fernando Ganhão, de cuja existência poética ninguém se apercebe, ao longo de quatro suculentas páginas onde de tudo se fala menos de Poesia; que a Noémia de Sousa é um mito que não vale a pena manter de pé, por mais simpatias que possam merecer as boas intenções dos seus poemas tão prolixos como balbuciantes. E dizer, por outro lado, aos Srs. Amândio César e Luiz Forjaz Trigueiros – e saindo um pouco da Poesia para o da Literatura, em geral – que nenhum intelectual sério, em Moçambique, pensou jamais em atribuir a mais pequena importância a nomes como os dos Srs. Rodrigues Júnior (prosador carregado de prémios, viagens, congressos e comendas) ou Guilherme de Melo (poeta e prosador, com edições na Metrópole, prémios de literatura e de popularidade e publicidade gratuita na TV). Que, do ponto de vista da literatura e da inteligência, tão estúpido é promover o Malangatana Valente a poeta (e traduzi-lo e antologiá-lo em inglês), como pretender-se que o Sr. Rodrigo Emílio (o da «Confluência») seja, para além de poeta, um «duro». E que tão mau é o Guilherme de Melo, reaccionário e delicodoce, como o fulano de tal, viril e auroral. Tudo diferentes maneiras de estar fora da literatura que não sabem o que seja e que não sabe quem eles são. Tudo maneiras de errar o alvo que não está nunca, por acaso, no sítio que eles visam.

Creio que foi um pouco para dizer as sábias gentilezas que acima se registam, que o Rui Knopfli me pediu, mefistofèlicamente [sic], para juntar ao seu nome de criador, o meu de arranhador. Sem vantagem visível para nenhum de nós: ele porque só tem a perder com a vizinhança, eu, porque nem o reflexo do seu nome servirá nunca para apagar a impopularidade compacta do monólogo teimoso e malcriado que é meu hábito debitar..."

 

 

Como se depreende, este excerto ajudará também a compreender alguma da marginalização editorial e crítica a que esta obra de Rui Knopfli foi sujeita, particularmente se atendermos à subtil alfinetada que Eugénio Lisboa endereçou a Luís Amaro (1923-2018), e à editora com a qual este colaborava, a Portugália, na dedicatória de um exemplar que lhe ofereceu: "Ao Luis Amaro / este livro que a Portugália / não chegou a editar... / Abraço amigo do / camarada / Eugénio Lisboa / L. M., 1969".

 

Mas Eugénio Lisboa continuou ainda, neste prefácio, a sua exegese crítica, promovendo o elogio e o destaque de poetas e da produção literária que considerava corresponder àquilo que entendia ser Poesia:

 

" (...) Eis precisamente o que proponho em relação à arte: que se esqueçam as «escrituras» (do Margarido e de outros), que se deixe a arte livre de ser aquilo que puder ser, se contemple o universo das imagens sem preconceitos de qualquer espécie – só assim mereceremos saber o que ele nos sugere, só assim ele nos revelará a pluralidade infinita de manifestações que integra e de que, em relação à Poesia (um dos subconjuntos desse universo), colhemos um eloquente inventário neste belo texto de Octávio Paz: «A poesia», diz-nos o grande poeta e ensaista mexicano, «é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a actividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos nossos eleitos; alimento maldito. Isola; Une. (...)»

Eis um belo inventário, provàvelmente [sic] incompleto ainda, mas, em qualquer caso, capaz de abarcar, sem esquecimentos escandalosos, as direcções mais diversas. «Voz do povo», «voz colectiva» – e caberão aqui alguns belos poemas de um Craveirinha, caberiam também (se a língua lhe chegasse) alguns poemas da Noémia de Sousa, caberá ainda o pouco, pouquíssimo, que até agora fez um Rui Nougar, como caberá – já um pouco na transição – essa «voz colectiva (e mais vigiada) [sic] desse poeta cheio de dignidade recolhida que é Orlando Mendes (tão pouco citado, tão imerecidamente preterido por outros de interesse poético infinitamente menor...); mas também «língua dos eleitos» – e aqui vemos incluirem-se um Reinaldo Ferreira, uma Glória de Sant'Anna, um Rui Knopfli, um Sebastião Alba, um Fernando Couto, um Jorge Vila, um Nuno Bermudes, um Fonseca Amaral, um Ilídio Rocha, um Lourenço de Carvalho, uma Ana Maria Barradas, uma Maria Rosa Colaço e, se quisermos (porque não?), um Alberto de Lacerda ou um Vítor Matos e Sá... (...)"

 

 

A consistência desta obra reside no facto de Rui Knopfli prosseguir e aprofundar aqui uma abordagem poética e literária que se «divorcia dos problemas imediatos», uma abordagem que, apesar do que o tropical e exótico título poderia prenunciar, evita cair no estéril e inconsequente exotismo da temática ultramarina ou mesmo na etnografia disfarçada de irreverente ou contestatário registo poético.

 

Do mesmo modo que Knopfli reafirma aqui a universalidade da sua poética e a consistência de uma gramática poética personalizada, envereda também, surpreendentemente, pelo ensaio de novos paradigmas, particularmente no que diz respeito ao Concretismo.

 

No entanto, torna-se óbvio que, subjacente a estes novos ensaios poéticos, se encontra um olhar irónico e algo mordaz sobre o Concretismo, como no caso de Poemazinho concretista inspirado em João de Deus, / primeiro poeta dito, com vista aos leitores / (adultos) das primeiras letras, inserido no livro primeiro, ou de Concretista, inserido no livro terceiro.

 

Transcrevem-se de seguida dois poemas inseridos no livro quarto, O Passo Trocado, que inclui textos escritos entre 1967 e 1969:

 

O PRETO NO BRANCO

 

Da granada deflagrada no meio

de nós, do fosso aberto, da vala

intransponível, não nos cabe

a culpa, embora a tua mão,

armada pelo meu silêncio,

lhe tenha retirado a espoleta.

De um lado o teu indicador,

de outro a minha assumidade neutralidade.

Entre os dois, ocupando o espaço

que vai do teu dedo acusador

à minha mudez feita de medo e simpatia,

tudo quanto não quisemos, nem urdimos,

tudo quanto a medonha zombaria

de ódios estranhos escreve a sangue

e, irredutìvelmente, nos separa e distancia.

Tudo quanto há-de gravar o meu nome

numa das balas da tua cartucheira.

Nessa bala hipotética, nessa bala possível

que se vier, quando vier (ela há-de vir)

 

melhor dirá o que aqui fica por dizer.

 

 

DISPARATES SEUS NO ÍNDICO

 

Depois de tão longo silêncio pedes-me notícias.

Que dizer, conjecturo, por notícias, 

a quem os anos separaram irreparàvelmente?

Que, adiposo e surdo, o verão é como

os da nossa infância, mas que o suportamos

pior, agora que se acentuam as rugas da testa,

embora o aligeirar das roupas nas raparigas

ainda acorde em nós o mesmo latejar de virilhas.

Que, pelos arrastados e emolientes fins de tarde,

sob o que sobra do hálito infernal,

ainda emparceiro com o Zé Craveirinha,

o branco e o mulato, verso e anverso

do mesmo quotidiano – diria o Carlos

– na ronda crepuscular do cio, falando eu,

irrequieto e gauche, pelos cotovelos, enquanto

ele, calado, roda na paisagem o olhar

sorna de crocodilo agachado no canavial.

Que, na argamassa complicada da cidade,

redobram os esculcas para as nossas cautelas

redobradas. Que o tempo se demora

em nossos gestos e nas palavras ciciadas.

E que o redimem as pernas altas e morenas

das adolescentes nos passeios e esplanadas.

Que, para além disto, se faz, intermitente

e sem convicção, a mesma política rarefeita de afogados,

se urdem programas e papéis esperançosos,

que os mais válidos têm sempre a coragem

de nunca assinar, pois nunca se lhes afiguram

bastante progressivos (e está salva a honra do convento!).

E que assim se desencadeia, de ordinário, 

o ordeiro desagravo de muçulmanas comunidades,

asiáticas associações de benemerência

e de outras congéneres e afins. Que este

prolongamento doirado e nebuloso que excede

o extinto fulgor das caravelas é um muro

de silêncio e torna nossos gritos em grotescas

caricaturas de som. Que um cancro de areia

e letargo nos corrói, implacável, músculos e tendões

e uma paralisia sufocante se nos instila

pelo tenso cordame dos nervos em vibração.

Que se luta e morre à margem da nossa renúncia

e que a paixão é inescrutável na aparente serenidade dos rostos.

Que, todavia, há sempre bobos e piruetas à mesa do rei,

sobre que tombam o cristal das gargalhadas e mots d'esprit.

Que a minha solidão e a de meus amigos

(a parte negativa e incorrupta deste mundo),

incómoda como dor de dentes, é um bem inestimável.

Que, preservando a ardência árabe dos olhos,

já conservo a fralda da camisa dentro das calças

e tornei-me esquisito nas gravatas, nos sapatos,

nos botões de punho, nas marcas de uísque e de conhaque.

Que mantenho imperecível a fidelidade ao Amor

escamoteando-a, contudo, à cousa amada.

Que, a propósito, o racismo é agora encapotado

e confortável, residindo nos sorrisos múrmuros

e nos olhares cúmplices que se trocam em público.

Que, enfim, sob a máscara do sono e da hipocrisia,

a natureza se refaz no ciclo indiferente das estações

e que, sobre nós, fina, grave e imperceptível,

cai uma poeira antiga de esquecimento.

 

© Blog da Rua Nove

19.11.20

Poetas de S. Tomé e Príncipe (I)


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Alfredo Margarido (1928-2010; prefácio e estudo crítico), Poetas de S. Tomé e Príncipe (1963).

Ilustração da capa de José Pádua (n. 1934).

 

Este volume foi publicado pela Casa dos Estudantes do Império (CEI) numa edição dactilografada e policopiada, no seu miolo, embora apresente uma capa impressa tipograficamente, a exemplo de outras edições anteriores.

 

A CEI foi fundada em 1944 e extinta em 1965, depois de o Estado Novo concluir que seria um foco de instabilidade e contestação à sua política colonial, acção que atingiu um ponto alto com a saída clandestina do país, em 1961, de cerca de cem estudantes, os quais vieram posteriormente a desempenhar relevante acção nos movimentos de libertação africanos.

 

A CEI publicava também um boletim intitulado Mensagem, promovendo ainda a edição de várias outras obras, como a anterior Antologia de Poetas Angolanos, lançada em 1962.

 

Para esta colectânea, Alfredo Margarido, autor da introdução crítica de teor literário, histórico e sociológico, selecionou poemas de (por ordem de indexação na obra) Caetano da Costa Alegre (1864-1890), Francisco José Tenreiro (1921-1963), Alda do Espírito Santo (1926-2010), António Alves Tomaz Medeiros (1931-2019), Maria Manuela Margarido (1925-2007), Marcelo da Veiga (1892-1976) e Francisco Stockler (1834-1881).

 

Discorrendo sobre a obra de Francisco José Tenreiro na sua introdução, Alfredo Margarido salienta as díspares influências que ecoam na sua poesia, bem como o pioneirismo da sua abordagem poética:

 

"O conjunto de poemas de Francisco José Tenreiro insere-se na linha de negritude que, a partir de 1935, vinha sendo propugnada, no campo particular da poesia negra e malgache de expressão francesa, por Leopold Sedar Senghor e Aimé Cesaire. Mas, a [sic] lição destes dois poetas, soma-se, em Tenreiro, a presença dos poetas norte-americanos, como Countee Cullen e Langston Hugues [sic] e ainda a do cubano Nicolás Guillén. É meditando na lição destes poetas que Francisco José Tenreiro pode dar início, em língua portuguesa, a um movimento poético de negritude, onde o sentido social é a primeira e fundamental coordenada."

 

Francisco José Tenreiro publicara a sua primeira obra literária, Ilha de Nome Santo (1942), no âmbito da colecção coimbrã Novo Cancioneiro. Nesse mesmo ano publicou também, em co-autoria com Carlos Alberto Lança (datas desconhecidas), a colectânea Contos e Poemas.

 

Seguiram-se-lhes a colectânea Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1953), agora em co-autoria com Mário Pinto de Andrade (1928-1990) e, numa reedição posterior (1982), com prefácio de Manuel Ferreira (1917-1992), Coração em África (1962) e o volume póstumo Obra Poética de Francisco José Tenreiro (1967).

 

Deste autor transcreve-se o poema Canção do Mestiço:

 

"Mestiço!

 

Nasci do negro e do branco

e quem olhar para mim

é como quem olhasse

para um tabuleiro de xadrez:

a vista passando depressa

fica baralhando cor

no olho alumbrado de quem vê.

 

Mestiço!

 

E tenho no peito uma alma grande

uma alma feita de adição

como 1 e 1 são 2.

Foi por isso que um dia

o branco cheio de raiva

contou os dedos das mãos

fez uma tabuada e falou grosso

mestiço!

a tua conta está errada.

Teu lugar é ao pé do negro.

Ah!

Mas eu não me danei...

E muito calminho

arrepanhei o meu cabelo para trás

fiz saltar fumo do meu cigarro

cantei do alto

a minha gargalhada livre

que encheu o branco de calor!...

 

Mestiço!

 

Qaundo amo a branca

   sou branco...

Quando amo a negra

   sou negro..."

 

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20.07.20

Rui Knopfli - Reino Submarino


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Rui Knopfli (1932-1997), Reino Submarino (1962).

Capa e ilustrações de Jorge Garizo do Carmo (1927-1997).

 

Segundo livro de poesia do autor, o primeiro havia sido O País dos Outros (1959), este volume, que iniciava a colecção Cancioneiro de Moçambique e será talvez um dos mais importantes da bibliografia de Rui Knopfli, caracteriza-se por uma diversidade conceptual que varia entre a problemática da génese do texto poético - como em "aprendiz na oficina da poesia" ou "ofício novo", a lírica amorosa - como em "a um amor adolescente", "cecília noutro planeta" ou "passeio", os textos de temática africana ou uma secção, Sketch-book, com quatro poemas escritos em Inglês - "ihb", "deanie with some jazz", "monotonous song" e "exercise in loneliness".

 

O conteúdo desta obra oscila, assim, entre uma reflexão sobre a praxis poética como experiência pessoal e um ensaio de influências da literatura anglófona, na estruturação textual e nas propostas conceptuais, antecipando o envolvimento de Rui Knopfli nos emblemáticos cadernos de poesia Caliban, que, juntamente com João Pedro Grabato Dias (pseudónimo do também pintor e ceramista António Quadros [1933-1994]), editaria a partir de 1972.

 

Data deste ano, também, um estreitamento de relações entre estes autores e Jorge de Sena (1919-1978) que visitaria Moçambique, por sugestão e insistência destes, no âmbito do centenário da publicação de Os Lusíadas (1572). Aliás, nesta ocasião, António Quadros ofereceu a Jorge de Sena uma das suas obras, com moldura também artesanalmente executada por si, que Sena colocaria na sala de estar da sua casa de Santa Barbara, EUA, e Mécia de Sena (1920-2020) haveria de preservar no mesmo local após o falecimento deste.

 

Note-se que o autor das ilustrações em estampa extra-texto, Jorge Garizo do Carmo, ceramista, artista plástico e decorador de interiores, era irmão mais novo do arquitecto João Garizo do Carmo (1917-1974).

 

Sublinhe-se, ainda, o facto de a ilustração desta capa estar em consonância com o abstraccionismo geométrico contemporâneo, particularmente com aquele que Nadir Afonso (1920-2013) vinha desenvolvendo desde a década de 1950.

 

Transcrevem-se desta obra dois poemas de temática africana, onde se acentua a preocupação social e a dissonante consciência política de Rui Knopfli:

 

MULATO

 

Sou branco, escolhi-te.

Hoje durmo contigo.

Negro é teu ventre,

porém macio.

E meus dedos capricham

sobre o aveludado relevo

das tatuagens.

Denso e morno é o luar,

cálido o cheiro húmido

do capim, acre o hálito

fundo da terra.

Venho cansado e tenho

fome de mulher.  Sou branco.

Escolhi-te. Hoje durmo contigo:

Um ventre negro de mulher

arfando, a meu lado arfando,

o cansaço, o espasmo

e o sono. Nada mais.

Amanhã parto. E esqueço-te.

Depressa te esqueço.

                                       E teu ventre?

 

 

SUBÚRBIO

 

Daqui avistamos o perfil cinzento

da cidade.

Daqui a vemos, recortando o perfil

arrogante

entre densas ramadas

de cajueiros e mafurreiras.

Daqui vemos a cidade, 

seus dedos enclavinhados

na cinza das nuvens,

seus dentes de incerta geometria

mordendo um céu ensanguentado.

                    Diz-me, velho Dotana,

                    Cidade tem dentes?

                    Mulungo, cidade tem dentes,

                    cidade tem dentes de n'goenha.

Daqui vemos a cidade

crescendo sobre nós,

abatendo-se sobre nós

como gigantesco xipócuè

de cimento armado.

                     Diz-me, velho Dotana,

                     cidade tem fantasma?

                     Mulungo, Dotana não tem medo

                     xipócuè do mato

                     Dotana tem medo grande,

                     xipócuè da cidade.

Daqui a vemos,

cada vez mais próximo 

de nós,

triturando na larga maxila

matos e terreiros,

xipócuè de cimento armado

sobre nós,

perto de nós,

dentro de nós,

de grandes, compridas

mãos estendidas.

                              Dotana, velho dotana,

                              estendes-lhe a mão? Mulungo,

                              branco aperta a mão de preto?

 

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16.09.19

José Craveirinha - Karingana Ua Karingana


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José Craveirinha (1922-2003), Karingana Ua Karingana (1974).

Capa de José Craveirinha (Filho).

 

Considerada a obra mais significativa de José Craveirinha, este livro tem a peculiaridade de ter sido acabado de imprimir a 29 de Maio de 1974, num período já marcado pela Revolução de 25 de Abril de 1974.

 

Terá começado este volume a ser preparado, certamente, muitos meses antes, mas, mesmo assim, não deixa de apresentar alguns problemas de revisão, pois reproduz em duas páginas diferentes (7 e 21) o mesmo poema – Dádiva do Céu que, nesta última página, surge com dedicatória a Manuel Barreto e com a datação de 1958.

 

Alguns dos poemas aqui reunidos correspondem a um período explicitamente delimitado entre 1951 e 1963, ano que surge também na dedicatória e faz supor que era essa a data inicial de publicação prevista para este livro.

 

O livro encontra-se subdividido em quatro partes – Fabulário, Karingana, 3 Odes ao Inverno, e Tingolé, apresentando ainda, no final, um glossário Xi-Ronga/Português, de quatro páginas.

 

Tristan Tzara (1896-1963), em declarações que, neste volume, erradamente, como é óbvio, são datadas de 1964, declarou o seguinte sobre este autor no contexto da poesia moçambicana: "Mas o grande poeta actualmente em Moçambique, em Lourenço Marques, é José Craveirinha. É um poeta que sofreu a influência dos surrealistas, que tem uma veia muito popular e cuja poesia toda possui um carácter social. Ela radica nas camadas mais profundas do povo negro. É um poeta que se aparenta, se quisermos, com Guillen [Nicolás Cristóbal Guillén Batista, 1902-1989]. Ele é considerado pelos intelectuais brancos como o poeta mais importante e mais autêntico do país."

 

Não esquecendo belíssimos ou importantes poemas como Na Morte do Meu Tio António / Segunda Elegia a Meu Pai, Cântico do Pássaro Azul em Sharpeville, Os Alambiques da Ponte-Cais, Ao Meu Belo Pai Ex-Emigrante, Hossanas ao Hôssi Jesus, ou Hino de Louvor a Valentina Tereskova, transcrevem-se aqui três poemas mais curtos que traduzem algo do surrealismo e do social de que falava Tzara:

 

"MACHIMBOMBOS

 

Nas tépidas ilhargas

dos machimbombos os frutos

silvestres aos cachos vão amadurecendo

ao mobiloil do desespero no estribo

enquanto o alcatrão

da rua em comissuras de saibro

plagia o azimute das bocas das mamanas

perplexas na paragem

radical."

 

"3 DIMENSÕES

(para a Carol e o Nuno)

 

Na cabina

o deus da máquina

de boné e ganga

tem na mão o segredo das bielas.

 

Na carruagem

o deus da primeira classe

arquitecta projectos no ar condicionado.

 

E no ramal 

- pés espalmados no aço dos carris -

rebenta pulmões um deus

negro da zorra."

 

"À BUZINADELA DO TÁXI

 

Existe

em nós esta espécie de nova sesta

que não permite cerrar de sono autêntico as pálpebras

ou senão uma ferrugem dilapida-nos mais os negros

diamantes foscos de insónias antiquíssimas

no duro chão arenoso das aringas.

 

E os narizes anticorrosivos

tresandam a brilhantina comum de muitos na almofada

e na sina de artífice moderna a Rita Mamas-Tesas

à buzinadela do táxi temperando o arroz insosso

da madrugada ela reage preta célula fotoeléctrica

até à ficha das pernas."

 

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21.06.19

Augusto Casimiro - Portugal Atlântico


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Augusto Casimiro (1889-1967), Portugal Atlântico (1955).

 

Compilação de vários poemas datados de diferentes anos – 1914 (Acampamento – Noite, O Zambeze e um Mapa, Fogueira de África), 1924 (Horas Africanas, Oração da Noite Africana), 1944 (Colono), este volume foi distinguido com o Prémio Camilo Pessanha em 1954.

 

Inspirados por todos os territórios coloniais banhados pelo Atlântico, como o nome sugere, predominam, contudo, nestes poemas, referências a Cabo Verde, particularmente às ilhas Brava e Santo Antão, e a Angola.

 

Não deixa de ser interessante o facto de parecerem perpassar, em algumas destas composições poéticas, conceitos também presentes na Mensagem (1934), de Fernando Pessoa (1888-1935), impressão que, do mesmo modo e do ponto de vista estrutural, tende a ser suscitada no início do volume.

 

Com efeito, as primeiras poesias integradas na secção Pela Batalha ao Restelo apresentam títulos sugestivos dessas evocações – Portugal, A Canção do Novo Restelo, Sinfonia do Mar Alto, Hora do Ponto.

 

Curiosamente, para sublinhar toda estas ténues evocações, até a própria expressão "É a hora!", patente no poema Nevoeiro (1928), de Pessoa, surge no poema Oração da Noite Africana, alegadamente datado de 1924, embora num contexto completamente diferente.

 

Um ponto distinto nesta estruturação, no entanto, é a secção intitulada Canto ao Brasil no Mar, que apresenta três poemas dedicados a esta temática.

 

Desta obra, transcrevem-se, de seguida, o poema Fala Crioula e o soneto Prece, inspirados, respectivamente, por Cabo Verde e Angola:

 

 

FALA CRIOULA

 

"Esta fala é sempre nossa.

Fala crioula?... Afinal,

Para alma que bem a ouça,

É fala de Portugal!

 

É uma fala de menina,

Andou ao colo, amimou-se,

Ficou sempre pequenina,

E, de preguiça, mais doce.

 

Ouço-a agora, embala, arrola...

Sabe a amor, sabe a tristeza...

Na voz da gente crioula

Oiço a alma portuguesa...

 

E, às vezes, com mais doçura...

Algumas palavras têm

Mais humildade e altura,

Mais gosto da terra e além...

 

Morabêsa... amor e beijo

Que se não dá, que se fala,

Em que há gosto de desejo

E o aroma que o cravo exala...

 

O que é doce à alma e ao gosto

É sabi... sabe a carinho...

Saber não contém desgosto...

O que é mais sabi... é sabinho.

 

Grandeza... Entre nós humilha

Se não é Deus. Grandeza

Aqui, nas almas da Ilha,

É alegria, é morabeza...

 

Contente... quem diz contente

Entre nós diz alegria,

Mas na boca desta gente

Só quer dizer: simpatia...

 

A fala crioula é nossa

Trouxe-a ao colo Portugal..."

 

 

PRECE

 

"Terra de Angola, Mãe da Primavera:

– Só de te descobrir logo o tocou,

Ao primeiro que veio e te encontrou,

Do teu bárbaro encanto a lei severa.

 

Estás, sempre e sem fim, à nossa espera.

Por ti sofremos. Contra ti pecou

A nossa Alma e a tua nos perdoou.

– Quem amar-te não soubesse te perdera...

 

Desejada e rendida te violámos

E ficamos escravos, de ti... Esta hora

É a doutro encontro, como dois irmãos,

 

Na terra em que sonhamos e lavramos,

À luz igual duma fraterna aurora, 

Um destino mais alto, dando as mãos."

 

© Blog da Rua Nove

17.01.19

José de Almeida Santos - Longe, Lá Longe...


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José de Almeida Santos (1922-1997), Longe, Lá Longe... (1962).

 

José de Almeida Santos publicou mais de duas dezenas de obras, destacando-se na sua bibliografia um conjunto de estudos sobre a história social de Luanda no século XIX.

 

Para além do volume agora apresentado, no âmbito da poesia e da ficção, publicou Seis Histórias Quiocas (1965) e Tábua de Esmeralda (1966), tendo ainda publicado, em co-autoria com Maria Lígia de Almeida Santos, o volume Aquele Velho Chapéu... ; Traição (1964), na colecção de livros de bolso da Imbondeiro.

 

Os poemas que nesta obra estão intimamente ligados à temática africana são, por ordem de publicação, Canção da Muana-Maria, História do branco Cauache e André Luembe está preso, os quais são acompanhados no final de cada um por uma lista de vocabulário que totaliza dezanove palavras.

 

Surge ainda o manifesto-poema Os tais «ventos da história», que se transcreve integralmente abaixo não só como um documento literário sobre a actualidade da sublevação nas colónias e a sua contextualização, mas também pelo seu anti-americanismo, pelo seu conceito de comunidade lusófona e miscigenização e por um certo paralelismo com as patrióticas manifestações literárias anti-Ultimatum de 1890.

 

Refira-se, como curiosidade, o último poema deste volume, intitulado O Mundo em que vivemos (Poema radiofónico - ruídos bélicos), pela evocação que, na quase totalidade do seus versos, faz das onomatopaicas obras futuristas e dadaístas.

 

Finalmente, note-se que não se deve confundir o poema que dá título a este volume com o poema Lá Longe, de Florêncio Neto de Carvalho (1924-1985), o qual está na origem do conhecido fado de Coimbra interpretado, entre outros, por António Almeida Santos (1926-2016).

 

"Os tais «ventos da história»

 

Os tais «ventos da História»

Não são uma invenção americana

Nada disso!

São sim a resultante

Da evolução natural da mente humana,

Verdadeiros,

Reais,

Soprando no sentido

Da Paz e da Concórdia universais.

 

Que o rico tio Sam,

Desbaratando os dólares às mãos cheias

Co'a sua bem montada propaganda,

Queira modificar o curso dos elementos

Para poder tirar

Mais chorudos proventos,

É uma coisa perfeitamente natural.

Mas tal não implica

Que os racismos, ódios e crueldades,

Fomentados p'los nórdicos dinheiros,

Não sejam episódios passageiros,

E que a fusão dos povos em blocos

(No sentido dos quais sopram os ventos)

Se não verifique, mais ano menos ano,

Mau grado o esforço

E os montes de armamentos

Do Estado americano.

 

Um dos futuros blocos naturais

(Bloco varonil

Firmado no interesse

E na cultura e entendimento humanos)

É o que ligará os povos do Brasil

Aos povos Lusitanos.

 

Da terra do chewing-gum, o mercador

Por certo, lutará, com todo o seu vigor

Contra a constituição dessa comunidade,

Pois teme do Brasil

A grande actividade fabril

Que o fará derrubar da forte posição

(Conquistada à custa de milhões

E falsa ajuda ao preto independente)

Donde enche de bugigangas e sabões

O negro continente.

 

E ele,

O inventor do Ku-Klux-Klan,

Da Lei de Lynch, da Reserva Pagã

(Onde, como animais encurralados

Vivem uma existência deletérica

Os nativos de côr da própria América)

Tem agora o afã,

Que é pura e mentirosa propaganda,

De mostrar ao negro primitivo

Ser muito seu amigo.

 

Mas, isso, irmão de côr, é tudo fantasia.

 

Irmão de côr :

 

Tu e eu que, juntos, fizemos o Brasil

(Esse Brasil moreno

Caldeado do teu sangue de negro

e do meu sangue de luso e agareno),

Tu e eu que, há muitos anos já,

Vamos juntos à escola

E juntos trabalhamos e jogamos a bola,

Tu negro português e eu branco português

Não vamos deixar que o terrorismo,

Descendo da fronteira

E pago com dinheiro americano,

Instile em nós o ódio racial.

Não!

Pensando em Portugal

E pensando no Brasil, ali em frente,

Tu negro português e eu branco português

Apertemos as mãos

Solenemente."

 

© Blog da Rua Nove

09.07.16

Orlando de Albuquerque - Alda Lara: A Mulher e a Poetisa


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Orlando de Albuquerque (n. 1925), Alda Lara: A Mulher e a Poetisa (1966).

 

Volume de homenagem a Alda Lara (1930-1962), apresenta uma biografia da escritora, uma breve introdução à sua poesia e uma pequena antologia, intitulada Os Poemas Preferidos de Alda, onde se trancrevem treze dos seus poemas. 

 

Organizada pelo também médico, moçambicano radicado em Angola e seu marido, Orlando de Albuquerque (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/4664.html), este opúsculo apresenta ainda, em extra-texto, seis fotografias de Alda Lara, seus quatro filhos e sua família, sendo a última uma imagem da poetisa e seu marido, e da restante equipa cirúrgica, em pleno labor numa sala de operações em Cambambe.

 

No final deste volume refere-se ainda o seguinte – "O produto integral da venda deste livro, edição e propriedade do autor, destina-se à Fundação Alda Lara de Albuquerque, instituição em organização". Embora esta obra ostente na sua abertura a data de 1966, o seu cólofon regista os seguintes dados – "Composto e impresso na / Gráfica da Huíla, Lda. / Sá da Bandeira – 1967".

 

Recorde-se que, já depois de 25 de Abril de 1974, Amândio César (1921-1987) publicou um estudo sobre esta poetisa (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/658.html) e note-se, ainda, que a poetisa Alda Lara era irmã do escritor Ernesto Lara Filho (1932-1977).

 

Transcreve-se de seguida o poema Presença Africana, escrito em Benguela e datado de 1953:

 

"E apesar de tudo,

 ainda sou a mesma!

 Livre e esguia,

 filha eterna de quanta rebeldia

 me sagrou.

 Mãe-África!

 Mãe forte da floresta e do deserto,

 ainda sou,

 a Irmã-Mulher

 de tudo o que em ti vibra

 puro e incerto...

 

 A dos coqueiros,

 de cabeleiras verdes

 e corpos arrojados 

 sobre o azul...

 

 A do dendém

 nascendo dos abraços das palmeiras,...

 A do sol bom, mordendo

 o chão das Ingombotas...

 A das acácias rubras,

 salpicando de sangue as avenidas,

 longas e floridas...

 

 Sim!, ainda sou a mesma.

 A do amor transbordando

 pelos carregadores do cais

 suados e confusos,

 pelos bairros imundos e dormentes

 (Rua 11!... Rua 11!...)

 pelos negros meninos

 de barriga inchada e olhos fundos...

 

 Sem dores, nem alegrias,

 de tronco nu

 e corpo musculoso,

 a raça escreve a prumo,

 a força destes dias...

 

 E eu revendo ainda, e sempre, nela,

 aquela

 longa história inconsequente...

 

 Minha terra...

 Minha, eternamente...

 Terra das acácias, dos dongos,

 dos cólios baloiçando,

 mansamente...

 Terra!

 Ainda sou eu a mesma.

 Ainda sou a que num canto novo

 puro e livre,

 me levanto,

 ao aceno do teu povo!"

 

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13.06.16

Eugénio Ferreira da Silva - Trovas Malditas


blogdaruanove

   Capa de Montoya (datas desconhecidas).

 

 

Eugénio Ferreira da Silva (1917-), Trovas Malditas (1971).

 

Volume que não surge devidamente catalogado em alguns dos registos bibliográficos do autor, Trovas Malditas segue-se ao seu primeiro livro de poemas, Arco-Íris (1962), obra publicada por uma das instituições oficiais do regime – a Agência-Geral do Ultramar (http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/tag/ag%C3%AAncia-geral+do+ultramar).

 

Este novo livro, aparentemente em edição de autor, transcreve algumas das apreciações que haviam sido feitas a Arco-Íris, onde se pode ficar a saber que o autor havia nascido no Lobito e que era professor de desenho em Vila Franca de Xira.

 

Aqui se transcreve também uma crítica publicada no Jornal de Notícias, onde se declarava – "Eugénio Ferreira da Silva foi amigo de António Ferro. Neste seu livro [Arco-Íris] mostra-se incomodado com os acontecimentos na sua terra e toma partido por uma solução «lusíada» do conflito, para empregar a sua própria expressão." Apesar do que ali se afirma, uma leitura daquele volume de 1962 não permite uma conclusão inequívoca sobre o partido que o autor toma perante o conflito.

 

De facto, estas Trovas Malditas apresentam determinadas características que agitam essa problemática, nomeadamente através de algumas das dedicatórias que antecedem os poemas, como as dedicatórias a Jorge de Sena – "A Jorge de Sena / com admiração pelo homem esclarecido / e de profundas convicções literárias" e a Bento de Jesus Caraça – "Ao saudoso Prof. Dr. Bento de Jesus Caraça. / Ao homem extraordinário que muito contri- / buiu para a formação moral do jovem que o / admirava."

 

Este último poema e a sua dedicatória, aliás, motivaram uma nota do autor, que veio sublinhar tal ambiguidade – "Este soneto [o derradeiro da colectânea, intitulado... Revolta] foi escrito numa atmosfera de lutas político-sociais por volta dos anos 30 e nada tem que ver com o actual Governo o qual seja justo proclamar, se movimenta numa dinâmica segura a que estávamos pouco habituados."

 

Como acontecera no anterior volume, também este Trovas Malditas apresenta poucos poemas directamente relacionáveis com África. Apenas dois – Inconsciência e Tarde de Bruma, num total de noventa e quatro.

 

Transcrevem-se de seguida Psicose, o soneto dedicado a Jorge de Sena, e Inconsciência, que surge antecedido da dedicatória "Ao poeta Mário António / – meu patrício":

 

 

"Psicose

 

Músculo e cérebro – pólos antagónicos

Deste chiqueiro que me torna inerme...

Que grande é ver na época do verme

O fruto dos eflúvios histriónicos!...

 

Ver na gama profusa da paisagem

Confundirem-se uns outros novos seres!...

Ver um «Mercúrio» em conjunção com «Ceres»

Confundir-se no falso duma imagem!...

 

Mas que agradável esta barafunda,

Esta incoerência doida que me inunda

A própria alma de revolta e grito!...

 

Sinto os nervos a arderem-se partidos!

Sobre a paleta destes meus sentidos...

Tangendo ainda mais alto o meu conflito!..."

 

 

"Inconsciência

 

Agora,

Agora que tudo são balizas

Postas perigosamente nos direitos do homem...

Agora que no horizonte a curva continua frustrada...

E permanece o nojo às coisas rectilíneas...

Ódios e fumos de metralha!

Feitiçaria na arqui-volta do tempo...

E em torno da fogueira,

Chamam-se os espíritos maus e os lobisomens...

Sabém [sic] lá os negros o que é desumanidade!

Sabem lá os negros o que é ignomínia...

Sabem lá eles o que é ser canalha,

Sem que alguém lhes leve a provisão dum dicionário...

O Céu ao longe, meu Deus! Traz um arco-Íris [sic] sem motivo

E, aqui no terreiro, crianças brancas e negras

Brincam com um disco de Newton..."

 

© Blog da Rua Nove