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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

07.01.26

Antologia da Ficção Cabo-Verdiana Contemporânea (IV)


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Virgílio ("Djila") Avelino Pires (1935-1985) está representado nesta antologia com quatro contos breves – A Herança, Peregrina, Órfão, todos publicados na revista Claridade, número 8, de Maio de 1958, e Lulucha, inédito.

 

Virgílio Pires nasceu na ilha de Santiago e concluíu o liceu no Mindelo, passando depois a ser funcionário administrativo. A partir de 1964 tornou-se chefe de posto no Huambo, em Angola.

 

Publicou, ainda, no número 9 da revista Claridade, os contos Titina e Noite e colaborou também com o boletim Cabo Verde. Os seus contos completos foram reunidos no volume Herança (datas desconhecidas), cujo título remete para o conto homónimo, que consagrou esse breve, mas intenso, paradigma da sobrevivência trágica que é a personagem Puxim. Virgílio Pires, que também cultivou o género lírico, é patrono de uma das 40 cátedras da Academia Cabo-verdiana de Letras.

 

Do conto Lulucha, o mais longo destes quatro, transcrevem-se alguns parágrafos:

 

"Quando Lulucha partiu, Pelada já tinha voltado com a ninhada. Pelada chocava os ovos sempre fora. Desaparecia e só voltava no prazo próprio, carejando gravemente, com a ninhada. Então, o galo preto avançava, altaneiro, como que a verificar se havia algum pinto preto.

O Pedrinho e o Chico tentavam adivinhar o número de pintos da Pelada. E apostavam.

– Desta vez são doze.

– Não, senhor são dez.

– Se forem doze o que é que me dás?

– Dou-te a minha bola de borracha. E se forem dez?

– Dou-te a minha lata de botões... com metade dos botões.

Daquela vez, quando Pelada voltou, vinda do monte de bredos que ficava atrás da casa, Pedrinhoo gritou: «São treze. Lulucha é que acertou». Lulucha tinha partido. O pequeno calou-se e ficou a pensar na camioneta verde que se sumiu lá longe, na recta de Bolanha, e levou Lulucha para a Praia.

Lulucha era contente. Estava sempre a sorrir. Tinha a boca grande, e quando ria os dentes muito brancos apareciam. Era boa para os meninos. É certo que às vezes aplicava ao Chico algumas sonoras palmadas. Mas eram merecidas. Chico era irrequieto e ela não lhe perdoava. Pedrinho era diferente. Pedrinho, sim. Pedrinho era o seu menino.

Lulucha gostava de arreliar nhâ Simoa. Nhâ Simoa era velha e feia. Diziam que era bruxa. Os meninos faziam figas e a mão na algibeira para ela não ver. Acocorava-se a um canto do quintal, e se Lulucha cantava aquela cantiga:

                    «Nhô S. Pedro câ nhô mata'm Caela

                    Pamô Caelaê badjadêra fox...»,

ela dizia: «Menina, abranda o brio do corpo... Rapariga nova pensa que o mundo lhe pertence...» Lulucha então, respondia: «Figas, nhâ Simoa. A mimm feiticeira não come. Tenho sangue amargo, fique sabendo». Nhâ Simoa levantava-se e saía, zangada. Lulucha chamava-a. Para não se zangar, era brincadeira... Qualquer dia iria para Praia, e ficaria com saudades dela. «Vais para a Praia? É melhor sentares-te num sítio! Rapariga nova...» – E ia-se embora a resmungar.

Às vezes, Lulucha fazia doces. E, então, era uma festa. El agostava de fazer beijos. Batia a clara do ovo até ficar branquinha comoa espuma de sabão, ajuntava açúcar e levava ao forno. Muitas vezes, Pedrinho pedinchava: «Lulucha, dá-me um beijo». Ela sorria e aguçava os lábios. Então Pedrinho dizia, amuado: «Estes, não quero, vai dá-los ao John de Tita». Ah, malandro, espera que eu te apanho» – dizia ela. E o pequeno fugia, rindo.

Lulucha nunca tinha ido à Praia, mas contava coisas maravilhosas da cidade. Havia um sítio chamado Montagarro. Ali havia uma enorme casa-de-água. À frente, um jardim com a estátua de uma menina que tinha caído no tanque. Na praça tocava-se música com cornetas e instrumentos melodiosos. Uma música maravilhosa, diferente da música de gaitas e de ferrinhos. As lojas eram deslumbrantes. Tinham toda a espécie de brinquedos. Carrinhos de corda, gaitas, bolas, tambores, bicicletas, triciclos, balões. E tudo muito barato. Quase de graça. Lulucha dizia que, quando fosse à Praia, havia de trazer aos meninos muitas coisas. Chico pedia uma bola de couro, como aquela que o John da Tita chutava no campo. Pedrinho pedia uma «biscleta».

Lulucha dizia sempre que iria à Praia. E acabou por ir mesmo.

Muito tempo depois, os pequenos perguntavam:

– Mambia, Lulucha volta?

– Volta, sim.

Mas os pintos da Pelada já eram frangos e Lulucha não voltava."

 

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14.12.25

Emília de Sousa Costa - No Reino do Sol


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Emília de Sousa Costa (1877-1959), No Reino do Sol (1933).

Desenho da capa, e das 22 ilustrações interiores, a preto e branco, de Raquel Roque Gameiro Ottolini (1889-1970).

 

Como já foi referido anteriormente (Autógrafos - Emília de Sousa Costa - Blog da Rua Nove), "Emília de Sousa Costa foi uma prolífica autora de histórias infantis e uma divulgadora empenhada da obra dos irmãos Grimm, Jakob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859), em Portugal, através da adaptação de muitos dos seus contos para a língua portuguesa.

 

Parte do seu espólio encontra-se actualmente depositado no Grémio Literário Vila Realense, juntamente com o espólio do romancista, ensaísta e cronista Sousa Costa (1879-1961), seu marido, que documentou, retratou e comentou a época final da monarquia bem como toda a agitação da I República. (http://www.noticiasdevilareal.com/noticias/listar_detalhes.php?id=852)".

 

Tal como Fernanda de Castro (1900-1994), e outras autoras cuja obra foi escrita e publicada durante o Estado Novo, Emília de Sousa Costa não foi imune à ideologia vigente, que desenvolveu, promoveu e ampliou o conceito de Império Colonial, intercalando na sua literatura infantil contos, ou temas, ligados às colónias portuguesas.

 

Alguns números desta mesma colecção, Biblioteca dos Pequeninos, dirigida e organizada pela autora, são evidente exemplo dessa influência, como sejam O Pretinho de Angola (1930), de César de Frias (1894-?), com ilustrações de Ilberino dos Santos (1905-1965) e Joanito Africanista (1932), da própria Emília de Sousa Costa, também com ilustrações de Raquel Roque Gameiro Ottolini.

 

No caso particular deste volume, entre as suas nove histórias – No Reino do Sol, Ninho desfeito, Que feio... ser invejoso!, O Coelho boateiro, O Bibi e a Dona Rã, O imperador, a menina e o cão, Guerra das Abelhas,Porque se separaram e O Cisne venceu, surge a alegada adaptação de uma tradicional narrativa da oralidade guineense, de que se transcrevem, abaixo, alguns parágrafos.

 

Como é evidente, a introdução da história, através da antítese entre a "língua de trapos" e a "dôce língua portuguesa", deixa antever uma preconceituosa afirmação ideológica, que se receia venha a predominar ao longo de toda narrativa, mas que, afinal, se vai diluindo e desaparece até ao seu final.

 

"PORQUE SE SEPARARAM 

– O LOBO 

– O ELEFANTE 

– O TIGRE 

– O LEÃO 

– E A CABRA!

Os meus amores não adivinham? Pois vão sabê-lo agora, tal como referem os indígenas da Guiné, na sua língua de trapos, a quem os quere ouvir e consegue entendê-los.

E depois de o saberem, podem os meninos contá-lo, mas na nossa língua, na dôce língua portuguesa, a quem gostar de historiazinhas ingénuas.

                                                                        *

                                                                  *          *

Certo casal de velhotes vivia desgostoso, por não ter tido filhos. Um dia, e quando já por sua idade não esperavam que Deus lhes fizesse a mercê de dar-lhes descendentes, tiveram um filho que, apenas nasceu, muito espevitado, declara aos pais:

«Quero chamar-me Himbo-Inéné!»

Imaginem o assombro dos velhotes!

Tinha o menino quinze dias e a mãi disse ao pai:

«Enquanto vais à caça e à pesca, vou eu colher bananas.»

E o rapazito, lampeiro, intromete-se na conversa:

«Deixa-te estar em casa, minha mãi, que eu vou buscar as bananas.»

Palavras não eram ditas, salta das costas da mãi, onde ela o trazia, enquanto lidava nos queafazeres domésticos e vai pela porta fora!

Daí a pouco, regressa, trazendo enorme cacho de bananas. Depois, pula ao colo da mãi, mama sofregamente e dorme a sua sonequinha, como os petizes da sua idade.

No dia seguinte, ao amanhecer, a mãi obrigada a sair, deixa-o na palhota. Ao voltar a casa, vários rapazes vizinhos a esperam e se lhe queixam do filho.

«Vizinha, o seu rapaz bateu-nos! É muito mau!»

«O quê? O meu filho é um pequenino de peito que deixei a dormir quando saí. Vós, uns tamanhões, a queixar-vos dêle, até parece mal... Vinde cá ver como êle está sossegadinho!»

Mas a velhota fica espavorida, ao enfrentar o seu pimpolho, de varapau nas mãos, esperando a arremetida dos outros rapazes, pronto a defender-se, se tentarem agredi-lo.

A pobre mulher pede desculpa aos rapazes e ralha ao menino que, de novo quere maminhas e torna a adormecer tranqüilo.

Mas já na aldeia se começa a murmurar que Himbo-Inéné tem feitiço mau e porisso [sic] é necessário fazê-lo morrer. Feita uma comunicação ao régulo, êste manda vir o petiz à sua presença."

 

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29.11.25

Felipe Nery - Rumores da Lunda


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Felipe Nery (datas desconhecidas), Rumores da Lunda (s. d. [D. L. 1961]).

 

Quase nada se sabe sobre o autor, excepto que viveu e trabalhou na Lunda, Angola, entre as décadas de 1930 e 1950. Sabe-se ainda que foi amigo de José Redinha (1905-1983), estudioso da etnologia da província da Lunda Norte, célebre pela sua produção diamantífera, e promotor do seu museu, que assina o prefácio desta edição.

 

Embora esta edição não esteja datada, podemos constatar que o prelúdio de Redinha está datado de 1950 e a introdução, de Nery, de Julho de 1960, sendo que o depósito legal é do ano seguinte.

 

Felipe Nery reúne, neste livro, trinta e um poemas e sete crónicas, onde se registam olhares diversificados sobre a vivência e o sentir que experimentou durante a estadia na região. Poder-se-á argumentar que a sua poesia é superficial e está repleta de lugares comuns, mas a verdade é que traduz um profundo fascínio pela região e pelos seus povos, roçando ainda o neo-realismo na sua abordagem das injustiças a que estão sujeitos os trabalhadores e os desfavorecidos.

 

Transcrevem-se, de seguida, quatro poemas deste volume.

 

"ESCORÇO

Selva brava, terra de gentios,

de capins agrestes e rasteiros escalrachos,

onde serpenteiam caudalosos rios

e é múmura e fresca a água dos riachos

 

Nos moxitos, verdecidos e velados,

campeiam feras, cruas e arteiras:

ruflam asas -  que são bandos alados

sobrevoando as cristas das palmeiras.

 

O sol doira a chã em cores ardentes

de planície fulva e infecunda...

À tarde, descem breves os poentes

a incendiar a misteriosa Lunda!

 

NÁCONDE - PRINCESA LUNDA

 

Bailarina negra, genial escultura,

que a voz do vento faz rodopiar.

Ó feiticeira, cor de noite escura!

Corpo de ébano feito para dançar!

 

Como ave sacudindo as penas,

fremes as ancas fartas, sensuais.

Ó princesa das lúbricas luenas!

Ó rainha de negras bacanais!

 

«Tchisanjes» gemem, vazam melodias,

que modulam o teu passo ritmado

pontificando nas pagãs orgias.

 

O «tchingufo» ressoa em vibrações,

que agitam o teu corpo requebrado

em frémitos de desejos e paixões.

 

O RIO LUACHIMO

 

Em seu leito coleante,

caprichoso,

entre margens frescas,

verdejantes,

nimbadas de mistério,

desliza triunfante e rumoroso

seu caudal maravilhoso

de águas mansas,

claras,

azuladas,

que turvam, avolumam,

e embravecem, assustadas,

ao sabor do vento,

e no momento

culminante das trovoadas.

 

 

O MINEIRO NEGRO

 

Lá muito longe, na sanzala tosca,

feita de madeiros, coberta de capim,

decorria a sua vida inerte,

vegetativa e rotineira.

Bastavam-lhe frutos, raízes,

e o sumo da palmeira.

A carne ele a caçava:

tinha sempre, alià mão,

a zagaia, e a velha lazarina,

de pederneira...

 

Ia contando, erradamente, os anos

pelas chuvas e os meses pelas luas.

Estendido sobre a terra deixava,

deleitado, os raiso do sol

penetrar-lhe as carnes

negras, nuas!

 

E em noites de batuque,

lascivo e estonteado,

ele cantava e dançava,

dançava toda a noite

até ficar cansado.

 

Mas tinha por pagar o justo imposto

à grei, ao Estado,

e numa manhã viscosa e fria

resolveu ser contratado.

 

Lá vai calcorreando trilhos.

Leva sobre a cabeça todos os seus haveres

e canta, canta sempre:

«Mãma iá mim. Mãma iá mim».

seguem-no a mulher e os filhos.

 

Rodam máquinas e vagonetas.

Flectem os corpos e as alavancas.

Erguem-se as pás e as picaretas

fendendo a terra e o cascalho!

Tanto trabalho!

 

Tosta-lhe a pele o sol impiedoso,

ferem-se-lhe as mãos a manejar o aço,

a revolver-lhe a terra nas suas entranhas.

Há manchas negras, movediças,

desafiando o espaço,

a derribar barreiras e montanhas!

 

Tressuam os corpos.

Estátuas de bronze em movimento

erguem os braços.

E as picaretas, marcando o tempo,

fendem a terra.

 

As pás de ferro descrevem arcos

no seu vaivém e a terra voa

brilhando ao sol que cai a pique.

As alavancas, cavando fundo,

ferem a rocha que se desfaz!

 

E o mineiro negro, pigmentado,

de dorso nu, duro e face prognata,

volta à libata,

obreiro obscuro

e ignorado.

 

O DRAMA DOS DIAMANTES

 

Os morros de Maludi são vermelhos,

são parábolas de Averno.

Os negros que os derribam são negros.

São negros mas são homens.

 

Os morros se esboroam sangrando

e a terra vermelha rola até ao canal

impelida pela água jorrante

e pelas bagas de suor dos negros.

 

Por vezes, os negros rolam também

e a mesma terra vermelha os sepulta.

 

Em baixo, no sopé do monte que parece inferno,

a faixa irregular e sinuosa do cascalho

esconde, ávida, as pedras lucilantes.

 

Mas, nas Metrópoles «snobes» e distantes,

Maludi é conhecido apenas pelos letreiros

colocados sobre gemas

nas montras faustosas de ricos joalheiros!"

 

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20.10.25

Orlando Mendes - País Emerso (I)


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Orlando Mendes (1916-1990), País Emerso (1975).

 

Acabado de imprimir em Maio de1975, na Empresa Moderna, de Lourenço Marques, este volume surgiu no mês anterior ao mês da declaração da independência de Moçambique, ocorrida a 25 de Junho daquele ano.

 

O próprio título traduz já os sentimentos políticos e sociais, decorrentes da revolução de 25 de Abril de 1974, em Portugal, associados às colónias portuguesas desde o ano anterior.

 

A obra literária de Orlando Mendes nunca havia sido explicitamente política, mas em alguns dos poemas, num conto e na peça de teatro que reuniu neste primeiro caderno (País Emerso II viria a ser publicado no ano seguinte), o autor assume-se como arauto das mudanças sócio-políticas, procurando descrever e promover a consciência do que está a acontecer em Moçambique.

 

Uma vez que já anteriormente se referiram alguns dados biobliográficos do autor, o presente artigo registará apenas que este volume apresenta quinze poemas – De ontem para hoje, Deserção do infante, Meditação, E nunca mais serei eu, País emerso, Revolução, A caminho, Menino agora, Libertação do poeta, Um fósforo na noite, Invenção na voz, Escola Nova, Chuva, Carta para, Bilhete de filho, dois contos  O Segredo e A Reunião, e a peça de teatro Na Machamba de Maria – Sábado às 3 horas da tarde.

 

Transcreve-se de seguida, integralmente, o poema A Caminho.

 

A CAMINHO

 

Quando as luzes acendem na cidade

salpica-se de casas escuras por abandono.

Lá, nas machambas com cantina, o motor

funciona toda a noite para iluminar o centro

patronal, matilhas de cães ladram ao mínimo

lume de pirilampos e voo de insectos.

Acorda-se quase sem se saber porquê, instinto

a louvar o faro-zelo dos mastins, necessidade

de sono rebentando pragascontra os ladridos.

Nas povoações só (se acontecem) estrelas e lua

iluminam os caminhos de passagem comunal

que ninguém devassa pela noite adiante

porque os cães mansamente dormem as horas

que faltam para despertarem a madrugada.

E um novo dia amanhece na cidade

e nas dispersas machambas com cantina

e nas povoações que simples contaram histórias

e entoaram uma canção da luta em paz

e foram deitar-se sobre as esteiras rugosas

para dormir fadiga sem sonhos ou pesadelos.

Dia que um forasteiro poderia dizer que

não alterou a cara das coisas que havia já

dia que muitos de aqui pensam que não

traz mudança, além da cor que mais sobressai.

A manhã dura o mesmo tempo, o sol queima

como ontem, a chuva é de mais ou de menos

como nos ciclos passados. Mas o povo, esse

vai a caminho com o início da Revolução

tem outro rosto, outras palavras, outro andar

para um cântico-música que sabe improvisar

o que por este poema talvez insólito se noticia

para conhecimento daqueles que nos seus lares

de chinelos e tomando bebidas reconfortantes

apenas ouvem a rádio e lêem os jornais

pois ver multidões os arrepia debaixo da pele.

 

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17.09.25

Revista Cultura (VIII)


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Com já foi referido, este número da revista apresenta um conto de Onésimo Silveira (1935-2021), intitulado Superstição, e um poema de Ovídio Martins (1928-1999), que se transcreveu anteriormente.

 

Alguns dados bio-bibliográficos relativos a Onésimo Silveira também já foram mencionados, pelo que aqui se transcrevem, apenas, os primeiros parágrafos do conto Superstição. 

 

"A princípio, nhâ Livramento desconfiou ser pirraça dos filhos de nhô Giraldo; mas, por fim veio a ter a certeza de que era «medo», que era obra das almas desaparecidas. Por isso foi ela quem disse ao neto que se tratava de coisa malignas, porque «Planeta» estava mau.

 

– Impossível! – disse ela. Filhos de nhô Giraldo a tirar pedras todos os dias no Fundo de Nhô 'Velino, não pode ser... Não! há qualquer mistério nesta historiada...

 

– Sempre, sempre, mamã – observou Julim. Primeiro pensei que fossem as cabras que rolavam as pedras da ladeira; mas hoje, de-vontade, não deixei sair nenhumas da ribeira. E... pronto. Um bocadinho depois lá vinham novamente as pedradas... Parece até, que depois de bocê ter esconjurado... as coisas têm andado pior. Da primeira vez foi só uma pedrada... Meninos de nhô Giraldo, não pode ser, tanto mais que Toi e Esteve foram dar comida às cabras na Chã de Nhô Henrique Batista.

 

Nhâ Livramento passou as mãos descarnadas pelos cabelos brancos, que lhe tomavam a cabeça de ponta à ponta. Levou depois a direita à testa e benzeu-se: – «... Pai... Filho... Espírito Santo, Amen».

 

O clarão avermelhado do sol tombava sobre a linha do horizonte, para trás do Monte da Cara. Mal acabou de se benzer, nhâ Livramento deixou-se ficar parada a olhar vagamente em direcção à rocha da Craquinha, em cuja base fica o Fundo de Nhô 'Velino. Quando pressentiu que Julim acabara de amarrar as cabras no curral de pedra solta ligado à cozinha, deslizou religiosamente até à porta do seu quarto de dormir, estendeu o braço e puxou um mocho de tábuas de caixote e assentou-se; em seguida, com a voz denunciadora dos seus bons setenta e tantos anos, gritou: – «Julim! Ó Julim!».

 

Ligeiro que nem um cabrito Julim logo a encostar-se junto à avó, a quem tratava por mãe. Instintivamente acocorou-se, e a sua cara espantada tomou ares de alegria, assim que sentiu os dedos doces de nhâ Livramento roçar-lhe a carapinha. Como esta se demorasse sem dizer alguma coisa, Julim quebrou o silêncio:

 

– Mamã, e se uma pedra acertar em mim?!

 

– Credo, menino. Credo, Deus te salve? [sic] – berrou nhâ Livramento soerguendo-se do mocho.

 

Após breve pausa, continuou:

 

– ... E amanhã levas os bichinhos para Chã de Mesa, que esta trapalhada das pedras já não me está caindo nada bem!

 

– Mas, mamã, só no Fundo de Nhô Velino é que tem um ou outro pé de palha. Nos outros lugares, é pedra de cima de pedra...

 

– Fundo de nhô 'Velino, não! – retorquiu a velha, um tanto irritada. Tu não sabes a fama desse lugar, menino de Nossenhor. Eu é que sei o que se fazia por lá outrora... Mesmo que nha mãe que Deus haja dizia que lugar de pomba e vaidade é lugar sujo. Quando corria dinheiro, era uma vida de pândegas dia e noite... Agora, os espíritos daninhos que morreram naquela casa grande, que está a dois passos da estrada que dá para o Mato Inglês, têm de cangar nos coitadinhos...

 

– Mas meninos de nhô Giraldo nunca sentiram nada... Só eu, porquê?

 

– Menino, menino! Esta casa parece-me que não anda resguardada: ùltimamente tem havido aqui muita contrariedade... Se o leite não coalha antes de chegar à cidade, é o peixe que vem a cheirar mal; e, quando não é nem o leite ou o peixe, és tu que vens com a história das pedradas! Minha casa nunca foi sítio endemoninhado! Casa de oração é casa de boas sombras, é casa de  Deus Nossenhor 'Sus Cristo. Se há alguma coisa, que vá para os Paços Superiores!...

 

Assim que ouviu dizera nhâ Livramento que casa de oração é casa de boas sombras, Julim lembrou-se de acender a lamparina, não porque se fazia muito tarde, mas sim porque a velha lhe ralhava quando abandonava os santos às escuras. Dirigiu-se à cozinha e, de baixo de uma lata de manteiga «margarine», assente em três pedras negras, em que fervia barulhenta a cachupa, retirou um tição e com ele acendeu a lamparina a gasóleo."

 

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29.04.25

Antologia da Ficção Cabo-Verdiana Contemporânea (III)


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Pedro Duarte (Pedro Gabriel Monteiro Duarte, 1924-2016) frequentou os estudos secundários no Liceu Gil Eanes, na cidade do Mindelo. Funcionário administrativo desde 1945, foi administrador concelhio na Guiné, entre cerca de 1950 e 1970, ano em que, por questões políticas, foi transferido de Bolama para o concelho de Chibia, em Angola, onde se manteve até 1975. Neste ano mudou-se para Portugal, vivendo no país até se reformar.

 

Depois de aposentado regressou a Cabo Verde, sendo delegado do governo em S. Vicente e secretário-geral da Assembleia Nacional Popular, presidida por seu irmão Abílio Augusto Monteiro Duarte (1931-1996), um dos fundadores do PAIGC. Durante a década de 1990, devido a questões de saúde, regressou novamente a Portugal, ali permanecendo até 2014.

 

Colaborou nas revistas Claridade, Cabo Verde, Presença Crioula (Lisboa), Morabeza (Rio de Janeiro) e Raízes, entre outras, tendo publicado em 1999 o primeiro e único volume, Manduna de João Tienne, de uma planeada e anunciada trilogia, de características quase auto-biográficas, que acabou por ficar incompleta e inédita.

 

Sobre Pedro Duarte, refere a nota introdutória a este autor – "Um dos mais «bissextos» escritores cabo-verdianos, que, todos, poderiam aproveitar o adjectivo aprendiz de Carlos Drummond de Andrade, grande poeta da língua portuguesa, para exprimirem o peso da pedra tumular da vida de todos os dias que vai calcando lentamente, mas com uma paciência de formiga, a outra face da vida mais liberada e mais ampla. Nasceu na ilha de Santiago e é funcionário administrativo na Guiné Portuguesa. Como Virgílio Avelino Pires, como Manuel Lopes, como Jorge Barbosa, como todos nós, é um aproveitador de clareiras – quando elas se dignam aparecer.

É colaborador ocasional da revista mensal «Cabo Verde»."

 

O conto Migração, de que se transcrevem abaixo os primeiros parágrafos, havia sido anteriormente publicado no Boletim Cabo Verde, ano IV, n.º 39, de Dezembro de 1952, tendo sido galardoado com o 1.º prémio de "O Melhor Contista de 1952", instituído pela mesma publicação.

 

"A terra ressequida do fundo do vale levantou-se em nuvens de pó que o vento atirou para o céu mentiroso. Havia sete anos, sete dias, sete repartições do mundo que a chuva não caía. Os homens estavam desvairados e as plantas loucas cravando no seio da terra as raízes sequiosas.

Do céu pedrento de há pouco restam nuvens esfarrapadas. Agora o mar rebate-se com menos fúria de encontro à penedia da encosta.

Um dos homens do sítio retirou a cabeça da pequena janela donde estivera a observar a tarde que prometera a chuva esperada. Coxeou sustendo-se num caixote vazio a servir de assento e depois numa arca velha até junto da única cadeira sem respaldo a um canto do aposento desolado.

No quarto adjacente o sol brando da tarde voltou a entrar confiante pela armação do telhado, desenhando no chão o rectângulo das bitolas.

A porta interior de ligação fora arrancada e substituída por um tapado em serapilheira. Um aparte do muro do quintal desmoronou abrindo caprichosamente uma segunda entrada. Os dois anexos que em tempos serviram para arrecadação de produtos da lavoura ficaram também sem a cobertura e as portas. No quarto devassado da pequena moradia ervas bravas cresceram no alto dos muros e ali estiolam tostadas peloSol.

As telhas foram vendidas. A porta de comunicação entre os dois aposentos do casinhoto servira para o fundo do esquife de nhâ Bajim."

 

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16.01.25

Revista Cultura (V)


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O número 39 desta revista apresenta o conto Titia, de Gabriel Mariano (José Gabriel Lopes da Silva, 1928-2002). Num registo coloquial próximo da oralidade, esta narrativa apresenta-nos o retrato de uma viúva que abandonou Cabo Verde, onde apenas um dos três filhos permaneceu, para viver sozinha em Lisboa, sem quaisquer amigos ou confidentes a não ser José, o narrador.

 

Embora ainda não tenha sido reproduzido o conto deste autor, intitulado Resignação, publicado em 1958 no número 14 desta mesma revista, número já aqui abordado, transcrevem-se de seguida os primeiros parágrafos de Titia, sem mais informações adicionais, uma vez que já foram anteriormente referidos alguns dados bio-bibliográficos sobre o escritor (https://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/3552.html):

 

"Titia nem teve paciência... Recado num dia, bilhete no outro... Caramba! Nem que fosse sangria desatada! É preciso compreenderem que eu nem sequer sou parente dela. Sim senhores... Nem filho, nem sobrinho, nem primo, nem nada. Chamo-lhe Titia por amizade.

 

Titia não é má pessoa, não. Só que de vez em quando tem suas rabujas... Hoje os seus filhos estão longe. Ela vive cá em Lisboa. Viver «cheio de buracos vazios» porque «dinheiro é pouco e velhice ingrata»... Veio para aqui com destino à Argentina. Zulmira, a filha mais velha, vive lá. Mas depois levantaram-se impedimentos, «assoprou aquele ventinho que tem de pegar toda a criatura sem sorte» e ela não seguiu. Foi resolvido que ela ficasse. Voltar para Cabo Verde era asneira... Nhônhô, o que está em Moçambique, foi de opinião que mais vale viver mal em Lisboa do que viver bem em S. Vicente. Sim, porque Titia já viveu bem... «Quem a visse hoje em dia com o seu balaio de compras debaixo do braço não dizia que estava ali uma quintanista, e das antigas...» Titia viveu bem enquanto o marido foi vivo. Negociante de baia. Ela mesma fazia os bolos para vender na Pracinha do Liceu. Foi assim que compraram a sua casinha no Lombo-de-Trás e puderam educar os filhos. Nhônhô tirou o sétimo ano e concorreu para Moçambique. Zulmira também estudou. Essa é que embarcou para a Argentina. Lela não quis estudar. Fez o terceiro ano e empregou-se na companhia Madeira. Parodista e mulherengo dos bons... Titia às vezes lastimava-se de Lela não ter o 7.º como Nhônhô.

 

– O que tu queres é esta vidinha de cachorro vadio...

 

Lela ria, ria e não dizia nada. O riso de Lela é sonoro e sacudido.

 

Pois, para Titia o bom tempo durou enquanto durou o marido. Homem é que é tecto de uma casa, já se vê. Depois começou a dispersão. Nhônhô casou, Zulmira foi para a Argentina e Lela tirou uma rapariga de casa. Que é que Titia ia fazer sòzinha na casa vazia? Sim. Que é? Foi então que ela resolveu embarcar também. Aqui em Lisboa aguentava-se com o dinheirinho que os filhos lhe mandavam. Filhos... vírgula... Só Nhônhô lá de Moçambique achava jazigo de lhe mandar qualquer coisa. Não era muito, já se sabe, pois, como vocês calculam, um homem casado tem de olhar para o futuro da mulher e dos filhos. Quanto aos outros Zulmira de vez em quando mandava roupas usadas e Lela só escrevia para dizer: «Mamãi do meu coração quando aprecer portador de confiança mando você uma boa encomenda. Seu filhinho que lhe estima do fundo da alma e que lhe pede a bênção Manuel». Titia ben se amofinava com o que ela chama «ingratidão familiar».

 

– Este moço não me escreve uma cartinha com tripa.

 

Tripa na linguagem de Titia é dinheiro."

 

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01.07.24

Antologia da Ficção Cabo-Verdiana Contemporânea (II)


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Destaca-se neste artigo a produção literária de Henrique Teixeira de Sousa (1919-2006), que na presente colectânea apenas tem reproduzida a narrativa Dragão e Eu, conto que entretanto já havia sido publicado na revista Vértice, números 4 a 7, de Fevereiro de 1945.

 

Médico, natural da ilha do Fogo, Teixeira de Sousa foi presidente da Câmara Municipal de S. Vicente durante mais de cinco anos.

 

Pode dizer-se que as suas publicações se dividem em dois grandes períodos – um, onde surgem essencialmente narrativas curtas, que decorreu antes da sua aposentação clínica; outro, onde surgem maioritariamente romances, que decorreu depois dessa aposentação.

 

De facto, até meados da década de 1980, a sua produção literária editada resumiu-se praticamente a contos, dispersos por revistas e antologias, a um conto – Na corte d'El-Rei D. Pedro, publicado no volume Natal, editado pela Lusofármaco em 1970, de que foi co-autor com Orlando de Abuquerque (1925-1997) e Pedro Mayer Garção (1905-?), e à colectânea Contra Mar e Vento (1972).

 

A maior parte da sua obra ficcional surge a partir da década de 1980, num conjunto onde, para além de Capitão-de-mar-e-terra (1984), Djunga (1990) e Ó Mar de Túrbidas Vagas (2005), sobressaem os títulos de uma trilogia romanesca – Ilhéu de Contenda (1983), Xaguate (1987) e Na Ribeira de Deus (1992).

 

Transcrevem-se abaixo alguns parágrafos do conto que surge nesta antologia:

 

"Eu e o Dragão fomos companheiros inseparáveis nas jornadas para o interior. A princípio caminhou tudo muito bem, mas depois comecei a notar o ambiente hostil que me rodeava. Duma ocasião, apedrejaram-me na estrada e por acaso Dragão correu atrás do homem que se agachou por trás de um tamarindeiro. Em parte dava razão àquela gente. esperavam ansiosos pela chuva, que  não vinha.

Mesmo que chovesse, era já tarde. Compreendia que a situação se tornava cada dia mais difícil e eu tinha que trabalhar de qualquer forma. Dragão de vez em quando espetava as orelhas e punha-se a farejar por todos os lados. Eu sacava da pistola e parava a cavalgadura. Depois continuava, estrada fora, sempre atento às pessoas que passavam.

De regresso tinha o amor gostoso da Guida. Minha tia soube que eu andava ligado a uma rapariga de Fonte-Lexo. Falou comigo quase em segredo e com muito receio que disparatasse. Se a minha mãe soubesse, teria grande desgosto. Que atentasse nos homens que se amigavam com mulheres dessa laia e que nunca mais se libertavam dos seus braços. Não fizesse uma coisa daquelas porque mais tarde havia de me arrepender. Não me lembro do que lhe respondi mas o que é certo é ela nunca mais me ter tornado a falar no assunto.

As avaliações acabaram e tudo depois seguiu o caminho que já se esperava.

A vila enchia-se de gente que abandonava os campos sem água. Vinham esfarrapados, magros, com chagas enormes fedendo a podridão. As mães traziam os filhos pequenos à cabeça, em grandes balaios. Paravam à porta dos sobrados e mostravam os cestos de carriço onde se viam olhos gulosos emergindo de carinhas murchas de fraqueza. Deambulavam pelas ruas num cortejo de tristeza e desespero.

Pinoti-Capador morreu inchado, a brincar com uma pedra. Perdiam o juízo e ficavam que nem umas crianças. Os meninos ganhavam rugas e pareciam uns anões velhos. De noite recolhiam-se no casarão da Escola e no outro dia, ia-se ver, eram vivos e mortos estendidos a esmo pelo chão.

Recomeçava a peregrinação pelas portas das casas e repetima-se as cenas que então se viam. Meninos chupavam tetas vazias, mães que recusavam o comer aos filhos, velhos que morriam nos largos públicos, na presença de toda a gente.

Quando lhes dava para emagrecer, iam a ponto de pouco faltar para uns esqueletos perfeitos. Mas depois inchavam e ficavam luzidios como a pele de um tambor. A seguir estiravam-se de comprido, os olhos escancarados para o céu aberto, sem nuvens, donde não caía a chuva.

Foi um tempo terrível aquele, para as gentes da ilha."

 

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25.04.24

Kitatu Mu'Lungo


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Kitatu Mu'Lungo (1974).

 

Até esta data, David Mestre (n. 1948) publicara o livro de poesia Crónica do Ghetto (1973), sendo também coordenador e editor dos cadernos de poesia Bantu e Kuzuela, João Carneiro (n. 1947) publicara o livro de poesia Dezanove Recontos (1968) e Maria Ângela Pires (n. 1944) havia publicado Poemas (1968), em edição de autora.

 

Opúsculo singular de vozes singulares do período decorrido entre a Revolução de 25 de Abril de 1974 e a independência de Angola, declarada a 11 de Novembro de 1975, congrega, ao longo das suas 56 páginas, textos onde, por entre a opressão, a esperança cintila nas palavras de David Mestre  "Porém / um dia pedir-te-ei gajajas e goiabas e fa- / remos um almoço de frutos que te hão-de es- / corregar do vestido e crescer-me nos pés / e cheios de alegria e liberdade abriremos / uma estrada / plantaremos uma árvore / não escreveremos um livro / mas faremos uma nação.", um desencanto anárquico e irónico perpassa pelo escatológico, sexualizado e quase violento registo de João Carneiro e uma inquieta incerteza toma voz na cidade de Maria Ângela Pires.

 

De David Mestre transcreve-se um excerto do primeiro texto de O pulmão (narrativa autogeográfica), datado de Catete, Outubro de 1971 / Luanda, Março de 1972:

 

"Que posso fazer por ti?

estas as palavras frequentes que digo es-

tirado na cela ao pôr da noite em África

latitude pequena para o teu grande rosto

e acho que o mais que posso fazer é um

pedido ao cabo

pergunta-lhe se podes vir

 

ele recomendar-te-á ao sargento e dei-

xar-te-ão visitar-me estirado na cela cheio de

mim a pensar no Congo ou ainda ou já no

Congo

o meu corpo aguardar-te-á mas lembra-te

não sou eu porque eu abri um buraco no tacto [sic]

anteontem por onde saí

era preciso respirar assim levei o pul-

mão real este é de plástico

não fales senão talvez ouçam o meu silên-

cio e  te façam perguntas sobre a minha deser-

ção de mim

(...)"

 

De João Carneiro transcreve-se um dos Três Anti-Autos, datados de Luanda, Setembro de 1974:

 

"DO INFERNO

marimbo-me nas certezas fálicas do teu corpo amorfo inerte nem estás morta porque nunca soubeste ressuscitar e esta merda será talvez uma terra um país um povo e mijaremos felizes sobre as massas"

 

De Maria Ângela Pires transcreve-se o segundo dos Sete Poemas para a Cidade em Agosto, datados de Luanda, Agosto de 1974:

 

"Povoada de tiros

os olhos abertos

longamente acesos

por séculos de memória

 

Agora a revolta

nos punhos secos das mulheres

nas pernas magras nervosas

das crianças

a raiva

nos dentes dos homens

 

o grito de alívio

a saber a morte"

 

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04.03.24

Novos Contos d' África (I)


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Novos Contos d' África (1962).

Capa de Manuel de Resende (1908?-1977?).

 

Esta segunda antologia de contos da colecção Imbondeiro, que sucedeu à publicada no ano anterior, apresenta obras de Alfredo Margarido (1928-2010) – A Osga, Artur Carlos Pestana (n. 1943)  As Cinco Vidas de Teresa, Djamba Dalla (pseudónimo de Dulce Ferreira Alves Mendes de Vasconcelos, n. 1927) – Terei Eu Perdão?, Henrique Abranches (1932-2004)  Sangue como Chuva Seca, Henrique Guerra (n. 1937) – Virgínia Voltou, Horácio Nogueira (n. 1925)  Chilombo, Ingo Santos (Arnaldo Santos, n. 1936) – Joana de Cabo Verde, Julieta Fatal (datas desconhecidas)  Uma Velha que Tinha um Gato..., Luandino Vieira (n. 1935) – Os Miúdos do Capitão Bento Abano, Maria Perpétua Candeias da Silva (datas desconhecidas)  Escrava, Orlando Távora (pseudónimo de António Jacinto, n. 1924) – Vôvô Bartolomeu, Pedro Sobrinho (n. 1936) – Terra de Sol, e Reis Ventura (1910-1988) – O Drama do Velho Cafaia, conjugando num único volume a produção de dissidentes e escritores afectos ao regime do Estado Novo.

 

Tal opção editorial é sublinhada pelos editores, Garibaldino de Andrade (1914-1970) e Leonel Cosme (1934-2021), que declaram no seu preâmbulo a este volume – "Em Literatura – como noutras coisas – há quem não pense da mesma maneira, e a esse tipo de liberdade que preferimos, por não dar ensejo a dogmatismos, costumam chamar nomes feios. São os riscos próprios dos que não assinaram pactos nem tratados, dos que não crêem que um deus valha mais ou menos do que outro deus, dos que concluíram para si próprios que toda a espécie de hermetismo ideológico é um atentado contra a liberdade de pensamento – o mais sagrado direito do escritor."

 

O compromisso desta linha editorial torna-se evidente quando, nesta colectânea, coexistem narrativas que ecoam as sublevações e os massacres de 1961, em contos como Terei Eu Perdão? ou o Drama do Velho Cafaia, cujos enredos assentam na violência física e nas angústias e traumas decorrentes destes confrontos, junto da obra de um autor como Luandino Vieira, contestário do regime que, precisamente desde 1961, se encontrava encarcerado por motivos políticos.

 

Continuando também o compromisso da Imbondeiro em promover as artes plásticas como complemento das suas publicações, esta colectânea apresenta cinco ilustrações de diferentes artistas – duas de Fernando Marques (1934-2017),  duas de João Manuel Mangericão (1936-2022) e uma de Luandino Vieira.

 

 

Ilustração de Luandino Vieira para o conto Os Miúdos do Capitão Bento Abano.

 

O conto de Luandino Vieira surge na continuidade das tendências temáticas anteriormente patentes em A Cidade e a Infância (1960), as quais haveriam de voltar a surgir nos três contos apresentados em Luuanda (1963), como a vivência nos bairros da periferia urbana, a memória e a infância.

 

Sobre Luandino Vieira, refere a breve nota presente neste volume: "Luandino Vieira é pseudónimo de José Graça. Nasceu em Luanda em 4 de Maio de 1935 e é empregado comercial. Colabora em várias publicações angolanas. Representado nas colectâneas «Contistas Angolanos» e «Poetas Angolanos». Publicou «A Cidade e a Infância», contos, 1960. Colaborou nos n.ºs 14 e 23 da «Colecção Imbondeiro»".

 

De Os Miúdos do Capitão Bento Abano transcrevem-se, então, os primeiros cinco parágrafos:

 

"Alcunha, quando a gente tem, tem por alguma razão. Esta opinião sustentava sempre que o acaso me juntava com Zeca Bunéu e Carmindinha, recordando Xoxombo. Tunica nunca mais esteve presente nessas reuniões, a vida levara-a para a Europa, com seu jeito de cantar rumbas e sambas. Menina-perdida, dizia para nós sá Domingas; a vida é grande e não são só as palavras que chegam para mudá-la, justificávamos nós. Carmindinha silenciava, não punha opinião, mas sabíamos que lhe era dolorosa a recordação da irmã Tunica.

 

Nossas reuniões eram, às vezes, em casa de sá Domingas, quando eu namorava Carmindinha. Zeca Bunéu vinha depois, com seu assobio-de-bairro, chamar-me para o café, mas acabava sempre por ficar na conversa. E com sá Domingas, já velha de cabelos brancos e Bento Abano ainda lendo o jornal sem óculos, calado no seu canto, quantas vezes não recordávamos! Invariável, porém, a presença de Xoxombo em nossa conversa, emboras as lágrimas  corressem pelo carão negro e já muito enrugado da mãe. Carmindinha contava, sempre igual, sua versão de alcunha de Xoxombo. E a defendia, séria. Zeca Bunéu, com sua maneira de contar as coisas, escolhia a versão mais conhecida, a de mais malandragem, aquela que servia seu feitio de menino malandro mas bom, dado a contar histórias à sua maneira. Eu não emitia grande opinião. Gostava, é verdade, de ver Zeca Bunéu, com grandes gestos e risadas, os olhos muito grandes piscando, contar a história na sua versão. Mas olhava com amor para Carmindinha, às vezes zangada, defendendo o irmão. Só quando sá Domingas começava a chorar pela recordação que lhe fazíamos e Bento pigarreava na sua cadeira de bordão, eu interrompia. Mal, confesso. Insistia apenas no facto real: alcunha, quando alguém tem, há uma razão e se toda a gente referia Xoxombo da mesma maneira, pouco importava a a origem ou versão da alcunha.

 

Depois saíamos. Carmindinha vinha connosco, deixava que eu lhe apertasse os seios pequenos debaixo do kimono, ao segurá-la para o beijo à porta. E, com Zeca Bunéu, de noite, ia quase sempre passear à toa, pela nossa cidade adormecida.

 

Hoje, dia dois de Novembro, encontrei Carmindinha à saída do Cemitério Velho e viemos para baixo, no maximbombo da linha dois. Foi este encontro o primeiro depois de uma zanga que durou anos e nele não precisávamos mencionar Xoxombo: esteve sempre connosco, no fato preto e no cheiro enjoativo que as flores-de-mortos deixam nas pessoas. A sua história, desde essa hora, impôs-se. O tempo diluiu pormenores, esbateu insignificâncias, mas iluminou o que importa.

 

Afastado de Carmindinha todos esses anos, subtraí-me à sua influência, à sua bondade na defesa do irmão. E, sem Carmindinha presente, eu e Zeca Bunéu nunca mais falámos de Xoxombo. Sentir-me-ia culpado se não contasse a história. Talvez agora, com os elementos que os anos depositaram em mim, vindos das mais variadas versões, possa ser fiel à história de Xoxombo. Se não conseguir, a culpa não é dele, nem da aventura que lhe valeu a alcunha. É minha, que meti literatura onde havia vida e substituí calor humano por anedota. Mas eu conto na mesma."

 

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