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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

14.12.25

Emília de Sousa Costa - No Reino do Sol


blogdaruanove

 

 

Emília de Sousa Costa (1877-1959), No Reino do Sol (1933).

Desenho da capa, e das 22 ilustrações interiores, a preto e branco, de Raquel Roque Gameiro Ottolini (1889-1970).

 

Como já foi referido anteriormente (Autógrafos - Emília de Sousa Costa - Blog da Rua Nove), "Emília de Sousa Costa foi uma prolífica autora de histórias infantis e uma divulgadora empenhada da obra dos irmãos Grimm, Jakob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859), em Portugal, através da adaptação de muitos dos seus contos para a língua portuguesa.

 

Parte do seu espólio encontra-se actualmente depositado no Grémio Literário Vila Realense, juntamente com o espólio do romancista, ensaísta e cronista Sousa Costa (1879-1961), seu marido, que documentou, retratou e comentou a época final da monarquia bem como toda a agitação da I República. (http://www.noticiasdevilareal.com/noticias/listar_detalhes.php?id=852)".

 

Tal como Fernanda de Castro (1900-1994), e outras autoras cuja obra foi escrita e publicada durante o Estado Novo, Emília de Sousa Costa não foi imune à ideologia vigente, que desenvolveu, promoveu e ampliou o conceito de Império Colonial, intercalando na sua literatura infantil contos, ou temas, ligados às colónias portuguesas.

 

Alguns números desta mesma colecção, Biblioteca dos Pequeninos, dirigida e organizada pela autora, são evidente exemplo dessa influência, como sejam O Pretinho de Angola (1930), de César de Frias (1894-?), com ilustrações de Ilberino dos Santos (1905-1965) e Joanito Africanista (1932), da própria Emília de Sousa Costa, também com ilustrações de Raquel Roque Gameiro Ottolini.

 

No caso particular deste volume, entre as suas nove histórias – No Reino do Sol, Ninho desfeito, Que feio... ser invejoso!, O Coelho boateiro, O Bibi e a Dona Rã, O imperador, a menina e o cão, Guerra das Abelhas,Porque se separaram e O Cisne venceu, surge a alegada adaptação de uma tradicional narrativa da oralidade guineense, de que se transcrevem, abaixo, alguns parágrafos.

 

Como é evidente, a introdução da história, através da antítese entre a "língua de trapos" e a "dôce língua portuguesa", deixa antever uma preconceituosa afirmação ideológica, que se receia venha a predominar ao longo de toda narrativa, mas que, afinal, se vai diluindo e desaparece até ao seu final.

 

"PORQUE SE SEPARARAM 

– O LOBO 

– O ELEFANTE 

– O TIGRE 

– O LEÃO 

– E A CABRA!

Os meus amores não adivinham? Pois vão sabê-lo agora, tal como referem os indígenas da Guiné, na sua língua de trapos, a quem os quere ouvir e consegue entendê-los.

E depois de o saberem, podem os meninos contá-lo, mas na nossa língua, na dôce língua portuguesa, a quem gostar de historiazinhas ingénuas.

                                                                        *

                                                                  *          *

Certo casal de velhotes vivia desgostoso, por não ter tido filhos. Um dia, e quando já por sua idade não esperavam que Deus lhes fizesse a mercê de dar-lhes descendentes, tiveram um filho que, apenas nasceu, muito espevitado, declara aos pais:

«Quero chamar-me Himbo-Inéné!»

Imaginem o assombro dos velhotes!

Tinha o menino quinze dias e a mãi disse ao pai:

«Enquanto vais à caça e à pesca, vou eu colher bananas.»

E o rapazito, lampeiro, intromete-se na conversa:

«Deixa-te estar em casa, minha mãi, que eu vou buscar as bananas.»

Palavras não eram ditas, salta das costas da mãi, onde ela o trazia, enquanto lidava nos queafazeres domésticos e vai pela porta fora!

Daí a pouco, regressa, trazendo enorme cacho de bananas. Depois, pula ao colo da mãi, mama sofregamente e dorme a sua sonequinha, como os petizes da sua idade.

No dia seguinte, ao amanhecer, a mãi obrigada a sair, deixa-o na palhota. Ao voltar a casa, vários rapazes vizinhos a esperam e se lhe queixam do filho.

«Vizinha, o seu rapaz bateu-nos! É muito mau!»

«O quê? O meu filho é um pequenino de peito que deixei a dormir quando saí. Vós, uns tamanhões, a queixar-vos dêle, até parece mal... Vinde cá ver como êle está sossegadinho!»

Mas a velhota fica espavorida, ao enfrentar o seu pimpolho, de varapau nas mãos, esperando a arremetida dos outros rapazes, pronto a defender-se, se tentarem agredi-lo.

A pobre mulher pede desculpa aos rapazes e ralha ao menino que, de novo quere maminhas e torna a adormecer tranqüilo.

Mas já na aldeia se começa a murmurar que Himbo-Inéné tem feitiço mau e porisso [sic] é necessário fazê-lo morrer. Feita uma comunicação ao régulo, êste manda vir o petiz à sua presença."

 

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