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Literatura Colonial Portuguesa

Literatura Colonial Portuguesa

06.03.21

Rui Knopfli - Mangas Verdes com Sal


blogdaruanove

 

Rui Knopfli (1932-1997), Mangas Verdes com Sal (1969).

Capa e ilustração de António Quadros (1933-1994).

 

Este quarto livro de Rui Knopfli representará, porventura, a sua obra mais consistente e convincente, reunindo um conjunto de poemas escritos entre 1963 e 1969. Tal cronologia reflecte-se na organização do volume, que se encontra dividido em quatro livros – Nunca Mais é Sábado, com poemas de 1963, Maxila Triste, com poemas de 1964 e 1965, O Dente do Siso, com poemas de 1966, e O Passo Trocado, com poemas de 1967, 1968 e 1969.

 

Para além do intrínseco valor da poesia em plena maturidade de Rui Knopfli, este livro apresenta ainda um interesse acrescido, consubstanciado no prefácio crítico de Eugénio Lisboa (n. 1930), do qual se efectua abaixo uma longa transcrição de alguns parágrafos, em duas passagens distintas:

 

"Pediu-me Rui Knopfli este disparate: que juntasse, à guisa de prefácio, ao seu livro que agora se publica, duas linhas sobre a tão falada quão antologiada (cá dentro e lá fora) Poesia de Moçambique. O disparate é juntar ao livro de um poeta conhecido, três linhas de um prefaciador desconhecido. Mas o Rui lá sabe as linhas com que se cose e eu suponho que também começo a saber.

Houve da sua parte três partes de generosidade e uma parte de maldade. A generosidade, sabe-se porquê; a maldade, digo eu porquê. O Rui sabe há muito o que penso deste tão falado (quão embrionário) fenómeno, que é ainda a Poesia em Moçambique: o que tenho dito e escrito das antologias dos Srs. Alfredo Margarido e Luiz Forjaz Trigueiros e também das prosas altamente adjectivantes do Sr. Amândio César. Creio que umas valem mais ou menos bem as outras. E ao convidar-me para vir aqui, livremente, debitar o meu vinagre milenário, delega, desta vez, noutro, o impopular de que já ocasionalmente se tem desempenhado: dizer aos nossos divulgadores metropolitanos que a Poesia em Moçambique é outra coisa, que a Poesia, mais simplesmente, é outra coisa; que se deixem disso, se o fenómeno literário os não interessa sèriamente [sic] como literatura (ainda que possa também, sem inconveniente de maior, interessá-los como outras coisas): dizer ao Alfredo Margarido que se lembre do Alain que afirmava ser a Poesia «uma forma de fazer e não uma forma de pensar; [sic] que «a literatura social é apenas uma espécie de literatura e não é o núcleo da literatura»; que a representatividade social de um poeta não é medida da sua grandeza poética visto que, se o fosse, era o Joaquim Namorado, por representar «mais gente» do que o Antero ou o Pessoa, por certo maior poeta que o Antero ou o Pessoa; que é por isso escandaloso num prefácio de vinte e duas páginas, que antecede uma antologia de «Poetas de Moçambique», dedicar a Reinaldo Ferreira uma fracção de um parêntesis de uma linha, a pretexto de que este Poeta (juntamente com Glória de Sant'Anna) «se divorcia dos problemas imediatos», quando, no mesmíssimo prefácio arrasta um Fernando Ganhão, de cuja existência poética ninguém se apercebe, ao longo de quatro suculentas páginas onde de tudo se fala menos de Poesia; que a Noémia de Sousa é um mito que não vale a pena manter de pé, por mais simpatias que possam merecer as boas intenções dos seus poemas tão prolixos como balbuciantes. E dizer, por outro lado, aos Srs. Amândio César e Luiz Forjaz Trigueiros – e saindo um pouco da Poesia para o da Literatura, em geral – que nenhum intelectual sério, em Moçambique, pensou jamais em atribuir a mais pequena importância a nomes como os dos Srs. Rodrigues Júnior (prosador carregado de prémios, viagens, congressos e comendas) ou Guilherme de Melo (poeta e prosador, com edições na Metrópole, prémios de literatura e de popularidade e publicidade gratuita na TV). Que, do ponto de vista da literatura e da inteligência, tão estúpido é promover o Malangatana Valente a poeta (e traduzi-lo e antologiá-lo em inglês), como pretender-se que o Sr. Rodrigo Emílio (o da «Confluência») seja, para além de poeta, um «duro». E que tão mau é o Guilherme de Melo, reaccionário e delicodoce, como o fulano de tal, viril e auroral. Tudo diferentes maneiras de estar fora da literatura que não sabem o que seja e que não sabe quem eles são. Tudo maneiras de errar o alvo que não está nunca, por acaso, no sítio que eles visam.

Creio que foi um pouco para dizer as sábias gentilezas que acima se registam, que o Rui Knopfli me pediu, mefistofèlicamente [sic], para juntar ao seu nome de criador, o meu de arranhador. Sem vantagem visível para nenhum de nós: ele porque só tem a perder com a vizinhança, eu, porque nem o reflexo do seu nome servirá nunca para apagar a impopularidade compacta do monólogo teimoso e malcriado que é meu hábito debitar..."

 

 

Como se depreende, este excerto ajudará também a compreender alguma da marginalização editorial e crítica a que esta obra de Rui Knopfli foi sujeita, particularmente se atendermos à subtil alfinetada que Eugénio Lisboa endereçou a Luís Amaro (1923-2018), e à editora com a qual este colaborava, a Portugália, na dedicatória de um exemplar que lhe ofereceu: "Ao Luis Amaro / este livro que a Portugália / não chegou a editar... / Abraço amigo do / camarada / Eugénio Lisboa / L. M., 1969".

 

Mas Eugénio Lisboa continuou ainda, neste prefácio, a sua exegese crítica, promovendo o elogio e o destaque de poetas e da produção literária que considerava corresponder àquilo que entendia ser Poesia:

 

" (...) Eis precisamente o que proponho em relação à arte: que se esqueçam as «escrituras» (do Margarido e de outros), que se deixe a arte livre de ser aquilo que puder ser, se contemple o universo das imagens sem preconceitos de qualquer espécie – só assim mereceremos saber o que ele nos sugere, só assim ele nos revelará a pluralidade infinita de manifestações que integra e de que, em relação à Poesia (um dos subconjuntos desse universo), colhemos um eloquente inventário neste belo texto de Octávio Paz: «A poesia», diz-nos o grande poeta e ensaista mexicano, «é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a actividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos nossos eleitos; alimento maldito. Isola; Une. (...)»

Eis um belo inventário, provàvelmente [sic] incompleto ainda, mas, em qualquer caso, capaz de abarcar, sem esquecimentos escandalosos, as direcções mais diversas. «Voz do povo», «voz colectiva» – e caberão aqui alguns belos poemas de um Craveirinha, caberiam também (se a língua lhe chegasse) alguns poemas da Noémia de Sousa, caberá ainda o pouco, pouquíssimo, que até agora fez um Rui Nougar, como caberá – já um pouco na transição – essa «voz colectiva (e mais vigiada) [sic] desse poeta cheio de dignidade recolhida que é Orlando Mendes (tão pouco citado, tão imerecidamente preterido por outros de interesse poético infinitamente menor...); mas também «língua dos eleitos» – e aqui vemos incluirem-se um Reinaldo Ferreira, uma Glória de Sant'Anna, um Rui Knopfli, um Sebastião Alba, um Fernando Couto, um Jorge Vila, um Nuno Bermudes, um Fonseca Amaral, um Ilídio Rocha, um Lourenço de Carvalho, uma Ana Maria Barradas, uma Maria Rosa Colaço e, se quisermos (porque não?), um Alberto de Lacerda ou um Vítor Matos e Sá... (...)"

 

 

A consistência desta obra reside no facto de Rui Knopfli prosseguir e aprofundar aqui uma abordagem poética e literária que se «divorcia dos problemas imediatos», uma abordagem que, apesar do que o tropical e exótico título poderia prenunciar, evita cair no estéril e inconsequente exotismo da temática ultramarina ou mesmo na etnografia disfarçada de irreverente ou contestatário registo poético.

 

Do mesmo modo que Knopfli reafirma aqui a universalidade da sua poética e a consistência de uma gramática poética personalizada, envereda também, surpreendentemente, pelo ensaio de novos paradigmas, particularmente no que diz respeito ao Concretismo.

 

No entanto, torna-se óbvio que, subjacente a estes novos ensaios poéticos, se encontra um olhar irónico e algo mordaz sobre o Concretismo, como no caso de Poemazinho concretista inspirado em João de Deus, / primeiro poeta dito, com vista aos leitores / (adultos) das primeiras letras, inserido no livro primeiro, ou de Concretista, inserido no livro terceiro.

 

Transcrevem-se de seguida dois poemas inseridos no livro quarto, O Passo Trocado, que inclui textos escritos entre 1967 e 1969:

 

O PRETO NO BRANCO

 

Da granada deflagrada no meio

de nós, do fosso aberto, da vala

intransponível, não nos cabe

a culpa, embora a tua mão,

armada pelo meu silêncio,

lhe tenha retirado a espoleta.

De um lado o teu indicador,

de outro a minha assumidade neutralidade.

Entre os dois, ocupando o espaço

que vai do teu dedo acusador

à minha mudez feita de medo e simpatia,

tudo quanto não quisemos, nem urdimos,

tudo quanto a medonha zombaria

de ódios estranhos escreve a sangue

e, irredutìvelmente, nos separa e distancia.

Tudo quanto há-de gravar o meu nome

numa das balas da tua cartucheira.

Nessa bala hipotética, nessa bala possível

que se vier, quando vier (ela há-de vir)

 

melhor dirá o que aqui fica por dizer.

 

 

DISPARATES SEUS NO ÍNDICO

 

Depois de tão longo silêncio pedes-me notícias.

Que dizer, conjecturo, por notícias, 

a quem os anos separaram irreparàvelmente?

Que, adiposo e surdo, o verão é como

os da nossa infância, mas que o suportamos

pior, agora que se acentuam as rugas da testa,

embora o aligeirar das roupas nas raparigas

ainda acorde em nós o mesmo latejar de virilhas.

Que, pelos arrastados e emolientes fins de tarde,

sob o que sobra do hálito infernal,

ainda emparceiro com o Zé Craveirinha,

o branco e o mulato, verso e anverso

do mesmo quotidiano – diria o Carlos

– na ronda crepuscular do cio, falando eu,

irrequieto e gauche, pelos cotovelos, enquanto

ele, calado, roda na paisagem o olhar

sorna de crocodilo agachado no canavial.

Que, na argamassa complicada da cidade,

redobram os esculcas para as nossas cautelas

redobradas. Que o tempo se demora

em nossos gestos e nas palavras ciciadas.

E que o redimem as pernas altas e morenas

das adolescentes nos passeios e esplanadas.

Que, para além disto, se faz, intermitente

e sem convicção, a mesma política rarefeita de afogados,

se urdem programas e papéis esperançosos,

que os mais válidos têm sempre a coragem

de nunca assinar, pois nunca se lhes afiguram

bastante progressivos (e está salva a honra do convento!).

E que assim se desencadeia, de ordinário, 

o ordeiro desagravo de muçulmanas comunidades,

asiáticas associações de benemerência

e de outras congéneres e afins. Que este

prolongamento doirado e nebuloso que excede

o extinto fulgor das caravelas é um muro

de silêncio e torna nossos gritos em grotescas

caricaturas de som. Que um cancro de areia

e letargo nos corrói, implacável, músculos e tendões

e uma paralisia sufocante se nos instila

pelo tenso cordame dos nervos em vibração.

Que se luta e morre à margem da nossa renúncia

e que a paixão é inescrutável na aparente serenidade dos rostos.

Que, todavia, há sempre bobos e piruetas à mesa do rei,

sobre que tombam o cristal das gargalhadas e mots d'esprit.

Que a minha solidão e a de meus amigos

(a parte negativa e incorrupta deste mundo),

incómoda como dor de dentes, é um bem inestimável.

Que, preservando a ardência árabe dos olhos,

já conservo a fralda da camisa dentro das calças

e tornei-me esquisito nas gravatas, nos sapatos,

nos botões de punho, nas marcas de uísque e de conhaque.

Que mantenho imperecível a fidelidade ao Amor

escamoteando-a, contudo, à cousa amada.

Que, a propósito, o racismo é agora encapotado

e confortável, residindo nos sorrisos múrmuros

e nos olhares cúmplices que se trocam em público.

Que, enfim, sob a máscara do sono e da hipocrisia,

a natureza se refaz no ciclo indiferente das estações

e que, sobre nós, fina, grave e imperceptível,

cai uma poeira antiga de esquecimento.

 

© Blog da Rua Nove

20.07.20

Rui Knopfli - Reino Submarino


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Rui Knopfli (1932-1997), Reino Submarino (1962).

Capa e ilustrações de Jorge Garizo do Carmo (1927-1997).

 

Segundo livro de poesia do autor, o primeiro havia sido O País dos Outros (1959), este volume, que iniciava a colecção Cancioneiro de Moçambique e será talvez um dos mais importantes da bibliografia de Rui Knopfli, caracteriza-se por uma diversidade conceptual que varia entre a problemática da génese do texto poético - como em "aprendiz na oficina da poesia" ou "ofício novo", a lírica amorosa - como em "a um amor adolescente", "cecília noutro planeta" ou "passeio", os textos de temática africana ou uma secção, Sketch-book, com quatro poemas escritos em Inglês - "ihb", "deanie with some jazz", "monotonous song" e "exercise in loneliness".

 

O conteúdo desta obra oscila, assim, entre uma reflexão sobre a praxis poética como experiência pessoal e um ensaio de influências da literatura anglófona, na estruturação textual e nas propostas conceptuais, antecipando o envolvimento de Rui Knopfli nos emblemáticos cadernos de poesia Caliban, que, juntamente com João Pedro Grabato Dias (pseudónimo do também pintor e ceramista António Quadros [1933-1994]), editaria a partir de 1972.

 

Data deste ano, também, um estreitamento de relações entre estes autores e Jorge de Sena (1919-1978) que visitaria Moçambique, por sugestão e insistência destes, no âmbito do centenário da publicação de Os Lusíadas (1572). Aliás, nesta ocasião, António Quadros ofereceu a Jorge de Sena uma das suas obras, com moldura também artesanalmente executada por si, que Sena colocaria na sala de estar da sua casa de Santa Barbara, EUA, e Mécia de Sena (1920-2020) haveria de preservar no mesmo local após o falecimento deste.

 

Note-se que o autor das ilustrações em estampa extra-texto, Jorge Garizo do Carmo, ceramista, artista plástico e decorador de interiores, era irmão mais novo do arquitecto João Garizo do Carmo (1917-1974).

 

Sublinhe-se, ainda, o facto de a ilustração desta capa estar em consonância com o abstraccionismo geométrico contemporâneo, particularmente com aquele que Nadir Afonso (1920-2013) vinha desenvolvendo desde a década de 1950.

 

Transcrevem-se desta obra dois poemas de temática africana, onde se acentua a preocupação social e a dissonante consciência política de Rui Knopfli:

 

MULATO

 

Sou branco, escolhi-te.

Hoje durmo contigo.

Negro é teu ventre,

porém macio.

E meus dedos capricham

sobre o aveludado relevo

das tatuagens.

Denso e morno é o luar,

cálido o cheiro húmido

do capim, acre o hálito

fundo da terra.

Venho cansado e tenho

fome de mulher.  Sou branco.

Escolhi-te. Hoje durmo contigo:

Um ventre negro de mulher

arfando, a meu lado arfando,

o cansaço, o espasmo

e o sono. Nada mais.

Amanhã parto. E esqueço-te.

Depressa te esqueço.

                                       E teu ventre?

 

 

SUBÚRBIO

 

Daqui avistamos o perfil cinzento

da cidade.

Daqui a vemos, recortando o perfil

arrogante

entre densas ramadas

de cajueiros e mafurreiras.

Daqui vemos a cidade, 

seus dedos enclavinhados

na cinza das nuvens,

seus dentes de incerta geometria

mordendo um céu ensanguentado.

                    Diz-me, velho Dotana,

                    Cidade tem dentes?

                    Mulungo, cidade tem dentes,

                    cidade tem dentes de n'goenha.

Daqui vemos a cidade

crescendo sobre nós,

abatendo-se sobre nós

como gigantesco xipócuè

de cimento armado.

                     Diz-me, velho Dotana,

                     cidade tem fantasma?

                     Mulungo, Dotana não tem medo

                     xipócuè do mato

                     Dotana tem medo grande,

                     xipócuè da cidade.

Daqui a vemos,

cada vez mais próximo 

de nós,

triturando na larga maxila

matos e terreiros,

xipócuè de cimento armado

sobre nós,

perto de nós,

dentro de nós,

de grandes, compridas

mãos estendidas.

                              Dotana, velho dotana,

                              estendes-lhe a mão? Mulungo,

                              branco aperta a mão de preto?

 

© Blog da Rua Nove

17.12.12

Rui Knopfli - A Ilha de Próspero


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Rui Knopfli (1932-1997), A Ilha de Próspero (1972).

 

Até à saída desta obra, Rui Knopfli havia já publicado O País dos Outros (1959), Reino Submarino (1962), Máquina de Areia (1964) e Mangas Verdes com Sal (1969), todos eles volumes exclusivamente de poesia.

 

Este volume, um conjunto de textos e fotografias consagrado à Ilha de Moçambique, abre com dedicatórias a Jorge Sena (1919-1978) – "Português das Sete Partidas", que nesse ano visitou Moçambique, e a Alexandre Lobato (n. 1915), Amílcar Fernandes (datas desconhecidas) e Manuel Barreto (datas desconhecidas), – "Rivais directos nesta pretensão romântica e junto de quem aprendi a conhecer  e a amar a Ilha."

 

Transcreve-se de seguida o poema Muipíti:

 

"Ilha, velha ilha, metal remanchado,

minha paixão adolescente,

que doloridas lembranças do tempo

em que, do alto do minarete,

Alah  – o grande sacana! – sorria

aos tímidos versos bem comportados

que eu te fazia.

 

Eis-te, cartaz, convertida em puta histórica,

minha pachacha psedo-oriental

a rescender a canela e açafrão,

maquilhada de espesso m'siro

e a mimar, pró turismo labrego,

trejeitos torpes de cortesã decrépita.

 

Meu Sitting Bull de carapinha e cofió,

têm-te de cócoras na sopa melancólica

de uma arena limosa e marinha,

gaivota tonta a adejar inùtilmente

ao lume de água contra a amarra

que te cinge para sempre

ao bojo ventrudo do continente.

 

De teu, cultivam-te a vénia e a submissão

solícitas, trazidas nos pangaios

lá do distante Katiavar,

expondo-te apenas no que tens de vil,

razão talvez para que ao longe, de troça,

piquem mortiças as luzes do Mossuril

ou sangre no meu peito esta mágoa incurável.

 

Mas retomo devagarinho as tuas ruas vagarosas,

caminhos sempre abertos para o mar,

brancos e amarelos filigranados

de tempo e sal, uma lentura

brâmane (ou mussulmana?) durando no ar,

no sangue, ou no modo oblíquo como o sol

tomba sobre as coisas ferindo-as de mansinho

com a luz da eternidade.

 

Primeiro a ternura da mão que modelou 

esta parede emprestando-lhe a curva hesitante

de uma carícia tosca mas porfiada,

logo o cheiro a sândalo, o madeiramento

corroído da porta súbito entreaberta,

o refulgir da prata na sombra mais densa:

assim descubro, subtil e cúmplice,

que adura linha do teu perfil autêntico

te vai, aos poucos, fissurando a máscara."

 

© Blog da Rua Nove